Por menos este­reó­ti­pos: esse espa­ço cheio de refle­xos não é por aca­so. Lá den­tro acon­te­cem exer­cí­ci­os e refle­xões sobre como as pes­so­as enxer­gam o dife­ren­te e como a diver­si­da­de é impor­tan­te para o desen­vol­vi­men­to huma­no

Mentes Criativas

ARMADILHAS DA CRIATIVIDADE

DURANTE TRÊS DIAS, O C2 REUNIU EM MONTREAL, NO CANADÁ, MENTES CRIATIVAS DE VÁRIAS PARTES DO MUNDO PARA MOSTRAR QUE, EM ALGUNS MOMENTOS, ATITUDES E COMPORTAMENTOS PODEM TRAZER MAIS RESULTADOS DO QUE AS MÁQUINAS

 

POR ANDRÉ JANKAVSKI, DE MONTREAL (CANADÁ)

    O mês de junho traz um cer­to alí­vio para os mora­do­res de Mon­tre­al, no Cana­dá, que este ano enfren­ta­ram o inver­no mais rigo­ro­so dos últi­mos 144 anos, com sen­sa­ção tér­mi­ca pró­xi­ma aos — 32ºC. Duran­te a pri­ma­ve­ra, quan­do as tem­pe­ra­tu­ras ficam em tor­no de 20ºC, é comum obser­var cri­an­ças brin­can­do nas fon­tes de água das pra­ças da segun­da mai­or cida­de do Cana­dá depois de Toron­to. A ale­gria é fru­to de, pra­ti­ca­men­te, seis meses de clau­su­ra. O cli­ma frio tam­bém evi­den­cia um desa­fio para o País: atrair e reter talen­tos. Com uma média de ida­de de 41 anos (no Bra­sil, ela é de 31), com­pa­nhi­as locais e a pre­fei­tu­ra de Mon­tre­al pas­sa­ram a inves­tir milhões de dóla­res para tor­nar o muni­cí­pio refe­rên­cia mun­di­al em tec­no­lo­gia. Tem dado cer­to. Hoje, a cida­de é uma ver­da­dei­ra meca da inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al. Só no ano pas­sa­do, segun­do a PwC, o inves­ti­men­to de fun­dos em star­tups no setor de IA supe­rou os US$ 2,7 bilhões e mais de 333 negó­ci­os foram fir­ma­dos. O pri­mei­ro tri­mes­tre de 2018 foi ain­da melhor: US$ 1,28 bilhão em apor­tes. Mui­tos talen­tos do Vale do Silí­cio, inclu­si­ve, estão atra­ves­san­do a Amé­ri­ca do Nor­te para apren­der com os melho­res em Mon­tre­al.

    Por con­ta dis­so, não é nenhu­ma sur­pre­sa que a cida­de, que riva­li­zou com Nova York no sécu­lo 18 como a prin­ci­pal região por­tuá­ria do con­ti­nen­te, orga­ni­zas­se um even­to da mag­ni­tu­de do C2. Em três dias de con­fe­rên­cia, men­tes cri­a­ti­vas de diver­sas indús­tri­as se conec­ta­ram para falar sobre temas como ino­va­ção, novas tec­no­lo­gi­as e diver­si­da­de. Inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al, então, foi con­ver­sa recor­ren­te. As expe­ri­ên­ci­as do even­to aju­da­ram a mos­trar, sobre­tu­do, que a tec­no­lo­gia e a cri­a­ti­vi­da­de podem ser mais sim­ples do que pen­sa­mos.

 

CRIATIVIDADE COM RESPONSABILIDADE

    Um papel rosa dobra­do ao meio tra­zia o dese­jo de alguém que pas­sou pelo C2. A par­tir des­sa men­sa­gem, um gru­po de seis pes­so­as se reu­niu para cri­ar uma recei­ta de bis­coi­to e uma cam­pa­nha de mar­ke­ting ins­pi­ra­dos nes­se sonho. Sim, coo­ki­es “sabor sonho”. Diver­sos ingre­di­en­tes fica­vam à dis­po­si­ção: das clás­si­cas gotas de cho­co­la­te a pimen­tas e picles. A úni­ca regra era o tem­po-limi­te para a con­fec­ção: 35 minu­tos. O resul­ta­do foram milha­res de bis­coi­tos dis­tri­buí­dos pelo espa­ço dos mais vari­a­dos sabo­res. A expe­ri­ên­cia nar­ra­da aqui é ape­nas um exem­plo da tôni­ca do fes­ti­val: des­mis­ti­fi­car tec­no­lo­gia e ino­va­ção. Afi­nal, uma gran­de ideia pode sur­gir em qual­quer lugar, inclu­si­ve de uma tige­la cheia de bis­coi­tos.

    Às vezes, a tec­no­lo­gia pre­ci­sa, inclu­si­ve, ser evi­ta­da. Foi o que defen­deu Chel­sea Man­ning, res­pon­sá­vel pelo vaza­men­to de mais de 700 mil docu­men­tos secre­tos da inte­li­gên­cia do exér­ci­to ame­ri­ca­no. Bati­za­da como Bra­dley, a tran­se­xu­al foi pre­sa por sete anos, até ter o seu per­dão dado pelo então pre­si­den­te Barack Oba­ma. Des­de então, a mili­tan­te luta pelos direi­tos huma­nos, espe­ci­al­men­te dos LGBT. E defen­de que todos assu­mam res­pon­sa­bi­li­da­des em rela­ção à soci­e­da­de. “Tudo o que faze­mos, todos os dias, tem um impac­to polí­ti­co”, afir­ma Chel­sea. “Até não fazer nada é um ato polí­ti­co e as pes­so­as pre­ci­sam enten­der isso”. Espe­ci­a­lis­ta em tec­no­lo­gia, ela refor­çou ain­da que desen­vol­ve­do­res e espe­ci­a­lis­tas sejam éti­cos. “Não é por­que você pode desen­vol­ver algo que você fará: isso pode ser erra­do”, dis­se. “Você não é um maca­co baten­do nas teclas”.

Espe­tá­cu­lo de ino­va­ção: entre as pales­tras de gran­des nomes do mun­do intei­ro, sem­pre havia shows e núme­ros de dan­ça com artis­tas inter­na­ci­o­nais

DIVERSIDADE É A NOVA TECNOLOGIA

    Ape­sar das dis­cus­sões em tor­no do tema, a diver­si­da­de no ambi­en­te cor­po­ra­ti­vo é algo pou­co pra­ti­ca­do. Fala-se mui­to e age-se pou­co. Isso por­que ain­da não per­ce­be­mos o poten­ci­al que esse tipo de assun­to pode ter, espe­ci­al­men­te nos negó­ci­os. Diver­sas pes­qui­sas apon­tam isso. Recen­te­men­te, o ins­ti­tu­to NBER Faculty Rese­ar­ch man­dou cur­rí­cu­los exa­ta­men­te iguais para as mes­mas empre­sas. A úni­ca mudan­ça foi o nome: em alguns, colo­cou o nome de “Greg”, mais comum em homens bran­cos; em outros “Jamal”, um nome bas­tan­te recor­ren­te na comu­ni­da­de negra. Resul­ta­do: os homens bran­cos rece­bem duas vezes mais cha­ma­das para entre­vis­tas do que os negros. “Sabe­mos que a diver­si­da­de é boa e temos que falar mais sobre isso”, afir­mou Arwa Mah­dawi, estra­te­gis­ta de mar­cas e res­pon­sá­vel pelo site Rent a Mino­rity. “Mas nada de fato tem sido fei­to”.

    Mah­dawi é cri­a­do­ra do site Rent a Mino­rity – “alu­gue uma mino­ria”, em tra­du­ção livre. Nele, empre­sas podem esco­lher que tipo de mino­ria gos­ta­ria de ter em sua empre­sa: negros, his­pâ­ni­cos, ára­bes, gays ou mulhe­res (não que as mulhe­res sejam mino­ria, mas, em rela­ção a car­gos de lide­ran­ça, de fato o são). É cla­ro que essa espé­cie de car­dá­pio huma­no para a empre­sa ser vis­ta como “enga­ja­da soci­al­men­te” não pas­sa de uma pia­da. O pro­ble­ma é que diver­sos exe­cu­ti­vos de gran­des com­pa­nhi­as entra­ram em con­ta­to para refor­çar as suas equi­pes com esses alu­guéis.

    O fato é que a diver­si­da­de não se resu­me a um dis­cur­so. Ela é capaz de tra­zer resul­ta­dos. Um levan­ta­men­to do Peter­son Ins­ti­tu­te em par­ce­ria com a con­sul­to­ria EY mos­tra que com­pa­nhi­as que têm ao menos 30% dos car­gos de lide­ran­ça ocu­pa­dos por mulhe­res apre­sen­tam ganhos 15% mai­o­res. Segun­do Mah­dawi, além de ado­tar uma cul­tu­ra que favo­re­ça a diver­si­da­de, as empre­sas pre­ci­sam enten­der que esse papel é de todos e não ape­nas da área de recur­sos huma­nos. “As com­pa­nhi­as que não evo­luí­rem serão extin­tas”, diz.

 

DISPOSTOS A COMEÇAR DE NOVO

    Exis­tem momen­tos nos quais não é pos­sí­vel man­ter a mes­ma cul­tu­ra. Em casos mais extre­mos, trans­for­mar tam­bém não apa­re­ce como uma opção. O fran­cês Sébas­ti­en Bazin, CEO glo­bal da AccorHo­tels, sabe bem do que está falan­do. Ele está em uma cru­za­da para revo­lu­ci­o­nar total­men­te uma empre­sa que é um ver­da­dei­ro por­ten­to no setor hote­lei­ro. Como é sabi­do, tra­ta-se de um mer­ca­do que virou de cabe­ça para bai­xo com a entra­da de um con­cor­ren­te que não tem um pré­dio para cha­mar de seu, mas pos­sui milhões de opções de quar­tos para loca­ção em todo o pla­ne­ta: o Airbnb. As pes­so­as não bus­cam mais, neces­sa­ri­a­men­te, um quar­to luxu­o­so e cheio de mimos, com um cho­co­la­te em cima da cama. Elas que­rem expe­ri­ên­ci­as. “O mer­ca­do, e até a nos­sa pró­pria for­ma de con­su­mir, deu cer­to por 200 anos, mas a par­tir dos anos 90 a tec­no­lo­gia mudou com­ple­ta­men­te a nos­sa for­ma de pen­sar”, diz Bazin. Hoje, impe­ra o “insi­de thin­king”. É um movi­men­to em que o con­su­mi­dor é mui­to mais ati­vo. “Pen­se em uma cri­an­ça dos dias de hoje: ela não vai per­gun­tar para os pais se tiver algu­ma dúvi­da; vai dire­to ao Goo­gle”. Ou a Accor muda­va ou per­de­ria boa par­te da sua fatia cons­truí­da em seus 51 anos de his­tó­ria.

    O pri­mei­ro pas­so foi enten­der que um jovem com menos expe­ri­ên­cia não neces­sa­ri­a­men­te é um pro­fis­si­o­nal infe­ri­or a um exe­cu­ti­vo gra­du­a­do. Ao con­trá­rio. “Você tem que dar voz a essas pes­so­as e até mes­mo des­truir a cul­tu­ra anti­ga”, diz Bazin. “A nova cul­tu­ra pre­ci­sa acei­tar a falha, enten­der que o tes­te é neces­sá­rio e que só assim se con­se­gue che­gar ao suces­so”. Pro­va dis­so é que, dian­te das mudan­ças, o CEO da Accor não con­se­gue enxer­gar como a empre­sa esta­rá nos pró­xi­mos cin­co anos. Segun­do ele, o impor­tan­te é saber como acom­pa­nhar esses movi­men­tos. E a saí­da para isso é a inte­ra­ção com os cli­en­tes.

    Mas, para que isso real­men­te dê cer­to, uma empre­sa tem que estar cer­ca­da de pes­so­as boas. Pode pare­cer outro cli­chê do mun­do cor­po­ra­ti­vo, mas a inse­gu­ran­ça de exe­cu­ti­vos e exe­cu­ti­vas tra­va o cres­ci­men­to de empre­sas e até o suces­so delas. O nome mais céle­bre do even­to, o rap­per Sno­op Dogg, defen­deu a ideia do come­ço ao fim em sua par­ti­ci­pa­ção. Antes de ser um rap­per de suces­so, Sno­op teve diver­sos pro­ble­mas com a lei. Foi pre­so vári­as vezes até ser con­vi­da­do pelo íco­ne Dr. Dre para gra­var as suas pri­mei­ras músi­cas. Deu cer­to. Hoje, é um dos mais bem-suce­di­dos músi­cos de sua gera­ção. O segre­do do seu êxi­to? Cer­car-se de pes­so­as melho­res do que ele mes­mo. “Me jun­tei com pes­so­as mui­to inte­li­gen­tes, gra­du­a­das em esco­las de negó­ci­os, e eu era um ex-tra­fi­can­te de dro­gas”, dis­se ele. “Quan­do você colo­ca todas essas pes­so­as jun­tas, algu­ma mági­ca acon­te­ce”. E essa foi uma das prin­ci­pais lições do C2: libe­re a sua cri­a­ti­vi­da­de e conec­te pes­so­as para que, jun­tas, elas cons­tru­am idei­as e encon­trem solu­ções viá­veis para os desa­fi­os dos novos tem­pos.

OS INSIGHTS DO C2