CAIO BLINDER

Jor­na­lis­ta e um dos apre­sen­ta­do­res do pro­gra­ma Manhat­tan Con­nec­ti­on da Glo­bo­News

DENTE POR DENTE

DENTE POR DENTE

DENTE POR DENTE

CAIO BLINDER
Jor­na­lis­ta e um dos
apre­sen­ta­do­res do pro­gra­ma
Manhat­tan Con­nec­ti­on
da Glo­bo­News

CAIO BLINDER
Jor­na­lis­ta e um dos
apre­sen­ta­do­res do pro­gra­ma
Manhat­tan Con­nec­ti­on
da Glo­bo­News

Bra­si­lei­ro que vive nos EUA e não pode pagar tra­ta­men­to dos den­tes (ou arran­cá-los) se arran­ca para a pátria desal­ma­da”

   Momen­to tris­te no Bra­sil: quem pode faz as malas e se arran­ca do País para Euro­pa, Mia­mi ou Aus­trá­lia. Quem não pode, sonha. Exis­te um cami­nho rever­so (tem­po­rá­rio) de mui­tos ami­gos.
Bra­si­lei­ro que vive nos EUA e não pode pagar tra­ta­men­to dos den­tes (ou arran­cá-los) se arran­ca para a pátria desal­ma­da. Lá tudo está dolo­ri­do, mas cui­dar da arca­da den­tá­ria sai mais bara­to. Sei de gen­te que pas­sa lon­gas tem­po­ra­das, dois ou três meses.

   Eu nun­ca fiz esta lon­ga via­gem, ran­gen­do os den­tes de rai­va pelo cus­to ame­ri­ca­no (difí­cil des­co­lar segu­ro para esta arca­da). Minha via­gem é mais cur­ta e dolo­ri­da. Vou para per­to de casa, aqui em New Jer­sey, até a peque­na cida­de de Ho-Ho-Kus, apra­zí­vel e com este nome indí­ge­na des­de os tem­pos colo­ni­ais.

   Minha clí­ni­ca não che­ga a ser colo­ni­al, mas é mais do que cen­te­ná­ria. O con­sul­tó­rio abriu em 1888, fican­do por três gera­ções na famí­lia Pru­den. O neto do fun­da­dor era um cra­que em pro­to­don­tia (implan­te e recons­tru­ção). Eu já me con­sul­tei com o dou­tor Bar­rack quan­do fui morar na região em mea­dos dos anos 1990.

   Não vou com­par­ti­lhar minha inti­mi­da­de den­tá­ria, mas pre­ci­sei fazer um tra­ta­men­to com­pli­ca­do há 20 anos. Sou gra­to ao dou­tor Bar­rack e vice-ver­sa. Até hoje, quan­do estam­po o sor­ri­so, minha mulher não resis­te. E, mui­tas vezes com sor­ri­so ama­re­lo, ela alfi­ne­ta: “Que mari­do lin­do, den­tes de tele­vi­são, tem na boca o Vol­vo (car­ro sue­co) que eu sem­pre sonhei em com­prar”.

   Pobre de mim (pobre mes­mo). Meu sonho de con­su­mo aca­bou no con­sul­tó­rio de Ho-Ho-Kus. A con­ta sem­pre assus­tou mais que aque­le motor­zi­nho para tirar cárie que me apa­vo­ra­va quan­do cri­an­ça no con­sul­tó­rio da dou­to­ra Péro­la em São Pau­lo. Nem tudo é pre­juí­zo (ou sofri­do) em Ho-Ho-Kus. O dou­tor Bar­rack era gen­te fina, óti­mo papo (esti­lo den­tis­ta, ele fala e o paci­en­te escu­ta). Levei um sus­to na pri­mei­ra con­sul­ta quan­do o dou­tor Bar­rack per­gun­tou onde eu nas­ce­ra. Dis­se que era bra­si­lei­ro e aí ele per­gun­tou se eu conhe­cia Bau­ru.

   O dou­tor Bar­rack tinha um ami­gão den­tis­ta que era de lá (o conhe­ce­ra num sim­pó­sio) e via­ja­ra ao Bra­sil para foto­gra­far pás­sa­ros (seu hobby). Anos atrás, o dou­tor Bar­rack se apo­sen­tou, foi foto­gra­far pás­sa­ros pelo mun­do afo­ra e ven­deu o con­sul­tó­rio para o dou­tor Klotz. O meu novo den­tis­ta é sim­pá­ti­co, mas não conhe­ce nin­guém em Bau­ru. O mais impor­tan­te para mim é ser her­dei­ro do fan­tás­ti­co lega­do do dou­tor Bar­rack. O Vol­vo na minha boca tem uma exce­len­te per­for­man­ce e ape­nas pre­ci­sa de manu­ten­ção perió­di­ca.

Hoje em dia, fre­quen­to o con­sul­tó­rio em Ho-Ho-Kus para lim­pe­za. Motor­zi­nho não exis­te mais, mas con­ti­nuo levan­do faca­das na con­ta. Ok, já foi pior no tem­po em que minha mulher dei­xou de com­prar o Vol­vo dos seus sonhos. Na épo­ca do dou­tor Bar­rack, o tra­ta­men­to era lon­go e eu escu­ta­va “lon­gos papos”. Com o dou­tor Klotz, não dá tem­po para um raio x da vida huma­na ou dos pás­sa­ros. Ele dá uma olha­da na minha boca a cada seis meses (lim­pe­za é tri­mes­tral­men­te). O exa­me leva uns cin­co minu­tos e a brin­ca­dei­ra sai uns US$ 75. Não estou recla­man­do, ape­nas cons­ta­tan­do. Por ora, para cui­dar dos den­tes, vou para Ho-Ho-Kus e não para a pátria desal­ma­da e ban­gue­la.

Bra­si­lei­ro que vive nos EUA e não pode pagar tra­ta­men­to dos den­tes (ou arran­cá-los) se arran­ca para a pátria desal­ma­da”