Com um ambiente propício para o desenvolvimento de novos negócios, as cidades de Recife, Belo Horizonte, Florianópolis, Campinas e São Paulo se tornam hubs para  startups de todo o País. Mas ainda há muitos desafios pela frente

Por André Jankavski, Ivan Ventura e Raisa Covre

empre­en­de­do­ris­mo é um dos moto­res para o cres­ci­men­to das eco­no­mi­as mun­di­ais, mas, para que as nações con­si­gam de fato avan­çar, são neces­sá­ri­as algu­mas engre­na­gens, como o desen­vol­vi­men­to de um ambi­en­te pro­pí­cio para a cri­a­ção de star­tups e de pro­du­tos ino­va­do­res, além da ofer­ta de capi­tal huma­no e de recur­sos finan­cei­ros. É exa­ta­men­te esse ecos­sis­te­ma que cida­des como Reci­fe, Belo Hori­zon­te, Flo­ri­a­nó­po­lis e São Pau­lo bus­cam ofe­re­cer aos empre­en­de­do­res.

     Esses locais estão na dian­tei­ra de um movi­men­to que apos­ta na cola­bo­ra­ção entre ini­ci­a­ti­va pri­va­da, gover­no e uni­ver­si­da­de. Mas ain­da há mui­to a evo­luir. Atu­al­men­te, o Bra­sil ocu­pa a 98ª posi­ção do ran­king Glo­bal Entre­pre­neurship Index que ava­lia o empre­en­de­do­ris­mo em 137 paí­ses. De acor­do com o Star­tup Geno­me, levan­ta­men­to que ava­lia o ecos­sis­te­ma glo­bal das star­tups, a cida­de de São Pau­lo é exce­ção. Abri­ga o mai­or e mais madu­ro ecos­sis­te­ma de star­tups da Amé­ri­ca Lati­na. A má notí­cia é que São Pau­lo tam­bém figu­ra entre as cida­des que mais caiu no ran­king glo­bal da orga­ni­za­ção. Em 2015, ocu­pa­va a 12ª colo­ca­ção. No ano pas­sa­do, ficou de fora do top 20, que traz no topo os já espe­ra­dos Vale do Silí­cio, Nova York, Lon­dres, Pequim, Bos­ton e Tel Aviv.

     Desa­fi­os econô­mi­cos e polí­ti­cos con­tri­buí­ram para o enfra­que­ci­men­to do sis­te­ma, mas, segun­do o rela­tó­rio, a entra­da no ran­king de cida­des chi­ne­sas e sue­cas tam­bém foi deter­mi­nan­te. Outro desa­fio, por aqui, é a cone­xão entre os hubs espa­lha­dos pelo País e a fal­ta de estra­té­gia das star­tups para se inse­rir no mer­ca­do glo­bal. De acor­do com o Star­tup Geno­me, 7% dos cli­en­tes das star­tups de São Pau­lo vêm de fora do País, mas ape­nas 9% delas miram mer­ca­dos como o ame­ri­ca­no e bri­tâ­ni­co, um índi­ce bem abai­xo da média glo­bal, que é de 36%.

     Ain­da assim, não pode­mos nos esque­cer do sur­gi­men­to, na cida­de, dos pri­mei­ros uni­cór­ni­os bra­si­lei­ros, como a 99, o Pag­Se­gu­ro e o Nubank. Por isso, ini­ci­a­ti­vas como a do Por­to Digi­tal, em Per­nam­bu­co, e a do San Pedro Val­ley, em Minas Gerais, são um pas­so impor­tan­te para expan­dir a ino­va­ção no Bra­sil. Para ver de per­to o desen­vol­vi­men­to des­sas cida­des e as star­tups que nelas pros­pe­ram, nos­sos repór­te­res per­cor­re­ram duran­te uma sema­na os cin­co prin­ci­pais hubs do País. Con­fi­ra:

RECIFE (PE)

     Quem cami­nha pelas ruas do Reci­fe anti­go, região cen­tral da capi­tal per­nam­bu­ca­na, encon­tra alguns dos mais belos pon­tos turís­ti­cos do Nor­des­te. Um exem­plo é o Mar­co Zero de onde é pos­sí­vel con­tem­plar o sol se pon­do em meio a escul­tu­ras de Fran­cis­co Bren­nand, degus­tan­do uma cer­ve­ja bem gela­da. Mas, até o iní­cio dos anos 2000, quem pas­sa­va pelo local encon­tra­va um cená­rio bem dife­ren­te: um espa­ço degra­da­do e domi­na­do por tra­fi­can­tes de dro­gas. A trans­for­ma­ção acon­te­ceu gra­ças a um movi­men­to que uniu a ini­ci­a­ti­va pri­va­da, o gover­no e a aca­de­mia que, além de revi­ta­li­zar a área, colo­cou a cida­de na rota das empre­sas de tec­no­lo­gia. 

     A ini­ci­a­ti­va – cha­ma­da Por­to Digi­tal – rece­beu inves­ti­men­tos de R$ 45 milhões e, atu­al­men­te, abri­ga mais de 250 com­pa­nhi­as, que jun­tas fatu­ram cer­ca de R$ 1,7 bilhão e empre­gam 10 mil pes­so­as. Deta­lhe: a mão de obra é qua­li­fi­ca­da e 25% mais bara­ta do que em mer­ca­dos como São Pau­lo. “O Por­to Digi­tal con­se­guiu agre­gar todos os tipos de resul­ta­dos posi­ti­vos, des­de a recons­tru­ção urba­na até a gera­ção de rique­zas”, diz Fran­cis­co Saboya, pre­si­den­te do Por­to Digi­tal. Segun­do o exe­cu­ti­vo, o par­que tec­no­ló­gi­co terá a sua estru­tu­ra ampli­a­da em 125% até 2022 para abri­gar cer­ca de 20 mil pes­so­as.

     É espe­ra­do, inclu­si­ve, o sur­gi­men­to de uni­cór­ni­os locais. A prin­ci­pal apos­ta de André Araú­jo, que tra­ba­lha no Por­to Digi­tal e é “caça­dor de star­tups” da Liga Ven­tu­res, é a In Loco Media, empre­sa espe­ci­a­li­za­da em mar­ke­ting de geo­lo­ca­li­za­ção. Fun­ci­o­na da seguin­te for­ma: uma vez conhe­ci­da a loca­li­za­ção do con­su­mi­dor, a In Loco envia SMS ou pushes de ofer­tas e pro­mo­ções de vare­jis­tas, na expec­ta­ti­va de atraí-lo para as lojas físi­cas que estão ao seu redor. Os resul­ta­dos têm sido tão posi­ti­vos que a com­pa­nhia que era ava­li­a­da em US$ 40 milhões, no ano pas­sa­do, espe­ra que seu valor qua­se qua­dru­pli­que para US$ 150 milhões em 2018, gra­ças às novas par­ce­ri­as. “Ofe­re­ce­mos uma fer­ra­men­ta que é uma neces­si­da­de atu­al do vare­jo para com­pe­tir com os mei­os digi­tais”, diz André Fer­raz, CEO da In Loco.

     Mas não foram somen­te star­tups que fize­ram a eco­no­mia reci­fen­se se movi­men­tar: gran­des empre­sas tam­bém pas­sa­ram a inves­tir na capi­tal. Um exem­plo é a con­sul­to­ria Accen­tu­re que, em 2011, apos­tou no cres­ci­men­to da região. A “fábri­ca de desen­vol­vi­men­to” da com­pa­nhia come­çou com ape­nas 40 fun­ci­o­ná­ri­os, e a expec­ta­ti­va é que até o fim do ano sejam 2 mil. “É nos­sa obri­ga­ção estar sem­pre pró­xi­mos à ino­va­ção”, afir­ma Gui­lher­me Horn, líder de ino­va­ção da Accen­tu­re no Bra­sil. Já a Fiat Chrys­ler Auto­mo­bi­les esco­lheu o Por­to Digi­tal como ende­re­ço do seu pri­mei­ro Cen­tro de Desen­vol­vi­men­to de Softwa­res da Amé­ri­ca Lati­na. Aliás, o Por­to Digi­tal deve expan­dir a sua atu­a­ção para outros muni­cí­pi­os, como Gara­nhuns, Sal­guei­ro e Caru­a­ru. A ideia é fazer uma trans­for­ma­ção em todo o Esta­do, assim como ocor­reu no dete­ri­o­ra­do bair­ro do Reci­fe anti­go.

Por­to Digi­tal: jun­tas, as 250 com­pa­nhi­as ins­ta­la­das no par­que tec­no­ló­gi­co fatu­ram R$ 1,7 bilhão e empre­gam 10 mil pes­so­as

FLORIANÓPOLIS (SC)

     As empre­sas de tec­no­lo­gia são as prin­ci­pais res­pon­sá­veis pelo desen­vol­vi­men­to de Flo­ri­a­nó­po­lis. Pode pare­cer exa­ge­ro, mas não é. Exis­tem mais de mil com­pa­nhi­as que atu­am no setor e res­pon­dem por 54% da arre­ca­da­ção da capi­tal cata­ri­nen­se. “Um ecos­sis­te­ma foi se for­man­do, às vezes com apoi­os do gover­no, outras não, e resul­tou em uma das prin­ci­pais for­ças econô­mi­cas da cida­de”, diz Dani­el Leip­nitz, pre­si­den­te da Asso­ci­a­ção Cata­ri­nen­se de Tec­no­lo­gia (Aca­te), que dá expe­di­en­te todos os dias no KM 4 da Rodo­via SC-401, na sede da enti­da­de sem fins lucra­ti­vos. O local é um anti­go gal­pão que deu vida a um espa­ço com puffs, post-its e empre­sas de diver­sos por­tes, como a Flex Con­tact Cen­ter, cujo fatu­ra­men­to che­gou a R$ 600 milhões no ano pas­sa­do. “Aqui estão os cen­tros de ino­va­ção de vári­as empre­sas, então, a tro­ca é bené­fi­ca para todos nós”, diz Lean­dro Sch­mitz, res­pon­sá­vel pela área de ino­va­ção da Flex.

     A 17 quilô­me­tros dali, na pró­pria Rodo­via SC-401, fun­ci­o­na o Sapi­ens Par­que, um par­que tec­no­ló­gi­co cri­a­do pelo gover­no de San­ta Cata­ri­na para se tor­nar o “Vale do Silí­cio” cata­ri­nen­se. A ges­tão públi­ca inves­tiu R$ 30 milhões, enquan­to a ini­ci­a­ti­va pri­va­da apor­tou cer­ca de R$ 150 milhões no local. Uma das empre­sas que inves­ti­ram na região foi a Soft­plan, que nas­ceu em 1990, mas deu uma gui­na­da em 2010, quan­do pas­sou a apos­tar na cul­tu­ra de ino­va­ção. O exe­cu­ti­vo Mar­cus Ansel­mo foi um dos recru­ta­dos para fazer essa trans­for­ma­ção da desen­vol­ve­do­ra de softwa­res. Deu cer­to. O fatu­ra­men­to da empre­sa pas­sou de R$ 7 milhões para os atu­ais R$ 280 milhões. Ansel­mo é hoje o CIO da empre­sa e coman­da uma equi­pe de 160 cola­bo­ra­do­res foca­da em novos negó­ci­os. “Flo­ri­a­nó­po­lis é a pro­va de que, dan­do asas para a ini­ci­a­ti­va pri­va­da voar, a empre­sa deco­la”, diz.

     O desen­vol­vi­men­to das empre­sas de tec­no­lo­gia aju­dou tam­bém a atrair e reter talen­tos. Um exem­plo é o empre­sá­rio Edson Sil­va, que, com dois sóci­os, abriu a Nex­xe­ra, for­ne­ce­do­ra de pla­ta­for­mas inte­gra­das de ser­vi­ços de auto­ma­ção ban­cá­ria. No ano pas­sa­do, a com­pa­nhia fatu­rou R$ 92 milhões e pla­ne­ja cres­cer 300% até 2019. “O visu­al ins­pi­ra e aju­da a ino­var”, diz Sil­va, sen­ta­do em sua sala com vis­ta para o mar.

     Além das bele­zas natu­rais, outros indi­ca­do­res aju­dam a capi­tal cata­ri­nen­se a ser a ter­cei­ra colo­ca­da no ran­king de melho­res cida­des para se viver, fican­do atrás somen­te de São Cae­ta­no do Sul e Águas de São Pedro (ambas em São Pau­lo), de acor­do com levan­ta­men­to do IBGE do ano pas­sa­do. “Esta­mos em uma cami­nha­da, e acre­di­to que pode­mos ter um cres­ci­men­to ain­da mais robus­to no que se refe­re à aber­tu­ra de star­tups”, diz Leip­nitz, da Aca­te. É uma meta ambi­ci­o­sa, afi­nal, San­ta Cata­ri­na tem a mai­or pro­por­ção de star­tups por habi­tan­tes do Bra­sil. Mas não é impos­sí­vel.

Cida­de de Flo­ri­a­nó­po­lis: com­pa­nhi­as de tec­no­lo­gia res­pon­dem por 54% da arre­ca­da­ção da capi­tal cata­ri­nen­se

BELO HORIZONTE (MG)

     Qual é a cone­xão entre os fun­da­do­res do Goo­gle e Belo Hori­zon­te? As star­tups. Em 2006, Ser­gey Brin e Lar­ry Page via­ja­ram até a capi­tal minei­ra para conhe­cer o empre­en­de­dor Nivio Zivi­a­ni, que fun­dou a Akwan, empre­sa de tec­no­lo­gia da infor­ma­ção com­pra­da pela gigan­te ame­ri­ca­na no ano ante­ri­or. Coin­ci­den­te­men­te, em 2006, Bill Gates, fun­da­dor da Micro­soft, dis­se duran­te seu dis­cur­so no Tech Museum Awards que “a tec­no­lo­gia não pre­ci­sa ser com­ple­xa e de cus­to ele­va­do, e aí está a sua bele­za”, refe­rin­do-se à solu­ção MI-Den­gue, um ser­vi­ço de moni­to­ra­men­to de per­ni­lon­gos desen­vol­vi­do pela star­tup minei­ra Eco­vec.

     Há anos, Belo Hori­zon­te se des­ta­ca como um dos prin­ci­pais polos tec­no­ló­gi­cos do Bra­sil. “A mão de obra na cida­de é um dos gran­des dife­ren­ci­ais com­pe­ti­ti­vos”, diz Zivi­a­ni, que, depois de fun­dar e ven­der três star­tups, vol­tou a empre­en­der. Des­ta vez, a apos­ta é a Kunu­mi, foca­da em inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al. “A Kunu­mi tem poten­ci­al para ser mui­to mai­or do que as ante­ri­o­res”, afir­ma o tam­bém pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Minas Gerais (UFMG). É comum encon­trá-lo no Par­que Tec­no­ló­gi­co de Belo Hori­zon­te, conhe­ci­do como BH-TEC, onde boa par­te da ino­va­ção da capi­tal acon­te­ce. Fun­da­do em 2003, o local é resul­ta­do de um esfor­ço con­jun­to da aca­de­mia, do gover­no e da ini­ci­a­ti­va pri­va­da que atu­al­men­te abri­ga 22 empre­sas, que fatu­ram jun­tas cer­ca de R$ 80 milhões por ano. “Nos empe­nha­mos mui­to para che­gar a esse resul­ta­do”, afir­ma Rober­to Bigo­nha, pre­si­den­te do BH-TEC.

     Entre as star­tups que atu­am no BH-TEC está a Eco­vec (aque­la mes­ma que foi elo­gi­a­da por Gates) e que desen­vol­ve solu­ções nas áre­as de bio­tec­no­lo­gia e de bioin­for­má­ti­ca, o que per­mi­te ante­ver epi­de­mi­as pro­vo­ca­das por mos­qui­tos. “No momen­to, esta­mos fechan­do novos con­tra­tos com as cida­des”, diz Luís Feli­pe Bar­ro­so, sócio-dire­tor de rela­ci­o­na­men­to da com­pa­nhia. “Os ges­to­res públi­cos per­ce­be­ram que é mais efi­ci­en­te e mais bara­to pre­ve­nir do que reme­di­ar”.

     Outra região onde o empre­en­de­do­ris­mo pros­pe­ra na capi­tal minei­ra é no San Pedro Val­ley, o Vale do Silí­cio minei­ro. Lá é ende­re­ço de vári­as com­pa­nhi­as, como a Max­Mi­lhas, espe­ci­a­li­za­da na ven­da de pas­sa­gens aére­as por meio de pro­gra­mas de milha­gem. “Nos últi­mos dois anos, qua­dru­pli­ca­mos nos­so tama­nho”, diz Max Oli­vei­ra, fun­da­dor e CEO da Max­Mi­lhas. E se, até o fim do ano pas­sa­do, a star­tup havia ven­di­do 1 milhão de pas­sa­gens em toda a sua his­tó­ria, a meta para 2018 é ven­der 1,5 milhão.

     Por aten­der mui­tos cli­en­tes em São Pau­lo, Oli­vei­ra cos­tu­ma via­jar para a capi­tal pau­lis­ta a cada 15 dias e, às vezes, até com uma frequên­cia mai­or. Isso, no entan­to, não quer dizer que ele pre­ten­de tro­car a capi­tal minei­ra pelo cen­tro finan­cei­ro bra­si­lei­ro. “São Pau­lo é como Nova York, e Belo Hori­zon­te se pare­ce com a Cali­fór­nia”, diz. “Aqui, as pes­so­as são mais cola­bo­ra­ti­vas.” Ao que tudo indi­ca, a cor­di­a­li­da­de minei­ra tam­bém faz bem para os negó­ci­os.

Belo Hori­zon­te: star­tups ins­ta­la­das na capi­tal minei­ra já cha­ma­ram a aten­ção de Bill Gates e de fun­da­do­res do Goo­gle

SÃO PAULO (SP)

     Um amon­to­a­do de car­ros, sons e pes­so­as – mui­tas pes­so­as. Mais pre­ci­sa­men­te, 12,1 milhões de habi­tan­tes vivem no prin­ci­pal cen­tro de negó­ci­os do Bra­sil, de acor­do com o Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Geo­gra­fia e Esta­tís­ti­ca. São Pau­lo está entre as cida­des mais popu­lo­sas do mun­do e é con­si­de­ra­da um polo de opor­tu­ni­da­des para empre­en­de­do­res e empre­sas. Não é à toa. A capi­tal pau­lis­ta é o muni­cí­pio bra­si­lei­ro que ofe­re­ce as melho­res con­di­ções para se abrir um negó­cio e fazê-lo cres­cer, de acor­do com a Ende­a­vor. “São Pau­lo é o ende­re­ço de empre­sas, ace­le­ra­do­ras, inves­ti­do­res, star­tups e até do dinhei­ro”, ana­li­sa Ita­lo Flam­mia, dire­tor da Oxi­gê­nio, ace­le­ra­do­ra da Por­to Segu­ro. Loca­li­za­da no cen­tro da capi­tal, a Oxi­gê­nio apoia atu­al­men­te 12 pro­gra­mas e já auxi­li­ou o desen­vol­vi­men­to de 29 star­tups que rece­be­ram, em média, US$ 150 mil cada.

     O Bra­des­co tam­bém deci­diu inves­tir na cida­de e lan­çou o espa­ço ino­va­Bra Habi­tat, em par­ce­ria com a WeWork, que ofe­re­ce um ecos­sis­te­ma pro­pí­cio para a ino­va­ção. “Fun­ci­o­na como cowor­king tra­di­ci­o­nal e como lugar de inte­gra­ção entre star­tups e gran­des empre­sas”, expli­ca Fer­nan­do Frei­tas, supe­rin­ten­den­te-exe­cu­ti­vo do Depar­ta­men­to de Ino­va­ção da com­pa­nhia.

     A cida­de da garoa tam­bém cha­ma a aten­ção de empre­sas de fora do País, como o Goo­gle, que lan­çou o pri­mei­ro cam­pus bra­si­lei­ro na capi­tal pau­lis­ta. “São Pau­lo pos­sui uma comu­ni­da­de de empre­en­de­do­res cada vez mais for­te e star­tups expo­en­tes”, afir­ma André Bar­ren­ce, dire­tor do Cam­pus São Pau­lo e do Goo­gle for Entre­pre­neurs. A ini­ci­a­ti­va deu tão cer­to que atu­al­men­te con­ta com apro­xi­ma­da­men­te 120 mil mem­bros. “Em agos­to de 2017, o Cam­pus São Pau­lo pas­sou a ser o mai­or cam­pus do Goo­gle em núme­ro de inte­gran­tes, pas­san­do o de Lon­dres que tem cin­co anos de estra­da”, diz Bar­ren­ce.

     A cida­de tam­bém foi a por­ta de entra­da da WeWork no Bra­sil. “Já nos pri­mei­ros meses de ope­ra­ção, acom­pa­nha­mos his­tó­ri­as incrí­veis de suces­so e de supe­ra­ção de nos­sos mem­bros”, deta­lha Cami­la Weber, geren­te de rela­ções públi­cas da orga­ni­za­ção para o País. A WeWork pre­ten­de expan­dir sua pre­sen­ça no Bra­sil. Atu­al­men­te, pos­sui cin­co uni­da­des na capi­tal pau­lis­ta – que até o fim do ano devem ser dez –, duas no Rio de Janei­ro e pre­ten­de abrir a pri­mei­ra em Belo Hori­zon­te até o fim do ano.

     Com tan­tos players atu­an­do em uma mes­ma loca­li­da­de, é impor­tan­te que exis­tam espa­ços para que tro­quem expe­ri­ên­ci­as, segun­do Lineu Andra­de, dire­tor de tec­no­lo­gia do Itaú Uni­ban­co, res­pon­sá­vel pelo cowor­king Cubo. “Para cri­ar um ambi­en­te favo­rá­vel ao desen­vol­vi­men­to do ecos­sis­te­ma de star­tups, alguns ele­men­tos são impor­tan­tes: talen­tos, cul­tu­ra, capi­tal, ambi­en­te regu­la­tó­rio e den­si­da­de”, des­ta­ca. Para Mar­cos Medei­ros, Com­mu­nity mana­ger da Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra de Star­tups (ABS­tar­tups), é neces­sá­rio que os empre­en­de­do­res tenham com­pro­me­ti­men­to de lon­go pra­zo com a cida­de, pois jun­tos eles têm mais for­ça para cres­cer e enfren­tar desa­fi­os.

CAMPINAS (SP)

     A Uni­camp foi a uni­ver­si­da­de que regis­trou o mai­or núme­ro de paten­tes de tec­no­lo­gia no Bra­sil, em 2017, fei­to que aju­da a expli­car por que Cam­pi­nas é um dos prin­ci­pais hubs de ino­va­ção do País. Nos últi­mos anos, o ecos­sis­te­ma cri­a­do em tor­no da aca­de­mia, com a aju­da da ini­ci­a­ti­va pri­va­da e de agen­tes públi­cos, foi ber­ço de mais de 580 empre­sas, das quais 485 se man­têm ati­vas até hoje com um fatu­ra­men­to con­jun­to que ultra­pas­sa R$ 3 bilhões. Entre elas, está a Movi­le, um uni­cór­nio dono dos apli­ca­ti­vos iFo­od e Play­Kids, que pre­ten­de che­gar a 120 milhões de usuá­ri­os men­sais até 2020.

     Outra com­pa­nhia que se des­ta­ca é a Rubi­an Extra­tos, empre­sa que se espe­ci­a­li­zou  na pro­du­ção de óle­os essen­ci­ais ricos em bio­a­ti­vos, usa­dos na pro­du­ção de cre­mes e pílu­las de ema­gre­ci­men­to. A star­tup é o exem­plo mais recen­te de com­pa­nhia que cum­priu todo ciclo de fomen­to à ino­va­ção e empre­en­de­do­ris­mo ofe­re­ci­do pelo ecos­sis­te­ma do inte­ri­or pau­lis­ta. “Tudo come­çou com um gru­po de alu­nos que se inte­res­sou por uma tec­no­lo­gia, rece­beu men­to­ria e abriu a Rubi­an Extra­tos, que aca­bou sen­do incu­ba­da. Somen­te depois de todas essas eta­pas, a com­pa­nhia foi final­men­te apre­sen­ta­da ao mer­ca­do”, expli­ca Mari­a­na Zanat­ta, geren­te do Par­que Cien­tí­fi­co e Tec­no­ló­gi­co da Uni­camp e uma das res­pon­sá­veis pela Agên­cia Ino­va.

     A agên­cia foi cri­a­da em 2003 e tem diver­sas fun­ções, tais como admi­nis­trar os cen­tros tec­no­ló­gi­cos e de pes­qui­sa, gerir a incu­ba­do­ra e comer­ci­a­li­zar as paten­tes pro­du­zi­das no cam­pus. Ini­ci­a­ti­vas como essa aju­da­ram, inclu­si­ve, a Uni­camp a des­ban­car a USP na pri­mei­ra colo­ca­ção entre as melho­res uni­ver­si­da­des bra­si­lei­ras, de acor­do com o ran­king QS BRICS 2018, que ana­li­sa anu­al­men­te 300 uni­ver­si­da­des do acrô­ni­mo que reú­ne Bra­sil, Rús­sia, Índia, Chi­na e Áfri­ca do Sul.

     Mas Cam­pi­nas não se tor­nou um hub de ino­va­ção ape­nas por cau­sa da Uni­camp. Exis­tem mais de 20 ins­ti­tu­tos de pes­qui­sa na região metro­po­li­ta­na, caso do Cen­tro de Tec­no­lo­gia da Infor­ma­ção Rena­to Archer, do Ins­ti­tu­to de Zoo­tec­nia, do Ins­ti­tu­to Bio­ló­gi­co, além de outras facul­da­des par­ti­cu­la­res. A pre­fei­tu­ra tam­bém fez a sua par­te e con­tri­buiu deci­si­va­men­te para os negó­ci­os. Em 2014, a admi­nis­tra­ção públi­ca apro­vou uma lei que isen­tou star­tups que ocu­pam qual­quer área de até 120 metros qua­dra­dos do Impos­to Pre­di­al e Ter­ri­to­ri­al Urba­no (IPTU) e redu­ziu em 2% os impos­tos muni­ci­pais apli­ca­dos a empre­sas da região.