O FIM DO

MONOPÓLIO SOCIAL

Em meio às tendências que já dominam as discussões de empresas no mundo todo, o Cannes Lions traz uma reflexão poderosa: é necessário combater todas as formas de monopólio social, sejam elas de gênero, sejam de cor, origem e – surpresa – do poder imenso das redes sociais e de gigantes da tecnologia

Por Jacques Meir e Roberto Meir  | Enviados especiais a Cannes, na França

ovas tec­no­lo­gi­as, Inte­li­gên­cia Arti­fi­ci­al, cri­a­ti­vi­da­de e ino­va­ção sines­té­si­ca, mudan­ças no com­por­ta­men­to dos con­su­mi­do­res, Smart-Fy Expe­ri­en­ces, Sol­ve-iti­zing, a ascen­são das pla­ta­for­mas de voz são algu­mas das ten­dên­ci­as, algu­mas delas des­con­cer­tan­tes, que o Can­nes Lions 2018 trou­xe para pro­vo­car inqui­e­ta­ção e ação entre os par­ti­ci­pan­tes.

     Mais com­pac­to, inte­li­gen­te e com um con­teú­do for­te­men­te estra­té­gi­co, o even­to, que há 65 anos domi­na a pai­sa­gem da peque­na, icô­ni­ca e calo­ro­sa praia da Rivi­e­ra Fran­ce­sa, recu­pe­rou sua vita­li­da­de e rele­vân­cia após anos de cer­to gigan­tis­mo que des­vir­tu­a­ram sua pro­pos­ta. Se o even­to nas­ceu como for­ma de reco­nhe­cer e valo­ri­zar a cri­a­ti­vi­da­de da lin­gua­gem e da pro­du­ção publi­ci­tá­ria, o Can­nes Lions ganhou expres­são e tes­si­tu­ra para se tor­nar um gran­de fórum de dis­cus­são da for­ça da cri­a­ti­vi­da­de para os negó­ci­os. Hoje, o Fes­ti­val é uma reu­nião de per­so­na­li­da­des mar­can­tes, pro­fis­si­o­nais cri­a­ti­vos, exe­cu­ti­vos de negó­ci­os, cien­tis­tas, pro­du­to­res de con­teú­do, dire­to­res de cine­ma, ato­res e pro­fis­si­o­nais com talen­tos e tra­ba­lhos inu­si­ta­dos, que tes­tam os limi­tes da expres­são huma­na.

     Essa com­bi­na­ção, que refle­te a for­ça da diver­si­da­de, tor­na o Can­nes Lions uma cai­xa de res­so­nân­cia de idei­as que em mai­or ou menor grau ganham a agen­da cor­po­ra­ti­va. Mas a gran­de lição que o even­to trou­xe, e que terá impac­tos pro­fun­dos na pro­du­ção do con­teú­do – publi­ci­tá­rio, jor­na­lís­ti­co, de entre­te­ni­men­to e a ser­vi­ço das empre­sas e mar­cas –, é a per­cep­ção já trans­for­ma­da em ini­ci­a­ti­va – de rea­ção a toda for­ma de mono­pó­lio soci­al. Todas as for­mas de exer­cí­cio de poder coer­ci­ti­vo ou mani­pu­la­dor estão sen­do ques­ti­o­na­das. E essa dis­cus­são não pas­sa ape­nas pelas ques­tões de gêne­ro, pre­sen­tes no dis­cur­so e lamen­ta­vel­men­te defi­ci­en­tes nas prá­ti­cas do dia a dia, mas sobre­tu­do na fal­ta de regu­la­ção que iro­ni­ca­men­te pro­te­ge as cha­ma­das “Big Tech” em sua tra­je­tó­ria de acu­mu­la­ção des­me­di­da de poder e influên­cia. Como diz Scott Gal­loway, enfánt ter­ri­ble da aca­de­mia nor­te-ame­ri­ca­na: “os homens mais pode­ro­sos do mun­do não estão dian­te do botão nucle­ar, mas podem con­tro­lar os dados de bilhões de pes­so­as”. Gal­loway é autor de “The Four”, best-sel­ler no qual jus­ta­men­te enu­me­ra os moti­vos que fazem da Ama­zon, do Goo­gle, da Apple e do Face­bo­ok um monu­men­to à con­cen­tra­ção de mer­ca­do na era digi­tal, coman­da­do por um rapaz de 30 anos, Mark Zuc­ker­berg, que con­tro­la 2,1 bilhões de pes­so­as, mais do que qual­quer demo­cra­cia ou impé­rio na his­tó­ria da huma­ni­da­de. Ele tem esse poder e não pode ser elei­to ou remo­vi­do de sua cadei­ra. É viá­vel alguém ter tama­nho poder? Essa pers­pec­ti­va foi uma das mui­tas pro­vo­ca­ções e idei­as apre­sen­ta­das duran­te o Can­nes Lions. A seguir, des­trin­cha­mos as mais pode­ro­sas, que cer­ta­men­te serão obje­to de estu­do e farão par­te da ela­bo­ra­ção das estra­té­gi­as das empre­sas nos pró­xi­mos anos.

Duran­te milê­ni­os, os homens foram caça­do­res, pro­ve­do­res, heróis e ban­di­dos, sol­da­dos e líde­res. Mas, ago­ra, esses papéis estão per­den­do o sen­ti­do veloz­men­te”

Faith Pop­corn, futu­ris­ta da Brain­Re­ser­ve

DIVERSIDADE SIM, ESTEREÓTIPOS NÃO

     Diver­sas ini­ci­a­ti­vas con­jun­tas de empre­sas de pro­du­tos de con­su­mo, gran­des anun­ci­an­tes, como P&G e Uni­le­ver, mei­os de comu­ni­ca­ção e empre­sas de tec­no­lo­gia foram lan­ça­das ou uti­li­za­ram o Can­nes Lions como pla­ta­for­ma para cau­sas em favor da diver­si­da­de, da igual­da­de de gêne­ro e pelo fim dos este­reó­ti­pos. A P&G, com Marc Prit­chard à fren­te e ati­vo como nun­ca duran­te o Fes­ti­val, lan­çou a ini­ci­a­ti­va Agents of Chan­ge, com Que­en Lati­fah e Katie Cou­ric, ânco­ra da rede CBS, para que a comu­ni­ca­ção de empre­sas, via publi­ci­da­de ou con­teú­do, e mes­mo a pro­du­ção de entre­te­ni­men­to sejam ori­en­ta­das a eli­mi­nar todo viés que pos­sa suge­rir infe­ri­o­ri­da­de das mulhe­res em rela­ção aos homens. A igual­da­de de gêne­ro é uma for­ma de com­par­ti­lhar idei­as que tor­nem o mun­do um lugar melhor.

     Ao mes­mo tem­po, a Uni­le­ver difun­diu sua ini­ci­a­ti­va “Uns­te­re­oty­pe” para moti­var a redu­ção e qua­se que total eli­mi­na­ção do uso de este­reó­ti­pos na pro­du­ção glo­bal de con­teú­do, no entre­te­ni­men­to e na publi­ci­da­de. O deba­te ocor­ri­do no espa­ço da Tur­ner no Can­nes Lions trou­xe as opi­niões fir­mes e con­sis­ten­tes de Storm Reid, atriz juve­nil de 15 anos recém-com­ple­tos, que se con­si­de­ra par­te de uma gera­ção (Z), “de espe­ran­ça e mudan­ça”, que acre­di­ta ple­na­men­te que a huma­ni­da­de pode e deve viver sem este­reó­ti­pos. Segun­do Ali­ne San­tos, Vice-pre­si­den­te de Mar­ke­ting Glo­bal e Keith Weed, Chi­ef Mar­ke­ting Offi­cer da Uni­le­ver, os anún­ci­os com enfo­que pro­gres­sis­ta, igua­li­tá­rio e trans­pa­ren­te são 25% mais efi­ca­zes do que os anún­ci­os base­a­dos em este­reó­ti­pos.

     Mais do que os impe­ra­ti­vos finan­cei­ros, é fato que as ques­tões de gêne­ro, a diver­si­da­de e a igual­da­de vie­ram para ficar e influ­en­ci­ar deci­si­va­men­te as polí­ti­cas e estra­té­gi­as de mar­ca e a con­tra­ta­ção de talen­tos. A trans­for­ma­ção soci­al está na ordem das estra­té­gi­as de rela­ci­o­na­men­to com cli­en­tes e o mono­pó­lio soci­al repre­sen­ta­do pelo mode­lo nucle­ar fami­li­ar con­ven­ci­o­nal é ape­nas um den­tre os múl­ti­plos extra­tos de agru­pa­men­to de afi­ni­da­des, per­so­na­li­da­des e ati­tu­des exis­ten­tes nas dife­ren­tes soci­e­da­des.

O OBITUÁRIO DA MASCULINIDADE

     Faith Pop­corn, a futu­ris­ta da Brain­Re­ser­ve, con­ti­nua pro­vo­ca­ti­va. Duran­te o Can­nes Lions ela falou sobre seus estu­dos mais recen­tes apre­go­an­do o fim da mas­cu­li­ni­da­de como nós a conhe­ce­mos. “Duran­te milê­ni­os, os homens foram caça­do­res, pro­ve­do­res, heróis e ban­di­dos, sol­da­dos e líde­res. Mas, ago­ra, esses papéis estão per­den­do o sen­ti­do veloz­men­te”, decla­ra. A futu­ris­ta tam­bém ques­ti­o­na “qual é o futu­ro do homem em uma era na qual pare­ce que só as mulhe­res impor­tam?”. Assim, a visão emer­gen­te da mas­cu­li­ni­da­de, em nos­sas atu­ais Guer­ras de Gêne­ro, ganha­rá espa­ço e qual é o papel que os homens desem­pe­nha­rão na cul­tu­ra do ama­nhã? Ao que pare­ce, o mono­pó­lio do dis­cur­so da viri­li­da­de e do poder mas­cu­li­no per­de o sen­ti­do ape­sar de rea­ções con­trá­ri­as às ações de empo­de­ra­men­to femi­ni­no e igual­da­de de gêne­ro. Soa fora de lugar, algo des­lo­ca­do, a impo­si­ção de uma “auto­ri­da­de mas­cu­li­na” base­a­da na his­tó­ria huma­na e na ideia de per­ma­nên­cia expres­sa pelo sen­ti­men­to de que “as coi­sas sem­pre foram assim”. É fato que “as coi­sas não são mais como cos­tu­ma­vam ser”. E o mono­pó­lio do saber, do deci­dir, do esco­lher, de exer­cer opi­nião base­a­da em uma tra­di­ção de poder mas­cu­li­no está em declí­nio. Mais do que apos­tar na ascen­são da andro­gi­nia, como pro­vo­ca Faith Pop­corn, é segu­ro acre­di­tar que o poder será com­par­ti­lha­do e divi­di­do nas orga­ni­za­ções, nas ins­ti­tui­ções, na polí­ti­ca e na soci­e­da­de.

SMART-FY EXPERIENCES

     Faith Pop­corn, a futu­ris­ta da Brain­Re­ser­ve, con­ti­nua pro­vo­ca­ti­va. Duran­te o Can­nes Lions ela falou sobre seus estu­dos mais recen­tes apre­go­an­do o fim da mas­cu­li­ni­da­de como nós a conhe­ce­mos. “Duran­te milê­ni­os, os homens foram caça­do­res, pro­ve­do­res, heróis e ban­di­dos, sol­da­dos e líde­res. Mas, ago­ra, esses papéis estão per­den­do o sen­ti­do veloz­men­te”, decla­ra. A futu­ris­ta tam­bém ques­ti­o­na “qual é o futu­ro do homem em uma era na qual pare­ce que só as mulhe­res impor­tam?”. Assim, a visão emer­gen­te da mas­cu­li­ni­da­de, em nos­sas atu­ais Guer­ras de Gêne­ro, ganha­rá espa­ço e qual é o papel que os homens desem­pe­nha­rão na cul­tu­ra do ama­nhã? Ao que pare­ce, o mono­pó­lio do dis­cur­so da viri­li­da­de e do poder mas­cu­li­no per­de o sen­ti­do ape­sar de rea­ções con­trá­ri­as às ações de empo­de­ra­men­to femi­ni­no e igual­da­de de gêne­ro. Soa fora de lugar, algo des­lo­ca­do, a impo­si­ção de uma “auto­ri­da­de mas­cu­li­na” base­a­da na his­tó­ria huma­na e na ideia de per­ma­nên­cia expres­sa pelo sen­ti­men­to de que “as coi­sas sem­pre foram assim”. É fato que “as coi­sas não são mais como cos­tu­ma­vam ser”. E o mono­pó­lio do saber, do deci­dir, do esco­lher, de exer­cer opi­nião base­a­da em uma tra­di­ção de poder mas­cu­li­no está em declí­nio. Mais do que apos­tar na ascen­são da andro­gi­nia, como pro­vo­ca Faith Pop­corn, é segu­ro acre­di­tar que o poder será com­par­ti­lha­do e divi­di­do nas orga­ni­za­ções, nas ins­ti­tui­ções, na polí­ti­ca e na soci­e­da­de. 

RESOLUTIVIDADE EM CADEIA (SOLVE-ITIZING)

     Todas as empre­sas de manei­ra geral estão no negó­cio de ganhar o tem­po dos cli­en­tes. E a con­quis­ta des­se tem­po adi­ci­o­nal para que cli­en­tes pos­sam se dedi­car a bus­car expe­ri­ên­ci­as mais inten­sas (veja a ten­dên­cia ante­ri­or) pas­sa pela obri­ga­ção de as empre­sas se dedi­ca­rem a resol­ver pro­ble­mas e zonas de fric­ção e atri­to nos pro­du­tos e ser­vi­ços que ofe­re­cem a cli­en­tes e con­su­mi­do­res. Car­la Buza­si des­ta­cou essa ten­dên­cia com um neo­lo­gis­mo (Sol­ve-iti­zing) ou “reso­lu­ti­vi­da­de em cadeia”. Segun­do a exe­cu­ti­va, as empre­sas devem se empe­nhar em ofe­re­cer solu­ções. Pro­du­tos e ser­vi­ços que tra­zem solu­ções serão pro­ta­go­nis­tas e enga­ja­rão o con­su­mi­dor. As empre­sas pre­ci­sam enten­der quais pro­ble­mas os con­su­mi­do­res que­rem ver resol­vi­dos e se pre­pa­rar para resol­vê-los. Para isso, vale colo­car as mãos na mas­sa e vol­tar para a linha de fren­te, onde a ação acon­te­ce. Pen­sar na reso­lu­ti­vi­da­de em cadeia tor­na o negó­cio flui­do e libe­ra o tem­po e a ener­gia do cli­en­te e da empre­sa para que jun­tos pos­sam cocri­ar e gerar expe­ri­ên­ci­as e rela­ci­o­na­men­tos mais sóli­dos.

O Face­bo­ok, uma das mais con­tes­ta­das empre­sas da his­tó­ria, vive de mídia base­a­da na cap­tu­ra mali­ci­o­sa dos dados dos usuá­ri­os e nega-se peremp­to­ri­a­men­te a assu­mir a sua res­pon­sa­bi­li­da­de na ques­tão”

Scott Gal­loway

UMA GERAÇÃO EM 8”

     Aque­les nas­ci­dos entre 1995 e 2015 for­mam o gru­po conhe­ci­do como Gera­ção Z ou Nati­vos Digi­tais ou, ain­da, a tri­bo dos 8”. Seu poder de influên­cia sobre o com­por­ta­men­to dos con­su­mi­do­res em geral ain­da é obje­to de estu­dos. Segun­do Sarah Owen, edi­to­ra sêni­or da WGSN, estes jovens, como filhos da cri­se finan­cei­ra de 2008, são pre­o­cu­pa­dos com a vida finan­cei­ra e são mais fru­gais, menos agi­ta­dos e segu­ros de que pode­rão pro­vo­car mudan­ças mais sen­sí­veis que a gera­ção ante­ri­or. A alcu­nha de “tri­bo dos 8 segun­dos” faz men­ção à difi­cul­da­de que estes jovens têm de man­ter aten­ção e foco nas coi­sas. É uma gera­ção carac­te­ri­za­da pelo ins­tan­tâ­neo, pelo movi­men­to, pelas ima­gens e pelos códi­gos visu­ais (emo­jis e gifs), pela fru­ga­li­da­de e pelo con­ví­vio. Seus inte­res­ses de con­su­mo cen­tram-se em via­gens e na ali­men­ta­ção, como for­ma de con­ví­vio e de con­ta­to com o dife­ren­te. Exer­cem e defen­dem agres­si­va­men­te a diver­si­da­de. Os impac­tos deles no mer­ca­do con­su­mi­dor serão sen­sí­veis – por serem mais desa­pe­ga­dos, ima­te­ri­ais e natu­ral­men­te trans­pa­ren­tes – e tam­bém nas empre­sas, onde exi­gem trans­pa­rên­cia e comu­ni­ca­ção aber­ta, com fol­low-ups fre­quen­tes, sema­nais ou diá­ri­os, cons­tan­tes e pre­ci­sam sen­tir que as empre­sas estão inte­res­sa­das em sua evo­lu­ção

SEXO SEGURO, VALIDADO E AUTENTICADO

Se exis­te uma ino­va­ção com pos­si­bi­li­da­des ain­da em aber­to para vas­ta explo­ra­ção é o block­chain. Pode-se afir­mar que essa ideia tem o poten­ci­al de res­ga­tar a aura de con­fi­a­bi­li­da­de e segu­ran­ça da inter­net. As apli­ca­ções do block­chain na cri­a­ti­vi­da­de, na indús­tria do entre­te­ni­men­to e na vali­da­ção e auten­ti­ca­ção das infor­ma­ções são extra­or­di­ná­ri­as. Uma apre­sen­ta­ção da Accen­tu­re digi­tal reve­lou algu­mas delas:

Demo­cra­cia líqui­da – voto e esco­lha de repre­sen­tan­tes dire­ta­men­te na inter­net, vali­da­dos pelo block­chain;

Con­tra­tos inte­li­gen­tes – fim das auten­ti­ca­ções pre­sen­ci­ais, dos carim­bos e dos pro­to­co­los. Uma dis­rup­ção mais do que bem-vin­da para paí­ses como o Bra­sil;

Cida­des inte­li­gen­tes – cone­xões entre dis­po­si­ti­vos auten­ti­ca­das e veri­fi­ca­das via block­chain;

Pro­te­ção para pro­du­to­res de con­teú­do – cla­ro, emis­são, pro­du­ção, down­lo­ads, stre­a­ming, tudo auten­ti­ca­do pela tec­no­lo­gia;

E até mes­mo rela­ções sexu­ais devi­da­men­te con­sen­ti­das e vali­da­das con­tra­tu­al­men­te, por meio do block­chain.

O Can­nes Lions é o gri­to de inde­pen­dên­cia con­tra o mono­pó­lio soci­al, seja o secu­lar, repre­sen­ta­do pelo poder mas­cu­li­no, seja o moder­no, repre­sen­ta­do pelo con­tro­le de infor­ma­ção osten­si­va­men­te coman­da­do por algo­rit­mos nas redes soci­ais

ANÁLISE DO COTIDIANO

     Con­tra as Fake News, uma boa dose de Inte­li­gên­cia Arti­fi­ci­al. No Can­nes Lions, uma pre­vi­são arris­ca­da, mas ins­ti­gan­te, pro­je­ta que todos os cida­dãos comuns pode­rão aces­sar sis­te­mas de IA para che­car a vera­ci­da­de de infor­ma­ções, as ofer­tas, as pro­pos­tas e até mes­mo para tomar deci­sões. A ado­ção dos assis­ten­tes vir­tu­ais coman­da­dos por voz per­mi­ti­rá às pes­so­as inte­ra­gir e bus­car infor­ma­ções na rede fazen­do do machi­ne lear­ning um ali­a­do na com­pre­en­são e no cons­tan­te refi­na­men­to dos resul­ta­dos. Essa aná­li­se do coti­di­a­no vai per­mi­tir às IAs des­car­tar qual­quer infor­ma­ção aces­só­ria, pri­o­ri­zan­do ape­nas que res­pon­da a uma con­sul­ta ou emba­se uma deci­são mais cor­re­ta. Um bom exem­plo é na recu­pe­ra­ção de débi­tos, em que a IA ana­li­sa o com­por­ta­men­to dos ina­dim­plen­tes e eli­mi­na abor­da­gens ine­fi­ci­en­tes de acor­do com os dife­ren­tes per­fis de cli­en­tes.

TIREM AS BIG TECHS DA PRAIA

     Scott Gal­loway, pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de de Nova York, foi ao Can­nes Lions para afir­mar: “O Face­bo­ok, uma das mais con­tes­ta­das empre­sas da his­tó­ria, vive de mídia base­a­da na cap­tu­ra mali­ci­o­sa dos dados dos usuá­ri­os e nega-se peremp­to­ri­a­men­te a assu­mir a sua res­pon­sa­bi­li­da­de na ques­tão”. A mis­são a que Scott humil­de­men­te se propôs é “var­rer Face­bo­ok e Goo­gle da praia de Can­nes, se pos­sí­vel já em 2019”. Difí­cil ima­gi­nar isso ten­do em vis­ta o enor­me ape­lo que a gigan­te de Moun­tain View – Goo­gle – tem com as pes­so­as. Seu mis­to de loun­ge, espa­ço, ambi­en­te, bar e bala­da em Can­nes viveu lota­do, sem­pre aces­sí­vel e aber­to a todos os tipos de cra­chás, inclu­si­vo e ami­gá­vel. O Face­bo­ok, ao con­trá­rio, limi­ta­va o aces­so e per­mi­tiu que a impren­sa visi­tas­se seu espa­ço somen­te no pri­mei­ro dia do Fes­ti­val, em con­tra­di­tó­rio à natu­re­za supos­ta­men­te inclu­si­va de seu negó­cio. Afi­nal, fala­mos de uma rede…  soci­al, mas incri­vel­men­te cio­sa de sua pró­pria pri­va­ci­da­de enquan­to se vale de con­tor­ci­o­nis­mos ver­bais para jus­ti­fi­car o uso dos dados de seus usuá­ri­os. Mark Zuc­ker­berg e sua entou­ra­ge apre­sen­tam uma legião de segui­do­res mai­or do que a popu­la­ção da Chi­na ou que todos os pra­ti­can­tes do cato­li­cis­mo. Enquan­to um líder, por pior que seja, cos­tu­ma exer­cer a sua auto­ri­da­de por alguns anos, mes­mo em paí­ses auto­crá­ti­cos como Chi­na e Rús­sia, e Mark pode­rá per­ma­ne­cer no pos­to de ‘dita­dor das redes soci­ais’ pelos pró­xi­mos 30 anos!!! E sem con­tes­ta­ção. Afi­nal, o mono­pó­lio do Face­bo­ok abran­ge mais de 94% das cha­ma­das redes soci­ais e con­ti­nua cres­cen­do… Nin­guém na his­tó­ria da huma­ni­da­de teve ou pro­va­vel­men­te terá mais poder do que o fun­da­dor do Face­bo­ok.

     O gran­de movi­men­to no sen­ti­do con­trá­rio ao poder avas­sa­la­dor das redes soci­ais e das Big Techs – Goo­gle, Ama­zon, Face­bo­ok e Apple – é deno­mi­na­do “brand as publishers”, ou “mar­cas como editoras/provedoras de con­teú­do”. Está cla­ro que a melhor defe­sa con­tra Fake News e ata­ques à repu­ta­ção das mar­cas é tra­ba­lhar dire­ta­men­te o con­teú­do em pla­ta­for­mas inde­pen­den­tes, per­so­na­li­za­das ou isen­tas.

     O Can­nes Lions é o gri­to de inde­pen­dên­cia con­tra o mono­pó­lio soci­al, seja o secu­lar, repre­sen­ta­do pelo poder mas­cu­li­no, seja o moder­no, repre­sen­ta­do pelo con­tro­le de infor­ma­ção osten­si­va­men­te coman­da­do por algo­rit­mos nas redes soci­ais. Isso sig­ni­fi­ca que os dis­rup­to­res ago­ra têm de enfren­tar a dis­rup­ção. Gati­lhos para aler­tar pes­so­as sobre o con­su­mo exces­si­vo de redes soci­ais já fazem par­te das novas atu­a­li­za­ções de sis­te­mas ope­ra­ci­o­nais da Apple e do Android (Goo­gle). Estas gigan­tes enxer­gam a neces­si­da­de de fazer con­ces­sões antes que seus negó­ci­os sejam for­te­men­te regu­la­dos, movi­men­to já ini­ci­a­do com a ado­ção do GDPR na União Euro­peia.

     Em meio aos escom­bros da bata­lha con­tra os mono­pó­li­os soci­ais, fica a per­gun­ta essen­ci­al: como se cons­trói e se man­tém con­fi­an­ça em um mun­do que irá se trans­for­mar ain­da mais radi­cal­men­te daqui para a fren­te?