PODER E FRESCOR

AO DESACOPLAR SERVIÇOS E ENTREGAR UMA BOA EXPERIÊNCIA AO CONSUMIDOR FINAL, AS FINTECHS ATUAM COMO COMPETIDORAS E, AO MESMO TEMPO, ALIADAS DOS GRANDES BANCOS

POR RAPHAEL CORACCINI

s ban­cos sem­pre tive­ram uma carac­te­rís­ti­ca mui­to pecu­li­ar: atu­ar como gran­des super­mer­ca­dos de pro­du­tos finan­cei­ros. Na pra­te­lei­ra, inves­ti­men­tos, segu­ros, pre­vi­dên­cia, car­tões de cré­di­to e emprés­ti­mos são ape­nas alguns exem­plos. E em um mer­ca­do onde se faz de tudo um mui­to, como é no caso dos ban­cos, as fin­te­chs encon­tra­ram, no desa­co­pla­men­to de ser­vi­ços, uma opor­tu­ni­da­de de cons­truir gran­des mer­ca­dos. “Na medi­da em que os ban­cos per­ce­be­ram que, ape­sar de ofe­re­ce­rem pro­du­tos des­com­pli­ca­dos e uma melhor expe­ri­ên­cia, as fin­te­chs não repre­sen­ta­vam um ganho impac­tan­te de mar­ket sha­re, pas­sa­ram a enxer­gá-las como par­cei­ras”, diz Luis Rui­vo, sócio da PwC.

   É o caso do Itaú, que com­prou, em maio do ano pas­sa­do, 49,9% da XP Inves­ti­men­tos. Antes de o negó­cio ser fir­ma­do, por R$ 600 milhões, a fin­te­ch tinha qua­se R$ 70 bilhões de ati­vos sob sua ges­tão; boa par­te deles vin­da de cli­en­tes que esta­vam jus­ta­men­te fugin­do de ban­cos tra­di­ci­o­nais. “Sem isso, tal­vez demo­rás­se­mos mais para melho­rar flu­xos e desen­vol­ver solu­ções com­ple­men­ta­res que são neces­sá­ri­as para tra­zer mais agi­li­da­de e efi­ci­ên­cia aos pro­ces­sos”, diz Lineu Andra­de, dire­tor de TI do Itaú. Para avan­çar, o ban­co tam­bém enten­deu que as solu­ções podem vir tan­to de den­tro como de fora. Des­de 2015, man­tém, em par­ce­ria com a Red­point even­tu­res, o Cubo Itaú – um dos mai­o­res cen­tros de empre­en­de­do­ris­mo tec­no­ló­gi­co da Amé­ri­ca Lati­na. Este ano, o hub, que tem como obje­ti­vo ace­le­rar a cone­xão e a cri­a­ção de negó­ci­os entre gran­des empre­sas e star­tups, se mudou para um espa­ço mai­or, com 14 anda­res, na região da Vila Olím­pia, em São Pau­lo. Lá estão abri­ga­dos cer­ca de 1.250 resi­den­tes de dife­ren­tes seg­men­tos.

Car­los Rud­nei, geren­te-exe­cu­ti­vo da dire­to­ria de negó­ci­os digi­tais do BB

NA HISTÓRIA DA INDÚSTRIA, O AUMENTO DA COMPETITIVIDADE SEMPRE FOI UM SINÔNIMO DE INOVAÇÃO

SOLUÇÕES DE DENTRO PARA FORA

Den­tro do ban­co, os times tam­bém se esfor­çam para resol­ver alguns desa­fi­os, com o de colo­car seus ser­vi­ços na tela de celu­la­res anti­gos, geral­men­te usa­dos por cli­en­tes com uma ren­da menor e pla­nos de inter­net mais modes­tos. “A gen­te des­co­briu que nos­so cli­en­te ou não bai­xa­va o app ou o desins­ta­la­va para bai­xar o What­sApp. Foi quan­do deci­di­mos desen­vol­ver, inter­na­men­te, um app bem mais leve”, diz Mari­a­na Ber­nal, supe­rin­ten­den­te de UX do Itaú.

   O Ban­co do Bra­sil é outra ins­ti­tui­ção finan­cei­ra tra­di­ci­o­nal que tem colo­ca­do as fin­te­chs no seu radar. Car­los Rud­nei, geren­te-exe­cu­ti­vo da dire­to­ria de negó­ci­os digi­tais do BB, apon­ta que o cres­ci­men­to do movi­men­to de fin­te­chs se dá, em espe­ci­al, para com­ple­men­tar ser­vi­ços pres­ta­dos. Ele des­ta­ca ain­da que, nor­mal­men­te, por trás de mui­tas des­sas empre­sas estão fun­dos de inves­ti­men­tos ou os pró­pri­os ban­cos. “Na his­tó­ria da indús­tria, o aumen­to da com­pe­ti­ti­vi­da­de sem­pre foi um sinô­ni­mo de ino­va­ção”, des­ta­ca. A par­ce­ria do Ban­co do Bra­sil com a Con­ta Azul é um exem­plo dis­so. A star­tup de geren­ci­a­men­to finan­cei­ro ganhou espa­ço pela capa­ci­da­de de entre­gar solu­ções para micro e peque­nas empre­sas. Hoje, o BB man­tém par­ce­ria com mais de 20 fin­te­chs nos seg­men­tos de cré­di­to pes­so­al, cré­di­to con­sig­na­do, segu­ros, inves­ti­men­tos e health tech, entre outros.

   Nas­cer digi­tal e aten­der em esca­la menor faz tam­bém com quem as fin­te­chs rede­fi­nam um parâ­me­tro de aten­di­men­to. “Elas entre­gam ao cli­en­te uma expe­ri­ên­cia mui­to mais rápi­da e asser­ti­va pelo fato de aten­de­rem a um seg­men­to espe­cí­fi­co. Tra­zer essa fin­te­ch como par­cei­ra per­mi­te entre­gar um pro­du­to dife­ren­ci­a­do na pon­ta. Ou seja, o cli­en­te do Ban­co do Bra­sil aca­ba sen­do tam­bém um cli­en­te das fin­te­chs. E cli­en­tes comuns sig­ni­fi­cam obje­ti­vos comuns”, ava­lia Rud­nei.

   Assim como o Itaú, o BB não para de fomen­tar a ino­va­ção inter­na­men­te. Ele man­tém, por exem­plo, um pro­gra­ma semes­tral cha­ma­do Pen­sa, por meio do qual os seus mais de 100 mil cola­bo­ra­do­res têm a opor­tu­ni­da­de de expor idei­as que ala­van­quem os negó­ci­os do ban­co. Só na últi­ma roda­da, foram mais de 5.800 idei­as regis­tra­das. “O ban­co faz um inves­ti­men­to onde enxer­ga retor­no, evo­lui no mode­lo “gara­gem” (foca­do em design thin­king) e, se a pro­pos­ta for apro­va­da, vai para a encu­ba­ção”, expli­ca Rud­nei. A par­tir daí os pro­je­tos são leva­dos para o labo­ra­tó­rio de desen­vol­vi­men­to do ban­co aqui no Bra­sil, ou no Vale do Silí­cio, onde fir­mou uma par­ce­ria com a famo­sa pla­ta­for­ma de desen­vol­vi­men­to de negó­ci­os Plug and Play.

Luis Rui­vo, da PwC: dois ter­ços das fin­te­chs espe­ram cres­cer aci­ma dos 30% este ano de negó­ci­os digi­tais do BB

NA MEDIDA EM QUE OS BANCOS PERCEBERAM QUE, APESAR DE OFERECEREM PRODUTOS DESCOMPLICADOS E UMA MELHOR EXPERIÊNCIA, AS FINTECHS NÃO REPRESENTAVAM UM GANHO IMPACTANTE DE MARKET SHARE, PASSARAM A ENXERGÁ-LAS COMO PARCEIRAS

INOVAÇÃO INCREMENTAL

   Se as fin­te­chs foram vis­tas como uma pos­si­bi­li­da­de de pul­ve­ri­zar o sis­te­ma ban­cá­rio, o que se tem obser­va­do é a con­cen­tra­ção, no pró­prio mer­ca­do, de star­tups do setor finan­cei­ro à medi­da que ele ganha matu­ri­da­de. A pes­qui­sa Fin­te­ch Deep Dive 2018, orga­ni­za­da pela PwC em par­ce­ria com a Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra de Fin­te­chs (ABFin­te­chs), apon­ta que ape­nas 12% das fin­te­chs bra­si­lei­ras fatu­ram jun­tas mais de R$ 10 milhões por ano. Qua­se um ter­ço das empre­sas aten­de ape­nas outras empre­sas (no mode­lo B2B), enquan­to ape­nas 17% tra­ba­lham exclu­si­va­men­te com pes­so­as físi­cas (B2C). O levan­ta­men­to des­ta­ca, ain­da, que mais da meta­de des­sas empre­sas está em fase ini­ci­al de ope­ra­ção.

   Ape­sar dis­so, o setor de fin­te­chs cres­ce sem parar. Em 2011, o Bra­sil con­ta­va ape­nas com 28 star­tups no setor. No ano pas­sa­do, já regis­tra­va mais de 219, a gran­de mai­o­ria delas em São Pau­lo. Luis Rui­vo, da PwC, des­ta­ca que 58% das fin­te­chs ain­da não atin­gi­ram o bre­ak even, mas dois ter­ços espe­ram cres­cer aci­ma dos 30% este ano. “A mai­o­ria ain­da não é lucra­ti­va. O mai­or impac­to (que as fin­te­chs cau­sa­ram) foi obri­gar os ban­cos a se mexe­ram. Foi mui­to mais que a con­quis­ta de uma base con­sis­ten­te de cli­en­tes”, ava­lia o espe­ci­a­lis­ta.

DISTRIBUIÇÃO DAS FINTECHS

   Uma pes­qui­sa do Ban­co Mun­di­al mos­trou que, em 2008, a con­cen­tra­ção ban­cá­ria no Bra­sil colo­ca­va 62% dos ati­vos na mão dos cin­co mai­o­res ban­cos: Itaú, Bra­des­co, Ban­co do Bra­sil, Cai­xa Econô­mi­ca e San­tan­der. Em 2016, essa por­cen­ta­gem subiu para 85%. A par­tir de 2010, gover­no e Ban­co Cen­tral pas­sa­ram a incen­ti­var a aber­tu­ra do mer­ca­do para star­tups espe­ci­a­li­za­das em ser­vi­ços finan­cei­ros, as fin­te­chs.

   A pes­qui­sa da ABFin­te­chs com a PwC apon­ta que os mer­ca­dos de mei­os de paga­men­to e de cré­di­to foram os que mais rece­be­ram novas empre­sas. Thi­a­go Arne­se, sócio-fun­da­dor da Hash, empre­sa espe­ci­a­li­za­da em solu­ções de paga­men­to, afir­ma que as tra­di­ci­o­nais adqui­ren­tes estão enfren­tan­do uma con­cor­rên­cia iné­di­ta no mer­ca­do, com empre­sas que têm ofe­re­ci­do aos lojis­tas a opor­tu­ni­da­de de alcan­çar duas das suas mai­o­res obses­sões: redu­ção no tem­po de chec­kout e no cus­to das tran­sa­ções. Ape­sar da con­cor­rên­cia, o exe­cu­ti­vo afir­ma que a pro­li­fe­ra­ção de par­ce­ri­as entre fin­te­chs e ban­cos ten­de a ser um jogo de ganha-ganha. Com essa união, as star­tups con­se­guem aces­so a um mer­ca­do mui­to lucra­ti­vo e de aces­so res­tri­to. “Ter uma licen­ça de ban­co não é tri­vi­al. Aca­ba sen­do um ati­vo vali­o­so e, por isso, fin­te­chs estão mui­to inte­res­sa­das tam­bém em fazer par­ce­ri­as”, afir­ma Arne­se.

   Por outro lado, os ban­cos con­se­guem aces­so ao prin­ci­pal ati­vo das fin­te­chs, que é a exper­ti­se em deter­mi­na­das ver­ti­cais nas quais os players tra­di­ci­o­nais têm pou­ca pro­fun­di­da­de. “As fin­te­chs têm essa rebel­dia que per­mi­te aos empre­en­de­do­res ver como pro­ces­sos de 20 anos podem ser trans­for­ma­dos. No mer­ca­do finan­cei­ro, as empre­sas são con­ser­va­do­ras e têm pou­ca dis­po­si­ção ao ris­co”, ava­lia Pedro Englert, con­se­lhei­ro da ABFin­te­chs.

   Os cases de par­ce­ria entre fin­te­chs e ban­cos mos­tram uma sim­bi­o­se par­ti­cu­lar nes­se mer­ca­do. Ao mes­mo tem­po em que fin­te­chs têm a capa­ci­da­de de se apro­fun­dar em ver­ti­cais de uma manei­ra que os ban­cos não con­se­guem, esse know-how sobre novas tec­no­lo­gi­as e pro­ces­sos é ori­gi­na­do den­tro das pró­pri­as ins­ti­tui­ções finan­cei­ras, já que um núme­ro con­si­de­rá­vel de CEOs e dire­to­res des­sas empre­sas de ino­va­ção pas­sa­ram anos den­tro de ban­cos. Há ain­da a depen­dên­cia de capi­tal, que aca­ba atre­lan­do a mai­o­ria das star­tups do setor às ins­ti­tui­ções tra­di­ci­o­nais. Por outro lado, os ban­cos aca­bam desa­co­plan­do suas uni­da­des de negó­ci­os, cri­an­do fin­te­chs den­tro de casa. É uma manei­ra de gerar valor a essas ver­ti­cais.

NÚMERO DE FINTECHS

Até 2011:
0
2012:
0
2013:
0
2014:
0
2015:
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2016:
0
2017:
0

CRESCIMENTO ANUAL

2012:
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2013:
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2014:
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2015:
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2016:
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2017:
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%

Fon­te: Fin­te­ch Deep Dive 2018 (PwC e ABFin­te­chs)

OS CINCO PRINCIPAIS DESAFIOS DAS FINTECHS. SEGUNDO ELAS MESMAS

1. Atrair recur­sos huma­nos qua­li­fi­ca­dos:
0
%
2. Alcan­çar esca­la neces­sá­ria para ope­ra­ções:
0
%
3. Con­se­guir visi­bi­li­da­de:
0
%
4. Obter inves­ti­men­tos para o negó­cio:
0
%
5. Aten­der a requi­si­tos do ambi­en­te regu­la­tó­rio:
0
%

Fon­te: Fin­te­ch Deep Dive 2018 (PwC e ABFin­te­chs)

Jefer­son Hono­ra­to, supe­rin­ten­den­te-exe­cu­ti­vo do Next

A GENTE TEM OBSERVADO QUE, AO MESMO TEMPO EM QUE AS PESSOAS ESTÃO PROPENSAS A EXPERIMENTAR NOVAS SOLUÇÕES, ELAS TENDEM A ENXERGAR AINDA COMO UM DIFERENCIAL IMPORTANTE A CREDIBILIDADE DOS BANCOS NA HORA DE DECIDIR ONDE GUARDAR O SEU DINHEIRO
JEFERSON HONORATO, SUPERINTENDENTE-EXECUTIVO DO NEXT

INOVAÇÃO (TAMBÉM) SE FAZ EM CASA

   É o caso do Next, que sur­giu em 2015 entre as 180 star­tups que hoje coa­bi­tam o espa­ço de ino­va­ção do Bra­des­co, o ino­va­Bra. Supe­rin­ten­den­te-exe­cu­ti­vo do Next, Jefer­son Hono­ra­to des­ta­ca que o sis­te­ma ban­cá­rio tem difi­cul­da­des de enten­der com exa­ti­dão a plu­ra­li­da­de de com­por­ta­men­to dos con­su­mi­do­res. Isso, segun­do ele, abre espa­ço para as fin­te­chs. “Se você pen­sar hoje do pon­to de vis­ta de com­por­ta­men­to, a nos­sa popu­la­ção é mui­to diver­sa. Você tem vári­as fai­xas etá­ri­as e vári­os tipos de com­por­ta­men­to que se dife­ren­ci­am, inclu­si­ve, por regiões”. Entre os ban­ca­ri­za­dos que pos­su­em o com­por­ta­men­to híbri­do, Hono­ra­to des­ta­ca que boa par­te das rela­ções com os ban­cos come­ça no ambi­en­te físi­co, mas depois migra para o digi­tal. “Essa gera­ção hiper­co­nec­ta­da exi­ge expe­ri­ên­ci­as pare­ci­das com as de outras pla­ta­for­mas as quais aces­sa, como Spo­tify e What­sApp. Nes­se caso, iden­ti­fi­ca­mos com o Next a opor­tu­ni­da­de de nos ende­re­çar­mos a um mer­ca­do espe­cí­fi­co: os Mil­len­ni­als”.

   Para desen­vol­ver uma solu­ção 100% digi­tal, o Bra­des­co enca­rou o desa­fio de focar a expe­ri­ên­cia mobi­le. Para isso, o Next, mais do que uma pla­ta­for­ma que fomen­ta a ino­va­ção para um gran­de ban­co, teve que se tor­nar tam­bém uma fin­te­ch que rece­be ino­va­ção de outras star­tups de den­tro do ecos­sis­te­ma do ban­co. Hoje, cin­co star­tups são usa­das para ace­le­rar seus pro­ces­sos de dis­rup­ção e retro­a­li­men­tar seus ciclos de ino­va­ção incre­men­tal.

   Hono­ra­to apon­ta que, se por um lado as fin­te­chs ganham no aspec­to ino­va­ção e capa­ci­da­de de ace­le­rar pro­ces­sos sem se per­der na buro­cra­cia típi­ca das gran­des empre­sas, por outro os ban­cos têm ain­da a seu favor o peso de suas mar­cas e sua repu­ta­ção peran­te os con­su­mi­do­res. “A gen­te tem obser­va­do que, ao mes­mo tem­po em que as pes­so­as estão pro­pen­sas a expe­ri­men­tar novas solu­ções, elas ten­dem a enxer­gar ain­da como um dife­ren­ci­al impor­tan­te a cre­di­bi­li­da­de dos ban­cos na hora de deci­dir onde guar­dar o seu dinhei­ro”, ava­lia o exe­cu­ti­vo do Next.

   Para encan­tar seus cli­en­tes, o Next pas­sou a desen­vol­ver ser­vi­ços em par­ce­ria com empre­sas de outros seto­res, per­mi­tin­do que o cli­en­te peça um car­ro da Uber sem sair do seu app ou faça um pedi­do com entre­ga gra­tui­ta pelo iFo­od. “Hoje temos 70 par­cei­ros den­tro des­sa pla­ta­for­ma entre­gan­do uma série de bene­fí­ci­os finan­cei­ros para o cli­en­te. Esse con­tex­to entre­ga solu­ções tra­di­ci­o­nais de ban­king, mas tam­bém per­mi­te cri­ar outros tipos de cone­xões com par­cei­ros e pla­ta­for­mas que se insi­ram na jor­na­da e no con­tex­to de vida das pes­so­as”, des­ta­ca.

   Se as fin­te­chs bus­cam a cre­di­bi­li­da­de de um ban­co, as ins­ti­tui­ções tra­ci­o­nais estão atrás da exper­ti­se das star­tups e da sua capa­ci­da­de de ino­va­ção para ope­rar seus ser­vi­ços em lar­ga esca­la com qua­li­da­de e agi­li­da­de. “Pre­ci­sa­mos tra­zer sis­te­mas lega­dos para o mun­do atu­al”, afir­ma Luis Gui­lher­me Bit­ten­court, dire­tor de aten­di­men­to do San­tan­der.

PULVERIZAÇÃO DO CRÉDITO

   Ape­sar de 21% das fin­te­chs do País atu­a­rem no mer­ca­do de cré­di­to e nego­ci­a­ção de dívi­das, as ati­vi­da­des, em espe­ci­al de cré­di­to, ain­da estão intei­ra­men­te na mão dos ban­cos. “Do total de cré­di­to dis­po­ni­bi­li­za­do ao ano no Bra­sil, que hoje é de R$ 3,4 tri­lhões, ape­nas 0,3% é ofe­re­ci­do por fin­te­chs. Os ban­cos já apren­de­ram a colo­car as fin­te­chs ao lado para apro­vei­tar o que elas têm de bom. No limi­te, eles com­pram essas fin­te­chs”, deta­lha Boa­ner­ges Ramos Frei­re, pre­si­den­te da Boa­ner­ges & Cia., con­sul­to­ria espe­ci­a­li­za­da em vare­jo finan­cei­ro.

   Os casos de fin­te­chs que, sozi­nhas, con­se­gui­ram pene­trar o mer­ca­do de cré­di­tos ain­da são raros. Mas osten­tam cases como o do Nubank, ban­co digi­tal que come­çou com um car­tão de cré­di­to e pas­sou a ofe­re­cer con­tas de inves­ti­men­tos, o que deu à empre­sa mar­gem de mano­bra para con­tor­nar a con­cor­rên­cia. A empre­sa, cri­a­da pelo colom­bi­a­no David Vélez, movi­men­tou R$ 3,6 bilhões ao lon­go de 2017, um aumen­to de 157% em rela­ção ao ano ante­ri­or. De que­bra, tor­nou-se, em mar­ço des­te ano, o ter­cei­ro uni­cór­nio bra­si­lei­ro. Hoje, esti­ma-se que o Nubank ultra­pas­se R$ 2 bilhões em valor de mer­ca­do.

   Ini­ci­a­ti­vas como essa podem colo­car em xeque – se não no cur­to, mas no lon­go pra­zo – um dos mai­o­res pro­ble­mas do sis­te­ma finan­cei­ro naci­o­nal: os juros ban­cá­ri­os. Um rela­tó­rio do Ban­co Inter­na­ci­o­nal para Recons­tru­ção e Desen­vol­vi­men­to (BIRD) apon­ta que o Bra­sil tem o segun­do mai­or spre­ad ban­cá­rio do mun­do. Segun­do o Ban­co Mun­di­al, o spre­ad dos ban­cos no Bra­sil atin­giu 39,6% em 2016. Fica­mos atrás ape­nas de Mada­gas­car, com 45%. Dados do Ban­co Cen­tral apon­tam ain­da um des­co­la­men­to entre os juros pra­ti­ca­dos pelas ins­ti­tui­ções ban­cá­ri­as e a taxa bási­ca de juros. Em janei­ro do ano pas­sa­do, enquan­to a Selic esta­va em 13%, o spre­ad ban­cá­rio atin­giu 40,3%. Mes­mo com a que­da his­tó­ri­ca da taxa bási­ca, os juros pra­ti­ca­dos na pon­ta ain­da estão entre os mais caros do mun­do.

SUCESSOS E FRACASSOS DAS FINTECHS

   Fun­da­do em 2016 – três anos depois do Nubank – o Neon tam­bém ganhou esca­la rapi­da­men­te, mas sofreu um aba­lo sís­mi­co em abril des­te ano, quan­do um decre­to do Ban­co Cen­tral deter­mi­nou a liqui­da­ção extra­ju­di­ci­al da empre­sa por não ter reser­vas sufi­ci­en­tes para cobrir even­tu­ais calo­tes. No mês seguin­te, o Ban­co Voto­ran­tim absor­veu a ope­ra­ção. A Trigg tam­bém resol­veu pegar uma fatia do con­cor­ri­do mer­ca­do de car­tões de cré­di­to. Entre ten­ta­ti­vas dife­ren­tes, a empre­sa con­se­guiu suces­so com seu car­tão de cré­di­to com cash­back. Hoje, ela apos­ta tam­bém no desen­vol­vi­men­to de novas inter­fa­ces de paga­men­to, como o con­tac­tless. Mas a gran­de novi­da­de expe­ri­men­ta­da pela empre­sa é o paga­men­to sem nenhum gad­get, uti­li­zan­do ape­nas os dados do CPF do con­su­mi­dor e uma senha. “A ideia já era cri­ar um meio de paga­men­to total­men­te dife­ren­te. No fim das con­tas, somos uma empre­sa de car­tão de cré­di­to, como tan­tas outras tra­di­ci­o­nais. Mas a gen­te vê o que pode ser fei­to para melho­rar a expe­ri­ên­cia do cli­en­te”, garan­te Mar­ce­la Miran­da, head da Trigg.

   Para expan­dir a cul­tu­ra da ino­va­ção para as empre­sas par­cei­ras e dis­se­mi­nar a imple­men­ta­ção des­sas novas solu­ções em paga­men­tos, a Trigg con­ta com a for­ça da sua mai­or par­cei­ra: a Visa. A mai­or empre­sa de car­tão de cré­di­to do mun­do tem apos­ta­do em pro­je­tos inte­gra­dos com outras fin­te­chs para incre­men­tar suas solu­ções para toda clas­se de con­su­mi­do­res. Em setem­bro, a Visa anun­ci­ou par­ce­ria com a Credz, outra emis­so­ra de car­tão de cré­di­to que tem cres­ci­do 50% ao ano. Nes­te caso, o intui­to é ampli­ar o cré­di­to inter­na­ci­o­nal para públi­co de ren­da mais bai­xa, geral­men­te pou­co aten­di­do pelas gigan­tes do setor finan­cei­ro. “A ideia é tra­zer ino­va­ção para essa cama­da da popu­la­ção que ain­da não é aten­di­da pelo sis­te­ma ban­cá­rio tra­di­ci­o­nal”, diz Fer­nan­do Teles, pre­si­den­te da Visa.

   Tra­tan­do-se de mei­os de paga­men­to, a Pag­Se­gu­ro, que per­ten­ce ao gru­po de mídia UOL, foi uma das que mais aba­lou o mer­ca­do tra­di­ci­o­nal. A empre­sa pres­si­o­nou as tra­di­ci­o­nais empre­sas Rede e Cie­lo, que per­ten­cem aos mai­o­res ban­cos do País. Os exem­plos de Pag­Se­gu­ro e Nubank mos­tram o poten­ci­al de cres­ci­men­to das fin­te­chs no País, ape­sar da con­cor­rên­cia pesa­da dos players mais anti­gos. No mun­do, o aden­sa­men­to da com­pe­ti­ção no setor ban­cá­rio tam­bém tem-se mos­tra­do inte­res­san­te para novos par­ti­ci­pan­tes. Uma pes­qui­sa da CB Insights apon­tou que 12% dos 263 uni­cór­ni­os que exis­tem no mun­do são star­tups do setor finan­cei­ro. Elas ficam atrás ape­nas dos ramos de tec­no­lo­gia, ser­vi­ços de inter­net e e-com­mer­ce.

DINHEIRO NOVO PARA AS FINTECHS

   Com a Reso­lu­ção nº 4.656 do Ban­co Cen­tral, publi­ca­da em abril des­te ano, o mer­ca­do de cré­di­to se expan­diu para as fin­te­chs, segun­do Luis Rui­vo, da PwC. A medi­da ins­ti­tui novas for­mas de as star­tups do setor finan­cei­ro ofe­re­ce­rem emprés­ti­mos sem depen­de­rem de ban­cos. “Num pri­mei­ro momen­to, as fin­te­chs tinham tec­no­lo­gia para aná­li­se de cré­di­to, mas não tinham dinhei­ro. Ago­ra, a nova regu­la­ção ins­ti­tui novos tipos de fin­te­chs”, diz Rui­vo.

   Ele se refe­re a dois tipos novos de soci­e­da­de: a Soci­e­da­de de Cré­di­to Dire­to e a Soci­e­da­de de Cré­di­to entre Pes­so­as. “As fin­te­chs que atu­am até o momen­to como cor­res­pon­den­tes ban­cá­ri­as ori­gi­nam um emprés­ti­mo, fazem con­tra­to com o cli­en­te, mas, no fim, quem está empres­tan­do o mon­tan­te é um ban­co par­cei­ro. (Com a reso­lu­ção), elas podem come­çar a se con­ver­ter em Soci­e­da­de de Cré­di­to Dire­to, as SCDs. O que muda é que elas pas­sam não só a atu­ar como ins­ti­tui­ção finan­cei­ra como pas­sam a ter per­mis­são para empres­tar dinhei­ro. Muda bas­tan­te o jogo”, expli­ca Rui­vo. Ape­sar da nova regu­la­ção, as fin­te­chs ain­da terão mais limi­ta­ções na ofer­ta de cré­di­to em rela­ção aos ban­cos tra­di­ci­o­nais. “Elas só podem empres­tar seu pró­prio capi­tal. Não podem tomar dinhei­ro numa pon­ta e empres­tar na outra. Isso limi­ta de cer­ta for­ma a atu­a­ção”, diz o espe­ci­a­lis­ta.

   Outras solu­ções têm-se popu­la­ri­za­do no mer­ca­do para ampli­ar o poder de fogo das fin­te­chs que que­rem empres­tar dinhei­ro. Uma delas é a Cap­talys, fin­te­ch vol­ta­da à capi­ta­li­za­ção de outras fin­te­chs. Mais do que pro­ver cré­di­to para as ope­ra­ções do dia a dia, a empre­sa tra­ba­lha para que fin­te­chs de cré­di­to pos­sam arru­mar dinhei­ro para empres­tar. “Os esfor­ços de cap­ta­ção são mui­to pesa­dos para uma estru­tu­ra peque­na como a de uma fin­te­ch. A gen­te faz todo esse tra­ba­lho de trans­for­mar o pro­du­to de cré­di­to num ati­vo de inves­ti­men­to”, infor­ma Mar­got Gre­en­man, CEO e cofun­da­do­ra da Cap­talys.

Thi­a­go Alva­rez,

CEO do Gui­a­bol­so: pro­pos­ta é tro­car a dívi­da do che­que espe­ci­al pelo cré­di­to per­so­na­li­za­do

UM RELATÓRIO DO BIRD APONTA QUE O BRASIL TEM O SEGUNDO MAIOR SPREAD BANCÁRIO DO MUNDO. FICAMOS ATRÁS APENAS DE MADAGASCAR

CONCENTRAÇÃO DE ATIVOS DOS CINCO MAIORES BANCOS NO BRASIL

• 2008: 62,543%
• 2012: 76,61%
• 2016: 84,98%

Fon­tes: Ban­co Cen­tral e Ban­co Mun­di­al

GESTÃO FINANCEIRA

   O Gui­a­bol­so é mais um des­ta­que entre as fin­te­chs bra­si­lei­ras. Ela agre­ga infor­ma­ções de vári­as con­tas, de vári­os ban­cos, em um só local. “Assim, se você pos­sui, por exem­plo, con­tas em dois ban­cos mais um car­tão de cré­di­to do Nubank, no nos­so app você con­se­gue ver todas as tran­sa­ções (gas­tos e rece­bi­men­tos). Tudo num só lugar e de manei­ra orga­ni­za­da. Nos ban­cos tra­di­ci­o­nais, é comum ver­mos o sal­do da con­ta se mis­tu­rar com o limi­te do che­que espe­ci­al, o que gera uma con­fu­são para o con­su­mi­dor. No Gui­a­bol­so mos­tra­mos as quan­ti­as reais que estão na con­ta”, expli­ca Thi­a­go Alva­rez, CEO da empre­sa.

   A pro­pos­ta do Gui­a­bol­so para ganhar ter­re­no no meio dos ban­cos tem sido, em espe­ci­al, ofe­re­cer aos con­su­mi­do­res a opor­tu­ni­da­de de tro­car a dívi­da do che­que espe­ci­al – segun­do mai­or moti­vo de endi­vi­da­men­to no País – para o cré­di­to per­so­na­li­za­do. Para con­cor­rer com um ser­vi­ço que os ban­cos ofe­re­cem no car­tão de débi­to, a empre­sa pre­ci­sa ter agi­li­da­de e solu­ções des­com­pli­ca­das. Segun­do Alva­rez, a capa­ci­da­de de vas­cu­lhar pro­du­tos de cré­di­to em dife­ren­tes ban­cos per­mi­te à fin­te­ch ofe­re­cer ao cli­en­te final emprés­ti­mos que che­gam a ser 12 vezes mais bara­tos que o che­que espe­ci­al.

   A pla­ta­for­ma é uma espé­cie de mar­ket­pla­ce de cré­di­tos, com pro­du­tos de outras ins­ti­tui­ções finan­cei­ras pron­tos para serem com­pa­ra­dos pelo cli­en­te. “Sele­ci­o­na­mos as ins­ti­tui­ções para que as ofer­tas den­tro do apli­ca­ti­vo real­men­te sejam mais inte­res­san­tes do que as do mer­ca­do. Hoje, na par­te de pro­du­tos, atu­a­mos no cré­di­to, mas vamos expan­dir para outros seg­men­tos, como inves­ti­men­tos, à medi­da que for­mos conhe­cen­do cada vez mais este con­su­mi­dor”, expli­ca.

   Alva­rez diz acom­pa­nhar com aten­ção o movi­men­to de digi­ta­li­za­ção dos ban­cos, mas enten­de que, como eles não nas­ce­ram digi­tais, o pro­ces­so de apren­di­za­gem e imple­men­ta­ção é mais buro­crá­ti­co e demo­ra­do, o que per­mi­te que as fin­te­chs encon­trem o seu espa­ço. “As fin­te­chs não vie­ram para aca­bar com os ban­cos, mas para trans­for­mar a manei­ra como eles atu­am e como o con­su­mi­dor é tra­ta­do”, apon­ta.

12% DOS 263 UNICÓRNIOS QUE EXISTEM NO MUNDO SÃO STARTUPS DO SETOR FINANCEIRO. ELAS PERDEM PARA TECNOLOGIA, SERVIÇOS DE INTERNET E E-COMMERCE

   Luis Rui­vo, da PwC, afir­ma que o futu­ro pró­xi­mo apon­ta para um ama­du­re­ci­men­to do mer­ca­do de fin­te­chs. O movi­men­to deve ser de redu­ção no núme­ro de star­tups, mas com uma con­so­li­da­ção do públi­co e do mar­ket sha­re. A Lei Geral de Pro­te­ção de Dados Pes­so­ais (LGPDP), san­ci­o­na­da em agos­to, e as dis­cus­sões sobre Open Ban­king devem dar uma matu­ri­da­de mai­or ao mer­ca­do. Por enquan­to, as prá­ti­cas por aqui envol­vem abrir os dados dos cli­en­tes para outras enti­da­des, o que tem cau­sa­do polê­mi­ca e des­con­for­to. A pes­qui­sa da Con­ver­si­on apon­tou que 59,4% dos con­su­mi­do­res on-line ain­da têm medo de que seus dados pes­so­ais e infor­ma­ções de car­tão de cré­di­to sejam usa­dos inde­vi­da­men­te, o que ilus­tra bem o desa­fio que as empre­sas de tec­no­lo­gia terão pela fren­te na difí­cil tare­fa de con­quis­tar a con­fi­an­ça do públi­co.

   Mar­ce­lo Oli­vei­ra, CPO do Verity Group – empre­sa espe­ci­a­li­za­da em con­sul­to­ria para trans­for­ma­ção digi­tal –, ava­lia que o Ban­co Cen­tral será capaz de fazer a regu­la­ção do setor de manei­ra que ban­cos e fin­te­chs se inte­grem e deem ao con­su­mi­dor a tran­qui­li­da­de que ele pede para suas ope­ra­ções on-line. “O ban­co deve agir com sua gover­nan­ça para não colo­car o sis­te­ma em ris­co. E, do outro lado, as fin­te­chs vão atu­ar qua­se como depar­ta­men­to de ino­va­ção e comer­ci­al des­ses ban­cos por con­ta do conhe­ci­men­to que elas pos­su­em do cli­en­te e sua capa­ci­da­de de cri­ar e dis­tri­buir pro­du­tos e ser­vi­ços digi­tais para o novo con­su­mi­dor que está emer­gin­do”, fina­li­za. E é jus­ta­men­te esse con­su­mi­dor que será bene­fi­ci­a­do com essa união entre a robus­tez dos ban­cos e o fres­cor das fin­te­chs.