MARCELO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

OS PROCONS E AS BOAS PRÁTICAS:

QUAL É O CAMINHO?

OS PROCONS E AS BOAS PRÁTICAS:

QUAL É O CAMINHO?

OS PROCONS E AS BOAS PRÁTICAS:

QUAL É O CAMINHO?

MARCELO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

MARCELO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

Nos últi­mos dez anos, as mai­o­res empre­sas per­ce­be­ram que mui­to melhor do que se con­tra­por ao CDC é apli­cá-lo”

Nes­te momen­to de mudan­ças polí­ti­cas, pro­po­nho um peque­no jogo. Feche os olhos e ima­gi­ne o seguin­te: ines­pe­ra­da­men­te, o novo Gover­na­dor elei­to con­vi­da você para ser Dire­tor-exe­cu­ti­vo do Pro­con. O que faria? Quais seri­am suas pri­o­ri­da­des? Como se rela­ci­o­na­ria com as empre­sas?

Eu, que já fui Dire­tor do Pro­con de São Pau­lo, con­fes­so uma enor­me dúvi­da de quais seri­am meus pla­nos. Dian­te des­ta incer­te­za, vou refle­tir sobre as razões des­ta difi­cul­da­de e, para tan­to, vale a pena fazer um pou­co de his­tó­ria.

As enti­da­des de defe­sa do con­su­mi­dor sur­gi­ram no Bra­sil na déca­da de 70, como fru­to de um movi­men­to inter­na­ci­o­nal de defe­sa de direi­tos soci­ais. Está­va­mos em ple­na dita­du­ra e tudo come­çou tor­to: em vez de enti­da­des civis, o que se via era o Esta­do, que era o gran­de ofen­sor dos direi­tos, cri­ar estru­tu­ras para a pro­te­ção dos con­su­mi­do­res. Seja como for, na déca­da de 80 os Pro­cons se pro­li­fe­ra­ram pelo Bra­sil intei­ro e na déca­da de 90 apro­vou-se um Códi­go de Defe­sa do Con­su­mi­dor (CDC). Vitó­ri­as e mais vitó­ri­as.

Leis que pegam e leis que não pegam: este era o desa­fio a ser ven­ci­do. A bri­ga dos Pro­cons pas­sou a ser pela imple­men­ta­ção do CDC e duran­te qua­se 20 anos fez-se de tudo para que o CDC não caís­se no esque­ci­men­to. E, nes­se tem­po todo, mui­tos seg­men­tos impor­tan­tes do mer­ca­do luta­ram com todas as armas que tinham para sair da apli­ca­ção do CDC. Na mai­o­ria das vezes, uma luta ingló­ria. Os pla­nos de saú­de pri­va­da, por exem­plo, acre­di­ta­ram que, se apro­va­da uma lei espe­cí­fi­ca, esta­ri­am isen­tos de cum­prir o CDC. Foi nes­se perío­do que os Pro­cons mon­ta­ram gran­des esque­mas de apli­ca­ção de san­ções admi­nis­tra­ti­vas, des­vir­tu­an­do o pro­je­to ini­ci­al que era tra­ba­lhar sobre­tu­do com o tema da infor­ma­ção e edu­ca­ção. Seja como for, o CDC não caiu no esque­ci­men­to. E o que acon­te­ceu então?

Nos últi­mos dez anos, as mai­o­res empre­sas per­ce­be­ram que mui­to melhor do que se con­tra­por ao CDC é apli­cá-lo. Bin­go! Raci­o­cí­nio sim­ples, mas que demo­rou 20 anos para aflo­rar: ter boas prá­ti­cas é a melhor manei­ra de con­quis­tar o con­su­mi­dor. Não foi por aca­so que recen­te­men­te foi incluí­do nas Dire­tri­zes da ONU para a Pro­te­ção do Con­su­mi­dor o con­cei­to de Boas Prá­ti­cas: as empre­sas devem lidar de for­ma jus­ta e hones­ta com os con­su­mi­do­res em todas as fases de seu rela­ci­o­na­men­to, de modo que seja uma par­te da cul­tu­ra empre­sa­ri­al. As empre­sas devem evi­tar prá­ti­cas que pre­ju­di­quem os con­su­mi­do­res, par­ti­cu­lar­men­te no que diz res­pei­to aos con­su­mi­do­res vul­ne­rá­veis e des­fa­vo­re­ci­dos.

A per­gun­ta que fica é: se for real­men­te séria a inten­ção das empre­sas de apli­ca­rem Boas Prá­ti­cas comer­ci­ais, o que res­ta­rá aos Pro­cons? Qual seria o cam­po de atu­a­ção? Acre­di­to que este seja o dile­ma do momen­to: o dis­cur­so da apli­ca­ção das Boas Prá­ti­cas pelas empre­sas dei­xa os Pro­cons sem dis­cur­so, sem cami­nhos para atu­ar.

E vol­to à ques­tão ini­ci­al: se o Gover­na­dor elei­to con­vi­dar você para ser Dire­tor-exe­cu­ti­vo do Pro­con qual seria o seu pla­no de atu­a­ção? Difí­cil res­pon­der de for­ma posi­ti­va, mas acho pos­sí­vel res­pon­der de for­ma nega­ti­va: os Pro­cons que con­ti­nu­a­rem a pri­o­ri­zar a fis­ca­li­za­ção e a apli­ca­ção de mul­tas e mais mul­tas vão ficar falan­do sozi­nhos. A cap­tu­ra do dis­cur­so das Boas Prá­ti­cas pelas empre­sas exi­ge um repo­si­ci­o­na­men­to dos Pro­cons e de todo o Sis­te­ma Naci­o­nal de Defe­sa do Con­su­mi­dor.

Pena: não vejo este tema sen­do deba­ti­do pelas enti­da­des de defe­sa dos con­su­mi­do­res. Pre­ci­sa­mos pen­sar em ins­tru­men­tos novos para tem­pos novos. Esta­mos atra­sa­dos.