MARCELO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

UMA FÁBULA

PARA HOJE

 

UMA FÁBULA

PARA HOJE

 

UMA FÁBULA

PARA HOJE

MARCELO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

MARCELO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

O gover­no bra­si­lei­ro está a um pas­so de apro­var o que a soci­e­da­de civil orga­ni­za­da deno­mi­na como o Paco­te do Vene­no”

    ERA UMA VEZ um país com mui­ta área ver­de e com mui­ta comi­da e bebi­da natu­rais. As mari­po­sas pas­se­a­vam livre­men­te com o úni­co medo de serem devo­ra­das pelos mor­ce­gos quan­do pou­sa­vam à noi­te com suas asas aber­tas. As bor­bo­le­tas, boni­ti­nhas, voa­vam duran­te o dia pen­san­do que um dia não tive­ram asas: como a vida era cha­ta. A luta pela sobre­vi­vên­cia man­ti­nha um tra­di­ci­o­nal equi­lí­brio.

    Ao lon­go da flo­res­ta, as pes­so­as encon­tra­vam fru­tas para saci­ar a fome e peque­nos ria­chos para satis­fa­zer a sede. Se a famí­lia era gran­de, uma peque­na plan­ta­ção bas­ta­va para ali­men­tar a todos. Então uma estra­nha pra­ga se infil­trou naque­le país e tudo come­çou a mudar.

    As mari­po­sas fecha­vam suas asas e não encon­tra­vam mais seus pon­tos de pou­so notur­no. As bor­bo­le­tas se sen­ti­am fra­qui­nhas e caíam. As cigar­ras can­ta­vam bai­xi­nho e não loca­li­za­vam suas par­cei­ras. As fru­tas fica­ram lin­das e com um gos­to estra­nho. Des­cul­pe a pará­fra­se com a fábu­la des­cri­ta por Rachel Car­son em 1962 nos EUA. A cons­ta­ta­ção do fim do can­to dos pás­sa­ros da infân­cia deu ori­gem ao nome do livro: Pri­ma­ve­ra Silen­ci­o­sa. A razão: a intro­du­ção nos cam­pos de colhei­ta de um pes­ti­ci­da, o DDT.

    Mal­di­ção? Bru­xa­ria? Um ata­que ali­e­ní­ge­na? Não. As pró­pri­as pes­so­as tinham fei­to aqui­lo. Obra huma­na. A cons­ta­ta­ção era sim­ples e dolo­ri­da: a tec­no­lo­gia avan­ça­va com mais rapi­dez do que o sen­so de res­pon­sa­bi­li­da­de moral da huma­ni­da­de.

    E por que estou recon­tan­do essa nos­sa fábu­la? Por uma razão sim­ples e arra­sa­do­ra: o gover­no bra­si­lei­ro está a um pas­so de apro­var o que a soci­e­da­de civil orga­ni­za­da deno­mi­na como o Paco­te do Vene­no. O pro­je­to de lei fle­xi­bi­li­za os cri­té­ri­os de con­tro­le para a pro­du­ção e comer­ci­a­li­za­ção de agro­tó­xi­cos, além de auto­ri­zar a intro­du­ção de ele­men­tos quí­mi­cos poten­ci­al­men­te can­ce­rí­ge­nos. Os rura­lis­tas deno­mi­nam esta medi­da pelo nome de Lei do Ali­men­to Segu­ro.

    A polê­mi­ca foi bem retra­ta­da pelo jor­nal El País: “O argu­men­to dos que são con­trá­ri­os à lei é o de que auto­ri­zar as modi­fi­ca­ções fará com que cada vez mais agro­tó­xi­cos sejam usa­dos nas lavou­ras e, con­se­cu­ti­va­men­te, resí­du­os deles aca­bem nas comi­das dos bra­si­lei­ros, enquan­to os apoi­a­do­res do pro­je­to dizem que, com mais defen­si­vos agrí­co­las moder­nos, será pos­sí­vel aumen­tar a pro­du­ção com o uso redu­zi­do de pro­du­tos quí­mi­cos”. Quan­do a polê­mi­ca é tão gran­de, o míni­mo que se pode fazer é con­ti­nu­ar com as pes­qui­sas e os deba­tes sem nada apro­var por enquan­to. Prin­cí­pio res­pon­sa­bi­li­da­de.

Só um aspec­to já deve­ria sal­tar aos nos­sos olhos: os “agro­tó­xi­cos” pas­sam a ser deno­mi­na­dos como “defen­si­vos fitos­sa­ni­tá­ri­os”. Per­gun­to: defen­der quem do quê? Não sin­to que a pre­o­cu­pa­ção dos apoi­a­do­res des­ta mudan­ça na legis­la­ção seja defen­der a minha saú­de. Tal­vez defen­der a saú­de do bol­so de alguns…

Ter­mi­no com uma inda­ga­ção da pró­pria Rachel Car­son: os his­to­ri­a­do­res futu­ros tal­vez se espan­tem com o nos­so sen­so de pro­por­ção dis­tor­ci­do. Como é pos­sí­vel que seres inte­li­gen­tes tenham alme­ja­do con­tro­lar umas pou­cas espé­ci­es inde­se­ja­das por um méto­do que con­ta­mi­nou todo o meio ambi­en­te e trou­xe a ame­a­ça da doen­ça e da mor­te inclu­si­ve para sua pró­pria espé­cie?

O gover­no bra­si­lei­ro está a um pas­so de apro­var o que a soci­e­da­de civil orga­ni­za­da deno­mi­na como o Paco­te do Vene­no”