O DILEMA DO INOVADOR

POR ROBERTO MEIR

   O sen­so comum indi­ca que vive­mos em uma era de mudan­ças pro­fun­das, na qual ino­var é con­di­ção essen­ci­al. Mas con­vém olhar para a nos­sa rea­li­da­de de for­ma mais cui­da­do­sa. O Bra­sil reco­nhe­ci­da­men­te é um ambi­en­te não mui­to pró­di­go na gera­ção de ino­va­ção, porém, em uma pers­pec­ti­va mais ampla, o ciclo de cri­a­ção de ino­va­ções que pre­sen­ci­a­mos não se com­pa­ra àque­le vivi­do no fim do sécu­lo 19 e iní­cio do sécu­lo 20 – quan­do o mun­do assis­tiu ao extra­or­di­ná­rio avan­ço repre­sen­ta­do pela cri­a­ção da indús­tria do auto­mó­vel, da side­rur­gia, do petró­leo, das tele­co­mu­ni­ca­ções, da ener­gia elé­tri­ca, da refri­ge­ra­ção, das cam­pa­nhas de vaci­na­ção, do cine­ma, da trans­mis­são por rádio e das fer­ro­vi­as. Na ver­da­de, o atu­al ciclo de ino­va­ções não pode sequer ser com­pa­ra­do ao que suce­deu o fim da segun­da guer­ra, que nos legou a cri­a­ção da soci­e­da­de de con­su­mo de mas­sas, com a che­ga­da da TV, do ar-con­di­ci­o­na­do, da moder­na cons­tru­ção civil, dos ele­tro­do­més­ti­cos, da diver­si­fi­ca­ção do sis­te­ma finan­cei­ro, do chip, do com­pu­ta­dor.

   Basi­ca­men­te, vive­mos um ciclo de ino­va­ções base­a­do na trans­mu­ta­ção de negó­ci­os cri­a­dos a par­tir da pers­pec­ti­va do pós-guer­ra no sécu­lo 20 para novos padrões deri­va­dos da digi­ta­li­za­ção. A rigor, temos uma onda ino­va­do­ra que se des­do­bra a par­tir da inter­net – ino­va­ção pen­sa­da e ini­ci­a­da jus­ta­men­te no pós-guer­ra, como pro­du­to de segu­ran­ça mili­tar coor­de­na­do pelo exér­ci­to em par­ce­ria com as uni­ver­si­da­des nos EUA – e que encon­trou no smartpho­ne a pla­ta­for­ma ide­al para a cri­a­ção de solu­ções e idei­as que extra­em valor de elos e par­tes ine­fi­ci­en­tes exis­ten­tes em negó­ci­os incum­ben­tes e tra­di­ci­o­nais. Cla­ro que a cri­a­ção de empre­sas base­a­das em pla­ta­for­mas digi­tais traz inqui­e­ta­ção e des­con­for­to ao mer­ca­do, ao mes­mo tem­po em que influ­en­cia e recon­di­ci­o­na alte­ra­ções no com­por­ta­men­to do con­su­mi­dor. O fato é que a gran­de novi­da­de tra­zi­da pelos negó­ci­os digi­tais e pelas novas for­mas de comu­ni­ca­ção foi jus­ta­men­te o empo­de­ra­men­to do con­su­mi­dor. Ele tem mais voz, conec­ta-se em rede com outros con­su­mi­do­res, pro­duz con­teú­do, uti­li­za diver­sos canais para se comu­ni­car e comen­tar suas impres­sões sobre pro­du­tos e ser­vi­ços. Não por aca­so, mui­tas das meto­do­lo­gi­as usa­das pelas empre­sas para cri­ar ino­va­ção par­tem da pre­mis­sa de que o con­su­mi­dor está no cen­tro e é a par­tir dele que se dese­nham lan­ça­men­tos e dis­rup­ções.

   Com a digi­ta­li­za­ção, outros fenô­me­nos ganha­ram ter­re­no fér­til para se repro­du­zir: a ace­le­ra­ção que nos faz viver de modo mais veloz e nos con­di­ci­o­na a bus­car ati­vi­da­des cada vez mais inten­sas, mes­mo com a pers­pec­ti­va de ter­mos vida mais lon­ga; e a pola­ri­za­ção, que aglu­ti­na pes­so­as, cida­dãos, con­su­mi­do­res em tor­no de polos homo­gê­ne­os, limi­tan­do o deba­te e o exer­cí­cio do con­tra­di­tó­rio como for­ma de cons­truir con­sen­sos e idei­as mais robus­tas. Esses fenô­me­nos, com­bi­na­dos, aca­bam por limi­tar a cri­a­ção de ecos­sis­te­mas de ino­va­ção. Esta­mos no limi­ar de uma era que homo­ge­neí­za a bus­ca por negó­ci­os dife­ren­tes, não neces­sa­ri­a­men­te vin­cu­la­dos a apli­ca­ti­vos ou a outros for­ma­tos digi­tais. Essa homo­ge­nei­da­de se cons­ti­tui na con­cen­tra­ção de pro­du­tos e ser­vi­ços desen­vol­vi­dos por um con­jun­to ínfi­mo de empre­sas, com poder jamais acu­mu­la­do ao lon­go da his­tó­ria. Atu­al­men­te, o Goo­gle res­pon­de por 89% das bus­cas on-line. A Ama­zon res­pon­de por 44% do comér­cio ele­trô­ni­co nos EUA. A Apple e o Goo­gle res­pon­dem por 99% do mer­ca­do de sis­te­mas ope­ra­ci­o­nais para tele­fo­nia móvel. Goo­gle e Face­bo­ok res­pon­dem por 63% do mer­ca­do de pro­pa­gan­da on-line. A Ama­zon detém 75% do mer­ca­do de livros ele­trô­ni­cos. E o Face­bo­ok tem 94% do mer­ca­do de redes soci­ais, com usuá­ri­os regis­tra­dos. Toda essa con­cen­tra­ção eli­mi­na empre­gos e uni­for­mi­za nos­so com­por­ta­men­to digi­tal: com­pra­mos na Ama­zon, faze­mos bus­cas no Goo­gle, cur­ti­mos con­teú­dos no Face­bo­ok e no Ins­ta­gram (que per­ten­ce à empre­sa de Mark Zuc­ker­berg) e nos comu­ni­ca­mos pelo What­sApp (tam­bém par­te do Face­bo­ok), usa­mos os softwa­res da Micro­soft para o tra­ba­lho, o Sky­pe (da mes­ma Micro­soft) para comu­ni­ca­ção e faze­mos down­lo­ads da Apple Sto­re (mais de 175 bilhões em dez anos). Dado esse con­tex­to, a per­gun­ta ine­vi­tá­vel: qual é a ino­va­ção pos­sí­vel fora do con­tro­le ou da influên­cia de GAMFA (Goo­gle, Ama­zon, Micro­soft, Face­bo­ok e Apple)?

   Esse é o dile­ma do ino­va­dor atu­al­men­te: em vez de pen­sar em solu­ções capa­zes de cri­ar novos negó­ci­os, ou apri­mo­rar as empre­sas nas quais tra­ba­lha­mos, fora do âmbi­to digi­tal, os mode­los de negó­ci­os que sur­gem estão for­te­men­te embu­ti­dos nos padrões deli­ne­a­dos pelo poder das Big Techs. Logo, é até pos­sí­vel fazer uma pro­vo­ca­ção e repe­tir o raci­o­cí­nio de Scott Gal­loway, pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de de Nova York e mai­or crí­ti­co do mono­pó­lio das Big Techs, de que vive­mos uma era de “não ino­va­ção”.

   De todo modo, é pre­ci­so reco­nhe­cer que as bases de com­pe­ti­ção estão mudan­do e que nos­so País entra, como é de pra­xe, com atra­so nes­se cam­po. Nes­ta edi­ção, tra­ze­mos nos­so pri­mei­ro ran­king de 100 Empre­sas Ino­va­do­ras, no âmbi­to do Prê­mio Whow! de Ino­va­ção, estu­do mode­la­do com a inte­gra­ção de meto­do­lo­gi­as dese­nha­das pela DOM Stra­tegy Part­ners em par­ce­ria com o Cen­tro de Inte­li­gên­cia Padrão (CIP), e o uso da Inte­li­gên­cia Arti­fi­ci­al da Sti­lin­gue, com ava­li­a­ções de 11 gran­des espe­ci­a­lis­tas do nos­so mer­ca­do. Um esfor­ço notá­vel que será con­ti­nu­a­men­te apri­mo­ra­do ao lon­go dos pró­xi­mos anos, no melhor espí­ri­to que fun­da­men­ta a pro­du­ção das melho­res ino­va­ções. Que­re­mos apoi­ar quem pro­duz ino­va­ção em nos­so País supe­ran­do todas as adver­si­da­des e hos­ti­li­da­des de nos­so mer­ca­do.

   A ino­va­ção não pode ser um pro­ces­so res­tri­to somen­te à cri­a­ção e à mode­la­gem de negó­ci­os base­a­dos nos parâ­me­tros da indús­tria digi­tal. Ela pode e deve ser apli­ca­da como sis­te­ma indu­tor de melho­ri­as e dis­rup­ções em pro­ces­sos, na ges­tão, no desen­vol­vi­men­to de talen­tos e na pro­du­ção de conhe­ci­men­to táci­to que impac­tem mer­ca­dos e até mes­mo as soci­e­da­des. A amos­tra do ran­king das 100 Empre­sas mais Ino­va­do­ras é um belo con­jun­to des­sa diver­si­da­de que carac­te­ri­za a ino­va­ção. É, sobre­tu­do, mais um pas­so na for­ma­ção de um ecos­sis­te­ma real de empre­sas e ins­ti­tui­ções que pro­du­zem idei­as ino­va­do­ras. Quan­to mais puder­mos iden­ti­fi­car, reco­nhe­cer e valo­ri­zar prá­ti­cas e ini­ci­a­ti­vas, sis­te­mas e con­cei­tos, pro­du­tos, pro­ces­sos e ser­vi­ços que tenham DNA ino­va­dor, melhor para o País.

O dile­ma e o desa­fio de quem se pro­põe a ino­var é ir além do feti­che da cri­a­ção de um app. É enten­der que a ino­va­ção é um mode­lo para resol­ver pro­ble­mas. Pois não fal­tam pro­ble­mas para resol­ver­mos em nos­so País, em nos­so mer­ca­do, em nos­sas empre­sas e em nos­sa vida. Ou seja, opor­tu­ni­da­des não fal­tam para quem acre­di­ta no poder da ino­va­ção.

Em vez de pen­sar em solu­ções capa­zes de cri­ar novos negó­ci­os, ou apri­mo­rar as empre­sas nas quais tra­ba­lha­mos, fora do âmbi­to digi­tal, os mode­los de negó­ci­os que sur­gem estão for­te­men­te embu­ti­dos nos padrões deli­ne­a­dos pelo poder das Big Techs”