MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

30 ANOS DA CONS­TI­TUI­ÇÃO FEDE­RAL: COME­MO­RAR?

30 ANOS DA CONS­TI­TUI­ÇÃO FEDE­RAL: COME­MO­RAR?

30 ANOS DA CONS­TI­TUI­ÇÃO FEDE­RAL:

COME­MO­RAR?

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

A Cons­ti­tui­ção abriu uma luz ao reco­nhe­cer que todos os con­su­mi­do­res são vul­ne­rá­veis bem como quan­do esta­be­le­ceu, como um dos prin­cí­pi­os da ordem econô­mi­ca naci­o­nal, a neces­si­da­de de pro­te­gê-los”

   No retum­ban­te dis­cur­so quan­do da pro­mul­ga­ção da Cons­ti­tui­ção Fede­ral em 1988, Ulys­ses Gui­ma­rães fez a seguin­te afir­ma­ção:

   Não é a Cons­ti­tui­ção per­fei­ta. Se fos­se per­fei­ta, seria irre­for­má­vel. Ela pró­pria, com humil­da­de e rea­lis­mo, admi­te ser emen­da­da até por mai­o­ria mais aces­sí­vel, den­tro de cin­co anos. Não é a Cons­ti­tui­ção per­fei­ta, mas será útil e pio­nei­ra e des­bra­va­do­ra. Será luz, ain­da que de lam­pa­ri­na, na noi­te dos des­gra­ça­dos. É cami­nhan­do que se abrem os cami­nhos. Ela vai cami­nhar e abri-los. Será reden­tor o que pene­trar nos bol­sões sujos, escu­ros e igno­ra­dos da misé­ria.

   Pas­sa­dos 30 anos, a per­gun­ta a res­pon­der é: valeu a pena? E pen­san­do nos nos­sos temas de direi­tos difu­sos, a per­gun­ta é mais espe­cí­fi­ca: cami­nha­mos no sen­ti­do da real pro­te­ção dos con­su­mi­do­res e do meio ambi­en­te?

   A Cons­ti­tui­ção abriu uma luz ao reco­nhe­cer que todos os con­su­mi­do­res são vul­ne­rá­veis bem como quan­do esta­be­le­ceu, como um dos prin­cí­pi­os da ordem econô­mi­ca naci­o­nal, a neces­si­da­de de pro­te­gê-los. Para nos­sa Cons­ti­tui­ção, livre ini­ci­a­ti­va empre­sa­ri­al e pro­te­ção dos con­su­mi­do­res são temas que devem ser com­pa­ti­bi­li­za­dos. Não foi por outra razão que, quan­do do cum­pri­men­to do man­da­men­to cons­ti­tu­ci­o­nal de homo­lo­ga­ção de um Códi­go de Defe­sa e Pro­te­ção dos Con­su­mi­do­res (o que ocor­reu em 1990), se fixou que o prin­ci­pal obje­ti­vo da legis­la­ção seria obter a har­mo­nia das rela­ções de con­su­mo. Obje­ti­vo que nun­ca será ple­na­men­te aten­di­do, mas que se tor­nou um parâ­me­tro para nos­sas ações nes­tes 30 anos. Se o con­su­mi­dor hoje é mere­ce­dor de algum res­pei­to é por­que o legis­la­dor cons­ti­tuin­te indi­cou um cami­nho a ser tri­lha­do.

   Por outro lado, a Cons­ti­tui­ção de 1988 ele­geu a pro­te­ção do meio ambi­en­te como uma de suas pri­o­ri­da­des. Par­tin­do do prin­cí­pio de que todos têm direi­to ao meio ambi­en­te eco­lo­gi­ca­men­te equi­li­bra­do e que este é um bem de uso comum do povo e essen­ci­al à sadia qua­li­da­de de vida, fun­dou-se a ideia de que exis­tem bens que devem ser pro­te­gi­dos em nome de toda a soci­e­da­de. Estes seri­am os bens difu­sos, que, por defi­ni­ção, devem ser pro­te­gi­dos inde­pen­den­te­men­te de quem detém a sua pro­pri­e­da­de. E esta pro­te­ção deve se alon­gar para as gera­ções futu­ras. Nós não temos o direi­to de não per­mi­tir que as gera­ções futu­ras pos­sam exis­tir dig­na­men­te. Esta deve ser nos­sa lam­pa­ri­na.

   Pro­te­ção dos vul­ne­rá­veis, dever de todos nós pro­te­ger­mos o meio ambi­en­te e garan­tia de uma vida dig­na para as gera­ções futu­ras: a par­tir des­tas idei­as, fun­da­das por nos­sa Cons­ti­tui­ção Fede­ral de 1988, o cami­nho tri­lha­do nes­tes 30 anos foram mui­to recom­pen­sa­do­res. Só tor­ce­mos para que não sur­jam retor­nos nes­ta nos­sa estra­da.

   Para ser o máxi­mo trans­pa­ren­te nas res­pos­tas que dou às ques­tões ini­ci­al­men­te for­mu­la­das, pre­ci­so mos­trar meu pon­to de par­ti­da, minha visão des­te mun­do. Para tan­to, uti­li­zo-me da poe­sia de Mano­el de Bar­ros:

Dou res­pei­to às coi­sas desim­por­tan­tes
E aos seres desim­por­tan­tes.
Pre­zo inse­tos mais que aviões.
Pre­zo a velo­ci­da­de
das tar­ta­ru­gas mais que a dos mís­seis.
Tenho em mim um atra­so de nas­cen­ça.
Eu fui apa­re­lha­do
Para gos­tar de pas­sa­ri­nhos.

   Vamos con­ti­nu­ar cami­nhan­do para abrir os cami­nhos.

A Cons­ti­tui­ção abriu uma luz ao reco­nhe­cer que todos os con­su­mi­do­res são vul­ne­rá­veis bem como quan­do esta­be­le­ceu, como um dos prin­cí­pi­os da ordem econô­mi­ca naci­o­nal, a neces­si­da­de de pro­te­gê-los”