A AURO­RA DO
PÓS-CON­SU­MI­DOR

POR ROBER­TO MEIR

   Sen­ti­men­tos con­tra­di­tó­ri­os não são exa­ta­men­te uma novi­da­de quan­do nos dedi­ca­mos a estu­dar o com­por­ta­men­to huma­no. Opo­si­ções entre razão e emo­ção, tris­te­za e ale­gria, con­fi­an­ça e des­cren­ça sem­pre fize­ram par­te da his­tó­ria dos homens e das soci­e­da­des. O fato é que esses con­tras­tes cola­bo­ra­ram para que a nos­sa espé­cie con­se­guis­se desen­vol­ver a cha­ve-mes­tra de sua evo­lu­ção: a capa­ci­da­de de atu­ar em rede, de cola­bo­rar e dis­se­mi­nar mudan­ças que impul­si­o­na­ram a huma­ni­da­de para sal­tos adi­an­te.

   Ain­da assim é curi­o­so veri­fi­car como nes­ses tem­pos ári­dos, em que nos­so País dis­cu­te seu futu­ro com desa­len­to e frus­tra­ção, o com­por­ta­men­to de nos­sa juven­tu­de se esco­ra em dois extre­mos pra­ti­ca­men­te incon­ci­liá­veis: mudan­ça e segu­ran­ça.

   Este é o retra­to para­do­xal que emer­ge do estu­do “Jovens Trans­for­ma­do­res” que publi­ca­mos nes­ta edi­ção de Con­su­mi­dor Moder­no e que ilu­mi­nou uma série de carac­te­rís­ti­cas que for­mam o uni­ver­so mai­or do pós-con­su­mi­dor. Nos­sos jovens que­rem a segu­ran­ça de uma casa pró­pria, um car­ro e pla­no de saú­de. Ao mes­mo tem­po, acre­di­tam nos prin­cí­pi­os ide­a­li­za­dos da eco­no­mia com­par­ti­lha­da como for­ma de tra­zer mais sig­ni­fi­ca­dos aos negó­ci­os de manei­ra geral. Usam inten­sa­men­te a inter­net em bus­ca de con­teú­do, par­ti­cu­lar­men­te víde­os, mas usam a rede com dis­cri­ção em tran­sa­ções e com­pras. São van­guar­dis­tas com as ques­tões de gêne­ro e diver­si­da­de, mas cio­sos de sua pri­va­ci­da­de.
Pro­je­tan­do essas variá­veis em uma pers­pec­ti­va mais ampla, há com­por­ta­men­tos e ati­tu­des des­ses jovens que se repli­cam em outras per­so­nas e seg­men­tos for­man­do um con­tin­gen­te mais homo­gê­neo de con­su­mi­do­res. Nota­da­men­te arre­di­os à buro­cra­cia, incle­men­tes com a per­da de tem­po, iras­cí­veis com a fal­ta de infor­ma­ção, esse gru­po mai­or englo­ba con­su­mi­do­res de todas as ida­des, qua­se todas as fai­xas de ren­da e ambi­en­tes demo­grá­fi­cos. Este é o con­tex­to que res­pal­da a auro­ra do pós-con­su­mi­dor. Mais do que uma ten­dên­cia iso­la­da, fala­mos aqui de um con­tin­gen­te com imen­so poten­ci­al dis­rup­ti­vo não só no con­su­mo, mas tam­bém na soci­e­da­de e até mes­mo na polí­ti­ca.

   A con­tra­di­ção e os extre­mis­mos fazem par­te da essên­cia do pós-con­su­mi­dor. Ele refle­te diver­sas for­mas de inqui­e­ta­ção típi­cas de um cená­rio de mudan­ça e con­tro­vér­sia como o que pre­sen­ci­a­mos atu­al­men­te. O sen­ti­men­to de pola­ri­za­ção, a bus­ca por sig­ni­fi­ca­do, trans­pa­rên­cia, opor­tu­ni­da­des e flui­dez se com­bi­nam para emu­lar novos mode­los de negó­cio, novos graus de exi­gên­cia nos rela­ci­o­na­men­tos e tran­sa­ções com as empre­sas, sem­pre em fun­ção de uma ânsia por segu­ran­ça e por mudan­ça.

   Até que pon­to nos­so mer­ca­do é capaz de res­pon­der a este novo e pro­vo­ca­dor movi­men­to nas rela­ções de con­su­mo? É impor­tan­te com­pre­en­der que o pós-con­su­mi­dor não é um fenô­me­no iso­la­do e pas­sa­gei­ro. Antes, tra­ta-se de uma onda pode­ro­sa que tem poten­ci­al para des­cons­truir as bases de orga­ni­za­ção do mer­ca­do, pul­ve­ri­zan­do noções estan­ques de seg­men­ta­ção e levan­ta­men­to de per­fis de cli­en­tes. O pós-con­su­mi­dor é trans­ver­sal às gera­ções, e apre­sen­ta um con­jun­to de valo­res e visões de mun­do que ampli­am as pos­si­bi­li­da­des de orga­ni­za­ção soci­al, o fun­ci­o­na­men­to das demo­cra­ci­as, do mer­ca­do de tra­ba­lho e a dinâ­mi­ca de esco­lha, pre­fe­rên­cia e deci­são de com­pra. Jus­ta­men­te por­que é mais com­ple­xo, mais impre­vi­sí­vel, mais pode­ro­so por con­ta de sua ade­são irres­tri­ta às pla­ta­for­mas digi­tais de comu­ni­ca­ção, pro­du­zin­do e reco­men­dan­do idei­as, empre­sas, mar­cas e pro­du­tos, o pós-con­su­mi­dor une extre­mos e acha­ta os meca­nis­mos tra­di­ci­o­nais de rela­ci­o­na­men­to. Publi­ci­da­de, por exem­plo, dei­xa de ser uma esco­lha, sal­vo quan­do com­bi­na­da com con­teú­do rele­van­te. Cura­do­ria, iden­ti­fi­ca­ção de novos códi­gos de comu­ni­ca­ção, remo­de­la­ção do espa­ço cor­po­ra­ti­vo, do ambi­en­te de loja (que pode nem ser de lon­ge seme­lhan­te à loja que conhe­ce­mos), reper­cus­são e dis­se­mi­na­ção de idei­as e cau­sas por redes inter­co­nec­ta­das fazem da infor­ma­ção a heroí­na dos novos tem­pos. Ao mes­mo tem­po, a incer­te­za deri­va­da da digi­ta­li­za­ção, com o adven­to e a popu­la­ri­za­ção das IAs e dos robôs, cria angús­ti­as que movem as pes­so­as a vive­rem com inten­si­da­de nun­ca expe­ri­men­ta­da.

   Isso sig­ni­fi­ca que temos tra­ba­lho pela fren­te. As empre­sas defi­ni­ti­va­men­te pre­ci­sam se cons­ci­en­ti­zar de que per­ma­ne­cer em com­pas­so de espe­ra não é opção. Olhar para o esta­do de coi­sas em nos­so País, onde uma clas­se polí­ti­ca olha e valo­ri­za o pas­sa­do, é somen­te mais um pas­so no cami­nho do abis­mo da irre­le­vân­cia e da per­da maci­ça de opor­tu­ni­da­des. O pós-con­su­mi­dor pode tra­zer dúvi­das e inqui­e­ta­ções, mas é uma for­ça capaz de fazer nos­so mer­ca­do e nos­sa soci­e­da­de evo­luí­rem de manei­ra mais vir­tu­o­sa, mais ino­va­do­ra e subs­tan­ci­al­men­te mais ínte­gra.

   Que a auro­ra do pós-con­su­mi­dor seja tam­bém o rai­ar de um novo e pro­mis­sor momen­to para todos nós.

Nota­da­men­te arre­di­os à buro­cra­cia, incle­men­tes com a per­da de tem­po, iras­cí­veis com a fal­ta de infor­ma­ção, esse gru­po mai­or englo­ba con­su­mi­do­res de todas as ida­des, qua­se todas as fai­xas de ren­da e ambi­en­tes demo­grá­fi­cos”