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A hora e a vez da casa-escri­tó­rio

O home offi­ce muda a for­ma como mora­mos, nos loco­mo­ve­mos e pen­sa­mos em segu­ran­ça digi­tal. Conhe­ça os impac­tos do novo nor­mal com o tele­tra­ba­lho
POR LEO­NAR­DO GUI­MA­RÃES

refle­xão sobre o futu­ro tem sido um exer­cí­cio diá­rio em tem­pos de dis­tan­ci­a­men­to soci­al. Mui­ta gen­te se per­gun­ta sobre o que vai acon­te­cer quan­do final­men­te nos livrar­mos das amar­ras impos­tas por esse ser invi­sí­vel cha­ma­do Covid-19.
Não há res­pos­tas segu­ras nes­te momen­to. No entan­to, uma das pou­cas cer­te­zas é que vol­ta­re­mos com uma outra men­ta­li­da­de quan­do o assun­to é o tra­ba­lho. Apren­de­mos, mui­tas vezes às duras penas, a usar softwa­res de tele­con­fe­rên­cia e apren­de­mos a exe­cu­tar ati­vi­da­des pro­fis­si­o­nais sem a super­vi­são de um supe­ri­or hie­rár­qui­co – ou qua­se. Entra­mos defi­ni­ti­va­men­te na era do tra­ba­lho remo­to ou home offi­ce.
Levan­ta­men­to

   Um recen­te estu­do apon­ta que o tra­ba­lho remo­to deve cres­cer 30% e se tor­nar, rapi­da­men­te, algo recor­ren­te para mui­tas empre­sas. A con­clu­são está em um estu­do pro­du­zi­do por André Mice­li, dire­tor exe­cu­ti­vo da Info­ba­se e coor­de­na­dor do MBA em Mar­ke­ting, Inte­li­gên­cia de Negó­ci­os Digi­tais da Fun­da­ção Getu­lio Var­gas (FGV).  

   Mais do que uma sim­ples mudan­ça no lugar de tra­ba­lho, o home offi­ce deve tra­zer impac­tos em vári­os aspec­tos da vida das pes­so­as e dos seto­res econô­mi­cos. O modo de tra­ba­lhar e os hábi­tos em casa nun­ca mais serão os mes­mos.  

   Para o pro­fes­sor da FGV, a ado­ção do tra­ba­lho em casa foi a prin­ci­pal mudan­ça nas orga­ni­za­ções duran­te a pan­de­mia e é um cami­nho sem vol­ta. Uma vez que as empre­sas expe­ri­men­ta­ram – ain­da que de manei­ra for­ça­da –, mui­tas não vão vol­tar ao mode­lo tra­di­ci­o­nal.  

   “Nos­so enten­di­men­to é que, logo após a aber­tu­ra, algu­mas empre­sas ain­da vão pre­ci­sar man­ter o home offi­ce por uma ques­tão de reco­men­da­ção de dis­tan­ci­a­men­to soci­al, não do iso­la­men­to como a gen­te vive hoje. Quan­do as empre­sas vol­ta­rem, será com áre­as de refei­tó­rio fecha­das, com deman­das de espa­ço entre os fun­ci­o­ná­ri­os que vão impe­dir que todos vol­tem ao mes­mo tem­po”, afir­ma Mice­li.  

   Um levan­ta­men­to do Bos­ton Con­sul­ting Group (BCG), em con­jun­to com o Bure­au of Labor Sta­tis­tics, dos Esta­dos Uni­dos, dá uma esti­ma­ti­va do tama­nho des­se movi­men­to. O estu­do pre­vê que mais de 300 milhões de pes­so­as ao redor do mun­do este­jam tra­ba­lhan­do remo­ta­men­te devi­do à pan­de­mia da COVID-19.   

   A doen­ça não foi o que gerou a ten­dên­cia do tele­tra­ba­lho, mas a ace­le­rou seve­ra­men­te, segun­do Manu­el Luiz, sócio e dire­tor exe­cu­ti­vo do BCG. “As empre­sas come­ça­vam a se adap­tar len­ta­men­te a isso. Mas, com o sur­gi­men­to do novo coro­na­ví­rus e as impo­si­ções de iso­la­men­to soci­al, as com­pa­nhi­as que ape­nas tes­ta­vam o home offi­ce de for­ma pre­li­mi­nar rapi­da­men­te foram for­ça­das a colo­car a solu­ção em esca­la. O que era uma expe­ri­ên­cia pas­sou a ser o novo nor­mal ago­ra”, expli­ca.

Con­fi­an­ça Digi­tal

   Em um momen­to de implan­ta­ção do que deve ser o futu­ro do tra­ba­lho, ganha for­ça um con­cei­to que fala sobre as rela­ções medi­a­das por um dis­po­si­ti­vo: a con­fi­an­ça digi­tal. “Enxer­go difi­cul­da­de nas novas rela­ções. Se hoje eu abor­do um cli­en­te que não me conhe­ce e que­ro esta­be­le­cer uma rela­ção com ele, mas ele não con­fia em mim, pre­ci­so falar quão efi­ci­en­te sou tra­ba­lhan­do de casa”, afir­ma o exe­cu­ti­vo do BCG

   Para ele, a cha­ve para a cri­a­ção de con­fi­an­ça digi­tal é a expe­ri­men­ta­ção. É pre­ci­so dar um voto de con­fi­an­ça para a outra par­te pro­var que é capaz de entre­gar o que foi pro­me­ti­do. “Tem mui­to a ver com nos habi­tu­ar­mos e acei­tar­mos que daqui para fren­te será assim, e dar­mos o bene­fí­cio da dúvi­da para a outra par­te”, com­ple­ta Luiz.  

   Na prá­ti­ca, já exis­tem pos­sí­veis cami­nhos sen­do tri­lha­dos. A ope­ra­ção do ban­co BMG, por exem­plo, está apos­tan­do na cri­a­ção de con­fi­an­ça digi­tal com os cli­en­tes. A pre­vi­são é que, depois da cri­se, ape­nas 40% dos cola­bo­ra­do­res tra­ba­lhem nos escri­tó­ri­os. A ins­ti­tui­ção finan­cei­ra pre­ten­de mos­trar ao públi­co que tem a capa­ci­da­de de ope­rar com alta per­for­man­ce com seus fun­ci­o­ná­ri­os em casa. 

   “A gen­te se enqua­dra mui­to bem nes­sa esta­tís­ti­ca da FGV”, diz Ale­xan­dre Winandy, dire­tor de Trans­for­ma­ção Orga­ni­za­ci­o­nal do BMG, lem­bran­do do estu­do que esti­ma cres­ci­men­to de 30% na ade­são ao tele­tra­ba­lho. “Hoje, 96% do pes­so­al do admi­nis­tra­ti­vo está tra­ba­lhan­do de casa. Nos­so pla­no é vol­tar já com um mode­lo de home offi­ce.”  

   Com o tra­ba­lho remo­to, a ges­tão da ino­va­ção pode se tor­nar um desa­fio. Afi­nal, as pes­so­as não estão mais jun­tas fisi­ca­men­te em ambi­en­tes de des­com­pres­são pro­je­ta­dos para pro­vo­car a ino­va­ção. Para dri­blar o pro­ble­ma, o BMG lan­çou um apli­ca­ti­vo em que os cola­bo­ra­do­res man­dam suas suges­tões para redu­ção de cus­tos, moder­ni­za­ção da ope­ra­ção e aumen­to da recei­ta da empre­sa.  

 O Ide­a­li­ze, como foi bati­za­do o app, foi desen­vol­vi­do em um fim de sema­na e obri­ga o fun­ci­o­ná­rio a se jun­tar a pelo menos duas pes­so­as para cadas­trar uma ideia. Mais de 150 suges­tões já foram regis­tra­das na pla­ta­for­ma.  

Refle­xos por todos os lados

   Ter mais pes­so­as tra­ba­lhan­do de casa pode cau­sar ain­da impac­tos sig­ni­fi­ca­ti­vos na ocu­pa­ção de imó­veis resi­den­ci­ais e comer­ci­ais, na mobi­li­da­de urba­na, no mer­ca­do de ciber­se­gu­ran­ça e na ges­tão inter­na das empre­sas.   

   Nes­te momen­to, as com­pa­nhi­as estão tate­an­do o futu­ro, se esfor­çan­do para enten­der como essa ten­dên­cia vai impac­tar seus negó­ci­os.   

   A mon­ta­do­ra FCA, por exem­plo, con­tra­tou um gru­po de antro­pó­lo­gos para com­pre­en­der qual será o novo nor­mal pós-pan­de­mia. Já a incor­po­ra­do­ra e cons­tru­to­ra Cyre­la cor­re para oti­mi­zar a expe­ri­ên­cia de com­pra onli­ne dos empre­en­di­men­tos por enten­der que a deman­da pelo digi­tal é o com­por­ta­men­to natu­ral dos con­su­mi­do­res duran­te o iso­la­men­to. A cons­tru­to­ra fez, inclu­si­ve, um even­to de entre­ga vir­tu­al de um empre­en­di­men­to.   

   Na cons­tru­to­ra MRV, impac­tos den­tro e fora da empre­sa estão sen­do estu­da­dos. “Esta­mos em um pro­ces­so de estu­do para a cri­a­ção de um mode­lo que enten­de­mos que será um híbri­do de home offi­ce e tra­ba­lho den­tro do escri­tó­rio”, con­ta Junia Gal­vão, dire­to­ra exe­cu­ti­va do Cen­tro de Ser­vi­ços Com­par­ti­lha­dos (CSC) da MRV.  

   A cons­tru­to­ra che­gou a ter somen­te 15% de sua mão de obra em escri­tó­ri­os e obser­vou alta pro­du­ti­vi­da­de, mes­mo com a mai­o­ria de seus cola­bo­ra­do­res tra­ba­lhan­do a dis­tân­cia. Junia con­ta que a lide­ran­ça da empre­sa vem colo­can­do esfor­ços na tare­fa de enten­der como o setor será impac­ta­do após a cri­se. 

 

OS PRO­JE­TOS DE ARQUI­TE­TU­RA INTER­NA DOS IMÓ­VEIS VÃO SOFRER ALTE­RA­ÇÕES. VOCÊ VAI PRE­CI­SAR TER ESPA­ÇO PARA O FILHO ESTU­DAR E PARA O CASAL TRA­BA­LHAR AO MES­MO TEM­PO, DE FOR­MA ORGA­NI­ZA­DA.”
JUNIA GAL­VÃO, DA MRV

Ten­dên­cia anti­ga

Estu­dos fei­tos antes da cri­se já mos­tra­vam que o home offi­ce era uma ten­dên­cia mun­di­al mui­to impor­tan­te para empre­sas de vári­os seto­res.

Uma pes­qui­sa glo­bal da con­sul­to­ria de recru­ta­men­to  Hays  já com­pro­va­va o avan­ço do tra­ba­lho remo­to no mun­do. Em 2017, 35% das orga­ni­za­ções per­mi­ti­am que seus fun­ci­o­ná­ri­os tra­ba­lhas­sem a dis­tân­cia. Em 2018, esse núme­ro subiu para 51%.   

   Em outro levan­ta­men­to, com 1.121 pro­fis­si­o­nais que tra­ba­lham em peque­nas e médi­as empre­sas no Bra­sil fei­to pela  Con­ve­nia, star­tup com solu­ções para auto­ma­ti­za­ção do depar­ta­men­to pes­so­al, e a Ahgo­ra, que ofe­re­ce solu­ções em nuvem para ges­tão de pes­so­as e con­tro­le de aces­so, 36,5% dos res­pon­den­tes afir­ma­ram que as empre­sas onde tra­ba­lha­vam tinham polí­ti­ca de tra­ba­lho remo­to.  

   Outra par­ce­la dos par­ti­ci­pan­tes da pes­qui­sa – 58,8% – gos­ta­ria de atu­ar no for­ma­to home offi­ce e, de acor­do com 47,5% deles, a empre­sa em que tra­ba­lha­vam pre­ten­dia imple­men­tar a polí­ti­ca de tra­ba­lho remo­to. Esti­mar que ao menos a mai­o­ria des­sas empre­sas implan­tou o home offi­ce nos últi­mos dois meses é, no míni­mo, segu­ro.  

   Outra pes­qui­sa da Hays, de 2019, mos­tra­va que o tra­ba­lho à dis­tân­cia esta­va entre os cin­co bene­fí­ci­os mais valo­ri­za­dos pelos cola­bo­ra­do­res. Mais da meta­de, (53%) dos res­pon­den­tes, citou o tra­ba­lho remo­to como obje­to de dese­jo.  

  Ou seja, assim como outras ten­dên­ci­as que já inte­gram o novo nor­mal, a ten­dên­cia do home offi­ce não foi cri­a­da pela pan­de­mia da COVID-19, mas foi ace­le­ra­da pelas polí­ti­cas de iso­la­men­to soci­al.

   Com mais pes­so­as tra­ba­lhan­do de casa, o jei­to como ocu­pa­mos imó­veis comer­ci­ais e resi­den­ci­ais tam­bém muda­rá radi­cal­men­te. No lado cor­po­ra­ti­vo, dimi­nui a neces­si­da­de de gran­des escri­tó­ri­os. Já os empre­en­di­men­tos resi­den­ci­ais devem dar mai­or ênfa­se a espa­ços de tra­ba­lho.  

   Os cola­bo­ra­do­res pre­ci­sa­rão de um equi­lí­brio sau­dá­vel: um bom ambi­en­te de tra­ba­lho em casa e escri­tó­ri­os efi­ci­en­tes quan­do for neces­sá­rio jun­to com seus cole­gas. Nes­se cená­rio, uma ten­dên­cia que se des­ta­ca por unir o resi­den­ci­al ao cor­po­ra­ti­vo é o cowor­king nos con­do­mí­ni­os.  

   Assim como a mai­o­ria das ten­dên­ci­as do novo nor­mal, a cri­a­ção de espa­ços de tra­ba­lho cole­ti­vos em con­do­mí­ni­os resi­den­ci­ais já era um movi­men­to pre­vis­to pelo setor. Algu­mas empre­sas já tes­ta­vam ou come­ça­vam a implan­tar a solu­ção em seus empre­en­di­men­tos. Ago­ra, o movi­men­to é ace­le­ra­do. 

  Gran­de exem­plo des­sa ace­le­ra­ção pode ser encon­tra­do na Tec­ni­sa. Todos os lan­ça­men­tos da cons­tru­to­ra daqui para fren­te terão cowor­kings. A empre­sa iden­ti­fi­cou a opor­tu­ni­da­de de ino­var falan­do com os con­su­mi­do­res.   

   “O cowor­king pas­sa a ser um local mui­to dese­ja­do, e essa é uma neces­si­da­de pós-pan­de­mia. Nos­sa área comer­ci­al sina­li­zou que havia deman­da dos cli­en­tes por isso e ime­di­a­ta­men­te dis­pa­ra­mos pes­qui­sas”, con­ta Romeo Busa­rel­lo, dire­tor de Mar­ke­ting e Trans­for­ma­ção Digi­tal da Tec­ni­sa.  

   Pri­mei­ro foi fei­ta uma per­gun­ta indu­ti­va, ques­ti­o­nan­do sobre a apro­va­ção dos cli­en­tes aos espa­ços: 95% dis­se­ram apro­var os cowor­kings. Depois, em uma per­gun­ta aber­ta, cer­ca de 30% dos entre­vis­ta­dos afir­ma­ram que esses espa­ços deve­ri­am estar nas áre­as comuns dos con­do­mí­ni­os. 

 

 

ENTRE 2005 E 2009 ENTRE­GA­MOS ÁRE­AS DE HOME OFFI­CE EM VÁRI­OS PRO­DU­TOS ENTRE 70 M² E 120 M². NA ÉPO­CA DE NOTE­BO­OKS, VOCÊ NÃO PRE­CI­SA MAIS DE TAN­TO ESPA­ÇO. HOJE, VOCÊ PRE­CI­SA DE UM ESPA­ÇO COM­PAR­TI­LHA­DO.”

ROMEO BUSA­REL­LO, DA TEC­NI­SA

   A par­tir de outu­bro, os empre­en­di­men­tos da Tec­ni­sa come­çam a ser entre­gues com os espa­ços com­par­ti­lha­dos. Serão cons­truí­das dez esta­ções de tra­ba­lho a cada cem uni­da­des de mora­dia. “Nun­ca ima­gi­ná­va­mos que tería­mos cowor­kings em nos­sos empre­en­di­men­tos”, afir­ma Busa­rel­lo. Mas, em tem­pos de cri­se, mui­ta coi­sa muda: “Com a pan­de­mia, não esta­mos hesi­tan­do. É isso que vamos fazer, não tem mais retor­no.”  

   A MRV já tes­ta­va essa solu­ção atra­vés da Lug­go, sua star­tup que alu­ga as mora­di­as de empre­en­di­men­tos cons­truí­dos espe­ci­fi­ca­men­te para isso. Ago­ra, o que era um tes­te vai virar rea­li­da­de. A cons­tru­to­ra minei­ra já pen­sa em colo­car cowor­kings nos pro­je­tos que estão sen­do dese­nha­dos.   

   “É impor­tan­te lem­brar que pre­ci­sa­mos pen­sar em lon­go pra­zo quan­do fala­mos da cons­tru­ção civil. A buro­cra­cia nos enges­sa um pou­co. Esta­mos fazen­do um exer­cí­cio para enten­der como será esse novo pro­du­to, mas já sabe­mos que vamos pre­ci­sar mudar”, expli­ca Junia Gal­vão.  

Lares tur­bi­na­dos

   Ain­da que a ideia de tra­ba­lhar em um espa­ço com­par­ti­lha­do den­tro de seu pró­prio con­do­mí­nio deva ganhar adep­tos nos pró­xi­mos meses, pen­sar na infra­es­tru­tu­ra den­tro das casas tam­bém será impor­tan­te para quem vai come­çar a tra­ba­lhar a dis­tân­cia.  Um dos pro­je­tos que tem obras em anda­men­to da Cyre­la já con­ta com o con­cei­to de Smart home, com toma­das altas para ins­ta­la­ção de câme­ras, infra­es­tru­tu­ra para oti­mi­za­ção do Wi-Fi e toma­das USB nos quar­tos.   

   “Acre­di­ta­mos que mui­tos (dos cli­en­tes da empre­sa) estão pen­san­do em peque­nas refor­mas den­tro de casa, para se adap­tar à nova rea­li­da­de”, diz Caro­li­ne Mathi­as, head de Rela­ci­o­na­men­to com o  Con­su­mi­dor da Cyre­la. 

   “Os pro­je­tos de arqui­te­tu­ra inter­na dos imó­veis vão sofrer alte­ra­ções. Você vai pre­ci­sar ter espa­ço para o filho estu­dar e para o casal tra­ba­lhar ao mes­mo tem­po, de for­ma orga­ni­za­da. Uma coi­sa é ter essa prá­ti­ca even­tu­al­men­te, outra é quan­do isso vira o novo nor­mal. O home offi­ce vai mudar a dis­tri­bui­ção inter­na dos imó­veis”, afir­ma Junia Gal­vão, da MRV.   

   Já a Tec­ni­sa apos­ta pra­ti­ca­men­te todas as suas fichas nos espa­ços com­par­ti­lha­dos. Entre 2005 e 2009, entre­ga­mos áre­as de home offi­ce em vári­os pro­du­tos entre 70 m² e 120 m². Criá­va­mos um layout com pre­vi­são de ins­ta­la­ção de CPU, tecla­do, pai­nel de tubo e pare­de com pra­te­lei­ra de livros. Na épo­ca de note­bo­oks, você não pre­ci­sa mais de tan­to espa­ço. E antes você tra­ba­lha­va soli­ta­ri­a­men­te. Hoje, você pre­ci­sa de um espa­ço com­par­ti­lha­do”, jus­ti­fi­ca Romeo Busa­rel­lo. 

Idas e vin­das

   Com o iso­la­men­to soci­al, a mobi­li­da­de urba­na tam­bém se trans­for­mou. O exem­plo chi­nês da redu­ção em 25% na emis­são de car­bo­no mos­tra a influên­cia do lock­down na manei­ra como as pes­so­as se des­lo­cam – ou dei­xam de se des­lo­car.  

   Mas o que é impor­tan­te para mon­ta­do­ras, empre­sas de alu­guel de car­ros e apli­ca­ti­vos de trans­por­te enten­der é como se dará o des­lo­ca­men­to das pes­so­as depois do fim do iso­la­men­to soci­al.   

   É algo difí­cil de ser pre­vis­to, mas o que as empre­sas espe­ram é um aumen­to da pro­cu­ra pelos car­ros. Quem tem con­di­ções de não usar os sis­te­mas públi­cos de trans­por­te deve dar aos auto­mó­veis pre­fe­rên­cia em níveis ain­da mai­o­res na com­pa­ra­ção com o pata­mar pré-cri­se. A esco­lha é jus­ti­fi­ca­da pelo medo de con­trair a doen­ça que está paran­do o mun­do.   

   O Waze, ana­li­san­do o com­por­ta­men­to de sua comu­ni­da­de – for­ma­da por edi­to­res de mapas, beta-tes­ters e usuá­ri­os do Waze Car­po­ol –, esti­ma que a esco­lha pelos car­ros deve ser óbvia e rápi­da depois da pan­de­mia.   

ouça aqui a entre­vis­ta com Pau­lo Caso­ni, dire­tor de Tran­sa­ções da JLL, empre­sa inter­na­ci­o­nal de con­sul­to­ria imo­bi­lá­ria comer­ci­al

   “As pes­so­as sen­tem fal­ta de diri­gir, de sair. Assim, quan­do o iso­la­men­to soci­al ter­mi­nar, a expec­ta­ti­va é que vere­mos as pes­so­as de vol­ta às ruas, às estra­das. Ain­da é pro­vá­vel uma mai­or esco­lha pelo car­ro, se con­si­de­rar que a ten­dên­cia é que as pes­so­as evi­tem o trans­por­te públi­co lota­do por um tem­po”, ana­li­sa Fla­via Rosá­rio, head de Con­su­mer Mar­ke­ting do Waze.   

   Já para Bre­no Kamei, dire­tor de Port­fó­lio, Pes­qui­sa e Inte­li­gên­cia Com­pe­ti­ti­va da FCA, as mudan­ças que obser­va­mos ago­ra são impor­tan­tes, mas não per­ma­nen­tes: “Quan­do olha­mos para esse momen­to em que esta­mos viven­do, vemos algu­mas fases tran­si­tó­ri­as até vol­tar à nor­ma­li­da­de. O impac­to já fei­to foi ime­di­a­to. Depois, gra­du­al­men­te, vamos recu­pe­ran­do a nor­ma­li­da­de.” 

   A pan­de­mia deve gerar nos con­su­mi­do­res um olhar mais aten­to a ques­tões de higi­e­ne. Por isso, Kamei pre­vê que as mon­ta­do­ras pre­ci­sa­rão fazer algu­mas adap­ta­ções nos car­ros, como a ado­ção de fil­tros de ar mais robus­tos e outros aces­só­ri­os que pri­vi­le­gi­em a lim­pe­za e a manu­ten­ção dos veí­cu­los.   

   De olho nes­sa nova deman­da do con­su­mi­dor, a Ford lan­çou um ser­vi­ço de desin­fec­ção de veí­cu­los da mar­ca. A empre­sa está usan­do um desin­fe­tan­te de apli­ca­ção hos­pi­ta­lar desen­vol­vi­do pela 3M.  

   “Vemos os cená­ri­os futu­ros com cau­te­la, dada a dimen­são do momen­to que esta­mos viven­ci­an­do. Acre­di­ta­mos que o anseio pela mobi­li­da­de con­ti­nu­a­rá sen­do uma neces­si­da­de pri­má­ria das pes­so­as e a estru­tu­ra urba­na, em um con­tex­to de tra­ba­lho remo­to e, con­se­quen­te­men­te, menor aglo­me­ra­ção, deve poten­ci­a­li­zar a capa­ci­da­de das cida­des em for­ne­cer um ambi­en­te mais sau­dá­vel, pau­ta­do pela qua­li­da­de de vida”, afir­ma Car­los Sar­quis, head de RAC (Rent a Car) da Uni­das.

Desa­fi­os na segu­ran­ça

   O mer­ca­do de ciber­se­gu­ran­ça tam­bém deve­rá ser afe­ta­do com mais pes­so­as em casa. Com menor vigi­lân­cia duran­te o perío­do de tra­ba­lho e cola­bo­ra­do­res usan­do seus pró­pri­os dis­po­si­ti­vos, a vul­ne­ra­bi­li­da­de a ata­ques ciber­né­ti­cos é mai­or.   

   A Kas­persky, uma das líde­res glo­bais em ciber­se­gu­ran­ça cor­po­ra­ti­va, tem refle­ti­do sobre os peri­gos do bring your own devi­ce, o mode­lo em que os fun­ci­o­ná­ri­os de uma empre­sa tra­ba­lham com seus pró­pri­os dis­po­si­ti­vos.  

   Rober­to Rebou­ças, coun­try mana­ger da empre­sa no Bra­sil, apon­ta a fal­ta de polí­ti­cas para o bring your own devi­ce e a ausên­cia de trei­na­men­to dos cola­bo­ra­do­res como prin­ci­pais desa­fi­os para a segu­ran­ça da infor­ma­ção no tra­ba­lho a dis­tân­cia.   

   Ele ava­lia que a mai­or par­te das empre­sas depen­de da infra­es­tru­tu­ra do fun­ci­o­ná­rio para o tra­ba­lho remo­to. Ter máqui­nas de fora do ambi­en­te cor­po­ra­ti­vo rodan­do pro­gra­mas das empre­sas com aces­sos pri­vi­le­gi­a­dos pode ser o come­ço de um pesa­de­lo para as com­pa­nhi­as.   

   “Não adi­an­ta nada um por­tão enor­me pre­so com um enfor­ca­dor de plás­ti­co. A ciber­se­gu­ran­ça fun­ci­o­na nes­sa mes­ma lógi­ca: a par­tir do momen­to em que um dis­po­si­ti­vo inse­gu­ro é liga­do à rede, você já tem um pro­ble­ma”, expli­ca Rebou­ças. 

   A solu­ção para este tipo de pro­ble­ma come­ça em ofe­re­cer tec­no­lo­gia em nuvem, algo que ain­da não é valo­ri­za­do pelas empre­sas bra­si­lei­ras, segun­do o exe­cu­ti­vo.  

   Outra for­ma de for­ta­le­cer a segu­ran­ça da infor­ma­ção é trei­nar os cola­bo­ra­do­res. “Você vai dar conhe­ci­men­to em segu­ran­ça para seus fun­ci­o­ná­ri­os reco­nhe­ce­rem situ­a­ções em que é neces­sá­rio ter cui­da­do. É um pas­so impor­tan­te por­que a pes­soa não está mais em um ambi­en­te con­tro­la­do”, diz.  

   Manu­el Luiz, sócio e dire­tor exe­cu­ti­vo do BCG, diz per­ce­ber “inves­ti­men­tos sig­ni­fi­ca­ti­vos das empre­sas con­tra ciber­cri­mi­no­sos” ago­ra. A con­sul­to­ria iden­ti­fi­cou um aumen­to de ata­ques que envol­vem publi­ci­da­de sobre dados atu­a­li­za­dos sobre a evo­lu­ção da COVID-19 e solu­ções que redu­zem o con­tá­gio da doen­ça.   

7 Dicas do BCG para man­ter a segu­ran­ça da infor­ma­ção com o tra­ba­lho remo­to

AVA­LI­AR A ESTRU­TU­RA DE TI PARA TRA­BA­LHO REMO­TO  

   As empre­sas devem garan­tir que os cola­bo­ra­do­res pos­su­am dis­po­si­ti­vos ade­qua­dos e que as cone­xões às redes da empre­sa acon­te­çam por meio de redes vir­tu­ais pri­va­das (VPNs). Algu­mas com­pa­nhi­as têm enfren­ta­do gar­ga­los de capa­ci­da­de, devi­do ao rápi­do aumen­to da deman­da.

 

PRO­TE­GER APLI­CA­TI­VOS E DIS­PO­SI­TI­VOS DOS COLA­BO­RA­DO­RES DURAN­TE O TRA­BA­LHO REMO­TO    

   Entre as medi­das ado­ta­das para garan­tir a segu­ran­ça ciber­né­ti­ca das ope­ra­ções, o BCG apon­ta, por exem­plo, a crip­to­gra­fia e ins­ta­la­ção de firewalls nos dis­po­si­ti­vos, a pro­te­ção do aces­so aos sis­te­mas e a veri­fi­ca­ção regu­lar das res­pos­tas aos ata­ques ciber­né­ti­cos.  

 

INCOR­PO­RAR A CIBER­SE­GU­RAN­ÇA NOS PLA­NOS DE CON­TI­NUI­DA­DE DO NEGÓ­CIO 

   Os pla­nos de con­ti­nui­da­de de negó­ci­os devem incluir dis­po­si­ções de segu­ran­ça ciber­né­ti­ca em vári­as dimen­sões, des­de o aces­so em emer­gên­ci­as ao trei­na­men­to de equi­pes, pas­san­do pela comu­ni­ca­ção com os fun­ci­o­ná­ri­os e even­tu­al rea­de­qua­ção de pla­nos. 

 

INFOR­MAR AOS COLA­BO­RA­DO­RES SOBRE OS RIS­COS DE SEGU­RAN­ÇA GERA­DOS PELO TRA­BA­LHO REMO­TO
     
Além das con­si­de­ra­ções téc­ni­cas, o trei­na­men­to em segu­ran­ça ciber­né­ti­ca e as ini­ci­a­ti­vas de cons­ci­en­ti­za­ção são fun­da­men­tais para redu­zir o ris­co de ata­ques.  

 

ESTA­BE­LE­CER PRO­TO­CO­LOS DE TRA­BA­LHO REMO­TO SEGU­ROS  

   A velo­ci­da­de e a esca­la da tran­si­ção para o tra­ba­lho remo­to cri­am vári­os ris­cos de segu­ran­ça para uma orga­ni­za­ção, e o supor­te téc­ni­co é a pri­mei­ra linha de defe­sa.  

 

INCOR­PO­RAR A CIBER­SE­GU­RAN­ÇA NA GES­TÃO DA CRI­SE

   Revi­se os pla­nos de ges­tão de cri­ses ciber­né­ti­cas adap­tan­do-os para as impli­ca­ções de segu­ran­ça da COVID-19

 

ATU­A­LI­ZAR MEDI­DAS DE SEGU­RAN­ÇA E ACES­SO  

   Pro­fis­si­o­nais que lidam com dados con­fi­den­ci­ais são par­ti­cu­lar­men­te crí­ti­cos, mas geral­men­te menos fami­li­a­ri­za­dos com a tec­no­lo­gia e os seus ris­cos. Em alguns casos, é neces­sá­rio limi­tar aces­sos e refor­çar a segu­ran­ça para mini­mi­zar os ris­cos.

7 dicas para equi­li­brar vida pes­so­al e pro­fis­si­o­nal no home offi­ce

Simo­ne Fer­rei­ra da Sil­va Domin­gues, dou­to­ra e mes­tre em Psi­co­lo­gia da Edu­ca­ção, expli­ca como pode­mos tra­ba­lhar em casa de manei­ra sau­dá­vel:

CRIE ROTI­NAS 

Esta é a melhor for­ma de equi­li­brar vida pes­so­al e pro­fis­si­o­nal. Mas, para cri­ar uma orga­ni­za­ção em casa, depen­de­mos de outros fato­res.

PEN­SE EM CON­JUN­TO 

Mui­tas pes­so­as não moram sozi­nhas e pre­ci­sam de uma reor­ga­ni­za­ção geral. O pri­mei­ro pas­so é levan­tar a neces­si­da­de de todos para, jun­tos, esta­be­le­cer uma roti­na. Isso pode aju­dar na orga­ni­za­ção dos horá­ri­os em casa.

TEN­TE MAN­TER O PADRÃO    

Quan­do pos­sí­vel, os horá­ri­os de tra­ba­lho e estu­do devem ser os mes­mos pra­ti­ca­dos antes do iso­la­men­to soci­al.

SEJA FLE­XÍ­VEL 

Mui­tos se sen­tem frus­tra­dos quan­do esta­be­le­cem horá­ri­os e não con­se­guem segui-los. Por isso, ser fle­xí­vel entra na ordem do dia. 

MEDI­TE

Esta é uma fer­ra­men­ta útil para con­tro­lar pen­sa­men­tos repe­ti­ti­vos que geram pre­o­cu­pa­ções. A medi­ta­ção reduz pen­sa­men­tos ruins que nos impe­dem de ser cri­a­ti­vos e resi­li­en­tes.

FAÇA O QUE TE PRA­ZER 

Per­gun­te a si mes­mo o que fazia na vida pes­so­al antes da pan­de­mia. Quan­do res­pon­der, lem­bra­rá de vári­as coi­sas que geram pra­zer e, a par­tir daí, pode come­çar a adap­tar essas ati­vi­da­des à nova roti­na, se pos­sí­vel.

ADAP­TE-SE 

Pro­cu­re afas­tar os pen­sa­men­tos que para­li­sam, como “não é como antes”. Não é mes­mo, as coi­sas muda­ram. Viva o pre­sen­te e foque o futu­ro. Pro­cu­re se adap­tar e ino­var.