ARTI­GO

A IDEN­TI­DA­DE NOS­SA

(E DIFE­REN­TE)

ESTOU, ESTOU NA MODA. É DURO ANDAR NA MODA, AIN­DA QUE A MODA SEJA NEGAR MINHA IDEN­TI­DA­DE…”


(CAR­LOS DRUM­MOND DE ANDRA­DEEU, ETI­QUE­TA)

POR JAC­QUES MEIR

O eu pro­fun­do e outros eus”, uma expres­são um tan­to enig­má­ti­ca, mas intri­gan­te, nome­ou uma cole­tâ­nea de Fer­nan­do Pes­soa, extra­or­di­ná­rio poe­ta da lín­gua por­tu­gue­sa, famo­so por seus heterô­ni­mos. Pes­soa esme­rou-se em cons­truir diver­sas iden­ti­da­des por trás de sua poe­sia – Álva­ro de Cam­pos, Ricar­do Reis, Alber­to Caei­ro, Ber­nar­do Soa­res e ele mes­mo. O bri­lhan­tis­mo de sua obra tor­nou real e pal­pá­vel cada heterô­ni­mo, com per­so­na­li­da­des dis­tin­tas retra­ta­das em tex­tos que assu­mi­am emo­ções e visões de mun­do con­tras­tan­tes.

Ain­da há mui­to mis­té­rio em tor­no das moti­va­ções e ins­pi­ra­ções que leva­ram Fer­nan­do Pes­soa a cri­ar suas dife­ren­tes iden­ti­da­des. Radi­cal­men­te moder­no, o poe­ta por­tu­guês ante­ci­pou uma ten­dên­cia essen­ci­al que viven­ci­a­mos de modo inten­so nes­te iní­cio dos anos 2020: a ânsia e a neces­si­da­de de pes­so­as assu­mi­rem dife­ren­tes iden­ti­da­des ao lon­go de suas vidas.

A bus­ca pela auto­ex­pres­são pes­so­al con­ti­da em iden­ti­da­des diver­sas é uma rea­ção natu­ral a déca­das de con­ví­vio soci­al e prá­ti­cas de con­su­mo base­a­das na assi­mi­la­ção e atri­bui­ção de rótu­los e este­reó­ti­pos. O judeu pão-duro, a dona de casa, o exe­cu­ti­vo engra­va­ta­do, o mili­tan­te, o reti­ran­te nor­des­ti­no, o mili­co, a bombshell… A lis­ta é infin­dá­vel e repre­sen­ta­va uma ânco­ra sim­pló­ria para faci­li­tar rela­ci­o­na­men­tos e con­fir­mar vie­ses natu­ral­men­te incor­po­ra­dos ao nos­so com­por­ta­men­to dian­te do outro. O “outro” pre­ci­sa­va ser incluí­do sob um rótu­lo qual­quer para que pudés­se­mos acei­tá-lo, mes­mo que rigo­ro­sa­men­te nenhum com­por­ta­men­to exi­bi­do esti­ves­se em sin­to­nia com o sig­ni­fi­ca­do des­se rótu­lo.

Mas a inter­net e a pró­pria evo­lu­ção do con­su­mi­dor fize­ram ruir esse edi­fí­cio men­tal, que repro­du­ziu este­reó­ti­pos e vie­ses, além de pre­con­cei­tos fran­ca­men­te incom­pa­tí­veis com a dinâ­mi­ca soci­al e do mer­ca­do. À par­te, a gri­ta­ria um tan­to pas­si­o­nal e por vezes his­té­ri­ca de gru­pos iden­ti­tá­ri­os (ações afir­ma­ti­vas e lutas por reco­nhe­ci­men­to de mino­ri­as são tam­bém elas expres­sões legí­ti­mas de iden­ti­da­de). O que é laten­te nos con­su­mi­do­res e cida­dãos atu­ais é uma von­ta­de de expres­sar seu momen­to, de se sen­tir bem com suas cren­ças e valo­res e de se afir­mar como indi­ví­duo.

ASSU­MIR IDEN­TI­DA­DES DIFE­REN­TES SIG­NI­FI­CA AFIR­MAR A PRÓ­PRIA ESSÊN­CIA.

JAC­QUES MEIR, DIRE­TOR-EXE­CU­TI­VO DE CONHE­CI­MEN­TO DO GRU­PO PADRÃO

Nes­tes 25 anos de Con­su­mi­dor Moder­no, tive­mos a opor­tu­ni­da­de de estu­dar um vas­to con­jun­to de mani­fes­ta­ções huma­nas, tec­no­lo­gi­as, com­por­ta­men­tos, pro­du­tos, prá­ti­cas cul­tu­rais; iden­ti­fi­ca­mos micro­ten­dên­ci­as, modis­mos, ten­dên­ci­as de fato e per­ce­be­mos que as pes­so­as inse­ri­das no mer­ca­do con­su­mi­dor, inde­pen­den­te­men­te de ren­da, per­fil e gêne­ro, ansei­am por auto­ex­pres­são, pela liber­da­de de serem digi­tais e gamers hoje e tra­di­ci­o­nais ana­ló­gi­cos ama­nhã (os extre­mos aqui são mera­men­te ilus­tra­ti­vos). No coti­di­a­no, essa dinâ­mi­ca refle­te o poder que a infor­ma­ção abun­dan­te exer­ce sobre as expec­ta­ti­vas, os hábi­tos e as ati­tu­des das pes­so­as em seu coti­di­a­no. O efei­to “dis­rup­ção” tam­bém se dis­se­mi­nou para o âmbi­to indi­vi­du­al: é pos­sí­vel rein­ven­tar-se como pes­soa, como pro­fis­si­o­nal, como par­cei­ro, ami­go, pai, mãe, filho, dan­do voz e vazão às emo­ções, aos sen­ti­men­tos, às carên­ci­as, às bus­cas e às con­quis­tas.

Assu­mir iden­ti­da­des dife­ren­tes sig­ni­fi­ca afir­mar a pró­pria essên­cia. É uma jor­na­da de auto­co­nhe­ci­men­to ain­da inex­plo­ra­da e sobe­ja­men­te des­co­nhe­ci­da pelas ain­da clau­di­can­tes tec­no­lo­gi­as de Big Data – que se esme­ram em cri­ar gati­lhos de ofer­tas para per­so­nas que não repre­sen­tam com­por­ta­men­tos rígi­dos, mas flui­dos, mutan­tes e volá­teis.

Ao lon­go dos pró­xi­mos meses, em todas as pla­ta­for­mas e for­ma­tos, ire­mos mer­gu­lhar nes­se mun­do de inten­sa plas­ti­ci­da­de, intan­gí­vel, sen­so­ri­al e fas­ci­nan­te das iden­ti­da­des amol­da­das em ten­dên­ci­as e expres­sões que se dis­tin­guem e se conec­tam em um balé flui­do e vívi­do: vere­mos como nati­vos eco­ló­gi­cos podem estar ali­nha­dos àque­les que valo­ri­zam e sobre­põem a cul­tu­ra local sobre padrões glo­bais pas­teu­ri­za­dos; comen­ta­re­mos sobre os efei­tos da robo­ti­za­ção da vida (nos­sa bus­ca sobre coman­do e con­tro­le da vida digi­tal) em con­tra­pon­to aos novos padrões de pri­va­ci­da­de e trans­pa­rên­cia; dis­cu­ti­re­mos como viver melhor, com mai­or cons­ci­ên­cia cor­po­ral e de ape­go ao pla­ne­ta, encon­trar res­so­nân­cia em públi­cos que rene­gam a ida­de como um indi­ca­dor de com­por­ta­men­to pre­de­fi­ni­do. E fica­re­mos impres­si­o­na­dos sobre como a mai­or par­te de nós se empe­nha em bus­car a melho­ria de nos­sa per­for­man­ce soci­al, pro­fis­si­o­nal, sexu­al, esté­ti­ca, inte­lec­tu­al em um pro­ces­so irre­ver­sí­vel de auto-oti­mi­za­ção.

A ênfa­se na afir­ma­ção das iden­ti­da­des tam­bém con­di­ci­o­na empre­sas a amol­dar suas pró­pri­as mar­cas e valo­res a essa evo­lu­ção do con­su­mi­dor. O Eu, Eti­que­ta, imor­ta­li­za­do no poe­ma de Car­los Drum­mond de Andra­de, que domi­nou a pai­sa­gem das rela­ções de con­su­mo ao lon­go do sécu­lo 20 até o iní­cio da déca­da pas­sa­da, feliz­men­te cede espa­ço ao “Eu pro­fun­do e outros eus” que Fer­nan­do Pes­soa enxer­gou há cer­ca de cem anos.

É dis­so que se tra­ta ago­ra: com­pre­en­der o con­su­mi­dor des­tes anos 2020 sig­ni­fi­ca ir além do “eu” que se vis­lum­bra na gri­ta­ria e na pola­ri­za­ção incon­se­quen­te, deli­ran­te e um tan­to des­pre­zí­vel das redes (anti)ssociais. É olhar para pes­so­as livres de rótu­los que reve­lam seus pro­fun­dos e múl­ti­plos eus, sem medo de serem feli­zes.