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A oti­mi­za­ção do con­su­mi­dor

POR JAC­QUES MEIR

DIRE­TOR-EXE­CU­TI­VO DE CONHE­CI­MEN­TO DO GRU­PO PADRÃO

A pan­de­mia da COVID-19 evi­den­te­men­te dei­xa­rá mar­cas pro­fun­das em todos os aspec­tos da vida huma­na. O con­su­mi­dor que as empre­sas irão encon­trar terá mais medo, bus­ca­rá reco­ne­xões e refú­gi­os, mas, sobre­tu­do, deman­da­rá mais de si mes­mo 

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   Sim, 2020 será conhe­ci­do como o ano em que o mun­do foi vira­do do aves­so. Bilhões de seres huma­nos em cen­te­nas de paí­ses tive­ram de enfren­tar um vírus mali­ci­o­so e agres­si­vo, com incrí­vel capa­ci­da­de de con­tá­gio, letal em pro­por­ção peque­na, mas con­sis­ten­te, e com for­ça para des­cons­truir a for­ma pela qual as pes­so­as se acos­tu­ma­ram, ao lon­go da his­tó­ria, a man­ter con­ta­to entre si. O novo coro­na­ví­rus infli­giu danos expo­nen­ci­ais à saú­de públi­ca, às finan­ças de gover­nos, à eco­no­mia, às empre­sas e aos cida­dãos, viti­ma­dos pela doen­ça, pelo desem­pre­go e pela ansi­e­da­de. Tam­bém mudou pro­ces­sos de tra­ba­lho, lan­çou milha­res de empre­sas a um pro­ces­so de digi­ta­li­za­ção ace­le­ra­da e mui­tas vezes ata­ba­lho­a­da, desor­ga­ni­zou cadei­as pro­du­ti­vas, negó­ci­os, dei­xou aviões no chão, der­ru­bou a cota­ção do petró­leo a níveis ras­tei­ros e, prin­ci­pal­men­te, con­fi­nou milhões e milhões de pes­so­as em seus lares, lon­ge de shows, even­tos, cine­mas, shop­pings, pra­ças e are­nas espor­ti­vas.

   Mas o aves­so do aves­so é pro­cu­rar enten­der como todas essas mudan­ças se com­bi­nam e afe­tam o com­por­ta­men­to das pes­so­as dian­te de sua vida, suas rela­ções afe­ti­vas, emo­ções, car­rei­ras, expec­ta­ti­vas e for­mas de con­su­mo. Já mos­tra­mos que o perío­do foi fér­til para esti­mu­lar toda sor­te de “espe­ci­a­lis­tas”, ico­no­clas­tas e pal­pi­tei­ros de plan­tão a tecer um rosá­rio infi­ni­to de pos­si­bi­li­da­des e trans­for­ma­ções em todos os aspec­tos da vida huma­na. Fomos mais come­di­dos, pro­cu­ran­do sepa­rar ten­dên­ci­as reais de con­sequên­ci­as oca­si­o­nais, sem dei­xar de reco­nhe­cer que sim, a vida tor­nou-se e con­ti­nu­a­rá mui­to digi­tal. É fato que o uso inten­so de pla­ta­for­mas, solu­ções, apli­ca­ti­vos de comu­ni­ca­ção, pro­du­ti­vi­da­de, com­pras e ser­vi­ços trou­xe algu­mas van­ta­gens evi­den­tes: redu­ção de des­lo­ca­men­tos impro­du­ti­vos nas cida­des, regis­tro mais pre­ci­so de reu­niões, redu­ção de ris­cos nas com­pras fora de casa, ganhos de qua­li­da­de de vida no tra­ba­lho em casa, entre outras. Por outro lado, per­de­mos mui­to do rela­ci­o­na­men­to inter­pes­so­al e de nos­sa rela­ção com o ambi­en­te. Cer­ta­men­te, vamos valo­ri­zar mais a rua, o espa­ço públi­co, o pri­vi­lé­gio de poder cami­nhar com segu­ran­ça pelas cida­des.

   Tam­bém rea­pren­de­mos o valor da inte­ra­ção cons­tan­te em dias comuns – fora de fins de sema­na, feri­a­dos e féri­as regu­la­res – com nos­sos fami­li­a­res. De repen­te, está­va­mos todos em casa, 24 horas por dia com nos­sos filhos e côn­ju­ges, nos­sos par­cei­ros e par­cei­ras, pre­pa­ran­do refei­ções, aju­dan­do nos estu­dos – on-line – lavan­do a lou­ça e lim­pan­do os cômo­dos. Essa reco­ne­xão foi e con­ti­nu­a­rá sen­do de vital impor­tân­cia para todos nós. A famí­lia como esteio de segu­ran­ça, de pro­xi­mi­da­de e cari­nho aju­dou mui­tas pes­so­as a supor­tar os efei­tos do iso­la­men­to soci­al e da per­da da roti­na para a qual fomos pro­gra­ma­dos e que pra­ti­cá­va­mos auto­ma­ti­ca­men­te.

O aves­so do aves­so des­ta cri­se reve­la­rá um con­su­mi­dor em bus­ca feroz e ansi­o­sa da melhor ver­são de si mes­mo.”

   Por­tan­to, após o con­tá­gio do novo coro­na­ví­rus estar sob con­tro­le, as cur­vas esta­rem “acha­ta­das” e a vida ganhan­do ares de uma nova nor­ma­li­da­de – com más­ca­ras, pro­to­co­los sani­tá­ri­os rígi­dos, álco­ol em gel e dis­tan­ci­a­men­to soci­al – pri­o­ri­za­re­mos reco­ne­xões com nos­sa car­rei­ra, com nos­sa men­te, com a vida soci­al e cor­po­ra­ti­va. Nada será como antes por um bom perío­do, tal­vez até por um ano ou pou­co mais. E mes­mo quan­do puder­mos nos livrar de Equi­pa­men­tos de Pro­te­ção Indi­vi­du­al (EPIs), tere­mos mar­cas pro­fun­das em nos­sa memó­ria e em nos­sa expe­ri­ên­cia que sim­ples­men­te impe­di­rão que cer­tos hábi­tos do pas­sa­do se repi­tam com a mes­ma frequên­cia no pre­sen­te.

   Sim, o aves­so do aves­so des­ta cri­se reve­la­rá um con­su­mi­dor em bus­ca feroz e ansi­o­sa da melhor ver­são de si mes­mo. Auto-oti­mi­za­ção e bus­ca por saú­de e bem-estar serão os obje­tos de dese­jo da mai­or par­te das pes­so­as. Essa pro­cu­ra acon­te­ce­rá de múl­ti­plas for­mas: oti­mi­za­ção físi­ca por meio do pre­pa­ro atlé­ti­co – o cul­to à roti­na de exer­cí­ci­os; oti­mi­za­ção esté­ti­ca, por meio de toda sor­te de pro­ce­di­men­tos cirúr­gi­cos, tópi­cos, inva­si­vos ou super­fi­ci­ais; oti­mi­za­ção inte­lec­tu­al e men­tal, por meio da ampla ofer­ta de apli­ca­ti­vos, méto­dos e ritu­ais de medi­ta­ção, aná­li­se, lei­tu­ra, frui­ção emo­ci­o­nal, tera­pêu­ti­ca; oti­mi­za­ção digi­tal, por meio dos recur­sos de mídia sin­té­ti­ca que per­mi­ti­rão explo­rar dife­ren­tes ver­sões e ava­ta­res de nós mes­mos (recur­sos de mudan­ça de face, dilui­ção de gêne­ro e modu­la­ção de voz serão ampla­men­te uti­li­za­dos para refle­tir esta­dos de âni­mo e nos repre­sen­tar nas inte­ra­ções vir­tu­ais); e oti­mi­za­ção pro­fis­si­o­nal, com a bus­ca desen­fre­a­da por pro­pó­si­tos, lega­dos, bem-estar, par­cimô­nia. Qual des­sas oti­mi­za­ções bus­ca­rá o lei­tor e a lei­to­ra?

   Esse con­su­mi­dor apri­mo­ra­do fun­ci­o­na­rá no tra­ba­lho como um ele­men­to de pres­são sobre as empre­sas. O mun­do cor­po­ra­ti­vo terá de fazer uma bar­ga­nha entre a pres­são pela recu­pe­ra­ção de níveis ante­ri­o­res de fatu­ra­men­to, pro­du­ti­vi­da­de e um exér­ci­to de pro­fis­si­o­nais ampla­men­te dis­pos­tos a não abrir mão de seu apri­mo­ra­men­to pes­so­al.

   Do pon­to de vis­ta dos padrões de con­su­mo, tudo aqui­lo que trou­xer opor­tu­ni­da­de real de apri­mo­ra­men­to físi­co, men­tal, melho­ria de bem-estar, segu­ran­ça emo­ci­o­nal e saú­de ganha­rá rele­vân­cia e valor. Mui­to se dis­cu­ti­rá sobre o que pode ser enten­di­do como supér­fluo, fútil, exces­si­vo e seu lugar na nova óti­ca de con­su­mo, a per­da do valor intan­gí­vel da expo­si­ção exces­si­va de “labels”. Sim, o novo nor­mal com­pre­en­de­rá um con­su­mi­dor que não só apren­deu a viver com res­tri­ção – ain­da mais no Bra­sil emer­gen­te que há uma déca­da ten­ta encon­trar o rumo – mas gos­ta da res­tri­ção, e vê valor no que é fru­gal, sim­ples, fami­li­ar. A loba­li­za­ção irá se agi­gan­tar e nublar a glo­ba­li­za­ção. Por­que nos­sa bus­ca por oti­mi­za­ção nos leva­rá ao que é pró­xi­mo e vizi­nho e verá com des­con­fi­an­ça o que pode tra­zer o des­co­nhe­ci­do e dis­tan­te.

   Fun­da­men­tal­men­te, o con­su­mi­dor que as empre­sas podem espe­rar de hoje em dian­te valo­ri­za o abra­ço, a sim­pli­ci­da­de e a si mes­mo, em ple­na inte­gri­da­de e equi­lí­brio de cor­po e men­te, do pes­so­al e do pro­fis­si­o­nal, do pes­so­al e do soci­al e, para­do­xal­men­te, do tole­ran­te e do insa­tis­fei­to. Enten­der, con­quis­tar, encan­tar e inte­ra­gir com o con­su­mi­dor será como cami­nhar sobre gelo fino, tate­an­do na incer­te­za, pelo sim­ples fato de que o con­su­mi­dor vai exi­gir que cada empre­sa ofe­re­ça e assu­ma a melhor ver­são de si mes­ma. Uma ver­são que mui­tas cor­po­ra­ções não con­se­guem – ou não que­rem – enxer­gar.