COLU­NA

REBE­CA DE MORA­ES
Dire­to­ra da Sole­dad

A ROBO­TI­ZA­ÇÃO DA VIDA ESTÁ ENTRE NÓS

A Inter­net das Coi­sas (Inter­net of Things ou IoT) está a pou­cos pas­sos de virar mains­tre­am. Na Amé­ri­ca Lati­na, a con­sul­to­ria Frost & Sul­li­van esti­ma que há hoje 313 milhões de dis­po­si­ti­vos conec­ta­dos, núme­ro que deve tri­pli­car em qua­tro anos – o que mos­tra o gran­de poten­ci­al da região nes­sa área. Com casas, empre­sas e cida­des intei­ras conec­ta­das à inter­net – que é a pro­mes­sa da IoT para o futu­ro –, aumen­ta a neces­si­da­de de flui­dez das cone­xões. Afi­nal, de nada adi­an­ta um ambi­en­te cheio de obje­tos liga­dos à inter­net se eles não tive­rem suas devi­das cone­xões às pes­so­as que vão usá-los.

A che­ga­da dos assis­ten­tes de voz (Siri, da Apple, Ale­xa, da Ama­zon e Goo­gle Home) é a cha­ve para tor­nar pos­sí­vel qual­quer sonho de casa conec­ta­da. Esses robo­zi­nhos (ou, se pre­fe­rir, a voz de Scar­lett Johans­son no fil­me Her) são sis­te­mas à base de inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al que, a par­tir de um coman­do de voz – uma per­gun­ta ou um dire­ci­o­na­men­to –, podem ligar luzes, tocar músi­cas ou rea­li­zar ati­vi­da­des mais com­ple­xas, como pre­pa­rar um café da manhã ou dizer o que há na gela­dei­ra. Só a Ama­zon diz já ter ven­di­do mais de 100 milhões de apa­re­lhos com sua assis­ten­te pes­so­al. Entre uma men­sa­gem de áudio de What­sApp e uma brin­ca­dei­ra com a Siri, esta­mos nos acos­tu­man­do cada vez mais com esta inter­fa­ce.

A faci­li­da­de e a flui­dez da comu­ni­ca­ção por voz com­bi­nam com outra ten­dên­cia: a da vol­ta aos ape­los sen­so­ri­ais. No You­Tu­be, há milhões de views e uma ver­da­dei­ra comu­ni­da­de em tor­no dos víde­os de ASMR (Auto­no­mous Sen­sory Meri­di­an Res­pon­se), com pes­so­as falan­do bai­xi­nho e tocan­do obje­tos que cri­am sen­sa­ções que pro­me­tem mas­sa­ge­ar meta­fo­ri­ca­men­te o cére­bro. Mar­cas como Ikea e Bohe­mia já cri­a­ram cam­pa­nhas com esta téc­ni­ca.

A FACI­LI­DA­DE E A FLUI­DEZ DA COMU­NI­CA­ÇÃO POR VOZ COM­BI­NAM COM OUTRA TEN­DÊN­CIA: A DA VOL­TA AOS APE­LOS SEN­SO­RI­AIS.

Aí entra um pon­to impor­tan­te: o que está­va­mos acos­tu­ma­dos a cha­mar de robô, a empre­ga­da domés­ti­ca dos Jet­sons, ficou real­men­te para a fic­ção. Temos os robôs da vida real: a inte­li­gên­cia do celu­lar, as Ale­xas, Siris e Goo­gle Homes. Inte­ra­gi­mos com eles de manei­ra cada vez mais natu­ral, e isso é só o come­ço da Robo­ti­za­ção da Vida, ten­dên­cia da Trop que iden­ti­fi­ca­mos para a Amé­ri­ca Lati­na para os pró­xi­mos anos.

O filó­so­fo fran­cês Gil­les Lipo­vetsky diz que esta­mos rom­pen­do com a era do cál­cu­lo raci­o­nal dos sig­nos, e cami­nhan­do para o geren­ci­a­men­to das emo­ções – o que ampli­fi­ca a fun­ção da voz, por exem­plo, no cha­ma­do design polis­sen­so­ri­al, que se bene­fi­cia da con­ver­gên­cia de ape­los sen­so­ri­ais simul­tâ­ne­os. A voz vai ocu­pan­do espa­ços des­de a expe­ri­ên­cia musi­cal no vare­jo, nas lojas com tri­lhas per­so­na­li­za­das, até empre­sas que cri­am expe­ri­ên­ci­as de rea­li­da­de aumen­ta­da da casa de uma pes­soa, com áudio dela expli­can­do sua rela­ção com o lugar e os obje­tos – com a ideia de man­ter viva a lem­bran­ça após sua mor­te.

Esther Perel, psi­co­te­ra­peu­ta e pales­tran­te, traz uma pro­vo­ca­ção que mere­ce aten­ção: “somos fru­to do con­jun­to de inte­ra­ções a que nos sub­me­te­mos”. Se lida­mos com robôs que dizem quan­do esta­mos tris­tes – mes­mo se não esti­ver­mos, ou ao menos se não tiver­mos leva­do isso à cons­ci­ên­cia – pro­va­vel­men­te come­ça­re­mos a achar que esta­mos. E aí, vamos pas­sar a ter­cei­ri­zar nos­sas per­cep­ções indi­vi­du­ais?