INO­VA­ÇÃO
A TRA­JE­TÓ­RIA DOS UNI­CÓR­NI­OS BRA­SI­LEI­ROS NA PAN­DE­MIA
Entre aqui­si­ções de outras empre­sas e ino­va­ções para os seus pro­du­tos e ser­vi­ços, estas star­tups fize­ram de tudo na qua­ren­te­na

Por Éric Visin­tai­ner

Há cin­co meses, o Bra­sil enfren­ta a cri­se sani­tá­ria do novo coro­na­ví­rus que afe­tou dire­ta­men­te a eco­no­mia do País. Segun­do o Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Geo­gra­fia e Esta­tís­ti­ca (IBGE), qua­tro em cada dez empre­sas que fecha­ram, até a pri­mei­ra quin­ze­na de junho, o fize­ram por con­ta da pan­de­mia. E as que sobre­vi­ve­ram – como temos exem­pli­fi­ca­do duran­te os webi­nars exclu­si­vos da Con­su­mi­dor Moder­no, des­de abril, – pre­ci­sa­ram se rein­ven­tar nes­te perío­do, prin­ci­pal­men­te cor­tan­do gas­tos e migran­do para o ambi­en­te digi­tal, além de rea­va­li­ar o flu­xo de cai­xa e o mode­lo de negó­cio. Este últi­mo aspec­to é uma das prin­ci­pais cons­tan­tes na men­te de empre­en­de­do­res vol­ta­dos para star­tups. E o ecos­sis­te­ma delas não ficou imu­ne aos desa­fi­os econô­mi­cos esta­be­le­ci­dos pela Covid-19. Mas como os prin­ci­pais nomes da ino­va­ção bra­si­lei­ra estão lidan­do com a cri­se e o que pode­mos espe­rar para os tem­pos de recu­pe­ra­ção?

Na visão de Bru­na Losa­da, pós-dou­to­ra em Finan­ças para Star­tups pela Colum­bia Uni­ver­sity, de Nova York, e auto­ra do livro Finan­ças para Star­tups, a pan­de­mia afe­tou estas empre­sas de dife­ren­tes for­mas. “Quan­do fala­mos de star­tups, colo­ca­mos mui­ta coi­sa dife­ren­te no mes­mo saco, de jovens empre­sas até uni­cór­ni­os mul­ti­mi­li­o­ná­ri­os que sofrem de for­mas mui­to dis­tin­tas o efei­to de um cho­que de deman­da como este”, diz. Ela divi­de o enfren­ta­men­to das star­tups, nes­ta pan­de­mia, em qua­tro gru­pos:

No pri­mei­ro, ela des­ta­ca as empre­sas que se bene­fi­ci­a­ram e cres­ce­ram, como é o caso do iFo­od. “Este gru­po que se bene­fi­ci­ou dire­ta­men­te pela pan­de­mia, cujos mode­los de negó­cio são per­fei­ta­men­te deli­mi­ta­dos para um momen­to como este no qual esta­mos viven­do, é o que con­si­de­ra­mos qua­se uma deman­da per­fei­ta para este tipo de empre­sa”, comen­ta Losa­da.

No segun­do gru­po apa­re­cem as empre­sas que não sofre­ram por esta­rem em um momen­to de for­ma­ção. “Nes­te está­gio, o cho­que de deman­da não afe­tou o busi­ness. Se a star­tup esta­va nes­te está­gio de pré-ope­ra­ção, a pan­de­mia não é uma jus­ti­fi­ca­ti­va para difi­cul­da­des”, con­ta.

No gru­po três, ela colo­ca as star­tups que sofre­ram, mas con­se­gui­ram um inves­ti­men­to recen­te, antes da pan­de­mia, e assim tive­ram mais liqui­dez para enfren­tar os desa­fi­os impos­tos. “Todos sofrem com a pan­de­mia. Se pas­sou com um novo apor­te, ela [star­tup] vai pas­sar de for­ma tran­qui­la. Mas se entrou sem liqui­dez, aí você a vê cor­ren­do ao cré­di­to. E o cré­di­to é caro para negó­ci­os de peque­no por­te, sem flu­xo de cai­xa ope­ra­ci­o­nal”, des­cre­ve a pós-dou­to­ra em Finan­ças para Star­tups. Ela men­ci­o­na a Loft, como um exem­plo de star­tup que rece­beu um inves­ti­men­to de US$ 175 milhões em janei­ro des­te ano e o Gym­pass, como uma empre­sa que demi­tiu fun­ci­o­ná­ri­os e pre­ci­sou se rees­tru­tu­rar.

 

COM A CUL­TU­RA DIGI­TAL E MAI­OR CON­VE­NI­ÊN­CIA, É A HORA DE ENCON­TRAR AS RES­POS­TAS PARA O MODE­LO DE NEGÓ­CIO. E A RES­POS­TA, MES­MO NEGA­TI­VA, PODE SER UM BOM EFEI­TO PARA ENCER­RAR UM NEGÓ­CIO E MON­TAR OUTRO.”
BRU­NA LOSA­DA,
 PÓS-DOU­TO­RA EM FINAN­ÇAS PARA STAR­TUPS PELA COLUM­BIA UNI­VER­SITY

No quar­to gru­po estão as empre­sas que per­ce­be­ram que o mode­lo de negó­cio não daria cer­to e resol­ve­ram parar com as ope­ra­ções ou rea­li­za­ram uma mudan­ça radi­cal para sobre­vi­ver.

Gos­to de olhar situ­a­ções como um copo meio cheio. Para as star­tups, está sen­do um momen­to úni­co tes­tar a resi­li­ên­cia do negó­cio, pois não se tem só um mode­lo de negó­cio total­men­te defi­ni­do. Com a cul­tu­ra digi­tal e mai­or con­ve­ni­ên­cia, é a hora de encon­trar as res­pos­tas para o mode­lo de negó­cio. E a res­pos­ta, mes­mo nega­ti­va, pode ser um bom efei­to para encer­rar um negó­cio e mon­tar outro”, com­ple­men­ta Losa­da.

A CM con­ver­sou com CEOs e dire­to­res da mai­o­ria dos uni­cór­ni­os bra­si­lei­ros para veri­fi­car os pró­xi­mos pas­sos des­tas empre­sas que pre­zam pelo cres­ci­men­to rápi­do.

Mas o que defi­ne uma star­tup uni­cór­nio? Há uma úni­ca cer­te­za: a empre­sa pre­ci­sa ter um valor de mer­ca­do aci­ma de US$ 1 bilhão. Porém, segun­do a apu­ra­ção da Con­su­mi­dor Moder­no, não há uma con­so­li­da­ção no mer­ca­do se, ao abrir o capi­tal na bol­sa de valo­res ou ser adqui­ri­da, a star­tup per­de o seu chi­fre de uni­cór­nio. Até o fecha­men­to des­ta maté­ria, exis­ti­am 490 star­tups uni­cór­ni­os no mun­do, soman­do um valor total de apro­xi­ma­da­men­te US$ 1,5 tri­lhão, segun­do dados da pla­ta­for­ma CB Insights. Os atu­ais uni­cór­ni­os naci­o­nais e as suas res­pec­ti­vas datas de entra­da para o gru­po são: Wil­dli­fe Stu­di­os (2020), Loft (2020), Quin­to­An­dar (2019), Log­gi (2019), EBANX (2019), Gym­pass (2019), Arco Edu­ca­ção (2018), Sto­ne (2018), iFo­od (2018), Nubank (2018), Pag­Se­gu­ro (2018) e 99 (2018).

99: O PRI­MEI­RO UNI­CÓR­NIO VER­DE-AMA­RE­LO 

A onda dos uni­cór­ni­os che­gou ao Bra­sil em 2018, quan­do a 99, empre­sa de trans­por­te indi­vi­du­al, foi ven­di­da para a chi­ne­sa Didi Chu­xing. A empre­sa, que hoje conec­ta mais de 750 mil moto­ris­tas a 20 milhões de pas­sa­gei­ros em mais de 1.600 cida­des no Bra­sil, diz que viu uma redu­ção no núme­ro de cor­ri­das entre mar­ço e maio, em com­pa­ra­ção com o iní­cio de 2020. “A meta da 99 é reto­mar ain­da este ano, de for­ma res­pon­sá­vel, o volu­me de cor­ri­das pré-pan­de­mia, bem como obter incre­men­tos com base em sua estra­té­gia de expan­são com novos pro­du­tos. Na Chi­na, a Didi já regis­tra uma reto­ma­da no núme­ro de cor­ri­das em 100% do perío­do pré-pan­de­mia”, expli­ca Davi Miya­ke, dire­tor de Ope­ra­ções e Pro­du­tos da empre­sa.

Além de higi­e­ni­za­ção dos car­ros, dis­tri­bui­ção de más­ca­ras, álco­ol em gel e escu­dos de pro­te­ção para os moto­ris­tas par­cei­ros, a 99 tam­bém cri­ou uma opção de cor­ri­da 30% mais bara­ta para os pas­sa­gei­ros em horá­ri­os de bai­xa deman­da. A star­tup ain­da ampli­ou os seus ser­vi­ços com a pos­si­bi­li­da­de de os cli­en­tes rea­li­za­rem entre­gas de obje­tos pes­so­ais. Segun­do dados da empre­sa, os usuá­ri­os envi­am obje­tos a des­ti­nos 14%, em média, mais dis­tan­tes do que em outras cate­go­ri­as do app.

Miya­ke ain­da diz que a empre­sa se com­pro­me­teu a não demi­tir nin­guém e está con­tra­tan­do.

A onda dos uni­cór­ni­os che­gou ao Bra­sil em 2018, quan­do a 99, empre­sa de trans­por­te indi­vi­du­al, foi ven­di­da para a chi­ne­sa Didi Chu­xing. A empre­sa, que hoje conec­ta mais de 750 mil moto­ris­tas a 20 milhões de pas­sa­gei­ros em mais de 1.600 cida­des no Bra­sil, diz que viu uma redu­ção no núme­ro de cor­ri­das entre mar­ço e maio, em com­pa­ra­ção com o iní­cio de 2020. “A meta da 99 é reto­mar ain­da este ano, de for­ma res­pon­sá­vel, o volu­me de cor­ri­das pré-pan­de­mia, bem como obter incre­men­tos com base em sua estra­té­gia de expan­são com novos pro­du­tos. Na Chi­na, a Didi já regis­tra uma reto­ma­da no núme­ro de cor­ri­das em 100% do perío­do pré-pan­de­mia”, expli­ca Davi Miya­ke, dire­tor de Ope­ra­ções e Pro­du­tos da empre­sa.

Além de higi­e­ni­za­ção dos car­ros, dis­tri­bui­ção de más­ca­ras, álco­ol em gel e escu­dos de pro­te­ção para os moto­ris­tas par­cei­ros, a 99 tam­bém cri­ou uma opção de cor­ri­da 30% mais bara­ta para os pas­sa­gei­ros em horá­ri­os de bai­xa deman­da. A star­tup ain­da ampli­ou os seus ser­vi­ços com a pos­si­bi­li­da­de de os cli­en­tes rea­li­za­rem entre­gas de obje­tos pes­so­ais. Segun­do dados da empre­sa, os usuá­ri­os envi­am obje­tos a des­ti­nos 14%, em média, mais dis­tan­tes do que em outras cate­go­ri­as do app.

Miya­ke ain­da diz que a empre­sa se com­pro­me­teu a não demi­tir nin­guém e está con­tra­tan­do.

GYM­PASS: DE USO A QUA­SE ZERO PARA UM NOVO PRO­DU­TO

O mer­ca­do de ati­vi­da­de físi­ca, em espa­ços fecha­dos, assim como o de turis­mo e de even­tos, foi um dos que mais sofreu nes­ta pan­de­mia. De acor­do com a atu­al CEO do Gym­pass, Pris­ci­la Siquei­ra, o pro­du­to da empre­sa qua­se dei­xou de ser uti­li­za­do, a par­tir do dia 17 de mar­ço, e com isso acon­te­ce­ram demis­sões. “Nas duas pri­mei­ras sema­nas da pan­de­mia, o uso caiu a qua­se zero. Não foi pelo fato de a aca­de­mia não estar dis­po­ní­vel e sim por­que as pes­so­as come­ça­ram a ter uma situ­a­ção iné­di­ta e irem para casa. Já está­va­mos acom­pa­nhan­do a situ­a­ção na Itá­lia e na Espa­nha, onde tem Gym­pass. Aqui fechou mui­to mais rápi­do”, comen­ta. E para virar o jogo a star­tup bra­si­lei­ra, que hoje atua em outros 13 paí­ses, mon­tou dois Comi­tês: um para ade­quar o usuá­rio a par­cei­ros na pan­de­mia; e outro para olhar cus­tos e des­pe­sas, com foco em sobre­vi­ver e con­ti­nu­ar ati­vo.

Uma das ações para recon­quis­tar os usuá­ri­os foi a ante­ci­pa­ção do pla­no de per­so­nal trai­ners, hoje com mais de 40 mil cadas­tra­dos glo­bal­men­te, cam­pa­nhas de incen­ti­vos e adi­an­ta­men­to de valo­res. Saí­mos de um pilar de ati­vi­da­de físi­ca na aca­de­mia pre­sen­ci­al­men­te para a ampli­tu­de de bem-estar digi­tal, para aten­der a todos e ter uma opção para todos. Dis­po­ni­bi­li­za­mos para que elas colo­cas­sem as aulas on-line e tive­mos de tra­ba­lhar para ensi­nar como rea­li­zar webi­nars e aulas a dis­tân­cia, con­ta Siquei­ra. O pro­je­to prin­ci­pal era o mar­ket­pla­ce de bem-estar para o fim de 2020, mas em duas sema­nas ele esta­va no ar. “Ago­ra esta­mos qua­se reto­man­do como está­va­mos em abril e maio. Não vol­ta­mos aos pata­ma­res de feve­rei­ro, mas ven­de­mos para mais de 40 cli­en­tes novos glo­bal­men­te”, con­ta a CEO.

Pris­ci­la Siquei­ra, CEO do Gym­pass

QUIN­TO­AN­DAR: NOVI­DA­DES NA INTE­RA­ÇÃO E NAS BUS­CAS  

Outro uni­cór­nio que tam­bém demi­tiu, duran­te a qua­ren­te­na, foi o Quin­to­An­dar, star­tup de alu­guel e ven­da de resi­dên­ci­as. Segun­do Flá­via Mus­sa­lem, head de Mar­ke­ting da empre­sa, no come­ço da pan­de­mia hou­ve uma que­da no volu­me da empre­sa, mas ela não divul­gou o valor. Logo após os pri­mei­ros meses, a empre­sa obser­vou uma reto­ma­da sema­na a sema­na. “Hoje esta­mos no pata­mar pré-Covid-19”, con­ta a exe­cu­ti­va. Mus­sa­lem comen­ta que, entre abril e julho, hou­ve uma alta de 200% nos con­tra­tos fecha­dos e cres­ci­men­to de 130% na bus­ca por imó­veis. “As pes­so­as estão repen­san­do as suas casas. Antes não ficá­va­mos inco­mo­da­dos com alguns pon­tos, como baru­lho da rua, não ter sol”, diz.

Para con­ti­nu­ar com a média de um imó­vel alu­ga­do a cada 10 minu­tos e os R$ 30 bilhões em ati­vos sob ges­tão, na car­tei­ra admi­nis­tra­da, a star­tup colo­cou fotó­gra­fos e cor­re­to­res para tra­ba­lha­rem a dis­tân­cia, prin­ci­pal­men­te atra­vés do What­sApp e com tours por vídeo. Outro pon­to vital, duran­te a cri­se, foi a neces­si­da­de de inqui­li­nos rene­go­ci­a­rem os seus con­tra­tos com os pro­pri­e­tá­ri­os. Até agos­to, a empre­sa já havia des­ti­na­do R$ 50 milhões para pro­te­ção caso o inqui­li­no não pagas­se e R$ 200 milhões des­de 2015. A empre­sa atua hoje em 30 cida­des, de oito Esta­dos, na com­pra e ven­da de imó­veis nas cida­de de São Pau­lo e Rio de Janei­ro.

EBANX: ATU­A­LI­ZA­ÇÃO NA ROTA 

Na cida­de de Curi­ti­ba, um uni­cór­nio bra­si­lei­ro pode pas­sar des­per­ce­bi­do. O EBANX, star­tup de B2B que atua no backs­ta­ge rea­li­zan­do as tran­sa­ções de outros negó­ci­os digi­tais, já atua em oito paí­ses da Amé­ri­ca Lati­na, além do Bra­sil, e mes­mo com a pan­de­mia visa expan­dir a sua atu­a­ção. Nes­ta cri­se, os outros oito paí­ses lati­no-ame­ri­ca­nos nos quais nós ope­ra­mos se tor­na­ram mui­to mais impor­tan­tes no volu­me pro­ces­sa­do e regis­tra­ram um valor tran­sa­ci­o­na­do mui­to mai­or do que está­va­mos ven­do antes”, con­ta Wag­ner Ruiz, cofun­da­dor e CFO da star­tup.

O uni­cór­nio não ficou imu­ne aos impac­tos da pan­de­mia por con­ta dos cli­en­tes cor­po­ra­ti­vos que tive­ram pre­juí­zos, mas rela­ta que outros par­cei­ros regis­tra­ram cres­ci­men­to. Assim, nos últi­mos meses, o EBANX pre­ci­sou recal­cu­lar o seu tra­je­to. “Antes da pan­de­mia, nós está­va­mos pron­tos para inves­tir mais for­te­men­te em paga­men­tos locais aqui no Bra­sil, em pon­tos físi­cos de ven­da (na nos­sa empre­sa EBANX Paga­men­tos Ltda.). Com a pan­de­mia, o pla­no já não fazia mais sen­ti­do para o momen­to. Muda­mos a estra­té­gia e mui­tos dos ven­de­do­res de POSs foram trei­na­dos para capa­ci­tar ven­de­do­res a migrar para o ambi­en­te on-line”, diz Ruiz.

Na pan­de­mia, o iFo­od inves­tiu em novos for­ma­tos de entre­ga, des­de a opção sem con­ta­to até o envio por dro­nes

   iFo­od: ino­va­ções na entre­ga 

A empre­sa de entre­gas de ali­men­tos e com­pras, per­ten­cen­te ao Gru­po Movi­le, con­ta que expan­diu em 44% os pedi­dos para peque­nos e médi­os res­tau­ran­tes na pla­ta­for­ma, entre mar­ço e junho. Além dis­so, o núme­ro total de pedi­dos no apli­ca­ti­vo atin­giu 39 milhões no mês de junho. “É impor­tan­te fri­sar que, para o iFo­od, isso não sig­ni­fi­ca um ganho em cima da cri­se. O cres­ci­men­to do núme­ro de pedi­dos e a entra­da de res­tau­ran­tes são movi­men­tos que já vinham sen­do obser­va­dos no iFo­od e não estão rela­ci­o­na­dos ao perío­do de pan­de­mia. His­to­ri­ca­men­te, a empre­sa cres­ce três dígi­tos ao ano”, comen­ta Die­go Bar­re­to, vice-pre­si­den­te Finan­cei­ro e de Estra­té­gia.

Sem abrir as metas da empre­sa, o exe­cu­ti­vo con­ta que o uni­cór­nio reviu os seus obje­ti­vos para focar metas de cur­to pra­zo: “Nenhu­ma empre­sa pre­viu em seu pla­ne­ja­men­to um cená­rio de pan­de­mia glo­bal. Em feve­rei­ro, já dis­cu­tía­mos pos­sí­veis impac­tos dian­te do cená­rio inter­na­ci­o­nal.”

Ao lon­go da qua­ren­te­na, a empre­sa já des­ti­nou mais de R$ 33 milhões em ini­ci­a­ti­vas de apoio aos entre­ga­do­res, bem como a entre­ga de 1,3 milhão de itens de pro­te­ção pes­so­al. Do lado dos esta­be­le­ci­men­tos par­cei­ros, inves­tiu R$ 170 milhões da pró­pria recei­ta e, ain­da, dis­po­ni­bi­li­zou um cur­so de apoio à ges­tão de res­tau­ran­tes com con­teú­dos em par­ce­ria com a esco­la de negó­ci­os Con­quer de for­ma gra­tui­ta.

Den­tre as ino­va­ções, duran­te a pan­de­mia, o iFo­od focou a abs­ten­ção do con­ta­to físi­co entre cli­en­tes e entre­ga­do­res, como nos casos da opção “Entre­ga Sem Con­ta­to” no app, adi­ci­o­nou armá­ri­os inte­li­gen­tes em pré­di­os comer­ci­ais, que per­mi­tem aos entre­ga­do­res dei­xar o pedi­do no iFo­od Box sem encon­trar o con­su­mi­dor, e por fim, e mais recen­te, a empre­sa rece­beu auto­ri­za­ção da Agên­cia Naci­o­nal de Avi­a­ção Civil (Anac) para a entre­ga de pedi­dos por dro­nes. Nes­te mode­lo, a star­tup quer com­ple­men­tar a ope­ra­ção de outros modais, como motos, bici­cle­tas e pati­ne­tes elé­tri­cas. O pro­je­to-pilo­to ain­da não tem uma data defi­ni­da para iní­cio, mas acon­te­ce­rá na cida­de de Cam­pi­nas.

A star­tup ain­da foi ao mer­ca­do e adqui­riu a Domi­ci­li­os, que per­ten­ce ao Deli­very Hero, para unir esfor­ços no mer­ca­do colom­bi­a­no e dis­pu­tar espa­ço com a Rap­pi. Com a aqui­si­ção, o iFo­od terá 51% de par­ti­ci­pa­ção na star­tup.

STO­NE: PRO­JE­TO DE TRANS­FOR­MA­ÇÃO DIGI­TAL DO COMÉR­CIO 

Entre as star­tups bra­si­lei­ras com capi­tal aber­to apa­re­ce a Sto­ne. A pla­ta­for­ma de mei­os de paga­men­to, que atua na digi­ta­li­za­ção dos comer­ci­an­tes, apon­ta que, no segun­do tri­mes­tre de 2020, a Sto­ne Co. alcan­çou 519,4 mil cli­en­tes ati­vos, 48,6% a mais do que no ano ante­ri­or e que ain­da hou­ve um acrés­ci­mo de 27,9% no volu­me de paga­men­tos pro­ces­sa­dos no tri­mes­tre. “Dada a for­te ace­le­ra­ção do nos­so negó­cio, esta­mos inten­si­fi­can­do os inves­ti­men­tos, ten­do reto­ma­do a con­tra­ta­ção de novos fun­ci­o­ná­ri­os em julho e con­ti­nu­a­do a inves­tir em nos­sas ini­ci­a­ti­vas de soft­ware, ban­co e cré­di­to”, des­cre­ve Augus­to Lins, pre­si­den­te da star­tup.

Na bus­ca pela trans­for­ma­ção digi­tal do comér­cio, ao lon­go da pan­de­mia, a empre­sa desen­vol­veu dife­ren­tes fer­ra­men­tas on-line com foco no micro­em­pre­en­de­dor, den­tre elas o Link de Paga­men­to, atra­vés do What­sApp, do e‑mail ou das redes soci­ais; um gera­dor de anún­ci­os gra­tui­to; e um e‑commerce total­men­te gra­tui­to para os empre­en­de­do­res. A empre­sa tam­bém se jun­tou ao pro­gra­ma Todos pela Saú­de para finan­ci­ar a pro­du­ção da vaci­na con­tra a Covid-19.

Para o ter­cei­ro tri­mes­tre de 2020, a Sto­ne pre­vê bons resul­ta­dos e novos inves­ti­men­tos”, diz Lins. E alguns des­tes apor­tes acon­te­ce­ram ao lon­go da pan­de­mia. Por exem­plo, a com­pra da star­tup de saú­de Vit­ta, em maio. A fin­te­ch, que já uti­li­za­va os ser­vi­ços de saú­de da health­te­ch, ago­ra detém 100% das ope­ra­ções. E, até o fecha­men­to des­ta maté­ria, a empre­sa seguia na ten­ta­ti­va de adqui­rir a Linx, empre­sa de softwa­res de ges­tão e a mai­or soft­ware hou­se da Amé­ri­ca Lati­na. Porém, há uma dis­pu­ta de ofer­tas com a Totvs e a Rede.

Augus­to Lins, pre­si­den­te da Sto­ne

PAG­SE­GU­RO: ENGA­JA­MEN­TO SOCI­AL NA QUA­REN­TE­NA

Outro uni­cór­nio bra­si­lei­ro com ações na bol­sa da Nas­daq, nos Esta­dos Uni­dos, é o Pag­Se­gu­ro. De acor­do com dados da empre­sa, o pri­mei­ro tri­mes­tre apre­sen­tou um cres­ci­men­to de 27%, em com­pa­ra­ção com o ano ante­ri­or, bem como alta de 24% na base de cli­en­tes ati­vos, no mes­mo perío­do. “Mes­mo antes da che­ga­da da Covid-19 ao Bra­sil e a defi­ni­ção de qua­ren­te­na de alguns gover­nos, o Pag­Se­gu­ro Pag­Bank já tinha pla­no de ação bem-defi­ni­do para seus cli­en­tes. O obje­ti­vo das ações é aju­dar nos­sos cli­en­tes a ter melhor flu­xo de cai­xa e con­ti­nu­ar ven­den­do, mes­mo duran­te a qua­ren­te­na”,

O Pag­Se­gu­ro, via Pag­Bank, via­bi­li­zou o rece­bi­men­to do auxí­lio emer­gen­ci­al por con­ta digi­tal

Assim como já men­ci­o­na­do em outros uni­cór­ni­os, a star­tup ante­ci­pou valo­res de ven­das para alguns cli­en­tes sem cus­to, link de paga­men­to e pla­ta­for­ma gra­tui­ta para os ven­de­do­res rea­li­za­rem as ven­da on-line. Além dis­so, a com­pa­nhia do Gru­po Folha não está cobran­do taxas quan­do as ven­das acon­te­cem atra­vés de QR Code e isen­tou as tari­fas de TEDs (para qual­quer ban­co) para todos os cli­en­tes. Hoje, a star­tup apon­ta que pos­sui 5,5 milhões de ven­de­do­res ati­vos.

O Pag­Se­gu­ro tem par­ti­ci­pa­do do âmbi­to soci­al para o rece­bi­men­to do auxí­lio emer­gen­ci­al do gover­no fede­ral, atra­vés do Pag­Bank, fez par­ce­ria com o gover­no de Minas Gerais para ser a con­ta digi­tal de dis­tri­bui­ção do auxí­lio “bol­sa-meren­da” e se pron­ti­fi­cou a depo­si­tar R$ 20 extras ao bene­fí­cio para os que opta­rem rece­ber pela con­ta digi­tal.

Losa­da ain­da comen­ta que, com a pan­de­mia, o ecos­sis­te­ma de star­tups no Bra­sil foi reca­li­bra­do e que, ago­ra, os inves­ti­do­res estão pres­si­o­nan­do mais para ver a via­bi­li­da­de dos negó­ci­os. “Os empre­en­de­do­res ajus­ta­ram os seus miles­to­nes e desa­ce­le­ram em inflar as equi­pes, com mais cui­da­do e aus­te­ri­da­de. Ago­ra ten­de a melho­rar. Antes a velo­ci­da­de de gas­tos era mui­to supe­ri­or aos ganhos, com um cres­ci­men­to ine­fi­ci­en­te”, comen­ta.

Veja, na sequên­cia, um glos­sá­rio com as des­cri­ções dos mode­los finan­cei­ros para os dife­ren­tes está­gi­os das star­tups bili­o­ná­ri­as, den­tro e fora do Bra­sil. E ain­da con­fi­ra os valo­res atu­ais de todos uni­cór­ni­os bra­si­lei­ros.

 
GLOS­SÁ­RIO DA
INO­VA­ÇÃO

1. Uni­cór­nio – Ter­mo intro­du­zi­do em 2013, por Aile­en Lee. Os pri­mei­ros uni­cór­ni­os nas­ce­ram nos anos 90 e o títu­lo é dado às star­tups que valem mais de US$ 1 bilhão.

2. Came­lo – Con­cei­to defi­ni­do pelo inves­ti­dor Alex Laza­row, o qual defen­de que star­tups não devem ser uni­cór­ni­os e, sim, came­los, pelo fato de esses ani­mais serem resi­li­en­tes e adap­tá­veis.

3. Zebra – Par­te de um movi­men­to sur­gi­do nos Esta­dos Uni­dos, cha­ma­do Zebras Uni­te. Estas star­tups nas­ce­ram para ques­ti­o­nar o sis­te­ma agres­si­vo de capi­tal de ris­co e bus­cam o cres­ci­men­to atra­vés de outros recur­sos.

4. Dra­gão – Star­tups que arre­ca­da­ram mais de US$ 1 bilhão em uma úni­ca roda­da de finan­ci­a­men­to. São ain­da mais raras e fero­zes que os uni­cór­ni­os. A Uber é um exem­plo.

5. Mino­tau­ro – Star­tups que já rece­be­ram mais de US$ 1 bilhão em inves­ti­men­tos. Um exem­plo é o Airbnb, que já arre­ca­dou mais de US$ 5 bilhões.

6. Deca­cór­nio – Star­tups ava­li­a­das com um valor de mer­ca­do aci­ma dos US$ 10 bilhões. Um exem­plo é o Nubank.

7. Hec­ta­cór­nio – Star­tups com um valor de mer­ca­do aci­ma dos US$ 100 bilhões. A úni­ca conhe­ci­da no momen­to é a chi­ne­sa Byte­Dan­ce, dona do Tik­Tok.

Fon­te: Nas­daq, CB Insights e Chun­ch­ba­se