VIMOS DE PER­TO
Admi­rá­vel mun­do novo
Jor­na­lis­tas da Con­su­mi­dor Moder­no visi­ta­ram alguns dos shop­pings logo depois da rea­ber­tu­ra e nar­ram a expe­ri­ên­cia
Por Bia Len­zi, Caro­li­na Cozer e Éric Visin­tai­ner

 É COMO VOL­TAR A USAR UM MEM­BRO IMO­BI­LI­ZA­DO por meses. Ain­da que cli­ni­ca­men­te pron­to para o uso, os movi­men­tos, antes espon­tâ­ne­os, pare­cem difí­ceis. Os jor­na­lis­tas da Con­su­mi­dor Moder­no foram veri­fi­car a aber­tu­ra comer­ci­al em dife­ren­tes shop­pings da capi­tal pau­lis­ta, uma das áre­as mais atin­gi­das pelo novo coro­na­ví­rus e igual­men­te pelo impac­to econô­mi­co do iso­la­men­to soci­al.

O dese­jo de empre­sas e con­su­mi­do­res em reto­mar o con­ta­to pós-iso­la­men­to ven­ceu. Mas, como uma par­te do cor­po recu­pe­ra­da depois de uma lon­ga fase enges­sa­da, a reto­ma­da do movi­men­to é gra­du­al, um tan­to desa­jei­ta­da e em um rit­mo impres­so pelo medo e por um ambi­en­te rede­se­nha­do por pro­to­co­los dos quais só tínha­mos notí­cia na fic­ção cien­tí­fi­ca: más­ca­ras, banhos de ultra­vi­o­le­ta, medi­ção de tem­pe­ra­tu­ra, exi­gên­cia de dis­tân­cia entre as pes­so­as – em locais dese­nha­dos para reu­nir pes­so­as.

Nota­mos que as pes­so­as ain­da estão cau­te­lo­sas, o que é com­pre­en­sí­vel e natu­ral nes­se momen­to. Os cli­en­tes que nos visi­ta­ram nas últi­mas sema­nas esta­vam mui­to foca­dos, rea­li­zan­do as suas com­pras de manei­ra pla­ne­ja­da e obje­ti­va. Algo que já era espe­ra­do nes­se pro­ces­so de rea­ber­tu­ra gra­du­al do setor.”
Mar­ce­lo Miran­da,
Vice-pre­si­den­te Comer­ci­al e de Mar­ke­ting do Igua­te­mi Empre­sa de Shop­ping Cen­ters
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Ante­ci­pa­ção

O shop­ping Igua­te­mi foi veloz e apre­sen­tou suas medi­das de segu­ran­ça em uma cam­pa­nha que ante­ce­deu a divul­ga­ção do pro­to­co­lo da Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra de Shop­ping Cen­ters (ABRAS­CE), em junho, quan­do a rea­ber­tu­ra foi auto­ri­za­da pela pre­fei­tu­ra em junho. Além das medi­das obri­ga­tó­ri­as ela­bo­ra­das em par­ce­ria com o Hos­pi­tal Sírio-Liba­nês, o Gru­po apre­sen­tou um car­dá­pio de solu­ções de segu­ran­ça que não dei­xam atrás os um dia futu­ris­tas cená­ri­os sci-fi. Luz ultra­vi­o­le­ta para desin­fec­ção de cor­ri­mãos de esca­das rolan­tes, botões tou­ch­less para cha­ma­da de ele­va­do­res e con­ta­gem ele­trô­ni­ca de ocu­pa­ção via Inte­li­gên­cia Ele­trô­ni­ca. Tam­bém, antes da aber­tu­ra, o Igua­te­mi cer­cou suas entra­das com tape­tes sani­ti­zan­tes para a desin­fec­ção dos sola­dos de cal­ça­dos nas entra­das, reno­vou o sis­te­ma de ar-con­di­ci­o­na­do (com a tro­ca de fil­tros no míni­mo duas vezes por mês) e pas­sou a ofe­re­cer o uso de pas­ti­lhas bac­te­ri­ci­das, sem­pre que neces­sá­rio, o uso de ban­de­jas, além de auto­ma­ti­zar com­ple­ta­men­te as for­mas de paga­men­to dos esta­ci­o­na­men­tos

Mar­ce­lo Miran­da, vice-pre­si­den­te Comer­ci­al e de Mar­ke­ting do Igua­te­mi Empre­sa de Shop­ping Cen­ters, con­tou à Con­su­mi­dor Moder­no que a empre­sa já havia come­ça­do a estu­dar, des­de o iní­cio da pan­de­mia, as melho­res prá­ti­cas para ofe­re­ci­men­to do bem-estar aos cli­en­tes vare­jis­tas, com base em expe­ri­ên­ci­as inter­na­ci­o­nais. “Tudo foi fei­to com o máxi­mo de cui­da­do e ado­tan­do sem­pre as reco­men­da­ções das auto­ri­da­des de saú­de, inclu­si­ve no que se refe­re à ques­tão da capa­ci­da­de de públi­co.”

Den­tre as medi­das ado­ta­das pelo Igua­te­mi São Pau­lo, segun­do Mar­ce­lo Miran­da, estão:  ado­ção de câme­ras ter­mo­grá­fi­cas para afe­ri­ção de tem­pe­ra­tu­ra e moni­to­ra­men­to do uso de más­ca­ras com câme­ras base­a­das em Inte­li­gên­cia Arti­fi­ci­al. Ele acre­di­ta que o negó­cio con­se­guiu se rein­ven­tar de uma manei­ra “mui­to rápi­da e segu­ra”, “pri­o­ri­zan­do a saú­de e o bem-estar dos cli­en­tes, fun­ci­o­ná­ri­os e cola­bo­ra­do­res”. Os núme­ros ain­da não apa­re­ce­ram, mas as pro­je­ções são oti­mis­tas.

Miran­da con­ta que a empre­sa se pre­pa­rou tam­bém para a mudan­ça de com­por­ta­men­to por par­te dos cli­en­tes. Os clás­si­cos pas­sei­os tran­qui­los ao shop­ping foram subs­ti­tuí­dos por visi­tas rápi­das e dire­tas, geral­men­te com o obje­ti­vo pré­vio em men­te con­du­ta que tem sido obser­va­da em todas as áre­as de vare­jo físi­co.

Medi­das de pro­te­ção para os cli­en­tes do shop­ping Eldo­ra­do em São Pau­lo

Cli­en­tes podem se cer­ti­fi­car da segu­ran­ça?

Na entra­da do shop­ping de luxo situ­a­do na movi­men­ta­da Faria Lima, em São Pau­lo, faz-se visí­vel um lon­go cor­re­dor com fai­xas orga­ni­za­do­ras de filas e tape­tes sani­ti­zan­tes. No fim da pas­sa­gem, uma gran­de tela apre­sen­ta infor­ma­ções em lis­ta, atu­a­li­za­das em tem­po real, que se asse­me­lham demais aos pai­néis de horá­ri­os de che­ga­da e par­ti­da de voos em aero­por­tos.

   Esse pai­nel ser­ve para indi­car a medi­ção de tem­pe­ra­tu­ra de cada pes­soa ao entrar no cen­tro comer­ci­al. O pro­ces­so todo leva menos de cin­co segun­dos, des­de lavar os cal­ça­dos até rece­ber a afir­ma­ti­va de que sua entra­da ao shop­ping é segu­ra.

É real­men­te uma nova expe­ri­ên­cia de pas­seio. Ao che­gar no impo­nen­te edi­fí­cio que inau­gu­rou a era dos shop­pings em São Pau­lo, avis­ta-se as câme­ras ter­mo­grá­fi­cas. A medi­ção é fei­ta na entra­da, mas não é per­mi­ti­do ficar no local tem­po sufi­ci­en­te para che­car os dados apre­sen­ta­dos no pai­nel.

O ambi­en­te inter­no é amplo, com gran­des cor­re­do­res bem-ilu­mi­na­dos. Por todos os lados, é pos­sí­vel enxer­gar ori­en­ta­ções de dis­tan­ci­a­men­to soci­al, bem como dis­plays de álco­ol em gel com men­sa­gens de incen­ti­vo à lim­pe­za das mãos. O uso obri­ga­tó­rio de más­ca­ras de pro­te­ção é refor­ça­do em todas as esqui­nas. No Igua­te­mi, não encon­tra­mos nenhum visi­tan­te sem o aces­só­rio.

Há a pro­mes­sa de luzes ultra­vi­o­le­tas desin­fec­tan­tes de cor­ri­mãos nas esca­das rolan­tes. Se estão lá ou não, não há como tirar a pro­va devi­do à natu­re­za invi­sí­vel do ultra­vi­o­le­ta. Fre­quen­tar é, como em tudo nes­sa reto­ma­da, uma ques­tão de con­fi­an­ça.

Den­tre algu­mas lojas vas­tas e total­men­te vazi­as, e outras  com cer­ca de cin­co pes­so­as pre­sen­tes, a Con­su­mi­dor Moder­no veri­fi­cou um mix de lojis­tas par­ti­cu­lar­men­te pre­o­cu­pa­dos com o dis­tan­ci­a­men­to e outros mais con­fi­an­tes em per­mi­tir a entra­da de múl­ti­plos cli­en­tes simul­ta­ne­a­men­te.

Por fim, os ele­va­do­res com supos­to sis­te­ma de ati­va­ção tou­ch­less não foram loca­li­za­dos dos três ele­va­do­res aces­sa­dos pela repór­ter, nenhum pos­suía boto­nei­ra sem toque. Mas o álco­ol em gel esta­va mar­can­do pre­sen­ça den­tro de todos eles.

Tape­tes sani­ti­zan­tes e câme­ras ter­mo­grá­fi­cas são encon­tra­dos duran­te pas­seio pelo shop­ping Igua­te­mi

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Cui­da­dos ques­ti­o­ná­veis

Os shop­pings popu­la­res ati­ve­ram-se ao pro­to­co­lo legal, mas com níti­das falhas no trei­na­men­to. Na entra­da prin­ci­pal do shop­ping Metrô San­ta Cruz, os fre­quen­ta­do­res são rece­bi­dos por um fun­ci­o­ná­rio sen­ta­do atrás de um tri­pé que, no topo, segu­ra uma câme­ra com sen­sor infra­ver­me­lho para a afe­ri­ção de tem­pe­ra­tu­ra cor­po­ral a uma dis­tân­cia de, apro­xi­ma­da­men­te, um metro e meio. E o mes­mo acon­te­cia para quem ingres­sas­se por outra entra­da menor, liga­da à área do metrô de mes­mo nome.

A impos­si­bi­li­da­de do con­tro­le do núme­ro de pes­so­as cir­cu­lan­do pelo shop­ping é níti­da. No site do shop­ping, a brMalls, hol­ding que é dona do empre­en­di­men­to, diz que ope­ra com uma limi­ta­ção de 40% da sua capa­ci­da­de. Porém, no dia da visi­ta, não era difí­cil visu­a­li­zar esbar­rões entre os fre­quen­ta­do­res que pas­sa­vam pelo andar tér­reo. Nas mesas dis­pos­tas na pra­ça de ali­men­ta­ção, ape­nas meta­de das cadei­ras esta­va dis­po­ní­vel. E nas esca­das rolan­tes havia uma sina­li­za­ção para o dis­tan­ci­a­men­to de dois degraus entre as pes­so­as.

Lim­pe­za no shop­ping Eldo­ra­do em São Pau­lo

Pou­ca segu­ran­ça

No shop­ping Eldo­ra­do, ter­cei­ro mais anti­go da cida­de, a veri­fi­ca­ção da tem­pe­ra­tu­ra por um segu­ran­ça com um termô­me­tro de infra­ver­me­lho, em uma dis­tân­cia a menos de um metro, foi a mai­or expres­são de segu­ran­ça pro­to­co­lar anti-Covid-19. Duran­te 40 minu­tos no shop­ping, foi pos­sí­vel obser­var o públi­co, acom­pa­nha­do das res­pec­ti­vas famí­li­as, usan­do ina­de­qua­da­men­te a más­ca­ra (com ela apoi­a­da no quei­xo) Em uma loja de ves­tuá­rio no shop­ping Eldo­ra­do, o repór­ter per­gun­tou a um fun­ci­o­ná­rio se o local higi­e­ni­za­va todas as peças toca­das, ao lon­go do dia, e a res­pos­ta foi posi­ti­va. O mes­mo ven­de­dor acres­cen­tou, porém, que se o repór­ter dese­jas­se pro­var um item fora do pro­ces­so de higi­e­ni­za­ção (que exi­ge a dife­ren­ça de 72 horas entre uma pro­va de um cli­en­te e outra) em um dos can­tos da loja, para que nin­guém sou­bes­se, “tudo bem”.

Lojis­tas e cola­bo­ra­do­res, em ambos os shop­pings, usa­vam más­ca­ra, e tam­bém havia a dis­po­si­ção de álco­ol em gel em dife­ren­tes áre­as dos empre­en­di­men­tos. Todas as ati­vi­da­des infan­tis e do cine­ma foram sus­pen­sas nos dois locais tam­bém. Por fim, os dois shop­pings dis­po­ni­bi­li­zam armá­ri­os inte­li­gen­tes para reti­rar as com­pras rea­li­za­das de for­ma on-line.

No Morum­bi Shop­ping, as medi­das de segu­ran­ça envol­vem dis­tan­ci­a­men­to soci­al, comu­ni­ca­ção e dis­po­ni­bi­li­za­ção de álco­ol em gel, entre outras ações

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Dis­tra­ção inu­si­ta­da

A Con­su­mi­dor Moder­no este­ve tam­bém no Morum­bi Shop­ping nos pri­mei­ros dias da rea­ber­tu­ra. O núme­ro de entra­das foi redu­zi­do e câme­ras ter­mo­grá­fi­cas devi­da­men­te posi­ci­o­na­das, tan­to nas entra­das de pedes­tres quan­to nas de aces­so pelo esta­ci­o­na­men­to de car­ros e motos, são obser­va­das duran­te todo o horá­rio de fun­ci­o­na­men­to. A ocu­pa­ção limi­ta­da a 40% da capa­ci­da­de e o dis­tan­ci­a­men­to de 2 metros, entre as mesas nas pra­ças de ali­men­ta­ção, esta­vam sen­do res­pei­ta­dos no momen­to da rea­ber­tu­ra. No entan­to, nas duas horas de per­ma­nên­cia no inte­ri­or do local, ape­nas um fun­ci­o­ná­rio – que lim­pa­va o cor­ri­mão de uma esca­da rolan­te – foi vis­to rea­li­zan­do algum tipo de assep­sia.

No Morum­bi, mesas des­ti­na­das a uso divi­dem espa­ço com outras, inter­di­ta­das e devi­da­men­te sina­li­za­das.  Além dis­so, é pos­sí­vel visu­a­li­zar totens de álco­ol em gel em diver­sos pon­tos da pra­ça e demar­ca­ções no piso, orga­ni­zan­do as filas dos res­tau­ran­tes. Obser­va­mos que, tan­to nos cor­re­do­res do shop­ping quan­to nas esca­das rolan­tes, nos ele­va­do­res e nas lojas, não fal­tam mar­ca­do­res e avi­sos espa­lha­dos por todos os can­tos.

Nas lojas, lem­bre­tes do uso do álco­ol em gel são facil­men­te encon­tra­dos den­tro dos espa­ços; pro­va­do­res não estão libe­ra­dos para uso (como con­tra­par­ti­da, é ofe­re­ci­do pra­zo mai­or, ou até ili­mi­ta­do para a tro­ca); e o núme­ro máxi­mo de cli­en­tes é res­pei­ta­do.

Mas os pro­to­co­los não dão con­ta de todas as par­ti­cu­la­ri­da­des dos cli­en­tes recém-liber­tos do iso­la­men­to. Qui­os­ques cen­trais aglo­me­ra­vam com­pra­do­res e ven­de­do­res sem res­pei­tar a dis­tân­cia míni­ma. O moti­vo: um filho­te de cabra, pas­se­an­do enco­lei­ra­do com seus donos orgu­lho­sos o bas­tan­te para que todos se esque­ces­sem do dis­tan­ci­a­men­to soci­al e se aglo­me­ras­sem, a fim de tirar uma foto com o visi­tan­te insó­li­to até para uma cena de fic­ção cien­tí­fi­ca.