ARTI­GO JAC­QUES MEIR

Anor­ma­li­da­de como regra ou nor­ma­li­da­de des­re­gra­da?

Pan­de­mia, dis­tan­ci­a­men­to soci­al, más­ca­ras, todo o ritu­al e o reper­tó­rio asso­ci­a­dos ao momen­to são um tes­te de resis­tên­cia para cida­dãos e con­su­mi­do­res. O que será do futu­ro com­pa­ra­do a um pas­sa­do que não vol­ta mais?

Vamos para sete meses des­de a che­ga­da da pan­de­mia. A vida da mai­or par­te das pes­so­as, em cen­te­nas de paí­ses, deu um autên­ti­co cava­lo de pau. Mais do que roti­na, a manei­ra de viver foi modi­fi­ca­da, incor­po­ran­do hábi­tos desa­gra­dá­veis, estra­nhos e, até, incom­pre­en­sí­veis. Olhan­do em retros­pec­ti­va, em mar­ço come­ça­mos a ser inun­da­dos por notí­ci­as e nar­ra­ti­vas sobre “pan­de­mia”. Não foram pou­cos os que fica­ram se per­gun­tan­do o que isso sig­ni­fi­ca. O vírus que par­tiu da Chi­na e ganhou o mun­do em velo­ci­da­de assus­ta­do­ra ia dei­xan­do um ras­tro de hos­pi­tais lota­dos, cenas de fil­mes hollywo­o­di­a­nos (com médi­cos em ves­ti­men­tas espe­ci­ais, cober­tos da cabe­ça aos pés), mor­tes, sofri­men­to e deses­pe­ro. E então, na velo­ci­da­de de uma bus­ca no Goo­gle, esco­las, lojas, empre­sas, cine­mas, shop­pings, par­ques e está­di­os foram fecha­dos. O mun­do se reco­lheu e, no mês de abril, parou.

Como nos fil­mes, pou­co a pou­co come­ça­mos a colo­car os ros­tos para fora de casa enquan­to uma guer­ra de nar­ra­ti­vas com­ple­ta­men­te ama­lu­ca­das se desen­ro­la­va nas mídi­as e na inter­net. Sim, a pan­de­mia foi ater­ro­ri­zan­te e suas cau­sas e con­sequên­ci­as foram dis­tor­ci­das de tal modo que hoje é qua­se impos­sí­vel dis­tin­guir qual é o real poder do novo coro­na­ví­rus e o grau de gra­vi­da­de e seque­las da doen­ça a ele asso­ci­a­da, a Covid-19. O sal­do des­sa info­de­mia (a doen­ça infor­ma­ci­o­nal que pro­cu­rou poli­ti­zar, sen­sa­ci­o­na­li­zar, des­qua­li­fi­car ou evi­den­ci­ar o alcan­ce e a gra­vi­da­de da pan­de­mia) foi uma per­da de refe­ren­ci­al e a ado­ção de um com­por­ta­men­to que varia da estu­pi­dez pura e sim­ples, pas­san­do pelo temor irra­ci­o­nal, até a ina­ção con­for­mis­ta.

É cla­ro que esse cal­dei­rão de emo­ções e per­tur­ba­ções afe­tou o con­su­mi­dor. O trau­ma fica­rá pre­sen­te por um bom perío­do, para além de dois, três anos como vis­lum­bram, erro­ne­a­men­te, os oti­mis­tas de facha­da. Afi­nal, mui­tos de nós ain­da nos res­guar­da­mos em nos­sas resi­dên­ci­as, saí­mos de más­ca­ras, pen­sa­mos duas, três vezes antes de irmos a um res­tau­ran­te ou a um shop­ping, vaci­la­mos dian­te da ideia de ver um cine­ma rea­brir ou de ir a um está­dio, pas­sa­mos álco­ol em gel o tem­po todo em todo lugar, até quan­do aca­ba­mos de sair do banho. Pode­mos ir às lojas, mas com receio de tocar em algo, che­ga­mos das com­pras e desin­fe­ta­mos paco­tes, não sabe­mos se é líci­to recla­mar de alguém sem más­ca­ra. E olha­mos para aglo­me­ra­ções em ôni­bus e metrôs com receio. E isso não é tudo.

Bares estão libe­ra­dos e depois de um cer­to sen­ti­do de liber­ta­ção, com gen­te se aco­to­ve­lan­do nos locais da moda rea­ber­tos, hoje a gran­de mai­o­ria apre­sen­ta um movi­men­to bem medío­cre. Estra­nha­men­te, bares aber­tos e esco­las fecha­das, punin­do cri­an­ças e seu futu­ro pela fal­ta de res­pon­sa­bi­li­da­de, matu­ri­da­de e inte­li­gên­cia dos adul­tos. No feri­a­do, milha­res foram às prai­as come­mo­rar uma espé­cie de alfor­ria à bei­ra-mar. Entre escan­da­li­za­dos e indi­fe­ren­tes, o fato cen­tral é que a vida per­deu mui­to do seu sen­ti­do. E vida sem sen­ti­do prá­ti­co, sem a roti­na que apren­de­mos a pra­ti­car – e a cri­ti­car –, can­sa em dema­sia. Sim, esta­mos can­sa­dos. Sim, tive­mos com­pen­sa­ções a par­tir da reco­ne­xão com famí­li­as, fru­ga­li­da­de, sim­pli­ci­da­de e com nos­so lar. Mas em si, ao dor­mir, toda essa rea­li­da­de repre­sen­ta uma anor­ma­li­da­de, e nos trans­mi­te uma sen­sa­ção de que o mun­do saiu do eixo, a rea­li­da­de se des­co­lou da sani­da­de e cada dia pas­sa a ser uma espé­cie de luta con­tra uma role­ta-rus­sa que não sabe­mos bem se está em ação.

Esse estra­nha­men­to vai per­ma­ne­cer conos­co mes­mo após a che­ga­da da bala de pra­ta que emba­la uma ou vári­as vaci­nas. Essa expe­ri­ên­cia vai mar­car nos­sa for­ma de olhar para o outro e para nós mes­mos, vai nos tor­nar mais refle­xi­vos, menos pro­pen­sos ao abra­ço fácil e ao bei­ji­nho no ros­to gra­tui­to. Vai nos tor­nar mais prag­má­ti­cos, mais reféns de pla­ta­for­mas digi­tais que nos aju­dam a con­su­mir, tra­ba­lhar, namo­rar e se entre­ter. A rigor, quan­do a vaci­na vier, a sen­sa­ção será de alí­vio, mas nos­sa men­te vai nos impor a von­ta­de da auto­pre­ser­va­ção por um bom tem­po até que todos pos­sa­mos nos sen­tir con­for­tá­veis em ado­tar com­por­ta­men­tos que hoje são de ris­co.

Será então que tere­mos de ado­tar essa anor­ma­li­da­de como regra ou ire­mos nos entre­gar a uma nor­ma­li­da­de des­re­gra­da, como um alcoó­li­co que tem uma recaí­da e man­da a abs­ti­nên­cia para o espa­ço de uma vez? Viver den­tro da nor­ma do “anor­mal”, do “anti­nor­mal”, é um exer­cí­cio de infe­li­ci­da­de. É impos­sí­vel “nor­ma­li­zar” a vida com termô­me­tros, álco­ol em gel, más­ca­ras dis­tan­ci­a­men­to, iso­la­men­to e cál­cu­lo de ris­cos para todo e qual­quer lugar que se tenha de ir ao sair de casa. É tor­tu­ran­te “natu­ra­li­zar” o receio de tocar em qual­quer obje­to e abrir por­tas de refri­ge­ra­do­res usan­do os coto­ve­los (uma ideia cri­a­ti­va, mas desen­gon­ça­da, ado­ta­da por redes de super­mer­ca­dos). Da mes­ma for­ma, des­bun­dar ao sabor da nega­ção para for­çar a reto­ma­da de uma “nor­ma­li­da­de” que ficou no pas­sa­do é sim­ples­men­te ofen­si­vo, des­res­pei­ta os que sofrem com a pan­de­mia, inclu­si­ve aque­les mais frá­geis psi­co­lo­gi­ca­men­te. Nes­se meio-ter­mo, na nuan­ce, na fili­gra­na, devem cami­nhar as empre­sas para com­pre­en­der e trans­mi­tir segu­ran­ça aos con­su­mi­do­res. Devem ser por­tos segu­ros e ofe­re­cer expe­ri­ên­ci­as rela­xan­tes para um con­su­mi­dor res­sa­bi­a­do. O con­su­mo, por mais que a res­tri­ção de ren­da seja ine­vi­tá­vel para mui­tos cli­en­tes, deve ser um momen­to de esca­pis­mo e de alí­vio dian­te de uma rea­li­da­de que se tor­nou mais ári­da.

Come­di­men­to, tem­pe­ran­ça, fru­ga­li­da­de, rela­xa­men­to. Pro­por­ci­o­nar estas sen­sa­ções pode­rá ser uma boa apos­ta para quem qui­ser enga­jar o con­su­mi­dor no futu­ro pró­xi­mo. Um futu­ro na velo­ci­da­de digi­tal, mas de con­su­mo caden­ci­a­do.