MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

AS LÓGI­CAS DA

EFI­CI­ÊN­CIA

AS LÓGI­CAS DA

EFI­CI­ÊN­CIA

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

Nos dias de hoje, sob a ban­dei­ra da efi­ci­ên­cia, os Direi­tos Civis (e do con­su­mi­dor) estão indo para o ralo”

REEN­GE­NHA­RIA. Esta foi a pala­vra da moda uns 30 anos atrás. Tudo pre­ci­sa­va pas­sar por ela. E o obje­ti­vo cen­tral era encon­trar a efi­ci­ên­cia. Eu era Dire­tor do Pro­con de São Pau­lo e lá fomos nós fazer semi­ná­ri­os inter­nos na bus­ca de uma orga­ni­za­ção oti­mi­za­da. Pre­ci­sá­va­mos pas­sar o Pro­con por uma reen­ge­nha­ria. Embar­quei na novi­da­de, mas sem­pre des­con­fi­a­do.

Até que um dia li uma crô­ni­ca do Verís­si­mo sobre a neces­si­da­de de reen­ge­nha­ria em uma Orques­tra Sinfô­ni­ca. Ao assis­tir a um con­cer­to, um Con­sul­tor – Ah, os con­sul­to­res – pre­pa­rou um rela­tó­rio con­clu­si­vo. As pro­pos­tas iam no seguin­te cami­nho: o har­pis­ta ficou qua­se o tem­po todo sem tocar e pode­ria ser reti­ra­do da orques­tra sem fazer fal­ta; qual é a razão para tan­tos vio­li­nis­tas tocan­do a mes­ma nota se somen­te alguns, com um micro­fo­ne pró­xi­mo, exe­cu­ta­ri­am ple­na­men­te a par­ti­tu­ra?; os sus­te­ni­dos e bemóis davam mui­to tra­ba­lho aos músi­cos, can­san­do-os e pou­co acres­cen­tan­do ao resul­ta­do final da apre­sen­ta­ção; os músi­cos da orques­tra não olha­vam para o maes­tro, o que demons­tra­va que ele era dis­pen­sá­vel; e assim por dian­te. Con­clu­são: aque­la orques­tra pre­ci­sa­va real­men­te de uma reen­ge­nha­ria para ser mais efi­ci­en­te.

Des­de a lei­tu­ra des­sa crô­ni­ca, pas­sei a des­con­fi­ar da reen­ge­nha­ria e de tudo que tives­se esta mes­ma fei­ção. A pala­vra vai se amol­da­do aos tem­pos, mas a ideia con­ti­nua a mes­ma: pre­ci­sa­mos de efi­ci­ên­cia! Cus­to-bene­fí­cio. O que não se dis­cu­tia à épo­ca – e ain­da hoje – é de que tipo de efi­ci­ên­cia esta­mos tra­tan­do. Econô­mi­ca ou Esté­ti­ca no caso da orques­tra? Econô­mi­ca ou garan­ti­do­ra de Direi­tos no caso da defe­sa dos con­su­mi­do­res?

Nos dias de hoje, sob a ban­dei­ra da efi­ci­ên­cia, os Direi­tos Civis (e do con­su­mi­dor) estão indo para o ralo. Ao ter como úni­co parâ­me­tro a efi­ci­ên­cia econô­mi­ca, os Direi­tos per­dem espa­ço. O que é pior: no caso do direi­to do con­su­mi­dor, legi­ti­ma-se um dis­cur­so de que o con­su­mi­dor, ao não ter toma­do os cui­da­dos neces­sá­ri­os para sua pro­te­ção (não ter sido efi­ci­en­te con­si­go mes­mo), per­de Direi­tos por sua pró­pria dis­pli­cên­cia. O con­su­mi­dor pas­sa a ser o res­pon­sá­vel pela lesão que sofreu. O que fica ocul­to nes­te raci­o­cí­nio é o fato de que o con­su­mi­dor é vul­ne­rá­vel ao mer­ca­do de con­su­mo e, por isso mes­mo, não tem como se pro­te­ger. Este é o prin­cí­pio.

A lógi­ca da efi­ci­ên­cia econô­mi­ca não pode se sobre­por quan­do se está dian­te de dese­qui­lí­bri­os soci­ais, de situ­a­ções em que a afir­ma­ção de Direi­tos depen­de da garan­tia de uma posi­ção de igual­da­de nas nego­ci­a­ções. Como não exis­te igual­da­de econô­mi­ca, o míni­mo a ser garan­ti­do é uma igual­da­de no exer­cí­cio dos Direi­tos. Não é o que esta­mos ven­do.

O retro­ces­so pelo qual a defe­sa do con­su­mi­dor pas­sa no Bra­sil (e as recen­tes deci­sões do Supe­ri­or Tri­bu­nal de Jus­ti­ça tal­vez sejam o melhor termô­me­tro do desas­tre que se anun­cia) lem­bra a his­tó­ria da Orques­tra Sinfô­ni­ca des­con­fi­gu­ra­da pelo dis­cur­so da efi­ci­ên­cia. Ain­da bem que as Orques­tras igno­ra­ram os con­sul­to­res.

Nos dias de hoje, sob a ban­dei­ra da efi­ci­ên­cia, os Direi­tos Civis (e do con­su­mi­dor) estão indo para o ralo”