MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

BALEI­AS:

ESTA­DO DE DES­NE­CES­SI­DA­DE

BALEI­AS:

ESTA­DO DE DES­NE­CES­SI­DA­DE

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

Tal­vez tenha­mos esque­ci­do de que a cons­tru­ção de direi­tos cor­res­pon­de ao cum­pri­men­to de deve­res”

    Jonas ficou três dias pre­so na bar­ri­ga da baleia. Pos­si­vel­men­te foi um tem­po de medo, de amal­di­ço­ar seu des­ti­no, de orar e de medi­tar. “Tan­to a fazer a man­do de Deus e mor­rer de uma for­ma des­tas, na boca de um cão do mar…”, deve ter pen­sa­do Jonas. Mas sua refle­xão pode ter sido outra: “o que fiz para mere­cer este fim e o que devo fazer para sair daqui?”. Seja como for, pas­sa­dos três dias, Jonas foi espir­ra­do para fora da baleia. Três dias de refle­xões.

    Vocês devem estar se per­gun­tan­do: por que lem­brar de Jonas? Ain­da não sei mui­to bem, mas meu incons­ci­en­te jor­rou esta fábu­la bíbli­ca quan­do li uma notí­cia ater­ro­ri­za­do­ra nos jor­nais: o Japão, depois de 30 anos, rei­ni­ci­ou a caça às balei­as para fins comer­ci­ais. A pre­vi­são é de que 227 balei­as sejam aba­ti­das até o fim de 2019. Em ple­no sécu­lo 21, a civi­li­za­ção dá lar­gos pas­sos para trás.

    Por que matar balei­as? A jus­ti­fi­ca­ti­va cen­tral é que faz par­te da cul­tu­ra japo­ne­sa comer car­ne de baleia. Não é uma jus­ti­fi­ca­ti­va com base em algum esta­do de neces­si­da­de, como já foi na his­tó­ria. Será que a jus­ti­fi­ca­ti­va apre­sen­ta­da bas­ta? (Acho que as razões devem ser menos nobres.)

    Nor­bert Eli­as cunhou uma expres­são mui­to cara a todos nós: pro­ces­so civi­li­za­tó­rio. Segun­do o soció­lo­go ale­mão, a his­tó­ria da huma­ni­da­de moder­na des­cre­ve uma cres­cen­te estru­tu­ra­ção e res­tri­ção do com­por­ta­men­to huma­no, o que se deno­mi­nou, nas pala­vras de seus pró­pri­os pro­ta­go­nis­tas, por civi­li­za­ção. Outros pen­sa­do­res, deven­do ser des­ta­ca­do Nor­ber­to Bob­bio, qua­li­fi­ca­ram esta evo­lu­ção his­tó­ri­ca, ao se refe­ri­rem a uma cons­tru­ção soci­al, de Eras de Direi­tos: direi­tos indi­vi­du­as, polí­ti­cos e soci­ais.

    Nes­te con­tex­to, a vol­ta da caça às balei­as deve ser vis­ta como um puro e abso­lu­to retro­ces­so no nos­so pro­ces­so civi­li­za­tó­rio. Tal­vez tenha­mos esque­ci­do de que a cons­tru­ção de direi­tos cor­res­pon­de ao cum­pri­men­to de deve­res. E que todos temos deve­res com os mais vul­ne­rá­veis. E que nos­sas ações devem ter jus­ti­fi­ca­ti­vas no míni­mo razoá­veis. E que o pro­ces­so de cons­tru­ção de direi­tos exi­ge uma revi­são de alguns hábi­tos cul­tu­rais. O rela­ti­vis­mo cul­tu­ral tem limi­tes.

    Jonas medi­tou três dias, foi sal­vo e seguiu seu rumo para que os assí­ri­os se tor­nas­sem mais jus­tos. Este era seu man­da­to divi­no. Nós fin­gi­mos que medi­ta­mos e em esta­do de des­ne­ces­si­da­de mata­mos ani­mais que, na esca­la do pro­ces­so evo­lu­ti­vo, con­se­gui­ram grau de sen­ci­ên­cia e de comu­ni­ca­ção que nos­sa des­ra­zão tal­vez com­pre­en­da um dia. Se der tem­po.

Tal­vez tenha­mos esque­ci­do de que a cons­tru­ção de direi­tos cor­res­pon­de ao cum­pri­men­to de deve­res”