MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

DATA VENIA:

CUI BONO?

DATA VENIA:

CUI BONO?

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

Se a apli­ca­ção de uma lei já era mui­to difí­cil, o que dizer da imple­men­ta­ção de vári­as leis, cada uma um pou­qui­nho dife­ren­te das demais? É o que está acon­te­cen­do no direi­to do con­su­mi­dor”

    Na orga­ni­za­ção do Sis­te­ma Naci­o­nal de Defe­sa do Con­su­mi­dor dois acon­te­ci­men­tos recen­tes mere­cem ser ana­li­sa­dos: o Esta­do de Per­nam­bu­co e o Muni­cí­pio de São Pau­lo aca­bam de apro­var um Códi­go Esta­du­al e um Códi­go Muni­ci­pal de Defe­sa do Con­su­mi­dor. Nes­tes tem­pos de enor­me retro­ces­so legis­la­ti­vo, o sen­ti­men­to ini­ci­al seria de come­mo­ra­ções. Até que enfim os Esta­dos e Muni­cí­pi­os come­ça­ram a atu­ar para defen­der o lado mais fra­co da rela­ção de con­su­mo! E, com toda cer­te­za, outros entes fede­ra­dos segui­rão nes­te cami­nho. Será isso mes­mo? Temos o que cele­brar?

    Tem horas que me sin­to o aves­so da Poli­a­na: não vejo nenhum hori­zon­te azul pelo front e mes­mo o que pare­ce ser bom tem para mim um gos­to amar­go. No caso das leis de defe­sa do con­su­mi­dor apro­va­das, as razões do meu pes­si­mis­mo são mui­to cla­ras. Mas não pre­ten­do abrir um deba­te jurí­di­co a res­pei­to da constitucionalidade/legalidade des­tas leis. Aqui não é o espa­ço para isso. O que me inte­res­sa ana­li­sar é se o Sis­te­ma Naci­o­nal de Defe­sa do Con­su­mi­dor sai for­ta­le­ci­do com estas medi­das. Minha res­pos­ta dire­ta é NÃO. E por que?

    Cada vez mais acre­di­to que um dos pro­ble­mas da pós-moder­ni­da­de é a frag­men­ta­ção. Nada é por intei­ro. Na medi­ci­na isso fica mui­to cla­ro: não sou mais um cor­po: sou um fíga­do, um cora­ção, um rim etc… Cada espe­ci­a­lis­ta vê um peda­ço de mim e é impos­sí­vel jun­tar tudo. O direi­to pas­sa pelo mes­mo pro­ble­ma. Para cada tema, uma lei. E, mui­tas vezes, vári­as leis, todas tra­tan­do dos mes­mos con­fli­tos. Se a apli­ca­ção de uma lei já era mui­to difí­cil, o que dizer da imple­men­ta­ção de vári­as leis, cada uma um pou­qui­nho dife­ren­te das demais? É o que está acon­te­cen­do no direi­to do con­su­mi­dor.

    Em vez de atu­a­li­zar o Códi­go de Defe­sa do Con­su­mi­dor, que está per­to de fazer ani­ver­sá­rio de 30 anos, ou de apro­var uma regu­la­men­ta­ção geral orga­ni­zan­do sua apli­ca­ção, abriu-se um novo cami­nho: apro­var novas leis, mas ago­ra sem a menor sis­te­ma­ti­za­ção. Cabe a per­gun­ta fei­ta por Cíce­ro nos tem­pos roma­nos: cui bono? A quem bene­fi­cia?

    Isso não é bom nem para os con­su­mi­do­res nem para os for­ne­ce­do­res. Os con­su­mi­do­res do Muni­cí­pio de São Pau­lo mere­cem ser mais pro­te­gi­dos do que os con­su­mi­do­res de Gua­ru­lhos? Não acre­di­to nis­so. Pre­ci­sa­mos de leis gerais. E os for­ne­ce­do­res têm como aten­der a legis­la­ções dife­ren­tes na pro­du­ção e comer­ci­a­li­za­ção de seus pro­du­tos e ser­vi­ços? Pode-se ima­gi­nar a lou­cu­ra de uma prá­ti­ca dife­ren­ci­a­da para cada Esta­do ou Muni­cí­pio? Acre­di­to que não. Enquan­to no mun­do todo se enca­mi­nha para a sis­te­ma­ti­za­ção geral das cha­ma­das boas prá­ti­cas, geran­do segu­ran­ça jurí­di­ca para todos, o Bra­sil come­ça a frag­men­tar sua legis­la­ção, cri­an­do uma inse­gu­ran­ça para todos.

    Vol­to à per­gun­ta: cui bono? É tris­te dizer, mas bene­fi­cia pes­so­as que que­rem apa­re­cer como garan­ti­do­ras dos direi­tos do con­su­mi­dor, mas que no fun­do que­rem se bene­fi­ci­ar com um mar­ke­ting pes­so­al de suas rasas rea­li­za­ções.

    O que pre­ci­sa­mos é de gover­nan­tes e legis­la­do­res com­pro­me­ti­dos com a atu­a­li­za­ção e imple­men­ta­ção do que já temos de bom, o já madu­ro Códi­go Bra­si­lei­ro de Defe­sa do Con­su­mi­dor.

    Já pas­sou a épo­ca de pre­ten­sos sal­va­do­res da pátria. Data venia.

Se a apli­ca­ção de uma lei já era mui­to difí­cil, o que dizer da imple­men­ta­ção de vári­as leis, cada uma um pou­qui­nho dife­ren­te das demais? É o que está acon­te­cen­do no direi­to do con­su­mi­dor”