LUCI­A­NO BENET­TI TIMM
SECRE­TÁ­RIO NACI­O­NAL DO CON­SU­MI­DOR DO MINIS­TÉ­RIO DA JUS­TI­ÇA E SEGU­RAN­ÇA PÚBLI­CA

ARTI­GO

DESA­FI­OS E PERS­PEC­TI­VAS FUTU­RAS PARA
A DEFE­SA DO CON­SU­MI­DOR PELA SENA­CON

pre­sen­te arti­go remon­ta algu­mas refle­xões fei­tas ao lon­go de 2019 e que indi­cam um cami­nho para a Secre­ta­ria Naci­o­nal do Con­su­mi­dor (Sena­con) no tocan­te à defe­sa do con­su­mi­dor no Bra­sil.
O pri­mei­ro e mais impor­tan­te desa­fio da Sena­con é inte­grar o Sis­te­ma Naci­o­nal de Defe­sa do Con­su­mi­dor (SNDC). Há uma per­cep­ção de inte­gran­tes do pró­prio SNDC de que é neces­sá­rio mai­or uni­for­mi­za­ção de pro­ce­di­men­tos admi­nis­tra­ti­vos e de inter­pre­ta­ções dos dis­po­si­ti­vos legais.

O segun­do desa­fio é a inte­gra­ção com o Poder Judi­ciá­rio, de for­ma que tra­ga meca­nis­mos os quais per­mi­tam aos con­su­mi­do­res mai­or cum­pri­men­to espon­tâ­neo de seus direi­tos, sem a neces­si­da­de de mover uma ação judi­ci­al e dar iní­cio a todo o apa­ra­to do sis­te­ma públi­co de jus­ti­ça, bas­tan­te moro­so e cus­to­so para os cida­dãos bra­si­lei­ros.

Em segui­da, está o desa­fio de inte­gra­ção da defe­sa do con­su­mi­dor com temas regu­la­tó­ri­os, de modo que cabe à Sena­con par­ti­ci­par cada vez mais da regu­la­ção econô­mi­ca leva­da a efei­to pelas agên­ci­as regu­la­do­ras. Isso sig­ni­fi­ca a neces­si­da­de de capa­ci­ta­ção dos seus ser­vi­do­res em temas econô­mi­cos e regu­la­tó­ri­os, sen­do o mais pre­men­te deles o tema da eco­no­mia digi­tal e da pro­te­ção dos dados.

Isso sig­ni­fi­ca uma neces­si­da­de de mai­or inter­dis­ci­pli­na­ri­da­de na defe­sa do con­su­mi­dor, não mais res­tri­ta ape­nas ao Códi­go de Defe­sa do Con­su­mi­dor, mas à sua inte­gra­ção com outras leis e regu­la­men­tos seto­ri­ais.

Além dis­so, há atu­al­men­te uma estra­té­gia do gover­no bra­si­lei­ro de ingres­so como mem­bro da Orga­ni­za­ção para a Coo­pe­ra­ção e Desen­vol­vi­men­to Econô­mi­co (OCDE). A Sena­con infe­liz­men­te hoje ocu­pa o nível mais bai­xo na Comis­são de Polí­ti­ca dos Con­su­mi­do­res da OCDECCP (mera “obser­va­do­ra”) – den­tre os três exis­ten­tes – decor­ren­te de uma par­ti­ci­pa­ção redu­zi­da nos últi­mos anos. A Sena­con deve pre­ten­der uma subi­da de nível de seu sta­tus para uma posi­ção inter­me­diá­ria na OCDE: “par­ti­ci­pan­te” da CCP com vis­tas a futu­ra­men­te che­gar­mos ao topo: mem­bro inte­gran­te da comis­são.

Des­de a apro­va­ção do CDC, há pre­vi­são de polí­ti­cas públi­cas de defe­sa do con­su­mi­dor, no entan­to, o que fize­mos des­de então foi apos­tar na judi­ci­a­li­za­ção de con­fli­tos. Aque­la estra­té­gia de ade­são a alguns gui­as regu­la­tó­ri­os da OCDE está abso­lu­ta­men­te ali­nha­da às dire­ti­vas do Gover­no Fede­ral bra­si­lei­ro acer­ca da uti­li­za­ção de Aná­li­se de Impac­to Regu­la­tó­rio (AIR) e com a Lei de Liber­da­de Econô­mi­ca (que coí­be o “abu­so regu­la­tó­rio”), entre outras.

Desa­fio seme­lhan­te exis­te na inte­gra­ção da nos­sa defe­sa do con­su­mi­dor no âmbi­to da UNC­TAD, orga­nis­mo da Orga­ni­za­ção das Nações Uni­das (ONU) res­pon­sá­vel por temas con­cor­ren­ci­ais e de con­su­mi­dor.
Não menos impor­tan­te são os temas das ODRs (solu­ções de dis­pu­tas on-line) e ADRs (méto­dos alter­na­ti­vos de dis­pu­tas), ambos apli­ca­dos à defe­sa do con­su­mi­dor. A Sena­con terá a opor­tu­ni­da­de de ampli­ar o uso da pla­ta­for­ma do consumidor.gov.br, em razão de sua inte­gra­ção com o Pro­ces­so Judi­ci­al Ele­trô­ni­co (PJE).

Final­men­te, tam­bém exis­te ten­dên­cia no direi­to com­pa­ra­do de uso de gui­de­li­nes e soft law na defe­sa do con­su­mi­dor, em decor­rên­cia de uma per­cep­ção de que o hard law e mul­ta não fun­ci­o­nam na prá­ti­ca como dis­su­a­são ao des­cum­pri­men­to da legis­la­ção do CDC.