MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

DIAG­NÓS­TI­CO COR­RE­TO,

REMÉ­DIO ERRA­DO

DIAG­NÓS­TI­CO COR­RE­TO, REMÉ­DIO ERRA­DO

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

A ideia de cri­ar um Colé­gio Naci­o­nal de Ouvi­do­res é abso­lu­ta­men­te legí­ti­ma e váli­da”

  Uma das con­di­ções mais difí­ceis, quan­do vamos ana­li­sar algum fato, é fazer as per­gun­tas per­ti­nen­tes. As res­pos­tam se ade­quam às per­gun­tas. Fazer uma per­gun­ta exi­ge mui­tas vezes uma pro­fun­di­da­de mai­or do que a pró­pria res­pos­ta. Tudo isso nos reme­te à ideia da neces­si­da­de de um diag­nós­ti­co da situ­a­ção, pala­vra que tem ori­gem nos ter­mos gre­gos dia, que quer dizer “atra­vés” e gig­nós­ko, que sig­ni­fi­ca “conhe­cer”, “saber”. Pode­mos resu­mir: conhe­cer atra­vés da per­gun­ta.

  Por que esta­mos falan­do des­te tema? Por uma razão sim­ples: é pre­ci­so enten­der as per­gun­tas que foram fei­tas para sub­si­di­ar a edi­ção do polê­mi­co Decre­to nº 10.051/19, que ins­ti­tuiu o Colé­gio de Ouvi­do­res do Sis­te­ma Naci­o­nal de Defe­sa do Con­su­mi­dor. E as per­gun­tas que leva­ram ao diag­nós­ti­co me pare­cem ade­qua­das: os Pro­cons pre­ci­sam pres­tar con­tas à soci­e­da­de? É impor­tan­te garan­tir canais para o poder públi­co ouvir a popu­la­ção? É essen­ci­al que as ati­vi­da­des dos diver­sos Pro­cons tenham coe­rên­cia na bus­ca da for­ma­ção de um Sis­te­ma Naci­o­nal? Sim, sim e sim. Per­gun­tas per­ti­nen­tes faci­li­tam um diag­nós­ti­co ade­qua­do: o con­tro­le soci­al dos Pro­cons, aque­le fei­to pela popu­la­ção, é bem-vin­do.

  Mas depois do diag­nós­ti­co vem a neces­si­da­de de minis­trar os remé­di­os. Cus­tos e bene­fí­ci­os devem ser medi­dos e erros nes­te cál­cu­lo podem sair caro: os remé­di­os recei­ta­dos podem ser inó­cu­os ou podem até pio­rar a situ­a­ção do paci­en­te. De qual natu­re­za seri­am os dis­po­si­ti­vos do Decre­to nº 10.051/19? Bons, inó­cu­os ou peri­go­sos? Acre­di­to que temos de tudo nele.

  O bom remé­dio. A ideia de cri­ar um Colé­gio Naci­o­nal de Ouvi­do­res é abso­lu­ta­men­te legí­ti­ma e váli­da. Os Pro­cons tra­ba­lha­rem jun­tos e de for­ma coor­de­na­da só pode aju­dar a vida dos con­su­mi­do­res e tal cole­gi­a­do pode ser um ins­tru­men­to impor­tan­tís­si­mo para cor­ri­gir rotas e garan­tir um pro­ces­so demo­crá­ti­co. Todo espa­ço públi­co de dis­cus­são é um
bom remé­dio.

  O remé­dio inó­cuo. Cri­ar um cole­gi­a­do com dois mem­bros natos – o Ouvi­dor Geral do Minis­té­rio da Jus­ti­ça e um repre­sen­tan­te da Sena­con – e com todos os demais como meros con­vi­da­dos em nada garan­te a efi­cá­cia do remé­dio. Todos podem virar rapi­da­men­te des­con­vi­da­dos. Inten­ções de nada valem. O que valem são as ins­ti­tui­ções. As pes­so­as mudam e as estru­tu­ras ficam. Sem repre­sen­ta­ção ade­qua­da e garan­ti­as, o medi­ca­men­to não vai tra­zer o efei­to dese­ja­do.

  O remé­dio peri­go­so. O diag­nós­ti­co dos ris­cos da ausên­cia de um sis­te­ma orga­ni­za­do de defe­sa do con­su­mi­dor é ade­qua­do, mas o remé­dio deve­ria pas­sar pela cri­a­ção de espa­ços mais demo­crá­ti­cos. O medi­ca­men­to minis­tra­do vai agra­var as difi­cul­da­des já sofri­das pelo Sis­te­ma Naci­o­nal de Defe­sa do Con­su­mi­dor. Sob o nome de um con­tro­le soci­al (con­tro­le pela popu­la­ção), impõe-se um con­tro­le fede­ral (con­tro­le pelo gover­no fede­ral). Este con­tro­le soci­al anun­ci­a­do pode­ria, por exem­plo, ter como pres­su­pos­to a cri­a­ção de um Con­se­lho Naci­o­nal do Con­su­mi­dor, com a mais ampla par­ti­ci­pa­ção de todos os ato­res soci­ais e com as devi­das garan­ti­as para a ade­qua­da repre­sen­ta­ção. É nes­te tipo de Con­se­lho que as polí­ti­cas públi­cas encon­tram um local ide­al para serem publi­ca­men­te cons­truí­das e o con­tro­le soci­al acon­te­ce. Mas o que se pro­põe é o opos­to. E a trans­pa­rên­cia tam­bém está com­pro­me­ti­da. Veja-se um dos dis­po­si­ti­vos do decre­to: “É veda­da a divul­ga­ção de dis­cus­sões em cur­so nas reu­niões ordi­ná­ri­as e extra­or­di­ná­ri­as sem a anuên­cia pré­via do Pre­si­den­te do Colé­gio de Ouvi­do­res do Sis­te­ma Naci­o­nal de Defe­sa do Con­su­mi­dor”. O remé­dio pode agra­var a vida do paci­en­te.

  E o prog­nós­ti­co? Tem­pos difí­ceis pela fren­te. Mas tor­ço para estar erra­do nes­te meu diag­nós­ti­co. Pre­ci­so refle­tir mais um pou­co se fiz as per­gun­tas cer­tas…

A ideia de cri­ar um Colé­gio Naci­o­nal de Ouvi­do­res é abso­lu­ta­men­te legí­ti­ma e váli­da”