É HORA DE TRI­LHAR­MOS NOS­SO PRÓ­PRIO CAMI­NHO

Rober­to Meir

O mun­do foi pego de sur­pre­sa por uma revi­ra­vol­ta abrup­ta no ano em que se espe­ra­vam gran­des fei­tos. Em vez das dis­cus­sões sobre as refor­mas econô­mi­cas que tor­na­ri­am o ambi­en­te de negó­ci­os bra­si­lei­ro mais atra­en­te, e da liber­da­de para o con­su­mi­dor dis­rup­ti­vo ser o que ele qui­ses­se ser, vie­ram as regras de iso­la­men­to soci­al e os padrões rígi­dos de como se com­por­tar e, mais ain­da, do que não fazer.

Regras se tor­na­ram a pala­vra de ordem. Para garan­tir a saú­de, elas foram esta­be­le­ci­das para o tra­ba­lho, a vida pes­so­al, os rela­ci­o­na­men­tos, a mobi­li­da­de, a ocu­pa­ção de espa­ços públi­cos e pri­va­dos. Hoje, se esten­de­ram até para como deve­mos ser no futu­ro. Falar do “novo nor­mal” tam­bém virou regra. Foi decre­ta­do que, o que fun­ci­o­nou para um, vale para todos.

A liber­da­de de ser e agir como qui­ser ficou limi­ta­da ao que­rer den­tro dos padrões acei­tá­veis pelo “novo nor­mal”. As ordens foram mui­tas e às vezes con­tra­di­tó­ri­as: “não use más­ca­ras” e depois “use más­ca­ras”. O con­su­mo pelo e‑commerce, a comi­da do res­tau­ran­te pelo deli­very, o tra­ba­lho den­tro de casa, a rua em caso de extre­ma neces­si­da­de, os con­ta­tos sem toque.

As nor­mas sobre como as ati­vi­da­des devem vol­tar e as pre­vi­sões de como as pes­so­as pen­sa­rão e agi­rão já foram esta­be­le­ci­das. Esque­ce­ram-se que o ser huma­no não pode ser limi­ta­do. Quem pode­ria pre­ver que, na aber­tu­ra dos shop­pings nos Esta­dos Uni­dos, a pro­cu­ra por eles aumen­ta­ria? Padrões esta­tís­ti­cos de pari­da­de, como a regra de que 20% ditam o com­por­ta­men­to de 80%, não se apli­cam à rea­li­da­de. É pre­ci­so pen­sar além das ten­dên­ci­as para cri­ar e des­bra­var novos cami­nhos.

O espí­ri­to livre do capi­ta­lis­mo pede essa pos­tu­ra cora­jo­sa de ino­var, rom­per para­dig­mas e pro­por visões dife­ren­tes. Ao lon­go da his­tó­ria da huma­ni­da­de, foram jus­ta­men­te as pes­so­as que que­bra­ram as nor­mas impos­tas que trou­xe­ram à luz idei­as que muda­ram o mun­do. A liber­da­de de esco­lha não pode ser esque­ci­da.

O obje­ti­vo final é e será sem­pre o mes­mo: a vida. Os cami­nhos pos­sí­veis, no entan­to, vão mui­to além das impo­si­ções. Nenhum deles é fácil, e as per­das do que dei­xou de ser vivi­do são irre­cu­pe­rá­veis. Que país sai do iso­la­men­to? Quan­tos empre­gos sobre­vi­ve­rão? Que mar­cas pro­fun­das influ­en­ci­a­rão as deci­sões dos con­su­mi­do­res? E em que con­di­ções as pes­so­as pode­rão con­su­mir? Have­rá fôle­go para cres­ci­men­to soci­al?

Todos que­rem reto­mar a “nor­ma­li­da­de” das suas vidas, mas isso depen­de das con­di­ções e da res­pon­sa­bi­li­da­de de cada um. Veja o iso­la­men­to em São Pau­lo, em vigor des­de mea­dos de mar­ço, e que mui­to pou­co obte­ve em ter­mos de resul­ta­dos con­cre­tos e de cons­ci­en­ti­za­ção da popu­la­ção. Fique em casa. Mas quan­tos pude­ram ficar? E ago­ra, com a pro­pos­ta de reto­ma­da, nenhum pla­no de ação de con­tin­gen­ci­a­men­to e dis­tan­ci­a­men­to soci­al para evi­tar o con­tá­gio em um dos mai­o­res focos de todos, o trans­por­te públi­co. Afi­nal, como garan­tir o trans­por­te dos cida­dãos, com segu­ran­ça em metrôs e trens abar­ro­ta­dos de pes­so­as?

São fatos que escan­ca­ram as fra­gi­li­da­des e defi­ci­ên­ci­as de um País pobre em infra­es­tru­tu­ra e em ser­vi­ços à popu­la­ção, embo­ra mui­to rico em ter­mos de poten­ci­al e recur­sos natu­rais.

Mais do que nun­ca, é pre­ci­so olhar para as múl­ti­plas rea­li­da­des.

As pes­so­as sem recur­sos para pas­sar meses sem tra­ba­lhar, as peque­nas empre­sas que não con­se­guem man­ter seus fun­ci­o­ná­ri­os com as por­tas fecha­das ou semi­a­ber­tas, os que não têm inter­net de qua­li­da­de sufi­ci­en­te para estu­dar onli­ne ou para ade­rir ao e‑commerce, as famí­li­as intei­ras que divi­dem cômo­dos aper­ta­dos nas comu­ni­da­des caren­tes, os des­ban­ca­ri­za­dos. O Bra­sil de con­tras­tes, mais uma vez, con­fir­ma que não há ape­nas um novo nor­mal, e sim mui­tos anti­nor­mais.

Quan­do a rea­li­da­de que se conhe­cia entra em xeque, o ins­tin­to de sobre­vi­vên­cia fala mais alto. O “eu” vem em pri­mei­ro lugar, segui­do da famí­lia, dos ami­gos, da comu­ni­da­de. A união e valo­ri­za­ção da vizi­nhan­ça tomam o espa­ço do glo­bal. A rea­li­da­de que sur­ge nun­ca mais será como antes, e tem em sua essên­cia a indi­vi­du­a­li­da­de. Pre­ci­sa ser úni­ca para ser sus­ten­tá­vel. Múl­ti­pla para além dos nor­mais.

O futu­ro abri­rá cami­nhos que ain­da não foram des­bra­va­dos.

Na luta inces­san­te para sal­var vidas, o apoio de cada um é impor­tan­tís­si­mo. A soli­da­ri­e­da­de que vem sur­gin­do de empre­sas e con­su­mi­do­res, em um ato iné­di­to no País, mere­ce todo o nos­so lou­vor. O movi­men­to cor­po­ra­ti­vo vem evi­den­ci­an­do a alta capa­ci­da­de do setor pri­va­do em se orga­ni­zar e pro­mo­ver ações efe­ti­vas para o desen­vol­vi­men­to bra­si­lei­ro. Sal­tam aos olhos o esfor­ço sobre-huma­no de empre­sá­ri­os e todos os seus cola­bo­ra­do­res em sal­var o seu negó­cio e os empre­gos dos tra­ba­lha­do­res. O mes­mo não se pode dizer de nos­sos polí­ti­cos e gover­nan­tes, seja na redu­ção de seus ganhos, seja na redu­ção de seus impos­tos.

É pre­ci­so esti­mu­lar os peque­nos empre­en­de­do­res. Cada con­su­mi­dor deve pre­fe­rir o con­su­mo local, que é o gran­de gera­dor de empre­gos. A auto­ex­pres­são pede espa­ço. A neces­si­da­de de se sus­ten­tar vai tra­zer solu­ções ino­va­do­ras para levar o Bra­sil adi­an­te. É pre­ci­so dar voz à diver­si­da­de de idei­as e opi­niões. Incen­ti­vo para os jovens. Essa é a mis­são de todos nós: fazer nos­sos jovens, nos­sas comu­ni­da­des, nos­so entor­no cres­ce­rem.

Ao lon­go dos últi­mos 40 anos, a cri­se tem sido o nor­mal dos bra­si­lei­ros, que sobre­vi­ve­ram a con­ge­la­men­tos, con­fis­cos, des­va­lo­ri­za­ções absur­das de moe­da, apa­gões de ener­gia, cor­rup­ção. Temos a resi­li­ên­cia neces­sá­ria para pas­sar por mais esta. Novos cami­nhos virão.