MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

ENSAIO SOBRE O BRA­SIL:

AS INTER­MI­TÊN­CI­AS DA VIDA

ENSAIO SOBRE O BRA­SIL:

AS INTER­MI­TÊN­CI­AS DA VIDA

ENSAIO SOBRE O BRA­SIL:

AS INTER­MI­TÊN­CI­AS DA VIDA

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

A ausên­cia de com­bus­tí­vel por uma sema­na nos dei­xou à mer­cê de situ­a­ções extre­mas: fal­ta de trans­por­te, desa­bas­te­ci­men­to nos super­mer­ca­dos, pro­du­ção para­li­sa­da, fes­tas sus­pen­sas, ruas sem poli­ci­ais”

    A lite­ra­tu­ra bro­ta da vivên­cia dos con­fli­tos reais e, mui­tas vezes, expli­ci­ta o que está ocor­ren­do na atu­a­li­da­de. Ape­sar de o escri­tor não ser um teó­ri­co, sob pena de ser um pés­si­mo artis­ta, aca­ba sen­do um expli­ci­ta­dor do mun­do. Ossos do ofí­cio. Olhan­do o Bra­sil de hoje, fico ten­ta­do a refle­tir como um dos mai­o­res escri­to­res de lín­gua por­tu­gue­sa veria nos­so povo bra­si­lei­ro nes­ta situ­a­ção extre­ma recen­te­men­te vivi­da: a greve/locaute dos cami­nho­nei­ros.

    Expli­co. Uma das idei­as bri­lhan­tes do escri­tor por­tu­guês José Sara­ma­go foi ima­gi­nar como as pes­so­as se por­tam em situ­a­ções-limi­te. Pode­mos lem­brar de dois roman­ces: Ensaio Sobre a Ceguei­ra e As Inter­mi­tên­ci­as da Mor­te.

    No pri­mei­ro roman­ce – Ensaio Sobre a Ceguei­ra, em cer­to dia, algu­mas pes­so­as come­çam a ficar cegas e, por con­tá­gio, o núme­ro de cegos aumen­ta em uma esca­la eston­te­an­te. É pre­ci­so iso­lar essas pes­so­as e o que acon­te­ce nes­se abrigo/presídio é abso­lu­ta­men­te trá­gi­co: gru­pos de cegos tomam o poder e sub­me­tem os outros a situ­a­ções abso­lu­ta­men­te degra­dan­tes. Mui­tos lei­to­res não con­se­guem sequer aca­bar o livro de tan­ta vio­lên­cia des­cri­ta nes­ta con­di­ção huma­na.

    No segun­do roman­ce – As Inter­mi­tên­ci­as da Mor­te, numa manhã nor­mal, em um CER­TO país, ocor­re o inu­si­ta­do: nin­guém mais mor­re. O que pare­cia de iní­cio um moti­vo de feli­ci­da­de – a vitó­ria con­tra a mor­te – vai se tor­nan­do algo trá­gi­co: os cor­re­to­res de segu­ro de vida per­dem a razão da sua pro­fis­são; os bis­pos se per­gun­tam como cons­tran­ger os fiéis sem a ame­a­ça pre­men­te do infer­no; como pen­sar no nas­ci­men­to de novas cri­an­ças, se os velhos não mor­rem mais; os hos­pi­tais ficam lota­dos, pois os doen­tes con­ti­nu­am a che­gar e os lei­tos não são libe­ra­dos. Len­ta­men­te fica cla­ro que a mor­te tem uma fun­ção soci­al e seu fim joga as pes­so­as em um mun­do sem regras.

    Guar­da­das as pro­por­ções, o Bra­sil viveu uma des­sas situ­a­ções-limi­te. A ausên­cia de com­bus­tí­vel por uma sema­na nos dei­xou à mer­cê de situ­a­ções extre­mas: fal­ta de trans­por­te, desa­bas­te­ci­men­to nos super­mer­ca­dos, pro­du­ção para­li­sa­da, fes­tas sus­pen­sas, ruas sem poli­ci­ais etc. Alguns gos­ta­ram: as esta­tís­ti­cas de cri­me devem ter dimi­nuí­do, a polui­ção foi das meno­res, os pou­cos ôni­bus em cir­cu­la­ção tra­fe­ga­ram em velo­ci­da­de espe­ta­cu­lar. Mas o tem­po foi pas­san­do e as pes­so­as foram fican­do ten­sas. A vida foi fican­do difí­cil. Apoio ou não a gre­ve dos cami­nho­nei­ros? To be or not to be? As dúvi­das foram cres­cen­do.

    E se a gre­ve tives­se demo­ra­do um mês e não uma sema­na? Vol­ta­ría­mos a um esta­do de guer­ra hob­be­si­a­no? O homem como o lobo do homem? O medo de ter uma mor­te trá­gi­ca na esqui­na? Não sei… Eram tan­tos inte­res­ses e incom­pe­tên­ci­as em jogo que é difí­cil saber o que José Sara­ma­go pen­sa­ria des­sa situ­a­ção-limi­te. Mas sei que as pes­qui­sas de opi­nião encon­tra­ram um qua­dro intri­gan­te: mais de 85% da popu­la­ção apoi­ou a gre­ve, mas esses mes­mos 85% se recu­sam a arcar com os cus­tos das medi­das a serem toma­das para aten­der às rei­vin­di­ca­ções. O que fazer dian­te des­ta cons­ta­ta­ção? Con­ti­nuo sem saber… Só um escri­tor com a com­pe­tên­cia de José Sara­ma­go para expli­ci­tar quem é o povo bra­si­lei­ro. Sin­to-me inca­paz des­ta mis­são.

A ausên­cia de com­bus­tí­vel por uma sema­na nos dei­xou à mer­cê de situ­a­ções extre­mas: fal­ta de trans­por­te, desa­bas­te­ci­men­to nos super­mer­ca­dos, pro­du­ção para­li­sa­da, fes­tas sus­pen­sas, ruas sem poli­ci­ais”