C‑LEVEL

ESG e o espírito de um tempo

Meio ambi­en­te, sus­ten­ta­bi­li­da­de e gover­nan­ça se fir­mam na agen­da local e glo­bal ao pas­so que ban­cos e empre­sas assu­mem seus novos papéis soci­ais. Consumo edu­ca e é edu­ca­do em uma cons­ci­en­ti­za­ção cole­ti­va em rede
Por Felippe Constancio

Ainda que a gran­des cus­tos, nos­sa capa­ci­da­de de supe­rar pobre­za, doen­ças, guer­ras, fome, velhi­ce e, até mes­mo, a mor­te é fas­ci­nan­te. Quando as bases do mun­do em que vive­mos hoje come­ça­ram a apa­re­cer há 500 anos, com a Revolução Científica, éra­mos 500 milhões de pes­so­as e tínha­mos pro­du­zi­do US$ 250 bilhões até então. Hoje, somos 7,8 bilhões e pro­du­zi­mos US$ 60 tri­lhões. Gastávamos 13 tri­lhões de calo­ri­as e hoje são 1,5 qua­tri­lhão. Portanto, a popu­la­ção cres­ceu 14 vezes, a pro­du­ção mul­ti­pli­cou 240 vezes e o con­su­mo de ener­gia aumen­tou 115 vezes.

Fazemos tudo isso fada­dos às per­das e aos ganhos de ter fei­to o pla­ne­ta um só pal­co his­tó­ri­co. Se esta­mos, de fato, no mes­mo bar­co e os recur­sos são escas­sos, nos­sa úni­ca opção é dar mais sus­ten­ta­bi­li­da­de ao sis­te­ma.

“Acompanhamos mui­tos movi­men­tos no mer­ca­do e sabe­mos da difi­cul­da­de de tra­du­zir o dis­cur­so em prá­ti­ca nes­se tema. Por mais que você tenha lide­ran­ças bem-inten­ci­o­na­das, trans­for­mar a inér­cia do sis­te­ma e as dimen­sões de apro­va­ções é como os gran­des petro­lei­ros que demo­ram para fazer a cur­va”, com­pa­ra Victor Cremasco, sócio e co-CEO da con­sul­to­ria glo­bal em ino­va­ção cons­ci­en­te Mandalah. “Passou a ter o incons­ci­en­te cole­ti­vo de que a empre­sa tem que se enga­jar, mas o ESG (do inglês Environmental, Social and Governance) pode aca­bar viran­do bran­ding. Ainda não temos parâ­me­tros para medir, mas há indi­ca­do­res, índi­ces e cer­ti­fi­ca­ções que são coi­sas que têm his­tó­ri­co e pos­si­bi­li­tam infe­rir se uma empre­sa tem algo ou não”, com­ple­ta.

Uma das mais reco­nhe­ci­das con­sul­to­ri­as para sus­ten­ta­bi­li­da­de, a bra­si­lei­ra Mandalah atua com empre­sas des­de 2006 no desa­fio de via­bi­li­zar as inten­ções de empre­sas que bus­cam reno­var ou refor­çar seu papel soci­al ten­do em vis­ta o ESG. Dentre os prin­ci­pais desa­fi­os delas estão a auto­crí­ti­ca sobre seu real impac­to, a difi­cul­da­de de esta­be­le­cer uma estru­tu­ra que intei­re o ESG como agen­da pri­o­ri­tá­ria e a fal­ta de visão de lon­go pra­zo. “São raros os cases que se des­ta­cam pela trans­pa­rên­cia, humil­da­de, mea-cul­pa. Isso tem a ver com os con­se­lhos de os boards serem pou­co habi­li­ta­dos para falar de ESG. Nem 5% dos con­se­lhos do mun­do têm algum tipo de espe­ci­a­lis­ta no qua­dro. Predomina uma men­ta­li­da­de mais tra­di­ci­o­nal sobre ges­tão de negó­ci­os, dei­xan­do a agen­da ESG com tra­ção mais len­ta. Há tam­bém a fra­gi­li­da­de do tema e o quão madu­ras estão as empre­sas para falar de lon­go pra­zo e de decres­ci­men­to. Se entra mui­to pou­co no cer­ne da ques­tão”, adver­te Cremasco, dizen­do que é neces­sá­rio que os líde­res das gran­des empre­sas sejam “ambi­des­tros” e equi­li­brem as agen­das dos negó­ci­os com a de ESG.

Por que as empre­sas topam enfren­tar tais desa­fi­os para uma agen­da sus­ten­tá­vel? Porque o espí­ri­to do tem­po de fato está mudan­do. “Há uma dimen­são de rit­mo e de con­teú­do da mudan­ça. O rit­mo é orgâ­ni­co e de médio e lon­go pra­zos. O mer­ca­do é com­pe­ti­ti­vo e esta­mos entran­do em uma era em que a dife­ren­ci­a­ção não está no pro­du­to, mas nos cer­ti­fi­ca­dos, no enga­ja­men­to e no com­par­ti­lha­men­to de valo­res”, expli­ca o con­sul­tor.

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 PADRÕES DE ANÁLISE E ESTRUTURA

Diante da urgen­te neces­si­da­de de fazer o petro­lei­ro mano­brar sua cur­va, pou­co impor­ta se a pro­mo­ção da sus­ten­ta­bi­li­da­de tem sua ori­gem no con­su­mi­dor cons­ci­en­te ou das empre­sas que têm edu­ca­do o con­su­mi­dor. Empresas e pes­so­as con­cor­dam que as agen­das de ESG pre­ci­sam ganhar pro­je­ção. O que impor­ta é como vamos deci­dir sobre o flu­xo da escas­sez de recur­sos. 

Se os tem­pos estão mudan­do, tal­vez aque­les espe­ci­a­li­za­dos em “nego­ci­ar o tem­po” sejam a res­pos­ta. Os ban­cos, que há sécu­los refi­nam com a revo­lu­ci­o­ná­ria ideia do cré­di­to, têm o papel fun­da­men­tal de acre­di­tar que os recur­sos serão mais abun­dan­tes ama­nhã e cre­di­tá-los às par­tes dis­pos­tas a exer­cer exter­na­li­da­des posi­ti­vas no ambi­en­te. “Nós, no Santander, temos cla­ro que o cré­di­to, atre­la­do à edu­ca­ção e à infor­ma­ção finan­cei­ra, é uma fer­ra­men­ta pode­ro­sa para a gera­ção de cres­ci­men­to econô­mi­co e pros­pe­ri­da­de. Fomos pio­nei­ros em tra­zer o olhar da sus­ten­ta­bi­li­da­de para as nos­sas rela­ções com os cli­en­tes e com a soci­e­da­de. Nossa for­ma de atu­ar colo­ca em pers­pec­ti­va avan­ços pos­sí­veis e impor­tan­tes para toda a soci­e­da­de, o que gera impac­to posi­ti­vo para os cli­en­tes”, expli­ca Karine Bueno, head de Sustentabilidade do Santander Brasil. 

VICTOR CREMASCO,

sócio e co-CEO
da Mandalah.

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KARINE BUENO, head de Sustentabilidade do Santander Brasil.

“Lançamos, em julho de 2020, uma linha de cré­di­to de R$ 5 bilhões para via­bi­li­zar inves­ti­men­tos em sane­a­men­to, a par­tir do novo mar­co regu­la­tó­rio do setor. Fomos o pri­mei­ro ban­co a comer­ci­a­li­zar os CBIOs, que são títu­los emi­ti­dos por fabri­can­tes de bio­com­bus­tí­veis para aju­dar as dis­tri­bui­do­ras a com­pen­sar suas emis­sões de car­bo­no”, con­ta a exe­cu­ti­va, reve­lan­do que o ban­co hoje con­ta com 60 pes­so­as dis­tri­buí­das em nove áre­as que tra­ba­lham com negó­ci­os sus­ten­tá­veis. Hoje, o ban­co tem inse­ri­da aná­li­se de ris­co ambi­en­tal em sua via­bi­li­da­de de ofer­tas que che­ga a inter­rom­per o desen­vol­vi­men­to de um con­tra­to se neces­sá­rio. 

Outro ban­co que ava­lia empre­sas ten­do em vis­ta suas agen­das em ESG é o Itaú. Desde 2007, o ban­co con­ta com uma agen­da para “ris­co soci­o­am­bi­en­tal” que faz par­te de seus mode­los de cré­di­to, ser­vi­ços e pro­du­tos de inves­ti­men­tos. “Atualmente, ava­li­a­mos nove dimen­sões, recor­ren­tes em diver­sos seto­res. São elas: mudan­ças cli­má­ti­cas, con­su­mo de recur­sos natu­rais, con­ta­mi­na­ção de água e solo, saú­de e segu­ran­ça, mate­ri­ais peri­go­sos e pes­ti­ci­das, emis­sões atmos­fé­ri­cas, resí­du­os sóli­dos, con­di­ções de tra­ba­lho e eflu­en­tes”, reve­la Leila Melo, dire­to­ra e mem­bro do Comitê Executivo do Itaú Unibanco. 

Nos últi­mos anos, o ban­co ain­da evo­luiu nos mode­los de negó­ci­os ESG ao tra­zer visões de opor­tu­ni­da­des sus­ten­tá­veis a seus cli­en­tes. “Nesse sen­ti­do, temos uma área espe­ci­a­li­za­da no Itaú BBA que ana­li­sa ope­ra­ções ESG, como a emis­são de títu­los sus­ten­tá­veis, e auxi­lia nos­sos cli­en­tes na defi­ni­ção de alo­ca­ção de recur­sos, KPIs e for­mas de repor­te”, con­ta Melo.

Orientações de ris­co e opor­tu­ni­da­de aos cli­en­tes tam­bém vêm sen­do ado­ta­das pelo Bradesco. Desde 2012, a Bradesco Asset Management (Bram) ado­ta uma meto­do­lo­gia pró­pria dife­ren­ci­a­da de aná­li­se base­a­da em dados das com­pa­nhi­as e em seu pró­prio enga­ja­men­to com essas com­pa­nhi­as. “Quando faze­mos nos­sa aná­li­se, que­re­mos cola­bo­rar com a empre­sa nes­sa evo­lu­ção e acom­pa­nhar quais são as ati­tu­des toma­das para se desen­vol­ver no tema. A gen­te sabe que nem tudo pode ser fei­to de uma hora para outra, mas há mui­tos pro­du­tos que cor­rem ris­co em lon­go pra­zo caso não se adap­tem. É impor­tan­te que as com­pa­nhi­as pro­je­tem esse futu­ro e vejam o cami­nho que vão tri­lhar em lon­go pra­zo para se adap­tar a essa rea­li­da­de”, escla­re­ce Rodrigo Santoro Geraldes, head de Pesquisa da BRAM Bradesco Assets.

“Realmente exis­tem retor­nos mai­o­res a quem tem prá­ti­cas de ESG. Quem não as tem ou não as res­pei­tam está se arris­can­do. Uma empre­sa que tem boa gover­nan­ça, res­pei­ta o cli­en­te, o meio ambi­en­te e a soci­e­da­de e traz diver­si­da­de é mais bem geri­da. E não estou falan­do de medi­das menos eco­no­mi­ca­men­te viá­veis ago­ra – e sim de medi­das que tra­zem sus­ten­ta­bi­li­da­de ao negó­cio. Talvez, empre­sas que pri­o­ri­zem ape­nas resul­ta­dos em cur­to pra­zo pos­sam ter pro­ble­mas em lon­go pra­zo”, aler­ta o exe­cu­ti­vo.

A voz em unís­so­no dos ban­cos para o assun­to res­soa tam­bém entre ins­ti­tui­ções finan­cei­ras meno­res. Em mea­dos de abril des­te ano, a advo­ga­da Sílvia Scorsato assu­miu a pre­si­dên­cia do con­se­lho da Associação Brasileira de Bancos. Primeira mulher da ABBC, ela é dire­to­ra de ESG do ban­co Sofisa e man­te­rá a pau­ta do tema dian­te dos 101 asso­ci­a­dos, que vão de ban­cos meno­res e médi­os a fin­te­chs e empre­sas de paga­men­tos.

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LEILA MELO, diretora e membro do Comitê Executivo do Itaú Unibanco.

RODRIGO SANTORO,
head de Pesquisa
da BRAM Bradesco
Assets.

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Empresas e pes­so­as con­cor­dam que as agen­das de ESG pre­ci­sam ganhar pro­je­ção. O que impor­ta é como vamos deci­dir sobre o flu­xo da escas­sez de recur­sos.

Os ban­cos não são os úni­cos pro­ta­go­nis­tas de pujan­ça do mer­ca­do finan­cei­ro no movi­men­to de men­ta­li­da­de empre­sa­ri­al cole­ti­va para com­pro­mis­sos soci­ais e ambi­en­tais. Desde 2005, a B3 tem desen­vol­vi­do a pau­ta ESG em um sis­te­ma com­pa­ra­ti­vo de aná­li­se de empre­sas para melho­ras de aces­so a capi­tal, miti­ga­ção de ris­cos e melhor aten­di­men­to da deman­da cres­cen­te para a ques­tão. O Índice de Sustentabilidade Empresarial é um ambi­en­te de inves­ti­men­to fre­quen­ta­do por empre­sas que pas­sam por um pro­ces­so sele­ti­vo com o obje­ti­vo de apoi­ar inves­ti­do­res em suas deci­sões. Ele foi o quar­to índi­ce do mun­do a ser cri­a­do com este intui­to e induz empre­sas a ado­tar melho­res prá­ti­cas jus­ta­men­te para a melhor pere­ni­da­de dos negó­ci­os. Para par­ti­ci­par, as com­pa­nhi­as deten­to­ras das 200 ações mais líqui­das da B3 res­pon­dem a um ques­ti­o­ná­rio com­pos­to por diver­sas dimen­sões, de econô­mi­co-finan­cei­ro a gover­nan­ça cor­po­ra­ti­va e pro­du­to, e até 40 com­pa­nhi­as podem com­por a car­tei­ra do índi­ce a cada ano.

Há, ain­da, outras duas ações da B3 no sen­ti­do da agen­da ESG, sen­do o Índice de Carbono Eficiente, que visa colo­car o assun­to das emis­sões de car­bo­no em pau­ta, o índi­ce S&P Dow Jones para ESG e o S&P/B3 Brasil ESG, que uti­li­za cri­té­ri­os base­a­dos em prá­ti­cas ambi­en­tais, soci­ais e de gover­nan­ça para sele­ci­o­nar empre­sas bra­si­lei­ras para sua car­tei­ra. 

O ambi­en­te pro­pí­cio do mer­ca­do finan­cei­ro às ações ESG tan­to pede quan­to refor­ça mudan­ças de ati­tu­de. Como lem­bra Rodrigo Santoro, os resul­ta­dos são cada vez mais cla­ros. “A gen­te já faz aná­li­ses ESG há mui­to tem­po. É impres­si­o­nan­te o quan­to a ati­tu­de das empre­sas sobre o tema vem mudan­do. Hoje, elas estão solí­ci­tas a dis­cu­tir o tema e a imple­men­tar mudan­ças. Claramente, exis­te uma mudan­ça de ati­tu­de. Cada vez mais, temos vis­to métri­cas de ges­tão rela­ci­o­na­das ao tema, e vemos metas de remu­ne­ra­ção atre­la­das a métri­cas de ESG. É evi­den­te que esse movi­men­to ace­le­rou mui­to nos últi­mos dois anos, mas está para além da Covid. É a visão dos con­su­mi­do­res e inves­ti­do­res da gera­ção, já que há mui­to mais inves­ti­do­res mil­len­ni­als hoje.”

OS DESAFIOS DE CADA UM

A atu­al ausên­cia de uma padro­ni­za­ção geral nas men­su­ra­ções pode estar rela­ci­o­na­da à com­ple­xi­da­de do tema, que exi­ge o enga­ja­men­to de toda a vari­e­da­de dos seto­res pro­du­ti­vos e a ciên­cia sobre uma infi­ni­da­de de pro­pri­e­da­des de atu­a­ção dos mais diver­sos negó­ci­os. Mesmo den­tro de um setor, a vas­ti­dão de um ecos­sis­te­ma pode fazer com que con­cor­ren­tes dire­tos ope­rem por vias dis­tin­tas depen­den­do do pro­du­to, da loca­li­za­ção geo­grá­fi­ca e do tama­nho, e por isso pode ser injus­to colo­car ambos dian­te de uma mes­ma régua. Além dis­so, a exten­são das atu­a­ções gover­na­men­tais varia em cada setor.

Talvez, a melhor métri­ca seja o que um negó­cio é capaz de fazer por seu pro­pó­si­to, e o enga­ja­men­to por meio do qual envol­ve o con­su­mi­dor, que exi­ge e gos­ta de medi­das para a sus­ten­ta­bi­li­da­de. Por essa via, é pos­sí­vel obser­var a per­cep­ção de gran­des ato­res dian­te de seus pró­pri­os desa­fi­os em dife­ren­tes indús­tri­as, como vare­jo, pro­du­to­ras de bens durá­veis e fabri­can­tes de semi e não durá­veis. 

A par­tir das gran­des redes de super­mer­ca­dos, por exem­plo, com­pre­en­de-se o papel do vare­jo como arti­cu­la­dor da pau­ta ESG entre empre­sas e con­su­mi­do­res. “A inte­gra­ção da agen­da de ESG à estra­té­gia de pere­ni­da­de dos negó­ci­os con­tri­bui com o desen­vol­vi­men­to sus­ten­tá­vel da empre­sa e da soci­e­da­de como um todo, agre­gan­do valor a todos os públi­cos. No GPA, bus­ca­mos ser um agen­te mobi­li­za­dor na cons­tru­ção de uma nova agen­da soci­al, ambi­en­tal e de gover­nan­ça para uma soci­e­da­de mais sus­ten­tá­vel e inclu­si­va. Entendemos que, quan­do os cli­en­tes têm a per­cep­ção dos aspec­tos ESG apli­ca­dos genui­na­men­te e de for­ma trans­pa­ren­te à prá­ti­ca do negó­cio, isso se tor­na um fator de dife­ren­ci­a­ção no momen­to de esco­lher pro­du­tos e ser­vi­ços. O con­su­mi­dor quer – e vai –, cada vez mais, par­ti­ci­par ati­va­men­te da cons­tru­ção des­sa agen­da soci­o­am­bi­en­tal e enten­de que uma das for­mas de se fazer isso é sobre o que e onde con­su­mir”, comen­ta a dire­to­ra-exe­cu­ti­va de Recursos Humanos, Serviços e Sustentabilidade do GPA, Mirella Gomiero.  

Desde 2016, o GPA tem uma métri­ca que tam­bém ser­ve de incen­ti­vo. Seu Índice de Sustentabilidade e Diversidade (ISD) com­põe a remu­ne­ra­ção variá­vel dos seus mais de 1,4 mil ges­to­res ele­gí­veis das mais diver­sas áre­as. Fazem par­te des­te índi­ce a redu­ção das emis­sões de car­bo­no e o indi­ca­dor de pre­sen­ça femi­ni­na na lide­ran­ça, já que o Grupo pre­ten­de redu­zir suas emis­sões de car­bo­no em, no míni­mo, 30% até 2025 em rela­ção a 2015 e ver cer­ca de 40% dos car­gos de lide­ran­ça ocu­pa­dos pelas mulhe­res nes­te ano.

Os desa­fi­os do vare­jo ali­men­tí­cio dão a ele tam­bém um papel edu­ca­ci­o­nal tan­to às empre­sas quan­to aos con­su­mi­do­res. No con­tex­to bra­si­lei­ro, ain­da há o dife­ren­ci­al do nível de cons­ci­ên­cia a esses players de mas­sa. “Quando fala­mos de con­su­mo sus­ten­tá­vel, fala­mos de equi­lí­brio ali­men­tar. Quanto mais diver­si­fi­ca­da a die­ta, mais diver­si­fi­ca­da a pro­du­ção no cam­po. Se a die­ta for de 60% em um pro­du­to, a pro­du­ção no cam­po é qua­se igual. Por isso, temos bus­ca­do com par­cei­ros como dar cla­re­za sobre o pro­du­to. A mai­or par­te das pes­so­as não sabe como a pro­teí­na ani­mal che­ga a elas. A par­tir do momen­to em que sabem, elas pas­sam a se inte­res­sar pelo his­tó­ri­co”, escla­re­ce o head de Sustentabilidade do Grupo Carrefour, Lucio Vicente.

MIRELLA GOMIERO,
diretora-executiva
de Recursos
Humanos, Serviços e Sustentabilidade do GPA.

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LUCIO VICENTE, head de Sustentabilidade do Grupo Carrefour.

Varejistas nor­mal­men­te não atu­am com for­ne­ce­do­res, mas, quan­to aos que atu­am, o sis­te­ma cola­bo­ra­ti­vo de enga­ja­men­to que esta­be­le­cem com par­cei­ros – que che­gam a incluir ONGs aos pro­je­tos de ras­tre­a­men­to de insu­mos de pro­teí­nas e diag­nós­ti­cos de matu­ri­da­de – ten­de a mos­trar resul­ta­dos no pro­ces­so de cre­di­bi­li­da­de do pro­du­to expos­to. Segundo Vicente, quan­do um vare­jis­ta de mas­sa como o Carrefour pas­sa a exi­gir em con­tra­to infor­ma­ções sobre os insu­mos, as mar­cas pre­ci­sam se ade­quar. 

Por outro lado, há as mar­cas que se adi­an­tam e mol­dam o sis­te­ma cola­bo­ra­ti­vo do vare­jo. “Temos um lon­go his­tó­ri­co de apoio a cau­sas soci­ais e ambi­en­tais, seja por meio da Coca-Cola Brasil em temas como reci­cla­gem, água e apoio ao peque­no vare­jo, seja por meio dos pro­je­tos do Instituto Coca-Cola Brasil. Com rela­ção à água, come­ça­mos fazen­do o dever de casa em dife­ren­tes fren­tes: aumen­ta­mos a efi­ci­ên­cia hídri­ca de nos­sas fábri­cas em 35% nos últi­mos 20 anos; temos con­tri­buí­do para pre­ser­var mais de 100 mil hec­ta­res da Floresta Amazônica des­de 2008; e inves­ti­mos na ampli­a­ção do aces­so à água para mais de 130 mil pes­so­as de oito Estados em par­ce­ria com 15 orga­ni­za­ções des­de 2017” con­ta o geren­te de Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil & Cone Sul, Rodrigo Brito.

Enquanto uma gran­de mar­ca pode cha­mar a res­pon­sa­bi­li­da­de para o mai­or bem da vida e seu mai­or insu­mo, ima­gi­ne como uma glo­bal de cen­te­nas de mar­cas dos mais vari­a­dos pro­du­tos pre­ci­sa atu­ar?! “Os anos de 2019 e 2020 foram mar­can­tes para a com­pa­nhia em ter­mos de meio ambi­en­te e pes­so­as, com o anún­cio de com­pro­mis­sos públi­cos ins­ti­tu­ci­o­nais – como avan­ços na agen­da de plás­ti­cos, com­ba­te às mudan­ças cli­má­ti­cas e rege­ne­ra­ção da natu­re­za – e com­pro­mis­sos de cada um de nos­sos negó­ci­os – como cui­da­dos com a casa e com as rou­pas, higi­e­ne e cui­da­dos pes­so­ais e ali­men­tos”, con­ta a geren­te de Assuntos Corporativos da Unilever Brasil, Juliana Marra. Com metas ambi­ci­o­sas para até 2030, a Unilever evo­luiu seus pla­nos em ESG com o recém-anun­ci­a­do movi­men­to Beleza Positiva, que reti­ra o ter­mo “nor­mal” das emba­la­gens e publi­ci­da­des e abo­le alte­ra­ção digi­tal dos cor­pos, e o Programa Futuro Limpo, para eli­mi­nar o car­bo­no da ener­gia. 

A Johnson & Johnson é outra gigan­te glo­bal de des­ta­que que luta con­tra o plás­ti­co. Boa par­te dos US$ 800 milhões dire­ci­o­na­dos até 2030 para patro­cí­nio de ações em ESG é espe­ci­fi­ca­men­te para supe­rar o pro­ble­ma do uso de plás­ti­cos. “Temos tra­ba­lha­do cons­tan­te­men­te em pro­je­tos para redu­ção de peso das nos­sas emba­la­gens plás­ti­cas e, com isso, já evi­ta­mos o uso des­ne­ces­sá­rio de 300 tone­la­das de plás­ti­co ao ano, e segui­mos tra­ba­lhan­do em pro­je­tos para a subs­ti­tui­ção de plás­ti­cos, sem­pre que pos­sí­vel, por outros mate­ri­ais alter­na­ti­vos, como papel, por exem­plo”, comen­ta a dire­to­ra sêni­or do Centro de Excelência em Estratégia e CD para Latam da Johnson & Johnson, Daniella Brissac. 

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JULIANA MARRA, gerente de Assuntos Corporativos da Unilever Brasil.

RODRIGO BRITO, gerente de Sustentabilidade da Coca-Cola Brasil & Cone.

Filiada ao Novo Compromisso Global da Economia do Plástico lide­ra­do pela Ellen MacArthur Foundation (EMF) em cola­bo­ra­ção com o Programa Ambiental da ONU, a gigan­te das mar­cas se com­pro­me­te a eli­mi­nar todo plás­ti­co des­ne­ces­sá­rio ou pro­ble­má­ti­co de emba­la­gens até 2025, incluin­do a refor­mu­la­ção de emba­la­gens que pos­sam ser reu­ti­li­zá­veis quan­do pos­sí­vel; garan­tir que 100% delas sejam reu­sá­veis, reci­clá­veis ou com­pos­tá­veis; e fazer com que ao menos 15% de seu plás­ti­co retor­ne à cadeia. 

Os desa­fi­os de cada um mudam ain­da mais nas indús­tri­as de semi­du­rá­veis. Na moda, o case a ser explo­ra­do aqui é a C&A, que tem uma pla­ta­for­ma glo­bal de sus­ten­ta­bi­li­da­de para nor­te­ar todas suas ações pelo mun­do nos pila­res “pro­du­tos sus­ten­tá­veis”, “redes de for­ne­ci­men­to” e “vidas sus­ten­tá­veis”, que são ali­nha­dos aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Todas as suas ações são repor­ta­das publi­ca­men­te em rela­tó­ri­os de acor­do com o Global Reporting Initiative (GRI), o que trans­pa­re­ce o fato de ela ser a vare­jis­ta que mais tem uni­da­des con­su­mi­do­ras de ener­gi­as reno­vá­veis, como peque­nas cen­trais hidre­lé­tri­cas, usi­nas sola­res e eóli­cas. “Chegamos ao fim de 2020 com cer­ca de 200 lojas habi­li­ta­das para rece­bi­men­to de ener­gia lim­pa por meio des­ta moda­li­da­de, his­tó­ria que come­ça­mos em 2011 com as pri­mei­ras uni­da­des migra­das para esse mode­lo”, expli­ca a dire­to­ra de Relações com Investidores da C&A Brasil, Roberta Noronha. “No fim do pri­mei­ro semes­tre des­te ano, será con­cluí­da a cons­tru­ção de duas usi­nas sola­res para abas­te­ci­men­to exclu­si­vo das 11 lojas no Rio de Janeiro e Distrito Federal, o que inau­gu­ra nos­sa pre­sen­ça na gera­ção dis­tri­buí­da de ener­gia e é mais um impor­tan­te pas­so da com­pa­nhia para gerar impac­to posi­ti­vo, em linha com nos­sos com­pro­mis­sos”, com­ple­ta a dire­to­ra.

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ROBERTA NORONHA,

dire­to­ra de Relações
com Investidores da C&A Brasil.

A pre­o­cu­pa­ção com a água da gigan­te da moda se esten­de às peças que comer­ci­a­li­za. Seu jeans bra­si­lei­ro tem cer­ti­fi­ca­ção inter­na­ci­o­nal que asse­gu­ra a ori­gem do algo­dão, sua ener­gia reno­vá­vel e ges­tão de água na pro­du­ção.

Restringindo-se, ain­da, ape­nas ao ambi­en­tal do ESG, a C&A tam­bém se empe­nha em redi­re­ci­o­nar rou­pas de sua mar­ca ou outras para reu­so ou reci­cla­gem, além de, fre­quen­te­men­te, fazer par­ce­ri­as com gran­des bre­chós on-line como o Enjoei e o Repassa. 

Já na indús­tria pesa­da, uma agen­da ESG pode se enga­jar em aspec­tos infra­es­tru­tu­rais que com­põem o desen­vol­vi­men­to soci­o­e­conô­mi­co de um deter­mi­na­do local. No caso da gigan­te MRV, ener­gia e sane­a­men­to ambi­en­tal são os enfo­ques que têm mol­da­do e influ­en­ci­a­do dire­ta­men­te seu pro­ces­so pro­du­ti­vo e pro­du­to final, com influên­cia sobre os con­su­mos pri­má­ri­os da soci­e­da­de em lon­go pra­zo. Única cons­tru­to­ra que cons­ta há cin­co anos con­se­cu­ti­vos no índi­ce de sus­ten­ta­bi­li­da­de da B3 e sig­na­tá­ria do Pacto Global da ONU des­de 2016, a MRV tem-se con­cen­tra­do na imple­men­ta­ção de ener­gia solar foto­vol­tai­ca em gran­de esca­la, no sis­te­ma de cap­ta­ção plu­vi­al e na ges­tão de resí­du­os. Além dis­so, ela com­pra cré­di­tos de car­bo­no por meio de com­pen­sa­ções.

RAFAEL LAFETÁ,
diretor-executivo
de Relações
Institucionais e Sustentabilidade
da MRV.

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A atu­al ausên­cia de uma padro­ni­za­ção geral nas men­su­ra­ções pode estar rela­ci­o­na­da à com­ple­xi­da­de do tema, que exi­ge o enga­ja­men­to de toda a vari­e­da­de dos seto­res pro­du­ti­vos.

“Desde 2017 uti­li­za­mos a ener­gia solar em nos­sos empre­en­di­men­tos e já entre­ga­mos mais de 60 mil uni­da­des habi­ta­ci­o­nais com sis­te­ma de ener­gia reno­vá­vel, uma eco­no­mia no con­su­mo de ener­gia pró­xi­ma a R$ 1 milhão. Ao todo, inves­ti­mos R$ 800 milhões no pro­je­to, e a nos­sa meta é che­gar em 2022 com ener­gia foto­vol­tai­ca em 100% dos empre­en­di­men­tos lan­ça­dos”, reve­la o dire­tor-exe­cu­ti­vo de Relações Institucionais e Sustentabilidade da MRV, Rafael Lafetá. “Seguindo nos­so pla­no de redu­ção de cus­tos e ener­gia, lan­ça­mos, em novem­bro de 2019, a pri­mei­ra usi­na solar em Uberaba (MG). Nossa usi­na solar tem dois mil pai­néis foto­vol­tai­cos que repre­sen­tam uma potên­cia ins­ta­la­da de 700 kWp (qui­lo watt pico). Isso vai gerar anu­al­men­te mais de 1 milhão kWh, ener­gia sufi­ci­en­te para suprir o con­su­mo de 25 mil habi­tan­tes de uma cida­de por um mês ou 2 mil habi­tan­tes por ano”, con­ta­bi­li­za o exe­cu­ti­vo, refor­çan­do que a eco­no­mia anu­al deve che­gar a R$ 800 mil.

A SUSTENTABILIDADE DO ESG

Ainda que empre­sas glo­bais con­si­gam ter suces­so em suas inves­ti­das em ESG, soci­e­da­des e gover­nos do Brasil e do mun­do estão atra­sa­dos na mis­são de repa­ro dos ine­gá­veis danos dos últi­mos e inten­sos anos do Antropoceno. Para his­to­ri­a­do­res e geó­gra­fos, a espé­cie cor­re ris­co de extin­ção em cur­to pra­zo, enquan­to as soci­e­da­des e as suas eco­no­mi­as moder­nas são com­ple­xas e fei­tas por mudan­ças que pare­cem invi­sí­veis e len­tas para o neces­sá­rio. Mas, ao que tudo indi­ca, che­gou a vez de a agen­da ESG se fir­mar nas men­ta­li­da­des dos negó­ci­os e dos con­su­mi­do­res. Estão todos uni­dos por uma cons­ci­en­ti­za­ção cole­ti­va em rede que con­cor­da sobre a neces­si­da­de de empre­en­di­men­tos a favor da soci­e­da­de e do meio ambi­en­te.

“Nós, da Natura, acre­di­ta­mos que, embo­ra já tenha­mos abor­da­do a sus­ten­ta­bi­li­da­de ao lon­go dos anos, pre­ci­sa­mos ir mais rápi­do. É por isso que, em junho de 2020, defi­ni­mos metas ousa­das para a pró­xi­ma déca­da, lan­çan­do nos­so ‘Compromisso com a Vida’, uma visão abran­gen­te com metas con­cre­tas de sus­ten­ta­bi­li­da­de que inten­si­fi­ca­rá nos­sas ações para resol­ver alguns dos pro­ble­mas mais urgen­tes do mun­do”, afir­ma o CEO Global da Natura &Co, Roberto Marques. Amplamente reco­nhe­ci­da por seu enga­ja­men­to soci­al a favor da igual­da­de e do meio ambi­en­te, a mar­ca pre­ten­de esta­be­le­cer um salá­rio míni­mo a todos os seus fun­ci­o­ná­ri­os e garan­tir a pari­da­de de gêne­ro até 2023, além de se tor­nar líqui­do zero até 2030, pro­te­gen­do a Amazônia de des­ma­ta­men­tos.

Se depen­der da ambi­ção huma­na, há gran­des chan­ces de o espí­ri­to do novo tem­po che­gar a tem­po – ain­da que a pró­pria ambi­ção seja fon­te de um sis­te­ma pre­da­tó­rio. Ao que pare­ce, os ban­cos come­çam a finan­ci­ar novos papéis soci­ais, as orga­ni­za­ções come­çam a estru­tu­rar novas vias de trans­ver­sa­li­da­de dos com­pro­mis­sos e o con­su­mo cons­ci­en­te come­ça a se abrir para uma ideia de que esta é uma aldeia glo­bal.