MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

ALGO DE PODRE NO REI­NO DA

DINA­MAR­CA

ALGO DE PODRE NO REI­NO DA

DINA­MAR­CA

ALGO DE PODRE NO REI­NO DA

DINA­MAR­CA

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

Tere­zi­nha pas­sou a rece­ber mui­tas ofer­tas de com­pa­nhi­as áre­as, hotéis, res­tau­ran­tes, loca­ção de auto­mó­veis e outros ser­vi­ços exa­ta­men­te no perío­do e local em que ela pre­ten­dia via­jar”

 Era uma vez uma moça cha­ma­da Tere­zi­nha. Depois de tra­ba­lhar mui­to e jun­tar um dinhei­ri­nho, ela deci­diu levar sua filha de cin­co anos, a Juli­a­na, para conhe­cer a avó que mora­va nos EUA. Quan­ta ale­gria! Quan­ta expec­ta­ti­va! Como ela era uma pes­soa que pla­ne­ja­va, tudo foi pen­sa­do e pre­pa­ra­do com o devi­do cui­da­do. A par­te mais difí­cil era a via­gem aérea.

 A pri­mei­ra cons­ta­ta­ção foi a abso­lu­ta impos­si­bi­li­da­de de gas­tar os pon­tos que havia acu­mu­la­do no seu car­tão de cré­di­to. Tudo era difí­cil de enten­der. Depois de mui­ta con­ver­sa e con­sul­ta, con­se­guiu bai­xar seus pon­tos em um dos pro­gra­mas de milha­gem. E logo veio a pri­mei­ra frus­tra­ção: o sonho de gas­tar pou­co com a pas­sa­gem des­mo­ro­nou rapi­da­men­te. Seus pon­tos não vali­am pra­ti­ca­men­te nada e a for­ma de usá-los exi­gia qua­se um mes­tra­do em uma boa esco­la. Vou com­prar pagan­do tudo, pen­sou ela. É mais fácil e uso os pon­tos na pró­xi­ma via­gem.

 E aí veio a segun­da cons­ta­ta­ção: quan­to mais ela pro­cu­ra­va, mais os pre­ços aumen­ta­vam. Ela ano­ta­va um pre­ço, con­ver­sa­va com a famí­lia à noi­te e o pre­ço já era outro. Quan­do encon­trar um pre­ço bom, vou com­prar na hora, pen­sou ela. E assim fez. E lá veio a segun­da frus­tra­ção: quan­do esta­va para fechar a com­pra pela inter­net, não é que o sis­te­ma caiu e ao aces­sá-lo nova­men­te os pre­ços eram outros. Que azar!

  No deses­pe­ro de per­der o últi­mo bom pre­ço que se apre­sen­ta­ria, ela com­prou, meio por impul­so, a pas­sa­gem que apa­re­ceu. O valor foi bem mais caro, mas fazer o quê? Ver avó e neta jun­tas valia esse esfor­ço. Isso por­que, por coin­ci­dên­cia, Tere­zi­nha pas­sou a rece­ber mui­tas ofer­tas de com­pa­nhi­as áre­as, hotéis, res­tau­ran­tes, loca­ção de auto­mó­veis e outros ser­vi­ços exa­ta­men­te no perío­do e local em que ela pre­ten­dia via­jar. A sor­te ain­da exis­te, pen­sou ela des­con­fi­a­da.

  Só tinha um pro­ble­ma a resol­ver: não con­se­guiu mar­car seu assen­to. Farei isso 24 horas antes quan­do fizer o check-in, refle­tiu. As ofer­tas con­ti­nu­a­ram, mas ago­ra tinha uma ofer­ta espe­ci­al: por meros US$ 120, ela pode­ria pegar um assen­to espe­ci­al. Era mui­to dinhei­ro, prin­ci­pal­men­te se mul­ti­pli­ca­do por dois. E a data da via­gem foi che­gan­do…

  Ape­sar do anun­ci­a­do, 24 horas antes da via­gem nada de o sis­te­ma abrir para mar­car a pas­sa­gem. Ela pas­sou qua­se todo o dia ten­tan­do. Como era uma pes­soa cui­da­do­sa, con­cluiu que deve­ria che­gar no aero­por­to cin­co horas antes para garan­tir um assen­to com a peque­na filha. E lá foi. Para sua sur­pre­sa, a fila já esta­va gran­de e, con­ver­san­do com seus com­pa­nhei­ros de via­gem, des­co­briu que mui­tos tinham o mes­mo pro­ble­ma. Quan­do che­gou a sua vez, a frus­tra­ção foi total: não havia a menor pos­si­bi­li­da­de de via­ja­rem jun­tas, pois todos os assen­tos já esta­vam mar­ca­dos. Como assim, per­gun­tou ela? Assim, res­pon­deu o fun­ci­o­ná­rio. É o sis­te­ma que faz assim, con­cluiu. Mas havia a pos­si­bi­li­da­de de com­prar um upgra­de para um assen­to melhor. Por US$ 240 tudo se resol­ve­ria facil­men­te. Tere­zi­nha olhou para sua peque­na Juli­a­na, fez as con­tas e resol­veu arris­car. Mui­tos fize­ram assim.

  Den­tro do avião, pare­cia um mer­ca­do de pei­xes. Alguém tro­ca uma jane­la por um cor­re­dor? Quem tro­ca dois luga­res sepa­ra­dos por dois jun­tos? Uma alma bon­do­sa, sem­pre exis­tem almas bon­do­sas, tro­cou de assen­to com Tere­zi­nha para que ela pudes­se via­jar ao lado de Juli­a­na. Ela não viu nin­guém falan­do em valo­res para rea­li­zar uma tro­ca, mas ante­viu que isso vai ocor­rer mais cedo ou mais tar­de. Mas, com seu olhar aten­to, ela per­ce­beu que o espa­ço da cadei­ra tinha dimi­nuí­do mui­to (e olha que ela é peque­na) e que teria sido melhor tra­zer uma comi­di­nha de casa, de tão ruim que esta­va a refei­ção ser­vi­da. E lá foi Tere­zi­nha com um mis­to de ale­gria, frus­tra­ção e des­con­fi­an­ça. Tudo valia a pena para jun­tar avó e neta.

   O que Tere­zi­nha não viu, e nem ima­gi­nou, é que o sis­te­ma é fei­to por mãos huma­nas e exis­te um órgão do gover­no, uma agên­cia, só para regu­la­men­tar as prá­ti­cas e fis­ca­li­zar os abu­sos das com­pa­nhi­as aére­as. Onde esta­rão os res­pon­sá­veis? Tal­vez via­jan­do de avião pelo rei­no da Dina­mar­ca, diria Sha­kes­pe­a­re se per­gun­ta­do.

Tere­zi­nha pas­sou a rece­ber mui­tas ofer­tas de com­pa­nhi­as áre­as, hotéis, res­tau­ran­tes, loca­ção de auto­mó­veis e outros ser­vi­ços exa­ta­men­te no perío­do e local em que ela pre­ten­dia via­jar”