MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

(IN)

TOLE­RÂN­CI­AS

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TOLE­RÂN­CI­AS

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TOLE­RÂN­CI­AS

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

Como tenho aces­so a tudo e expres­so tudo que pen­so, sou dono da ver­da­de fun­da­men­tal: a minha”

    Como temos aces­so a tudo e a todos, cada vez mais nos fecha­mos no nos­so mun­di­nho. Vejo tudo, sei tudo e por isso mes­mo sou o cen­tro do mun­do. Tris­te: do meu mun­di­nho…

    Como cada vez mais pode­mos nos expres­sar nas redes soci­ais sem olhar nos olhos dos outros, pos­so dizer tudo que pen­so. E mui­to mais. Os olhos dos outros não estão pre­sen­tes para limi­tar minha voz.

    Como tenho aces­so a tudo e expres­so tudo que pen­so, sou dono da ver­da­de fun­da­men­tal: a minha. E, se tenho razão abso­lu­ta, não pos­so ser cha­ma­do de into­le­ran­te. A ver­da­de é minha par­cei­ra. Eu sou a ver­da­de. Che­gou a minha vez…

    Todas estas fra­ses saí­ram quan­do fiz um exer­cí­cio men­tal para com­pre­en­der a lógi­ca da (in)tolerância. E pen­sei em um dos temas mais difí­ceis para mim: qual é a linha que sepa­ra a tole­rân­cia da idi­o­ti­ce? Algu­mas vezes, dian­te de situ­a­ções reais, refli­to: se eu me calar serei um idi­o­ta. Outras vezes, pen­so o opos­to: é sábio e tole­ran­te se eu calar. Con­cluo que faz par­te da sani­da­de pes­so­al ficar con­fu­so sobre estes dile­mas: a tole­rân­cia ou a ton­ti­ce; a tole­rân­cia e a idi­o­ti­ce.

    Em momen­tos de anta­go­nis­mo pro­fun­do, como o que pas­sa nos­so País, pen­sar sobres estas ques­tões é essen­ci­al. E a his­tó­ria com­pro­va que todo extre­mis­mo é a praia da (in)tolerância. Dei­xo trans­cri­to o tex­to das Nações Uni­das que pro­põe o dia 16 de novem­bro como o Dia Inter­na­ci­o­nal da Tole­rân­cia e pro­po­nho que o come­mo­re­mos com um mês de ante­ci­pa­ção:

    A tole­rân­cia é o res­pei­to, a acei­ta­ção e o apre­ço da rique­za e da diver­si­da­de das cul­tu­ras de nos­so mun­do, de nos­sos modos de expres­são e de nos­sas manei­ras de expri­mir nos­sa qua­li­da­de de seres huma­nos. É fomen­ta­da pelo conhe­ci­men­to, pela aber­tu­ra de espí­ri­to, pela comu­ni­ca­ção e pela liber­da­de de pen­sa­men­to, de cons­ci­ên­cia e de cren­ça. A tole­rân­cia é a har­mo­nia na dife­ren­ça. Não só é um dever de ordem éti­ca; é igual­men­te uma neces­si­da­de polí­ti­ca e jurí­di­ca. A tole­rân­cia é uma vir­tu­de que tor­na a paz pos­sí­vel e con­tri­bui para subs­ti­tuir uma cul­tu­ra de guer­ra por uma cul­tu­ra de paz.

    A tole­rân­cia não é con­ces­são, con­des­cen­dên­cia, indul­gên­cia. A tole­rân­cia é, antes de tudo, uma ati­tu­de ati­va fun­da­da no reco­nhe­ci­men­to dos direi­tos uni­ver­sais da pes­soa huma­na e das liber­da­des fun­da­men­tais do outro. Em nenhum caso a tole­rân­cia pode­ria ser invo­ca­da para jus­ti­fi­car lesões a esses valo­res fun­da­men­tais. A tole­rân­cia deve ser pra­ti­ca­da por indi­ví­du­os, pelos gru­pos e pelo Esta­do.

    A tole­rân­cia é o sus­ten­tá­cu­lo dos direi­tos huma­nos, do plu­ra­lis­mo (inclu­si­ve o plu­ra­lis­mo cul­tu­ral), da demo­cra­cia e do Esta­do de Direi­to. Impli­ca a rejei­ção do dog­ma­tis­mo e do abso­lu­tis­mo e for­ta­le­ce as nor­mas enun­ci­a­das nos ins­tru­men­tos inter­na­ci­o­nais rela­ti­vos aos direi­tos huma­nos.

    Em con­so­nân­cia ao res­pei­to dos direi­tos huma­nos, pra­ti­car a tole­rân­cia não sig­ni­fi­ca tole­rar a injus­ti­ça soci­al, nem renun­ci­ar às pró­pri­as con­vic­ções, nem fazer con­ces­sões a res­pei­to. A prá­ti­ca da tole­rân­cia sig­ni­fi­ca que toda pes­soa tem a livre esco­lha de suas con­vic­ções e acei­ta que o outro des­fru­te da mes­ma liber­da­de. Sig­ni­fi­ca acei­tar o fato de que os seres huma­nos, que se carac­te­ri­zam natu­ral­men­te pela diver­si­da­de de seu aspec­to físi­co, de sua situ­a­ção, de seu modo de expres­sar-se, de seus com­por­ta­men­tos e de seus valo­res, têm o direi­to de viver em paz e de ser tais como são. Sig­ni­fi­ca tam­bém que nin­guém deve impor suas opi­niões a outrem.

    Boa refle­xão a todos aque­les que se dis­põem a refle­tir e a escu­tar o outro. E a quem não se pro­põe tam­bém.

Como tenho aces­so a tudo e expres­so tudo que pen­so, sou dono da ver­da­de fun­da­men­tal: a minha”