CAIO BLIN­DER

Jor­na­lis­ta e um dos apre­sen­ta­do­res do pro­gra­ma Manhat­tan Con­nec­ti­on da Glo­bo­News

NET­FLIX­COÓ­LA­TRAS

ANÔ­NI­MOS

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CAIO BLIN­DER
Jor­na­lis­ta e um dos
apre­sen­ta­do­res do pro­gra­ma
Manhat­tan Con­nec­ti­on
da Glo­bo­News

CAIO BLIN­DER
Jor­na­lis­ta e um dos
apre­sen­ta­do­res do pro­gra­ma
Manhat­tan Con­nec­ti­on
da Glo­bo­News

Eu tive tem­po para escre­ver esta colu­na. Espe­ro des­co­lar uma hori­nha na minha vida de refém da Net­flix para cri­ar o meu movi­men­to dos vici­a­dos”

   Eu vou me mexer. Está na hora de me levan­tar do sofá e cri­ar o movi­men­to dos Net­flix­coó­la­tras Anô­ni­mos. Na ver­da­de, a mis­são é pre­gui­ço­sa, como minha roti­na de con­su­mi­dor vici­a­do nas séri­es da pla­ta­for­ma de stre­a­ming. Como moro nos EUA, deve­ria incluir tam­bém Ama­zon Pri­me e Hulu. No tro­ca­di­lho infa­me, o san­gue está stre­a­ming por minhas vei­as.

   Eu me con­ver­ti numa mis­tu­ra de con­su­mi­dor pas­si­vo e com­pul­si­vo. A over­do­se deve ser diag­nos­ti­ca­da como bin­ge. E o pri­mei­ro a gen­te nun­ca esque­ce. O meu foi Hou­se of Cards (Kevin Spa­cey, por favor, não des­can­se em paz). Sou daque­les espec­ta­do­res que numa sex­ta-fei­ra, quan­do uma nova série é colo­ca­da à dis­po­si­ção do assi­nan­te, entra num uni­ver­so para­le­lo, capaz de não retor­nar ao nos­so até o fim dela.

   E olha que estou ple­na­men­te cons­ci­en­te da mani­pu­la­ção por estes Big Brothers (Net­flix, Ama­zon e Hulu). As pla­ta­for­mas refor­çam ou cri­am os meus gos­tos. Sabem do que eu gos­to ou geram dese­jos insa­ciá­veis. Sou che­ga­do em pro­du­ções sobre Segun­da Guer­ra Mun­di­al. A blitz­kri­eg de suges­tões é infer­nal. Minha ren­di­ção, incon­di­ci­o­nal.

   Ape­nas para ficar no Big Brother Net­flix, seus ten­tá­cu­los são glo­bais, a pri­mei­ra potên­cia pla­ne­tá­ria na tele­vi­são. Sua pro­du­ção de entre­te­ni­men­to já ultra­pas­sa a de redes de tele­vi­são. Em 2018, foram 80 fil­mes pro­du­zi­dos, numa per­for­man­ce supe­ri­or a qual­quer estú­dio de Hollywo­od. Bas­ta ver os prê­mi­os no Oscar e em fes­ti­vais (e isso se esten­de para a Ama­zon).

   Somen­te em 2018, foram US$ 12 bilhões de inves­ti­men­tos da Net­flix em con­teú­do. Em qua­tro anos, o núme­ro de assi­nan­tes dobrou para 125 milhões de domi­cí­li­os, mais da meta­de fora dos EUA. E eu fico ator­do­a­do. Na Net­flix, exis­tem blitz­kri­egs em vári­as fren­tes. Ela pró­pria pro­duz séri­es em 21 paí­ses, inclu­si­ve o Bra­sil. Para quem não sabe, eu sou judeu e me tor­nei um refém de séri­es isra­e­len­ses, ao esti­lo Fau­da.

   Nem pos­so dis­far­çar que meu con­su­mo desen­fre­a­do seja neces­si­da­de pro­fis­si­o­nal. De fato, em algu­mas situ­a­ções vejo como par­te do tra­ba­lho. Pos­so ter a des­cul­pa da har­mo­nia fami­li­ar. E exis­tem situ­a­ções em que o pre­tex­to é mes­cla de tra­ba­lho e essa har­mo­nia fami­li­ar.

   Eu assis­ti à pri­mei­ra tem­po­ra­da da série The Crown intei­ri­nha para comen­tá-la no Manhat­tan Con­nec­ti­on, meu ganha-pão na Glo­bo­News. No entan­to, por que revê-la (intei­ri­nha) como esquen­ta­men­to para ver a segun­da (intei­ri­nha)? A des­cul­pa é que minha mulher tam­bém ficou enfei­ti­ça­da e eu pre­ci­sa­va me cur­var à rai­nha Blin­der.

   E faço mais con­fis­sões: meu con­tro­le de qua­li­da­de há mui­to tem­po dei­xou de ser majes­to­so. Eu me fla­gro assis­tin­do a cada lixo e isso após levar um tem­pão para deci­dir qual será a pró­xi­ma dro­ga que vou inge­rir. Ain­da resis­to a seri­a­dos poli­ci­ais indi­a­nos ou chi­ne­ses, mas me dei con­ta de que já vi pro­du­ções aus­tra­li­a­nas aci­ma da con­ta. Com tris­te­za patrió­ti­ca, como tan­tos sabem, há pou­co mate­ri­al bra­si­lei­ro, mas um enxa­me em espa­nhol da Espa­nha.

Eu tive tem­po para escre­ver esta colu­na. Espe­ro des­co­lar uma hori­nha na minha vida de refém da Net­flix para cri­ar o meu movi­men­to dos vici­a­dos”