NOVOS TEM­POS, NOVAS DEMAN­DAS

DURAN­TE DOIS DIAS, CON­GRES­SO DO BRA­SIL­CON REU­NIU CEN­TE­NAS DE PRO­FIS­SI­O­NAIS DO MEIO JURÍ­DI­CO, COMO MINIS­TROS, DESEM­BAR­GA­DO­RES E MEM­BROS DOS PRO­CONS PARA ABOR­DAR OS DIREI­TOS DO CON­SU­MI­DOR NA ERA DA INFOR­MA­ÇÃO

 

POR IVAN VEN­TU­RA

che­ga­da, no Bra­sil, de empre­sas dis­rup­ti­vas, como iFo­od, Uber e Airbnb, mudou a for­ma como con­tra­ta­mos alguns tipos de ser­vi­ços. Den­tro des­sa pers­pec­ti­va, a tare­fa de pedir uma comi­da, cha­mar um táxi ou reser­var uma via­gem se tor­nou mais flui­da e menos buro­crá­ti­ca. Mas até que pon­to essas empre­sas res­pei­tam o direi­to do con­su­mi­dor? O impac­to das novas tec­no­lo­gi­as foi um dos temas dis­cu­ti­dos no XIV Con­gres­so Bra­si­lei­ro de Direi­to do Con­su­mi­dor, que acon­te­ceu no fim de maio, em São Pau­lo. Pro­mo­vi­do pelo Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Polí­ti­ca e Direi­to do Con­su­mi­dor (Bra­sil­con), o encon­tro con­tou com o apoio da revis­ta Con­su­mi­dor Moder­no. Con­fi­ra alguns insights do even­to:

REPU­TA­ÇÃO EM JOGO

Vive­mos a era do fim da indi­vi­du­a­li­za­ção. Ou seja, as pes­so­as des­per­tam para um uni­ver­so no qual a opi­nião de ter­cei­ros (seja por meio de cur­ti­das, seja por com­par­ti­lha­men­tos nas redes soci­ais) é o que real­men­te impor­ta. “Esta­mos cami­nhan­do para um com­por­ta­men­to pró-soci­al, com ati­tu­des pri­mor­di­al­men­te ori­en­ta­das à visi­bi­li­da­de do públi­co, assim como ao geren­ci­a­men­to da repu­ta­ção”, dis­se o advo­ga­do Dió­ge­nes Car­va­lho, que assu­me o car­go de pre­si­den­te do Bra­sil­con no lugar da advo­ga­da Aman­da Flá­vio de Oli­vei­ra.

OS GATE­KE­E­PERS

Um dos deba­tes mais inten­sos entre juris­tas espe­ci­a­li­za­dos em defe­sa do con­su­mi­dor no even­to foi a res­pon­sa­bi­li­da­de das fer­ra­men­tas digi­tais que pro­mo­vem a medi­a­ção de ser­vi­ços (gate­ke­e­pers) den­tro da atu­al rela­ção de con­su­mo. Em outras pala­vras, o Judi­ciá­rio quer dis­cu­tir a res­pon­sa­bi­li­da­de de pla­ta­for­mas como o Uber em situ­a­ções nas quais o con­su­mi­dor é pre­ju­di­ca­do como no caso do can­ce­la­men­to de uma via­gem, por exem­plo. Em 2016, um magis­tra­do do 8º Jui­za­do Espe­ci­al Cível e das Rela­ções de Con­su­mo de São Luís (MA) con­de­nou o Uber a pagar uma inde­ni­za­ção de R$ 12 mil a uma mulher que per­deu o seu voo domés­ti­co por­que o con­du­tor do veí­cu­lo que a leva­va ao aero­por­to errou o cami­nho.

IOT: CON­SU­MI­DOR VUL­NE­RÁ­VEL?

O legis­la­dor bra­si­lei­ro pre­ci­sa ficar aten­to ao cres­cen­te rela­ci­o­na­men­to de con­su­mo entre máqui­nas (machi­ne to machi­ne). Hoje, gela­dei­ras fazem a ges­tão e o rea­bas­te­ci­men­to de ali­men­tos arma­ze­na­dos, conec­tan­do-se dire­ta­men­te ao super­mer­ca­do. Mas e se, de repen­te, um hac­ker vio­lar a segu­ran­ça des­se obje­to e “fur­tar” os dados do car­tão de cré­di­to do con­su­mi­dor? De quem é a res­pon­sa­bi­li­da­de? O deba­te está inse­ri­do no pla­no naci­o­nal de Inter­net das Coi­sas em dis­cus­são no Con­gres­so Naci­o­nal. Juris­tas já demons­tram uma gran­de pre­o­cu­pa­ção com a sim­bi­o­se e inde­pen­dên­cia de máqui­nas em uma rela­ção de con­su­mo com pou­ca inter­fe­rên­cia huma­na e que, ao mes­mo tem­po, ser­ve aos pro­pó­si­tos dos con­su­mi­do­res.

Com­pli­an­ce Con­su­me­ris­ta: O obje­ti­vo é mini­mi­zar prá­ti­cas cor­po­ra­ti­vas que pos­sam ser con­si­de­ra­das infra­ções, seja à lei penal, seja às nor­mas con­cor­ren­ci­ais e tam­bém às leis de pro­te­ção ao con­su­mi­dor

O FUTU­RO DO CDC

Espe­ci­a­lis­tas fala­ram a res­pei­to de duas cons­ta­ta­ções sobre o Códi­go de Defe­sa do Con­su­mi­dor (CDC), legis­la­ção há 28 anos em vigên­cia no País. A pri­mei­ra é a de que a lei não leva em con­si­de­ra­ção algu­mas rela­ções de con­su­mo emer­gen­tes – caso do direi­to de arre­pen­di­men­to em rela­ção a uma com­pra fei­ta pela inter­net. Hoje, o cli­en­te tem até sete dias para desis­tir de um pro­du­to, des­de que haja uma jus­ti­fi­ca­ção plau­sí­vel. Mas, dife­ren­te­men­te de uma loja físi­ca, o e-com­mer­ce é obri­ga­do a lidar com alguns entra­ves, como cus­tos rela­ci­o­na­dos à logís­ti­ca em casos de tro­ca ou devo­lu­ção. A ques­tão ganha dimen­sões ain­da mai­o­res quan­do a com­pra é fei­ta em um site de fora do País – caso do eBay e do Ali­ex­press.

SUPE­REN­DI­VI­DA­MEN­TO

E o que dizer do supe­ren­di­vi­da­men­to (a dívi­da supe­ri­or ao ren­di­men­to men­sal de uma pes­soa)? Em 2004, o per­cen­tu­al de famí­li­as pau­lis­ta­nas que não podi­am pagar as suas dívi­das era de pou­co mais de 3%, segun­do dados da Feco­mer­ci­oSP. Em abril des­te ano, esse per­cen­tu­al sal­tou para 9,1%. Isso sig­ni­fi­ca que qua­se 10% das famí­li­as bra­si­lei­ras são inca­pa­zes de cum­prir suas obri­ga­ções, seja com o paga­men­to da fatu­ra do car­tão de cré­di­to, seja com o finan­ci­a­men­to de um imó­vel. No even­to, ficou cla­ra a neces­si­da­de de incluir uma medi­da con­tra o supe­ren­di­vi­da­men­to para pro­te­ger tan­to as empre­sas como os pró­pri­os con­su­mi­do­res.

COM­PLI­AN­CE CON­SU­ME­RIS­TA

A Ope­ra­ção Lava Jato des­per­tou, no País, a impor­tân­cia de que empre­sas cum­pram as leis. E é aí que sur­ge a neces­si­da­de da cri­a­ção de polí­ti­cas de com­pli­an­ce nas com­pa­nhi­as, incluin­do o direi­to do con­su­mi­dor. É o que alguns juris­tas defi­nem como com­pli­an­ce con­su­me­ris­ta. “O obje­ti­vo (do com­pli­an­ce con­su­me­ris­ta) é mini­mi­zar prá­ti­cas cor­po­ra­ti­vas que pos­sam ser con­si­de­ra­das infra­ções, seja à lei penal, seja às nor­mas con­cor­ren­ci­ais e tam­bém às leis de pro­te­ção ao con­su­mi­dor”, expli­cou Heloí­sa Car­pe­na, pro­fes­so­ra de direi­to do con­su­mi­dor na PUC-Rio e dire­to­ra da Comis­são Per­ma­nen­te de Con­cor­rên­cia do Bra­sil­con. Nes­se sen­ti­do, é pre­ci­so real­men­te cri­ar uma auto­ri­da­de capaz de obser­var tudo o que diz res­pei­to ao uni­ver­so do cli­en­te – afi­nal, em uma era de infor­ma­ção – e expo­si­ção –, é ele quem a empre­sa deve ter sem­pre como ali­a­do.