O ALGO­RIT­MO NO CON­TRO­LE

WEB SUM­MIT TRAZ O ENTU­SI­AS­MO DE SEM­PRE, A ENER­GIA DAS STAR­TUPS, A VIBRA­ÇÃO DE UMA COMU­NI­DA­DE FIEL E UM CON­TEÚ­DO COM MAIS ALTOS DO QUE BAI­XOS. MAS DEI­XA UM INCÔ­MO­DO NO AR: APE­SAR DAS LEIS DE PRO­TE­ÇÃO DE DADOS, A INDI­VI­DU­A­LI­DA­DE PER­DE TER­RE­NO PARA O ALGO­RIT­MO

POR JAC­QUES MEIR, JANAÍ­NA FER­RAZ E ROBER­TO MEIRDE LIS­BOA 

star em Lis­boa no iní­cio de novem­bro para par­ti­ci­par do Web Sum­mit é uma expe­ri­ên­cia sabo­ro­sa. A cida­de é boni­ta, o povo é aco­lhe­dor, res­tau­ran­tes excep­ci­o­nais, comér­cio reple­to de boas lojas com idei­as e design cati­van­tes e a mobi­li­da­de é fun­ci­o­nal. Mas é bom regis­trar: Lis­boa tem um aero­por­to com­ple­ta­men­te dis­so­ci­a­do des­ses ele­men­tos que jus­ti­fi­cam a pre­sen­ça do Web Sum­mit: é anti­go, des­con­for­tá­vel, con­fu­so, ruim de ser­vi­ço, com pou­cos fin­gers. Ao desem­bar­car, não havia nenhu­ma infor­ma­ção sobre qual era a estei­ra para a cole­ta de baga­gem; as filas de imi­gra­ção são len­tas e can­sa­ti­vas. O check-in só fica dis­po­ní­vel duas horas antes do embar­que, o que pro­vo­ca filas e limi­ta o aces­so de turis­tas, visi­tan­tes e pas­sa­gei­ros às lojas e ao con­su­mo no Free Shop, por abso­lu­ta fal­ta de tem­po (gas­to nas filas do check-in, do raio X, do reem­bol­so pela moda­li­da­de Free Tax).

   Uma vez supe­ra­da a jor­na­da pelo aero­por­to, é pos­sí­vel res­pi­rar o cli­ma e a vibra­ção úni­cos do Web Sum­mit. Duran­te os qua­tro dias de even­to, mais de 70 mil pes­so­as de 163 paí­ses movem-se fre­ne­ti­ca­men­te de um pavi­lhão a outro para assis­tir aos mais de 1.200 pales­tran­tes, apre­sen­tan­do os con­teú­dos em 22 pal­cos que dis­tri­bu­em toda gama de assun­tos, e aos pit­ches de mais de 2.100 star­tups, fazer reu­niões com inves­ti­do­res, ver as atra­ções da fei­ra, inten­si­fi­car o networ­king e, do iní­cio da noi­te em dian­te, com­pa­re­cer às diver­sas opções de atra­ções e happy hours orga­ni­za­dos para con­fra­ter­ni­za­ção da comu­ni­da­de de par­ti­ci­pan­tes.

Paddy Cos­gra­ve, CEO & co-foun­der, Web Sum­mit

   Os núme­ros impres­si­o­nam, mas é a com­bi­na­ção de ten­dên­ci­as, idei­as, start-ups, ino­va­ção, empre­sas de diver­sos seg­men­tos e o enga­ja­men­to dos par­ti­ci­pan­tes que fazem do Web Sum­mit um dos even­tos mais impor­tan­tes do calen­dá­rio glo­bal. Após anos de eufo­ria com as pri­mei­ras incur­sões e expe­ri­men­ta­ções mais robus­tas da Inte­li­gên­cia Arti­fi­ci­al, do uso das mídi­as soci­ais como pla­ta­for­mas de enga­ja­men­to e con­ver­sa­ção e da impo­si­ção da visão de mun­do da Gera­ção Mil­len­ni­al, o momen­to ago­ra é de infle­xão. Há mui­tas inqui­e­ta­ções deri­va­das das apli­ca­ções da IA nos negó­ci­os e na vida, no coti­di­a­no, assim como sobre a habi­li­da­de (ou a fal­ta dela) das demo­cra­ci­as em faze­rem fren­te a um mun­do pola­ri­za­do, onde mem­bros das redes soci­ais fler­tam e encam­pam, com gos­to, qual­quer estí­mu­lo que impul­si­o­ne seu viés de con­fir­ma­ção. Em outras pala­vras, gran­des con­tin­gen­tes de pes­so­as que se debru­çam  e se expõem nas redes soci­ais inad­ver­ti­da­men­te tor­nam-se reféns de algo­rit­mos que sele­ci­o­nam, ele­gem e dire­ci­o­nam men­sa­gens que este­jam em linha com suas visões de mun­do, aglu­ti­nan­do afi­ni­da­des e iso­lan­do dis­cor­dân­ci­as, o que só ali­men­ta a pola­ri­za­ção irra­ci­o­nal.

   Por outro lado, a velo­ci­da­de de expan­são e ado­ção da Inte­li­gên­cia Arti­fi­ci­al tam­bém se soma à atu­a­ção dos algo­rit­mos das redes soci­ais para acha­tar a indi­vi­du­a­li­da­de, fazen­do com que os usuá­ri­os das pla­ta­for­mas digi­tais ter­cei­ri­zem suas deci­sões. Esse é o con­tex­to que per­mi­tiu elen­car cin­co ten­dên­ci­as – impac­tan­tes, pro­vo­ca­do­ras, ple­nas de opor­tu­ni­da­des, mas tam­bém de pre­o­cu­pa­ções legí­ti­mas – já em cur­so a par­tir da cura­do­ria do con­teú­do e da vivên­cia no Web Sum­mit 2019. Vale a pena conhe­cer quais são os fun­da­men­tos e as carac­te­rís­ti­cas des­sas ten­dên­ci­as.

LIFE HAC­KINGHAC­KE­AN­DO A VIDA

   A tec­no­lo­gia está pre­sen­te em cada momen­to da vida das pes­so­as. Sal­vo gru­pos de pes­so­as que ain­da não toma­ram con­ta­to, não têm aces­so ou são resis­ten­tes por opção à ado­ção de dis­po­si­ti­vos e apli­ca­ções digi­tais, a tec­no­lo­gia está toman­do con­ta de nos­sas vidas. Para nos loco­mo­ver, para nos ali­men­tar, para via­jar, reser­var pas­sa­gens, tra­ba­lhar, inves­tir, pagar con­tas, votar, decla­rar o Impos­to de Ren­da, cui­dar da saú­de, fazer exa­mes, se diver­tir, esco­lher par­cei­ros e rela­ci­o­na­men­tos, con­tra­tar e demi­tir há uma tec­no­lo­gia, uma pla­ta­for­ma, um cole­tor inces­san­te de dados e uma inter­fa­ce que gos­ta de nos suge­rir sem­pre algu­ma coi­sa. A vida digi­tal orga­ni­za indi­ví­du­os em “clus­ters” (aglo­me­ra­dos) por afi­ni­da­des diver­sas e toma (lite­ral­men­te) a liber­da­de de esco­lher o que pode­mos comer, o cami­nho que deve­mos seguir, o fil­me que pode­mos ver, a músi­ca que pode­mos ouvir, o assen­to que toma­re­mos no avião, a hora de ir ao res­tau­ran­te e o tipo de exer­cí­cio que deve­mos fazer.

   O que acon­te­ce quan­do abri­mos mão das deci­sões mais sim­ples e quan­do nos sen­ti­mos con­for­tá­veis em viver uma espé­cie de soli­dão conec­ta­da (como mos­tra­mos na cober­tu­ra do SXSW)? Se a tec­no­lo­gia “supre” neces­si­da­des, “simu­la” emo­ções e traz sen­sa­ções de per­ten­ci­men­to e pro­xi­mi­da­de, pode­mos abrir mão da inte­ra­ção huma­na? Des­sa for­ma, não sub­ver­te­mos as dimen­sões que nos tor­nam huma­nos, abrin­do fren­tes para per­mi­tir que a tec­no­lo­gia rede­fi­na a exis­tên­cia?

DECI­SÃO ALGO­RÍT­MI­CA

   Um des­do­bra­men­to ine­vi­tá­vel do “Life Hac­king”, repre­sen­ta a renún­cia deli­be­ra­da ou des­per­ce­bi­da de nos­sa toma­da de deci­sões para algo­rit­mos exis­ten­tes nas pla­ta­for­mas digi­tais.

   Se Dani­el Kah­ne­man já demons­trou que os seres huma­nos têm duas for­mas de pen­sar, uma mais ins­tin­ti­va, outra mais lógi­ca, ago­ra vemos sur­gir uma ter­cei­ra for­ma, base­a­da na “ter­cei­ri­za­ção” da deci­são por um sis­te­ma digi­tal. Isso sig­ni­fi­ca uma outra sub­ver­são do pro­ces­so de fun­ci­o­na­men­to da men­te huma­na, par­ti­cu­lar­men­te sobre como deci­di­mos. A tec­no­lo­gia “deci­de” o que pode­mos comer, ouvir, ler, ver, namo­rar, onde tra­ba­lhar. As con­sequên­ci­as das deci­sões algo­rít­mi­cas ain­da pre­ci­sam ser estu­da­das, com­pre­en­di­das e, então, ava­li­a­das, para que pos­sa­mos ter a exa­ta dimen­são do que será nos­sa vida quan­do deci­sões mais e mais com­ple­xas forem deli­be­ra­da­men­te ter­cei­ri­za­das para sis­te­mas, máqui­nas e pla­ta­for­mas.

AS ANTI­MAR­CAS

   Em um mun­do pola­ri­za­do, mar­cas pre­ci­sam tomar par­ti­do. Dei­xar de se posi­ci­o­nar dian­te de diver­sas ques­tões, de bus­car impac­tar e inte­ra­gir com comu­ni­da­des é impen­sá­vel. Isso pres­su­põe renun­ci­ar às prá­ti­cas con­ven­ci­o­nais de mar­ke­ting e bus­car o alcan­ce com­pul­só­rio do cli­en­te, uti­li­zan­do mas­si­va­men­te a mídia con­ven­ci­o­nal. Vive­mos a era do story­tel­ling e da auten­ti­ci­da­de. Dis­cur­sos e prá­ti­cas ali­nha­dos, trans­pa­rên­cia real, dis­po­si­ção para o diá­lo­go. Em outras pala­vras, o momen­to é de assu­mir a pos­tu­ra de “anti­mar­ca”, mais inte­gra­da às comu­ni­da­des, menos adep­ta de cli­chês, mais inclu­si­va e dis­pos­ta a esti­mu­lar trans­for­ma­ções. O Web Sum­mit trou­xe oito ten­dên­ci­as que enfa­ti­zam a cons­tru­ção das anti­mar­cas, entre elas, capa­ci­tar equi­pes ágeis, usar cri­a­ti­vi­da­de com rele­vân­cia e ofe­re­cer expe­ri­ên­ci­as que deno­tem a impor­tân­cia do cli­en­te para a empre­sa, a par­tir do uso inte­li­gen­te dos dados. “São mais e mais dados para alcan­çar nos­so con­su­mi­dor de uma manei­ra oti­mi­za­da e super­per­so­na­li­za­da, então foque o que a mar­ca repre­sen­ta e como você diz isso a eles” defen­deu Fer­nan­do Macha­do, CMO do Bur­ger King.

A cen­tra­li­da­de do cli­en­te era um man­tra, obje­ti­vo pri­mor­di­al”
Bar­ba­ra Mar­tin Cop­po­la, da IKEA

PEO­PLE CEN­TRI­CITY

   Ser uma anti­mar­ca tam­bém sig­ni­fi­ca con­tes­tar o cli­chê de “colo­car o cli­en­te no cen­tro do negó­cio”. Segun­do Bar­ba­ra Mar­tin Cop­po­la, Chi­ef Digi­tal Offi­cer da IKEA, “a cen­tra­li­da­de do cli­en­te era um man­tra, o obje­ti­vo pri­mor­di­al”, mas a IKEA con­si­de­rou que era neces­sá­rio ousar e ir além des­se obje­ti­vo. Hoje, a empre­sa está com­ple­ta­men­te vol­ta­da para tra­ba­lhar na ideia de cen­tra­li­da­de da “pes­soa”, ou seja, cri­ar con­di­ções para gerar impac­to posi­ti­vo no mun­do e na vida das pes­so­as, para além da vida dos cli­en­tes. Bar­ba­ra pro­põe um olhar mais aten­to das empre­sas aos ecos­sis­te­mas e aos con­tex­tos que impac­tam e influ­en­ci­am a vida das pes­so­as. É pre­ci­so com­pre­en­der como e de que for­ma o con­su­mo pode ser um movi­men­to que dis­se­mi­ne boas idei­as, gere boas dis­cus­sões e esti­mu­le ino­va­ções que se espa­lhem por mais comu­ni­da­des de for­ma posi­ti­va. Uma com­pra pode ter a capa­ci­da­de de gerar uma rea­ção em cadeia que bene­fi­cia mais gen­te. Isso é pen­sar na “cen­tra­li­da­de das pes­so­as” e, des­sa for­ma, fazer empre­sas trans­for­ma­rem o mun­do para melhor.

Cão-robô da Bos­ton Dyna­mics: capa­ci­da­de para des­mon­tar bom­bas e até dan­çar com acro­ba­tas do Cir­que du Soleil

SOCI­E­DA­DE DOS ROBÔS

   Os robôs estão come­çan­do a fazer par­te da pai­sa­gem e do nos­so dia a dia. Não fala­mos ape­nas de sis­te­mas de aten­di­men­to, mas tam­bém de diver­sos outros cons­tru­tos e dis­po­si­ti­vos aptos a desem­pe­nhar múl­ti­plas tare­fas. A pre­sen­ça dos robôs já sus­ci­ta mui­tas refle­xões sobre como as soci­e­da­des irão se adap­tar aos orga­nis­mos ciber­né­ti­cos em dimen­sões diver­sas: éti­cas, soci­ais, econô­mi­cas e até mes­mo polí­ti­cas. De que for­ma popu­la­ções e redes de pro­fis­si­o­nais irão rea­gir a uma pre­sen­ça mais osten­si­va de robôs no mer­ca­do de tra­ba­lho? Quais serão os limi­tes de influên­cia dos dis­po­si­ti­vos robó­ti­cos na cap­tu­ra dos dados em suas inte­ra­ções com os huma­nos? Have­rá uma decla­ra­ção de direi­tos para robôs? Quais são os aspec­tos éti­cos para o uso de robôs em seu rela­ci­o­na­men­to e desem­pe­nho de tare­fas? A soci­e­da­de de robôs está no hori­zon­te e traz novas ques­tões que tere­mos de enca­rar.