COLU­NA

MAR­CE­LO SODRÉ
Pro­fes­sor da PUC/SP

O CÓDI­GO DE DEFE­SA DO

CON­SU­MI­DOR BAL­ZA­QUE­OU?

O Códi­go de Defe­sa do Con­su­mi­dor (CDC) tem uma carac­te­rís­ti­ca que não me recor­do que outra lei tenha: todo ano faz ani­ver­sá­rio e é alvo de come­mo­ra­ções. E ago­ra, além de ani­ver­sa­ri­ar, está em rito de pas­sa­gem para a vida adul­ta: faz 30 anos. Aca­bou sua juven­tu­de. A per­gun­ta que vem à tona é: bal­za­que­ou? Ficou velho?

Antes de tudo é pre­ci­so notar que o CDC viveu ple­na­men­te seus 30 anos. Ven­ceu a infân­cia, explo­diu na ado­les­cên­cia e sobre­vi­veu na juven­tu­de. Quais foram as razões des­te suces­so? É pos­sí­vel iden­ti­fi­car algu­mas.

Em pri­mei­ro lugar, ele foi fru­to da Cons­ti­tui­ção Cida­dã de 1988. Ao per­fi­lar os direi­tos dos con­su­mi­do­res como um dos direi­tos bási­cos da soci­e­da­de, abriu-se um cami­nho para sua afir­ma­ção como um ins­tru­men­to de melho­ria das rela­ções soci­ais. Se no mun­do atu­al o mer­ca­do é quem man­da, é pre­ci­so uma lei para limi­tar suas ações e esta­be­le­cer prin­cí­pi­os éti­cos a serem aten­di­dos.

Nes­te sen­ti­do, foi feliz a opção legis­la­ti­va de ela­bo­rar uma lei um tan­to quan­to dife­ren­te das outras que exis­ti­am. Optou-se por fazer uma lei prin­ci­pi­o­ló­gi­ca, que fin­ca­va suas bali­zas em um prin­cí­pio bási­co – o reco­nhe­ci­men­to da vul­ne­ra­bi­li­da­de do con­su­mi­dor –, e um obje­ti­vo cen­tral – a har­mo­nia nas rela­ções de con­su­mo. E o CDC con­se­guiu obter um balan­ço entre não ser por demais gené­ri­co, sen­do auto­e­xe­cu­tá­vel, e não ser por demais espe­cí­fi­co, impe­din­do que as trans­for­ma­ções da soci­e­da­de rapi­da­men­te o suplan­tas­sem. Além dis­to, o CDC cons­truiu um Sis­te­ma Naci­o­nal de órgãos e enti­da­des para sua imple­men­ta­ção. Ele encon­trou uma for­ma de man­ter sua vita­li­da­de por mui­to tem­po. Mas lá se vão 30 anos e não exis­te juven­tu­de eter­na. O CDC ficou ultra­pas­sa­do?

 

ELE (CDC) ENCON­TROU UMA FOR­MA DE MAN­TER SUA VITA­LI­DA­DE POR MAIS TEM­PO.

Em alguns peque­nos pon­tos, tal­vez. Mas, no geral, o Códi­go con­ti­nua atu­a­lís­si­mo. O ama­du­re­ci­men­to traz suas van­ta­gens: a expe­ri­ên­cia mos­tra que toda a luta pela implan­ta­ção valeu a pena e que deve­mos ter a matu­ri­da­de para abrir nos­sas men­tes, a fim de con­ti­nu­ar bus­can­do o equi­lí­brio nas rela­ções de con­su­mo nos dias de hoje. O que não pode­mos é retro­ce­der.

O tris­te é que, quan­do olha­mos a rea­li­da­de bra­si­lei­ra atu­al, vemos sinais de gra­ves retro­ces­sos, como se a defe­sa do con­su­mi­dor não fos­se um ins­tru­men­to de garan­tia de direi­tos, mas um empe­ci­lho ao desen­vol­vi­men­to do direi­to da liber­da­de econô­mi­ca. Ple­na liber­da­de de quem? Do mer­ca­do? E o equi­lí­brio nas rela­ções de con­su­mo não é mais neces­sá­rio? Tem­pos difí­ceis…

Ape­sar ter caí­do em domí­nio públi­co a ideia de que fazer 30 anos era o fim para as mulhe­res do iní­cio do sécu­lo 19, Bal­zac dis­se exa­ta­men­te o con­trá­rio: “Tome a mes­ma moça aos 20 e aos 30 anos. No segun­do momen­to ela será umas sete ou oito vezes mais inte­res­san­te, sedu­to­ra e irre­sis­tí­vel do que no pri­mei­ro.” Da mes­ma for­ma, o CDC con­ti­nua atu­a­lís­si­mo nos seus 30 anos.

Tris­te é ver que alguns seto­res soci­ais impor­tan­tes usam o pre­tex­to dos 30 anos para, no fun­do, pro­fes­sar um olhar sau­do­so dos anos ante­ri­o­res à pro­mul­ga­ção da Cons­ti­tui­ção Fede­ral de 1988, quan­do não havia garan­tia de direi­tos e mui­to menos garan­tia de direi­to dos con­su­mi­do­res. Nun­ca foi tão atu­al defen­der o direi­to de resis­tên­cia.