O LEGA­DO DE UMA REDE NADA SOCI­AL

POR ROBER­TO MEIR

   Faz 15 anos que Mark Zuc­ker­berg cri­ou o Face­bo­ok. A his­tó­ria todos já sabem. Ele e outros dois estu­dan­tes de com­pu­ta­ção da Uni­ver­si­da­de de Har­vard se jun­ta­ram para lan­çar um site que ava­li­a­va quais dos uni­ver­si­tá­ri­os eram mais atra­en­tes. Para cap­tu­rar as ima­gens de iden­ti­fi­ca­ção, a rede de segu­ran­ça de Har­vard foi inva­di­da e o site, pou­co tem­po depois, tira­do do ar pela uni­ver­si­da­de. Come­ça­va aí a rede de tra­moi­as. A ideia, como sabe­mos, foi relan­ça­da um ano mais tar­de, em 2004. E, des­de então, Zuc­ker­berg vem rece­ben­do uma enxur­ra­da de acu­sa­ções. Os gême­os Came­ron e Tyler Win­kle­voss, por exem­plo, dis­se­ram que ele cri­ou um site base­a­do na ideia e no códi­go-fon­te de uma rede soci­al que eles tinham pro­je­ta­do (a Har­vard Con­nec­ti­on, mais tar­de reno­me­a­da como Con­nec­tU). Já o bra­si­lei­ro Edu­ar­do Save­rin, que teria sido o pri­mei­ro a apos­tar na ideia do cole­ga de quar­to, viu min­guar sua par­ti­ci­pa­ção na empre­sa depois de uma joga­da do então ami­go Zuc­ker­berg para afas­tá-lo das deci­sões da rede soci­al. Este ano, foi a vez de Aaron Gre­ens­pan, outro ex-cole­ga, apre­sen­tar um rela­tó­rio de 75 pági­nas no qual afir­ma que meta­de das con­tas da rede soci­al é fal­sa. “Que iro­nia! Mark, que defi­niu a ami­za­de para pra­ti­ca­men­te uma gera­ção intei­ra, nem sequer sabe o que sig­ni­fi­ca essa pala­vra”, lamen­tou Gre­ens­pan. Sim, Zuck tam­bém é espe­ci­a­lis­ta em cri­ar redes de intri­gas. E não para por aí.

   Na sema­na em que a rede soci­al com­ple­ta 15 anos, o jor­nal The New York Times fez um post irô­ni­co “Feliz ani­ver­sá­rio, Face­bo­ok! Hoje você faz 15 anos – e que mon­ta­nha-rus­sa tem sido. Para mar­car o dia, cri­a­mos um vídeo de ani­ver­sá­rio de ami­za­de para Mark Zuc­ker­berg”. Em vez de boas lem­bran­ças, o jor­nal lan­çou, cla­ro, man­che­tes que nar­ram pro­ble­mas rela­ci­o­na­dos à inva­são de pri­va­ci­da­de, à mani­pu­la­ção de elei­ções, à desin­for­ma­ção e à divi­são soci­al. Crí­ti­co fer­re­nho do Face­bo­ok, o pro­fes­sor de mar­ke­ting Scott Gal­loway cos­tu­ma ques­ti­o­nar se, ao con­trá­rio de outros dita­do­res, Zuc­ker­berg irá per­pe­tu­ar ao lado de seus cor­dei­ros. Em entre­vis­ta recen­te ao canal de TV ame­ri­ca­no MSNBC, ele falou de outras maze­las do Face­bo­ok: “Ele con­ta­mi­nou as nos­sas elei­ções, nos­sos jovens estão depri­mi­dos, o sui­cí­dio entre os ado­les­cen­tes está em dis­pa­ra­da”, dis­se o espe­ci­a­lis­ta, indig­na­do.

   Ele tem razão. Inú­me­ros estu­dos asso­ci­am o uso das mídi­as soci­ais a pro­ble­mas de saú­de men­tal, como depres­são e ansi­e­da­de, espe­ci­al­men­te entre ado­les­cen­tes. Vale lem­brar que o bra­si­lei­ro pas­sa, em média, 3 horas e 39 minu­tos, todos os dias, nas redes soci­ais. Ocu­pa­mos, assim, a segun­da colo­ca­ção entre os paí­ses com usuá­ri­os mais assí­du­os (ou vici­a­dos, como quei­ra), atrás ape­nas dos fili­pi­nos. Isso é, no míni­mo, alar­man­te. Além de aumen­tar a dis­tân­cia, o con­ta­to físi­co e a tro­ca de olha­res entre as pes­so­as, as redes soci­ais desen­ca­de­a­ram uma angús­tia por visu­a­li­za­ções rápi­das e res­pos­tas ins­tan­tâ­ne­as além, cla­ro, da estú­pi­da dis­pu­ta por cli­ques, cur­ti­das e melho­res ângu­los. A gin­ca­na pela melhor sel­fie vem cei­fan­do, inclu­si­ve, vidas. Sim, por­que não há mar revol­to, ani­mal feroz ou penhas­co hor­ri­pi­lan­te que freie a bus­ca inces­san­te pelo cli­que per­fei­to. Duvi­da? Um estu­do da uni­ver­si­da­de ame­ri­ca­na Car­ne­gie Mel­lon cha­ma­do “Eu, eu mes­mo e meu ‘kill­fie’” apon­ta nada menos do que 127 mor­tes cau­sa­das por sel­fi­es entre mar­ço de 2014 e novem­bro de 2016. Des­sas mor­tes, 76 acon­te­ce­ram na Índia. O pro­ble­ma tomou tama­nha pro­por­ção que o gover­no indi­a­no cri­ou, inclu­si­ve, zonas onde sel­fi­es são proi­bi­das. Quem des­res­pei­tar as nor­mas, está sujei­to a mul­ta.

   Não bas­tas­se tudo isso, o vaza­men­to de dados do Face­bo­ok, que hoje reú­ne 2,3 bilhões de usuá­ri­os, trou­xe à tona a impor­tân­cia de impor limi­tes para a cap­ta­ção e o uso de infor­ma­ções pes­so­ais. Na Euro­pa, o Regu­la­men­to Geral sobre a Pro­te­ção de Dados já é uma rea­li­da­de. Ago­ra che­gou a vez de as empre­sas bra­si­lei­ras se adap­ta­rem às regras da nova Lei Geral de Pro­te­ção de Dados, que entra em vigor no ano que vem. Colo­ca­do na pare­de duran­te uma saba­ti­na no Sena­do ame­ri­ca­no, Zuck pare­ce não estar nem um pou­co dis­pos­to a reve­lar seus dados. E você, está? Ah, antes que eu me esque­ça, para­béns, Face­bo­ok, por con­tri­buir para uma soci­e­da­de cada vez mais antis­so­ci­al.

Não há mar revol­to, ani­mal feroz ou penhas­co hor­ri­pi­lan­te que freie a bus­ca inces­san­te pelo cli­que per­fei­to”