MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

O TEM­PO

PER­DI­DO

O TEM­PO

PER­DI­DO

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

MAR­CE­LO GOMES SODRÉ

Pro­fes­sor da PUC/SP

Nas minhas ati­vi­da­des de advo­ga­do e mili­tan­te de cau­sas soci­ais, a filo­so­fia nun­ca ser­viu para nada”

    Come­ti uma here­sia na minha juven­tu­de: estu­dei filo­so­fia. Podia ter fuma­do maco­nha, rou­ba­do a namo­ra­da do meu melhor ami­go, não fei­to as lições de casa, sub­traí­do dinhei­ro da car­tei­ra do meu pai, mas não fiz nada dis­so. Esco­lhi um cami­nho mui­to pior: pres­tei ves­ti­bu­lar na USP para filo­so­fia e fui apro­va­do.

    E duran­te nove anos apren­di idei­as para lá de esdrú­xu­las: como os gre­gos anti­gos pen­sa­ram o tema da demo­cra­cia; o tema da vir­tu­de em Aris­tó­te­les; o esfor­ço de San­to Agos­ti­nho para com­pre­en­der a ori­gem do mal no mun­do; a cons­tru­ção da dúvi­da e da cer­te­za na base do sis­te­ma do conhe­ci­men­to car­te­si­a­no; o direi­to divi­no dos reis pro­ta­go­ni­za­do por Jean Bodin; o pac­to para for­ma­ção da soci­e­da­de civil e do Esta­do nos filó­so­fos do con­tra­tu­a­lis­mo moder­no; as con­di­ções do pen­sa­men­to para Kant; a rela­ção entre essên­cia e exis­tên­cia em Sar­tre e Hei­deg­ger. Tudo mui­to peri­go­so e ao mes­mo tem­po des­pre­zí­vel. Na ver­da­de: dis­pen­sá­vel.

    Per­gun­to a mim mes­mo: por que estu­dei esse mon­te de boba­gens? O que isso trou­xe para minha vida? Com cer­te­za, nada. Aliás, por que tan­tos filó­so­fos estu­dam o nada? Escre­ver um livro sobre o Ser e o Nada? Acho que eles não tinham o que fazer e fica­vam inven­tan­do coi­sas. E enche­ram a minha men­te de idei­as do demô­nio.

    Ain­da bem que ago­ra só estu­do o sis­te­ma biná­rio: é 0 ou 1. Isso me bas­ta. E, como não pre­ci­sa­mos mais pen­sar em outros sis­te­mas, aca­ba­mos por per­mi­tir que o pró­prio sis­te­ma biná­rio subs­ti­tuís­se nos­sa inte­li­gên­cia natu­ral pela inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al. Ufa!: esta­mos livres de ficar pen­san­do sobre o sen­ti­do da vida. E ago­ra pode­mos fazer o que impor­ta: um ofí­cio que gere ren­da para nos­sa famí­lia e a soci­e­da­de. Que bom!

    Nas minhas ati­vi­da­des de advo­ga­do e mili­tan­te de cau­sas soci­ais, a filo­so­fia nun­ca ser­viu para nada. Na minha vida em famí­lia, a filo­so­fia gerou mui­tos mal-esta­res, foi um estor­vo. Toda vez que tive de pen­sar em estra­té­gi­as de atu­a­ção pro­fis­si­o­nal, de como me com­por­tar peran­te os outros, nos valo­res que deve­ri­am nor­te­ar minha ação, a filo­so­fia me des­vir­tu­a­va do bom cami­nho. Mas o pior da filo­so­fia é ter um ramo cha­ma­do éti­ca. Coi­sa mais cha­ta e ina­de­qua­da para refle­tir. Para que ser­ve tudo isso? Vejam que per­gun­ta mais idi­o­ta a qual não pre­ci­sa­mos mais res­pon­der: será que a tec­no­lo­gia está avan­çan­do mais rápi­do do que o sen­so de res­pon­sa­bi­li­da­de da huma­ni­da­de? O sis­te­ma biná­rio 0 ou 1 pode igno­rar esta per­gun­ta. Ain­da bem.

    Acho que Hei­deg­ger tinha razão quan­do escre­veu: quem pen­sa pro­fun­da­men­te, deve errar pro­fun­da­men­te. Vamos suplan­tar o tem­po per­di­do e parar de pen­sar pro­fun­da­men­te e errar pro­fun­da­men­te.

    Che­gou a era do super­fi­ci­al. De recu­pe­rar o tem­po per­di­do.

Nas minhas ati­vi­da­des de advo­ga­do e mili­tan­te de cau­sas soci­ais, a filo­so­fia nun­ca ser­viu para nada”