ARTI­GO
O vírus da repu­ta­ção
Caio Blin­der
Jor­na­lis­ta e um dos apre­sen­ta­do­res do pro­gra­ma Manhat­tan Con­nec­ti­on da Glo­bo­News
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COMO UM EMPRE­SA MAN­TÉM sua repu­ta­ção com os cli­en­tes ardu­a­men­te con­quis­ta­da na era A.C. (antes do coro­na) ago­ra na era D.C. (depois do coro­na)? A tran­si­ção é um dile­ma para uma cam­peã ame­ri­ca­na, Weg­mans. Weg­mans? Vamos expli­car. 

Em um ran­king de repu­ta­ção em 2019, as mais bem colo­ca­das da segun­da até a quin­ta posi­ção eram nomes pro­va­vel­men­te mais fami­li­a­res de mui­tos bra­si­lei­ros: Ama­zon, Pata­go­nia, L.L. Bean, Dis­ney e Publix. Fui até a quin­ta, pois Publix é um super­mer­ca­do da Fló­ri­da e hoje a Fló­ri­da é um Esta­do bra­si­lei­ro. 

E, falan­do em super­mer­ca­do, creio que a cam­peã em repu­ta­ção seja des­co­nhe­ci­da de mui­ta gen­te no Bra­sil, mes­mo no meio cor­po­ra­ti­vo. É a cadeia de super­mer­ca­dos Weg­mans – não con­fun­dir com Who­le Foods. Weg­mans foi cam­peã de repu­ta­ção nos que­si­tos visão, cres­ci­men­to, tra­je­tó­ria, cará­ter e éti­ca. Não se tra­ta de um gigan­te; são 101 fili­ais de uma empre­sa fami­li­ar, no “mer­ca­do” há 104 anos e com ope­ra­ções em pou­cos Esta­dos, mais ao Nor­te nas ban­das de Nova York e Nova Ingla­ter­ra. 

Um dos moti­vos que expli­ca a repu­ta­ção pri­mo­ro­sa da empre­sa Weg­mans é a revo­lu­ção do bem-estar. A empre­sa é len­dá­ria por con­tra­tar talen­tos locais, inves­tir na sua for­ça de tra­ba­lho e real­men­te ofe­re­cer mui­tas opções orgâ­ni­cas e sau­dá­veis. 

Com­pa­nhi­as estão se rein­ven­tan­do em tor­no de nutri­ção, melho­ria do esti­lo de vida dos cida­dãos e por pro­por­ci­o­nar uma sen­sa­ção de que real­men­te per­ten­cem à comu­ni­da­de. Nenhu­ma sur­pre­sa que exis­ta um cul­to em tor­no des­ta cadeia de super­mer­ca­dos. Ela mere­ce. 

“Em um ran­king de repu­ta­ção em 2019, as mais bem colo­ca­das da segun­da até a quin­ta posi­ção eram nomes pro­va­vel­men­te mais fami­li­a­res de mui­tos bra­si­lei­ros: Ama­zon, Pata­go­nia, L.L. Bean, Dis­ney e Publix. Fui até a quin­ta, pois Publix é um super­mer­ca­do da Fló­ri­da e hoje a Fló­ri­da é um Esta­do bra­si­lei­ro.”

Vamos ao dile­ma. Em vez de papa­ri­car o cli­en­te como sem­pre fez, a empre­sa pre­ci­sa se ajus­tar, não ape­nas o pro­te­gen­do na era D.C., mas se pro­te­gen­do dele. A Weg­mans não pode mais se dar ao luxo de ofe­re­cer aulas de culi­ná­ria, ter qui­os­ques de ali­men­ta­ção, esban­jar amos­tras grá­tis e ter até noi­ta­da de cine­ma. Cada cli­en­te é um ris­co em poten­ci­al. 

A Weg­mans é uma empre­sa fami­li­ar não ape­nas na pro­pri­e­da­de, mas tam­bém no cor­po de fun­ci­o­ná­ri­os. Deles, 20% têm paren­tes­co, às vezes, com três gera­ções tra­ba­lhan­do simul­ta­ne­a­men­te na empre­sa. Ima­gi­ne o ris­co para eles na era D.C.? 

A sen­sa­ção comu­ni­tá­ria no super­mer­ca­do se esvaiu com as divi­só­ri­as plás­ti­cas nos cai­xas e a con­tra­ta­ção de mais segu­ran­ças para man­ter os cli­en­tes lite­ral­men­te na linha. As ofer­tas vari­a­das e ori­gi­nais foram redu­zi­das. Eu já com­prei até gua­ra­ná no super­mer­ca­do do qual sou cli­en­te. 

O char­mo­so “algo mais Weg­mans” foi redu­zi­do. Dar uma pas­sa­da num sába­do para fazer com­pras e comer lá mes­mo dei­xou de ser um pro­gra­mão. Os qui­os­ques com piz­za e sushi estão fecha­dos. Eu não apa­re­ço por lá des­de a era A.C. e não sei quan­do vol­ta­rei. 

A iro­nia de tudo isso é que empre­sas mais fru­gais, que nun­ca papa­ri­ca­ram tan­to os cli­en­tes, estão até mais bem posi­ci­o­na­das para a nova era. Afi­nal, o down­gra­de é menos bru­tal.  

Os cli­en­tes mais fiéis da Weg­mans são conhe­ci­dos como weg­ma­nía­cos. Eles cos­tu­mam apa­re­cer aos milha­res na inau­gu­ra­ção de uma nova loja e orga­ni­zam road trips para visi­tar as 101 fili­ais. Vamos ver como fica­rá a repu­ta­ção da empre­sa com os weg­ma­nía­cos.