OS RITU­AIS DONOVO NOR­MAL”: COM A PAN­DE­MIA, SUR­GE UM NOVO MODO DE INTE­RA­GIR E CON­SU­MIR

MARÍ­LIA LOBO
POR BER­LIN SCHO­OL
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Dois meses de iso­la­men­to soci­al se pas­sa­ram. Enquan­to pro­fis­si­o­nais da saú­de e tra­ba­lha­do­res essen­ci­ais colo­cam suas vidas em ris­co, mui­tos de nós – exe­cu­ti­vos, geren­tes de mar­ke­ting, espe­ci­a­lis­tas – vive­mos uma mara­to­na digi­tal, entre vide­o­con­fe­rên­ci­as, e‑mails, pla­nos de con­tin­gên­cia e encon­tros vir­tu­ais com ami­gos e fami­li­a­res. O Zoom (ou outra pla­ta­for­ma seme­lhan­te) se tor­nou o escri­tó­rio, a mesa de bar, o divã do tera­peu­ta, a esco­la das cri­an­ças e a sala de ginás­ti­ca.

Ago­ra, após o cho­que ini­ci­al por tudo o que está acon­te­cen­do, um “cer­to” equi­lí­brio melan­có­li­co pai­ra no ar. Com ele, os efei­tos cola­te­rais com­por­ta­men­tais da pan­de­mia sur­gem. Entre a espe­ra­da fadi­ga emo­ci­o­nal e o sen­ti­men­to de luto pelo mun­do que conhe­cía­mos, alguns sin­to­mas ines­pe­ra­dos tam­bém acon­te­cem. Enquan­to mui­tos esta­vam cer­tos de que o ambi­en­te on-line seria frio e assép­ti­co, iro­ni­ca­men­te, a tec­no­lo­gia se pro­va um sal­va­dor dis­far­ça­do. As vide­o­con­fe­rên­ci­as se tor­na­ram um novo espa­ço segu­ro de per­ten­ci­men­to, com­par­ti­lha­men­to e vul­ne­ra­bi­li­da­de.

É evi­den­te que fazem fal­ta aos nos­sos sen­ti­dos os abra­ços, o chei­ro de café na pada­ria, o calor do car­ro esta­ci­o­na­do no sol; assim como o mús­cu­lo ocu­lar e as dores de cabe­ça indi­cam o can­sa­ço físi­co após horas em fren­te às telas.

Porém, nes­ses espa­ços, reto­ma­mos a cone­xão huma­na e os ritu­ais tão essen­ci­ais na vida em soci­e­da­de. Em rela­ção ao con­su­mo, gas­ta­mos de for­ma mais con­ser­va­do­ra e com mais cons­ci­ên­cia, bus­can­do supor­tar o comér­cio local. Como já pos­tu­la­va Durkheim: “a inte­ra­ção ritu­al gera as emo­ções que estão na base da vida soci­al. O domí­nio da cons­ci­ên­cia cole­ti­va, a expe­ri­ên­cia do gru­po em si mes­mo como um gru­po, não é uma mera com­bi­na­ção de cons­ci­ên­cia indi­vi­du­al, mas uma for­ma sui gene­ris de cons­ci­ên­cia. Esse domí­nio da vida soci­al gera ´sen­ti­men­tos, idei­as e ima­gens que seguem a sua pró­pria lei quan­do nas­cem´. A soci­e­da­de não se baseia na pro­pen­são e capa­ci­da­de do indi­ví­duo. Em vez dis­so, os sím­bo­los são for­ma­dos na inte­ra­ção soci­al e depois uti­li­za­dos pelos indi­ví­du­os”.

Nes­se novo mun­do e modo de inte­ra­gir, reto­ma­mos a sen­sa­ção de con­tro­le. Agen­da­mos os horá­ri­os, entra­mos e saí­mos dos mais diver­sos ambi­en­tes em um cli­que, somos mais dire­tos e ouvi­mos mais – os cor­tes na cone­xão da inter­net nos lem­bram a sábia regra, fre­quen­te­men­te esque­ci­da antes da pan­de­mia: quan­do alguém fala, os demais escu­tam.