RES­PEI­TO PELAS IDEI­AS

POR ROBER­TO MEIR

   O Bra­sil está encer­ran­do um ciclo. Nos últi­mos 30 anos, o País se trans­for­mou em mui­tos aspec­tos, mas não neces­sa­ri­a­men­te para melhor. A desi­gual­da­de per­sis­te assim como a debi­li­da­de com­pe­ti­ti­va. Con­ti­nu­a­mos expor­tan­do com­mo­di­ti­es e cri­an­do difi­cul­da­des para nos conec­tar­mos às gran­des cadei­as de comér­cio, jus­ta­men­te em um momen­to de reva­lo­ri­za­ção do naci­o­na­lis­mo e de rea­ção à glo­ba­li­za­ção. Per­de­mos vári­as opor­tu­ni­da­des, pelo sim­ples fato de olhar­mos sem­pre para nos­so pró­prio umbi­go.

   A agen­da que o País esco­lheu para pro­mo­ver cres­ci­men­to econô­mi­co e para res­pon­der às deman­das dos cida­dãos foi insu­fi­ci­en­te. Fize­mos esco­lhas erra­das, toma­mos deci­sões equi­vo­ca­das que cul­mi­na­ram na mai­or reces­são de nos­sa his­tó­ria. Demons­tra­mos pou­co apre­ço pelas boas idei­as e ino­va­ções que estão con­du­zin­do paí­ses e eco­no­mi­as meno­res à pros­pe­ri­da­de. Refu­ta­mos o cami­nho da raci­o­na­li­da­de geren­ci­al e do res­pei­to à coi­sa públi­ca em favor de pro­je­tos de poder e de solu­ções fáceis que edul­co­ra­ram a rea­li­da­de e escon­de­ram as difi­cul­da­des e mas­ca­ra­ram a com­ple­xi­da­de do mun­do.

   Ago­ra esta pági­na foi vira­da. A par­tir de 2019, o Bra­sil vai escre­ver um novo capí­tu­lo, recon­ci­li­an­do-se com valo­res essen­ci­ais à civi­li­za­ção e às mais sóli­das demo­cra­ci­as: inte­gri­da­de, meri­to­cra­cia, famí­lia, cida­da­nia, com­pe­ti­ti­vi­da­de, liber­da­de de empre­en­der, mora­li­da­de. Sai­rão as roma­ri­as por benes­ses em Bra­sí­lia e serão valo­ri­za­das a for­ça ino­va­do­ra, a capa­ci­da­de empre­en­de­do­ra, o motor com­pe­ti­ti­vo. As razões para esse oti­mis­mo resi­dem na expec­ta­ti­va de ter­mos um Esta­do menos tute­lar e um incen­ti­vo mai­or para que pes­so­as e empre­sas imbuí­das dedi­quem-se à rea­li­za­ção dos pró­pri­os sonhos por si mes­mas. Os sinais des­te novo ciclo apon­tam para uma fase na qual o Esta­do dei­xa de ser pro­ta­go­nis­ta e os indi­ví­du­os podem exer­cer sua auto­de­ter­mi­na­ção. É um mode­lo mais ade­qua­do a uma soci­e­da­de em rede, no qual as pes­so­as se conec­tam em tor­no de inte­res­ses e idei­as, de cau­sas e pro­pó­si­tos e não em tor­no de per­fis. Os gru­pos são cada vez mais hete­ro­gê­ne­os se con­si­de­rar­mos os velhos mode­los de seg­men­ta­ção demo­grá­fi­ca, mas reve­lam-se extra­or­di­na­ri­a­men­te homo­gê­ne­os quan­do uni­dos em tor­no do que acre­di­tam, deman­dam ou alme­jam.

   Nes­se con­tex­to, as empre­sas bra­si­lei­ras pre­ci­sam rea­pren­der a tomar gos­to pela com­pe­ti­ção mais inten­sa. Nenhum mode­lo de negó­cio ou pro­pos­ta de valor está imu­ne ao poder das dis­rup­ções e da ino­va­ção. Libe­ra­das as ener­gi­as empre­en­de­do­ras e com­pe­ti­ti­vas, o mer­ca­do irá se trans­for­mar veloz­men­te. Isso fará com que todas as ten­dên­ci­as e assun­tos que tomam a agen­da cor­po­ra­ti­va – trans­for­ma­ção digi­tal, ino­va­ção, cen­tra­li­da­de do cli­en­te, Big Data, Analy­tics, pro­te­ção de dados, com­por­ta­men­to do con­su­mi­dor, dife­ren­ças entre gera­ções, enga­ja­men­to – sejam resu­mi­dos em um gran­de man­tra: todo negó­cio pre­ci­sa mudar, antes que a mudan­ça sim­ples­men­te o des­cons­trua, o tor­ne obso­le­to ou o eli­mi­ne. Por isso, as empre­sas tam­bém pre­ci­sam se abrir para a mudan­ça, recep­ci­o­nar o des­con­for­to repre­sen­ta­do pela ins­ta­bi­li­da­de e pelo impac­to de insur­gen­tes e ir além de sim­ples­men­te ado­tar star­tups. É hora de ter mai­or res­pei­to pelas idei­as novas, o que, em últi­ma ins­tân­cia, repre­sen­ta ter mais res­pei­to pelos con­su­mi­do­res e pelas demais par­tes inte­res­sa­das.

A par­tir de 2019, o Bra­sil vai escre­ver um novo capí­tu­lo, recon­ci­li­an­do-se com valo­res essen­ci­ais à civi­li­za­ção e às mais sóli­das demo­cra­ci­as: inte­gri­da­de, meri­to­cra­cia, famí­lia, cida­da­nia, com­pe­ti­ti­vi­da­de, liber­da­de de empre­en­der, mora­li­da­de”

   O fato novo é que, nes­se cená­rio de mudan­ça, as empre­sas pre­ci­sam estar total­men­te com­pro­me­ti­das com o ecos­sis­te­ma que gira em tor­no delas. Esse é um movi­men­to pode­ro­so, que se tor­nou fla­gran­te no Web Sum­mit, em Lis­boa, mais um dos mui­tos even­tos de ino­va­ção que par­ti­ci­pa­mos ano após ano. Empre­sas pre­ci­sam se plu­gar a outras empre­sas, cocri­ar novos negó­ci­os, modi­fi­car pro­pos­tas de valor, rein­ven­tar pro­ces­sos, rede­se­nhar suas ope­ra­ções. Em vez de pen­sa­rem gene­ri­ca­men­te em “mar­ket­pla­ces”, a con­cep­ção pas­sa a ser de inser­ção em ambi­en­tes cola­bo­ra­ti­vos, cons­tru­ti­vos, nos quais idei­as sejam aco­pla­das umas às outras e deem ori­gem a negó­ci­os ain­da ine­xis­ten­tes, com pro­fis­sões, car­gos e fun­ções tam­bém iné­di­tas. Tra­ta-se de um novo arran­jo cor­po­ra­ti­vo, que tem ver­sa­ti­li­da­de e fle­xi­bi­li­da­de para acom­pa­nhar o rit­mo das mudan­ças, a capa­ci­da­de de cole­tar, pro­ces­sar, inter­pre­tar e dar valor à infor­ma­ção para ser capaz de enfren­tar a com­pe­ti­ção de qual­quer espé­cie.

   Tam­bém vemos esse novo per­fil de empre­sa sur­gir, ain­da timi­da­men­te, em estu­dos e pes­qui­sas diver­sos, par­ti­cu­lar­men­te no Bra­sil. O desa­fio da trans­for­ma­ção digi­tal é, na ver­da­de, o desa­fio da trans­for­ma­ção ampla das orga­ni­za­ções. No estu­do sobre “Empre­sas que Mais Res­pei­tam o Con­su­mi­dor”, publi­ca­do nes­ta edi­ção, é níti­do veri­fi­car que as com­pa­nhi­as mais des­ta­ca­das são aque­las que cum­prem o que pro­me­tem e fazem isso por enten­de­rem melhor os insights garim­pa­dos da mas­sa de dados que acu­mu­lam dia após dia. Aque­las que estão em cur­so de mudan­ça sobres­sa­em sobre outras, mais ape­ga­das às suas cren­ças.

   Esse novo ciclo que ire­mos per­cor­rer traz a mar­ca do desa­fio e da neces­si­da­de de fazer dife­ren­te. Há mui­to tem­po, nos­so ambi­en­te cor­po­ra­ti­vo não tra­zia con­di­ções tão boas para moti­var empre­sas a empre­en­de­rem pro­je­tos novos, a inves­ti­rem e a ino­va­rem, ao mes­mo tem­po em que vere­mos mais e mais empre­sas dis­rup­ti­vas sur­gi­rem em gran­de quan­ti­da­de. O cená­rio de con­cen­tra­ção e de aco­mo­da­ção à medi­o­cri­da­de que sobres­saiu nos últi­mos anos cer­ta­men­te irá se trans­for­mar. Somen­te as empre­sas mais aptas irão sobre­vi­ver. Mais efi­ci­ên­cia, mais inte­li­gên­cia e mais ino­va­ção são as regras do jogo. Nada mais moti­va­dor para quem está em posi­ção de lide­ran­ça hoje em dia.

   Vamos rece­ber esse novo ciclo de bra­ços e men­tes aber­tas, vamos real­men­te res­pei­tar nos­so poten­ci­al cri­a­ti­vo e nos­sa capa­ci­da­de de cons­truir negó­ci­os vibran­tes e com­pe­ti­ti­vos em nível glo­bal. Che­ga de mes­mi­ce. Viva o incon­for­mis­mo!