SEGU­RO NA MEDI­DA CER­TA

INSUR­TE­CHS E SEGU­RA­DO­RAS TRA­DI­CI­O­NAIS REIN­VEN­TAM SEG­MEN­TO QUE, ATÉ ENTÃO, OFE­RE­CIA POU­CAS OPÇÕES DE APÓ­LI­CES AO CON­SU­MI­DOR. EXPEC­TA­TI­VA É QUE, NOS PRÓ­XI­MOS DEZ ANOS, OS PRO­DU­TOS SE TOR­NEM MAIS ACES­SÍ­VEIS E PER­SO­NA­LI­ZA­DOS

POR VINÍ­CIUS GON­ÇAL­VES

NÚME­ROS DE INSUR­TE­CHS NO BRA­SIL

Fon­te: Câma­ra Bra­si­lei­ra de Comér­cio Ele­trô­ni­co

   A assis­ten­te vir­tu­al avi­sa que fal­tam 45 minu­tos para a reu­nião com o cli­en­te. Você entra em seu car­ro autô­no­mo e per­gun­ta em voz alta se o cami­nho até o escri­tó­rio está con­ges­ti­o­na­do. Ime­di­a­ta­men­te, o pai­nel do auto­mó­vel acen­de e se conec­ta à rede da segu­ra­do­ra, que indi­ca uma rota sem trân­si­to. O tra­je­to qua­se sem ris­co de coli­são agu­ça a sua von­ta­de de diri­gir e ain­da ofe­re­ce um des­con­to de 4% na men­sa­li­da­de. Mes­mo enfer­ru­ja­do, você assu­me o volan­te. Tudo cor­re bem até che­gar ao esta­ci­o­na­men­to quan­do aca­ba esbar­ran­do em uma lixei­ra. Rapi­da­men­te, o car­ro faz um diag­nós­ti­co do estra­go e um apli­ca­ti­vo o ins­trui a tirar fotos do para-cho­que amas­sa­do. Envi­a­das as ima­gens à segu­ra­do­ra, apa­re­ce um dro­ne para fazer a últi­ma ins­pe­ção e, final­men­te, o sinis­tro é auto­ri­za­do. Tudo a tem­po do com­pro­mis­so.

   A his­tó­ria pode até pare­cer enre­do de fil­me futu­ris­ta, mas as tec­no­lo­gi­as já exis­tem — e, cada vez mais, as segu­ra­do­ras têm-se trans­for­ma­do em empre­sas de dados gra­ças à inter­net das coi­sas (IoT), ao big data, ao block­chain, à inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al e a outras fer­ra­men­tas. É nes­se con­tex­to que sur­gem as insur­te­chs, abre­vi­a­ção de segu­ros e tec­no­lo­gia que deno­mi­na as orga­ni­za­ções que inves­tem em ino­va­ção com foco no desen­vol­vi­men­to de pro­du­tos e expe­ri­ên­ci­as ao usuá­rio final. Ain­da inci­pi­en­te no Bra­sil, esse mer­ca­do já está con­so­li­da­do nos Esta­dos Uni­dos e em alguns paí­ses da Euro­pa e da Ásia, cau­san­do um gran­de alvo­ro­ço em um seg­men­to que, até então, ofe­re­cia ser­vi­ços mui­to pare­ci­dos e pro­du­tos padro­ni­za­dos.

O FOCO DAS INSUR­TE­CHS

Jor­na­da do Usuá­rio — 12%
Data & Analy­tics — 28%
Pro­du­to — 40%

   De acor­do com levan­ta­men­to da Câma­ra Bra­si­lei­ra de Comér­cio Ele­trô­ni­co, o Bra­sil pos­sui 78 insur­te­chs, um sal­to con­si­de­rá­vel em rela­ção às 40 com­pa­nhi­as mape­a­das na pri­mei­ra edi­ção rea­li­za­da em junho de 2017. Des­se total, 40% têm foco em pro­du­tos, 28%, em data e analy­tics e 12%, na jor­na­da do usuá­rio. A Supe­rin­ten­dên­cia de Segu­ros Pri­va­dos (Susep) vê essa movi­men­ta­ção como um pas­so fun­da­men­tal para que o segu­ro amplie sua fun­ção de pro­te­ção. “Temos bus­ca­do assu­mir uma agen­da de pro­ta­go­nis­mo em rela­ção a esse tema. Por isso, cri­a­mos, no ano pas­sa­do, uma comis­são espe­ci­al per­ma­nen­te dedi­ca­da ao tema ino­va­ção e insur­te­chs”, expli­ca Joa­quim Men­da­nha de Ataí­des, supe­rin­ten­den­te da ins­ti­tui­ção, duran­te o even­to CQCS Insur­te­ch & Ino­va­ção.

   Esse boom de insur­te­chs tem impac­to, inclu­si­ve, nas segu­ra­do­ras tra­di­ci­o­nais. “A sobre­vi­vên­cia des­sas com­pa­nhi­as pas­sa pela cri­a­ção de pro­du­tos, que aten­dem às neces­si­da­des dos cli­en­tes, e pela redu­ção de recur­sos”, expli­ca Car­los Mat­ta, sócio da PwC Bra­sil. “O futu­ro do segu­ro é digi­tal. Nes­se sen­ti­do, os dados valem mui­to dinhei­ro. Quan­to mais dados os cli­en­tes pro­ve­rem para as empre­sas, mais aces­sos e des­con­tos serão dados. Por isso, a dis­rup­ção é mui­to gran­de, e as segu­ra­do­ras terão que se trans­for­mar rapi­da­men­te. As que não o fize­rem, irão se tor­nar obso­le­tas”, afir­ma.

   Para desen­vol­ver pro­je­tos ino­va­do­res den­tro da com­pa­nhia, a Por­to Segu­ro mon­tou uma ace­le­ra­do­ra de star­tups, a Oxi­gê­nio. “Não vemos as insur­te­chs como uma ame­a­ça e, sim, como uma opor­tu­ni­da­de de adap­ta­ção de pro­ces­sos. Na Oxi­gê­nio, aco­lhe­mos pro­je­tos não neces­sa­ri­a­men­te vol­ta­dos para a área de segu­ros. O gran­de desa­fio é dei­xar a empre­sa mais leve, pois, no futu­ro, tere­mos uma rela­ção qua­se 100% digi­tal com o cli­en­te”, diz o pre­si­den­te da Por­to Segu­ro, Rober­to San­tos.

 “A dis­rup­ção é mui­to gran­de,
e as segu­ra­do­ras terão que
se trans­for­mar rapi­da­men­te.
As que não o fize­rem, irão se
tor­nar obso­le­tas”
Car­los Mat­ta,
sócio da PwC Bra­sil

OPOR­TU­NI­DA­DES

   Antes de o mer­ca­do segu­ra­dor virar a cha­ve para o digi­tal no Bra­sil, ain­da pre­ci­sa se desen­vol­ver bas­tan­te: para se ter ideia, cer­ca de 70% da fro­ta bra­si­lei­ra não é segu­ra­da. “O fator pre­ço ain­da pesa mui­to no País, mas, gra­ças à tec­no­lo­gia, as segu­ra­do­ras pode­rão ofe­re­cer pro­ces­sos mais bara­tos e pro­du­tos mais con­di­zen­tes com a rea­li­da­de dos segu­ra­dos”, com­ple­men­ta San­tos.

   A opção da Minu­to Segu­ros foi usar inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al para equa­li­zar pre­ços e cobrir ser­vi­ços de acor­do com o per­fil do segu­ra­do. “Cer­ca de 70% das pes­so­as que nos pro­cu­ram nun­ca tive­ram segu­ro. Faze­mos a inclu­são de par­te delas nes­se uni­ver­so”, expli­ca Mar­ce­lo Blay, sócio-dire­tor da Minu­to. “Embo­ra o bra­si­lei­ro só olhe para o segu­ro de auto­mó­veis, temos ten­ta­do ampli­ar a ofer­ta, com pro­te­ções para a casa, por exem­plo. Ape­nas um déci­mo dos bra­si­lei­ros tem sua resi­dên­cia segu­ra­da e, em geral, esses segu­ros são mui­to mais bara­tos. Cus­tam, em média, R$ 400 reais por ano, enquan­to o do auto­mó­vel sai por R$ 2 mil”, com­ple­men­ta.

PRO­JE­ÇÕES PARA A PRÓ­XI­MA DÉCA­DA

   O estu­do “Insu­ran­ce 2030 – o Impac­to da Inte­li­gên­cia Arti­fi­ci­al no futu­ro do segu­ro”, publi­ca­do em abril de 2018 pela McKin­sey, apon­tou qua­tro macro­ten­dên­ci­as que devem se con­so­li­dar no mer­ca­do de segu­ros nos pró­xi­mos dez anos. O docu­men­to aler­ta que os exe­cu­ti­vos de segu­ros pre­ci­sa­rão com­pre­en­der novos fato­res que deve­rão inter­fe­rir em pro­ces­sos como sinis­tros, dis­tri­bui­ção, subs­cri­ção e pre­ços.

   A pri­mei­ra delas é a explo­são de dados e dis­po­si­ti­vos conec­ta­dos. Aces­só­ri­os que já con­tam com inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al, como car­ros, reló­gi­os de moni­to­ra­men­to físi­co, assis­ten­tes domés­ti­cos, smartpho­nes e reló­gi­os inte­li­gen­tes deve­rão se tor­nar ain­da mais velo­zes. A inter­net das coi­sas deve ser o pró­xi­mo pas­so nes­se sen­ti­do. Com isso, a ava­lan­che de dados vai per­mi­tir que as ope­ra­do­ras com­pre­en­dam seus cli­en­tes de for­ma mais ampla, resul­tan­do em novas cate­go­ri­as de pro­du­tos, pre­ços per­so­na­li­za­dos e entre­ga de ser­vi­ços cada vez mais rápi­da.

   Para ten­tar acom­pa­nhar a velo­ci­da­de das mudan­ças, as ope­ra­do­ras tra­di­ci­o­nais uni­ram for­ças às ino­va­ções tec­no­ló­gi­cas que domi­na­ram o setor, mas, antes dis­so, mui­ta refle­xão exis­tiu sobre as estru­tu­ras de negó­cio pre­do­mi­nan­tes até o momen­to. Luiz Fenan­do Buto­ri, dire­tor de segu­ros do Itaú Uni­ban­co, acre­di­ta que as gran­des segu­ra­do­ras pas­sa­ram por difi­cul­da­des de adap­ta­ção. “Dife­ren­te­men­te das fin­te­chs que come­çam suas ope­ra­ções com sis­te­mas novos, as segu­ra­do­ras tra­di­ci­o­nais pos­su­em sis­te­mas robus­tos que pre­ci­sam ser atu­a­li­za­dos para con­ver­sar com as novas tec­no­lo­gi­as. A fle­xi­bi­li­za­ção dos pro­ces­sos de desen­vol­vi­men­to de novos pro­du­tos e pon­tos de con­ta­to com o cli­en­te é essen­ci­al para evo­luir digi­tal­men­te”, expli­ca.

   A segun­da macro­ten­dên­cia é a pre­do­mi­nân­cia da robó­ti­ca. As ope­ra­do­ras pre­ci­sa­rão ava­li­ar como esse desen­vol­vi­men­to pode alte­rar as ava­li­a­ções de ris­co. Equi­pa­men­tos que devem acom­pa­nhar essa ten­dên­cia são dro­nes autô­no­mos pro­gra­má­veis; car­ros autô­no­mos e máqui­nas agrí­co­las autô­no­mas. Para se ter uma ideia, em 2030, a pro­por­ção de veí­cu­los autô­no­mos nas estra­das pode­rá exce­der 25%.

   O Gru­po Map­fre está ali­nha­do às trans­for­ma­ções que o setor pro­je­ta. “Que­re­mos mer­gu­lhar na trans­for­ma­ção digi­tal e colo­car a jor­na­da do cli­en­te no ambi­en­te digi­tal. Para isso, ire­mos atu­ar com o con­cei­to de ino­va­ção aber­ta e inves­ti­re­mos em star­tups e mode­los de negó­ci­os que apri­mo­rem os pro­ces­sos e pon­tos de rela­ci­o­na­men­to com o segu­ra­do”, expli­ca Fer­nan­do Bar­bo­sa, pre­si­den­te nas áre­as de Vida, Rural e Habi­ta­ci­o­nal do Gru­po Segu­ra­dor Ban­co do Bra­sil e Map­fre.

   Outra ten­dên­cia no radar é o ecos­sis­te­ma de fon­te aber­ta de dados. À medi­da que as infor­ma­ções se tor­nam plu­rais, os pro­to­co­los de códi­go aber­to se mos­tram como alter­na­ti­va para garan­tir que os dados pos­sam ser com­par­ti­lha­dos e usa­dos em todos os seto­res. Órgãos públi­cos e pri­va­dos devem sur­gir para cri­ar ecos­sis­te­mas com o obje­ti­vo de com­par­ti­lhar dados para situ­a­ções diver­sas sob uma estru­tu­ra comum de regu­la­men­ta­ção e segu­ran­ça ciber­né­ti­ca.

A ONDA DAS INSUR­TE­CHS

AS INSUR­TE­CHS DES­PON­TA­RAM COM PRO­DU­TOS QUE SE MOL­DA­RAM MAIS FACIL­MEN­TE AO BOL­SO E AOS ANSEI­OS DO CON­SU­MI­DOR. NES­SE CON­TEX­TO, A CON­SU­MI­DOR MODER­NO SELE­CI­O­NOU ALGUNS EXEM­PLOS NO BRA­SIL E NO EXTE­RI­OR DE EMPRE­SAS QUE USAM TEC­NO­LO­GIA PARA MELHO­RAR A EXPE­RI­ÊN­CIA DO CON­SU­MI­DOR.

0BOTS: IA PARA APRO­XI­MAR COR­RE­TO­RES E SEGU­RA­DOS 

   Um dos prin­ci­pais pro­ble­mas para a dinâ­mi­ca de tra­ba­lho dos cor­re­to­res é a repe­ti­ção de pro­ces­sos. Para oti­mi­zar con­si­de­rá­vel par­te des­ses trâ­mi­tes, a O2Obots sur­giu com matriz “o to o”, em que o foco é colo­car robôs com inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al para tra­ba­lhar para o cor­re­tor, como uma espé­cie de assis­ten­te pes­so­al. “Cap­tu­ra­mos usuá­ri­os on-line, con­ver­sa­mos e qua­li­fi­ca­mos com inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al, e entre­ga­mos para o mun­do off-line ven­der mais”, expli­ca Leo­nar­do Rocha­del, CEO & foun­der da com­pa­nhia. A O2O – sua quar­ta star­tup – é resul­ta­do de um lon­go pro­ces­so de pes­qui­sa que com­pre­en­deu as bre­chas exis­ten­tes no mer­ca­do bra­si­lei­ro. “Esse é um mer­ca­do de R$ 430 bilhões e 82% da popu­la­ção bra­si­lei­ra não pos­sui nenhum tipo de segu­ro. Quan­do eu olho para esse mer­ca­do, vejo que esses R$ 430 bilhões estão na mão de 39 mil cor­re­to­ras — pes­so­as jurí­di­cas, e cer­ca de 66 mil cor­re­to­res de segu­ros, pes­so­as físi­cas. Soman­do esses dois gru­pos, nós temos mais de 105 mil pes­so­as que per­dem, no míni­mo, 65% do seu tem­po com tare­fas ope­ra­ci­o­nais e repe­ti­ti­vas”, des­ta­ca.

DIGI­TAL INSU­RAN­CE GROUP: FUSÃO DE GIGAN­TES EURO­PEI­AS  

    A Digi­tal Insu­ran­ce Group é uma pla­ta­for­ma líder no cená­rio das insur­te­chs na Euro­pa. O Gru­po é resul­ta­do da fusão entre a Knip – pri­mei­ra segu­ra­do­ra digi­tal do mun­do – e a Kom­pa­ru, prin­ci­pal insur­te­ch da Holan­da. Em pales­tra duran­te o CQCS, Ingo Weber, CEO do Gru­po, falou sobre o foco da com­pa­nhia e como ela se orga­ni­za nes­sa nova dinâ­mi­ca de mer­ca­do. “Nos­sa mis­são é ter impac­to na vida de milhões de pes­so­as. Sur­gi­mos da fusão de duas empre­sas no cená­rio euro­peu e temos um port­fó­lio digi­tal com recur­sos inte­res­san­tes, como fer­ra­men­tas para rever con­tra­tos”, expli­ca. Ao refle­tir sobre a rapi­dez de trans­for­ma­ção do seg­men­to, ele refor­ça que mui­tas empre­sas com gran­des apor­tes finan­cei­ros não sou­be­ram como apli­car ino­va­ção em suas linhas de pro­du­ção. “Todo mun­do está lutan­do pelo seu cli­en­te. As empre­sas esta­be­le­ci­das têm dinhei­ro, mas não sabem o que fazer. Há mui­to dinhei­ro, mas a ino­va­ção não acon­te­ce. Por isso, é pre­ci­so pas­sar do hype para o impac­to. A trans­for­ma­ção já acon­te­ceu e a digi­ta­li­za­ção real come­ça no cli­en­te. Pen­se no pro­ble­ma dele e em como resol­vê-lo”.

 ZIM: CONE­XÃO DIGI­TAL ENTRE COR­RE­TO­RES E CLI­EN­TES  

   Com pro­pos­ta 100% digi­tal, a Zim pos­sui uma pla­ta­for­ma na qual o cor­re­tor pode cen­tra­li­zar todos os dados de seus cli­en­tes. A fer­ra­men­ta per­mi­te que ele vin­cu­le suas apó­li­ces e seus cli­en­tes e visu­a­li­ze onde suas ven­das estão per­for­man­do melhor. Mais de 3.500 cor­re­to­res uti­li­zam a pla­ta­for­ma para admi­nis­trar a car­tei­ra de cli­en­tes. Para Hever­ton Pei­xo­to, CEO da empre­sa, os con­su­mi­do­res des­se mer­ca­do não estão mais depen­den­tes de mar­cas para fazer suas esco­lhas. “As ven­das não serão mais base­a­das em mar­cas, pois o cli­en­te já não é tão depen­den­te delas. O cli­en­te é digi­tal e a empre­sa deve ser ágil e moder­na. As opor­tu­ni­da­des serão desa­fi­a­do­ras e os ban­cos tra­di­ci­o­nais têm per­di­do espa­ço para fin­te­chs e ban­cos ino­va­do­res. Quem não se refor­mu­lar, não con­se­gui­rá segu­rar seus cli­en­tes”, afir­mou Pei­xo­to duran­te o CQCS.

CICLIC: PRE­VI­DÊN­CIA COM­PLE­MEN­TAR 

   De acor­do com dados do IBGE, a expec­ta­ti­va de vida do bra­si­lei­ro aumen­tou em mais de 30 anos e, atu­al­men­te, é de 75,8 anos. Com isso, a dis­cus­são sobre apo­sen­ta­do­ria e pre­vi­dên­cia é recor­ren­te, espe­ci­al­men­te nes­se perío­do pós-cri­se econô­mi­ca. Rapha­el Swi­erczyns­ki, CEO da Ciclic, expli­ca que a dis­cus­são sobre o tema em esca­la naci­o­nal foi uma opor­tu­ni­da­de para colo­car o negó­cio em prá­ti­ca. “Come­ça­mos por pre­vi­dên­cia por estar em evi­dên­cia por con­ta da refor­ma. O ser­vi­ço (de con­tri­bui­ção com­ple­men­tar) dis­po­ní­vel hoje está nos ban­cos, mas o pro­ces­so é todo mui­to buro­crá­ti­co. Vie­mos para edi­tar, no sen­ti­do de levar infor­ma­ção rele­van­te e ser uma alter­na­ti­va bem mais sim­pli­fi­ca­da no mun­do da pre­vi­dên­cia” deta­lha. A pla­ta­for­ma per­mi­te rea­li­zar simu­la­ções em pro­du­tos que se enqua­dram ao inte­res­se do con­su­mi­dor, de modo que ele pos­sa esco­lher o for­ma­to e fina­li­zar as infor­ma­ções neces­sá­ri­as em menos de cin­co minu­tos e sem a exi­gên­cia de apor­te úni­co.

THINK­SEG: NOVOS CLI­EN­TES, NOVOS PRO­DU­TOS 

    O cená­rio pou­co fle­xí­vel para ino­va­ções fez com que o mer­ca­do ofe­re­ces­se vari­a­ções escas­sas de pro­du­tos ao públi­co que bus­ca pro­te­ger seus bens. A Think­seg se une às segu­ra­do­ras para ofe­re­cer pro­du­tos com con­di­ções mais inte­res­san­tes ao públi­co final. “A dita revo­lu­ção digi­tal tem como pre­mis­sa o ‘empo­de­ra­men­to’ do con­su­mi­dor, des­lo­can­do o eixo para o pro­du­to fei­to de acor­do com as neces­si­da­des de cada um. A Think­seg é um exem­plo dis­so. Nas­ce­mos com a mis­são de cri­ar pro­du­tos indi­vi­du­a­li­za­dos e entre­gá-los atra­vés da melhor expe­ri­ên­cia pos­sí­vel ao cli­en­te”, rela­ta André Gre­go­ri, CEO da Think­seg. A insur­te­ch nas­ceu em 2016 e impul­si­o­nou suas ações após a com­pra da Bidu, em junho des­te ano. Nes­te novo mer­ca­do, Gre­go­ri afir­ma que as gran­des empre­sas demo­ra­ram um pou­co para enten­der as exi­gên­ci­as do novo con­su­mi­dor. “A indús­tria de segu­ros é bas­tan­te con­ser­va­do­ra e, de cer­ta for­ma, demo­ra um pou­co para rea­gir. Não por ine­fi­ci­ên­cia, mas por mode­lo de negó­cio. Ela pre­ci­sou de um tem­po para enten­der o novo con­su­mi­dor. O que vejo ago­ra é um movi­men­to bas­tan­te for­te, qua­se que unâ­ni­me para se atu­a­li­za­rem rapi­da­men­te”, acres­cen­ta.

 YOU­SE: SEGU­RO CON­TRA HATERS 

   Pla­ta­for­ma de ven­da de segu­ros on-line da Cai­xa Segu­ra­do­ra, a You­se se dife­ren­cia das segu­ra­do­ras tra­di­ci­o­nais ao per­mi­tir que o cli­en­te não só con­tra­te o ser­vi­ço on-line como esco­lha as cober­tu­ras e as assis­tên­ci­as que melhor cabem no seu bol­so. O valor é cobra­do men­sal­men­te. No últi­mo mês, a insur­te­ch anun­ci­ou que, além dos segu­ros auto­mó­vel, resi­den­ci­al e vida, pas­sa­rá a ofe­re­cer um con­tra haters para pro­te­ger os usuá­ri­os das men­sa­gens de ódio na web. A solu­ção, desen­vol­vi­da pela You­se em par­ce­ria com a Supe­ra­re, irá mape­ar os con­teú­dos on-line e escon­der aque­les que forem ofen­si­vos. “Que­re­mos aju­dar os nos­sos cli­en­tes em todas as suas esco­lhas, por isso ofe­re­ce­mos um segu­ro sob medi­da. Com esse plug-in, que­re­mos dar ain­da mais liber­da­de para eles tam­bém na inter­net”, des­ta­ca Lean­dro Cla­ro CMO da Youse.CS.

 CLE­AR SALE INSU­RAN­CE INDEX: ANÁ­LI­SE DE COM­POR­TA­MEN­TO DIGI­TAL 

   A Cle­ar­sa­le, espe­ci­a­lis­ta em solu­ções anti­frau­de, cri­ou um meca­nis­mo que per­mi­te melho­rar o pro­ces­so de acei­ta­ção de uma pro­pos­ta mape­an­do a pro­ba­bi­li­da­de de sinis­tros e frau­des do cli­en­te. Tra­ta-se do Digi­tal Insu­ran­ce Index, que tem como foco o segu­ro-auto­mó­vel. “A pla­ta­for­ma aju­da a segu­ra­do­ra com um sco­re com­por­ta­men­tal para melho­rar a pre­ci­fi­ca­ção. Além de acom­pa­nhar o com­por­ta­men­to de e-com­mer­ce, con­se­gui­mos afe­rir e cor­re­la­ci­o­nar o ris­co que a pes­soa apre­sen­ta na pro­pos­ta que ela soli­ci­ta”, expli­ca Gil­mar Han­sen, dire­tor de pro­du­tos da Cle­ar­sa­le. O Digi­tal Insu­ran­ce foi lan­ça­do no fim de 2017 e tem uma par­ce­ria com a Minu­to Segu­ros, que rea­li­za mais de 100 mil con­sul­tas por mês. “O sco­re de ris­co é fei­to a par­tir do cru­za­men­to de dado, com a aju­da do nos­so machi­ne lear­ning”, expli­ca Han­sen.

As segu­ra­do­ras pas­sam mais cre­di­bi­li­da­de quan­do apre­sen­tam ino­va­ção e tra­zem uma ofer­ta dife­ren­ci­a­da, prin­ci­pal­men­te por­que esta­mos dian­te de um con­su­mi­dor mais empo­de­ra­do”
Luci­e­ne Maga­lhães,
sócia da KPMG

   Nes­se sen­ti­do, Car­los Mat­ta, sócio da PwC Bra­sil, acre­di­ta que a nova nor­ma IFRS 17 – ela­bo­ra­da para a con­ta­bi­li­za­ção de con­tra­tos de segu­ros – tam­bém deve pro­vo­car mudan­ças sig­ni­fi­ca­ti­vas nos pró­xi­mos três anos. “Algo impor­tan­te que atin­ge o mun­do todo é a nova for­ma con­tá­bil, com apli­ca­ção glo­bal e que vai atin­gir o Bra­sil em 2021. Será uma for­ma nova e bas­tan­te dis­rup­ti­va para olhar os resul­ta­dos, os lucros. O regu­la­dor levou 20 anos escre­ven­do o docu­men­to. Isso tra­rá um desa­fio glo­bal para com­pa­nhi­as trans­for­ma­rem as segu­ra­do­ras”, expli­ca.

   Com o aumen­to da comer­ci­a­li­za­ção des­sas tec­no­lo­gi­as, as segu­ra­do­ras terão aces­so a mode­los que estão se atu­a­li­zan­do em tem­po real, apren­den­do de acor­do com os feed­backs do usuá­rio final. Esse qua­dro vai per­mi­tir novas cate­go­ri­as de pro­du­tos e téc­ni­cas de enga­ja­men­to, enquan­to res­pon­dem a mudan­ças nos ris­cos ou com­por­ta­men­tos cons­tan­te­men­te.

   Por últi­mo, o setor que será com­ple­ta­men­te recon­fi­gu­ra­do é o de dis­tri­bui­ção. O pro­ces­so de adqui­rir segu­ro será mais rápi­do, com envol­vi­men­to menos ati­vo por par­te da segu­ra­do­ra e do cli­en­te. Isso por­que infor­ma­ções sufi­ci­en­tes serão pre­vi­a­men­te conhe­ci­das sobre o com­por­ta­men­to indi­vi­du­al do segu­ra­do. Para isso, algo­rit­mos de IA cri­a­rão per­fis de ris­co, de modo que os tem­pos de ciclo para con­cluir a com­pra de um segu­ro de auto­mó­vel ou de vida serão redu­zi­dos para minu­tos ou segun­dos.

   À medi­da que a inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al vai se sofis­ti­can­do, as ope­ra­do­ras esta­rão aptas para iden­ti­fi­car os ris­cos de uma manei­ra mui­to mais efi­ci­en­te, de modo que vere­mos uma nova ten­dên­cia de pro­du­tos de emis­são ins­tan­tâ­nea no mer­ca­do de mas­sa.

COR­REN­DO CON­TRA O TEM­PO: O QUE AS GIGAN­TES VÃO FAZER?

   A épo­ca do segu­ro 2.0 reser­vou gran­des desa­fi­os às empre­sas que domi­na­vam o seg­men­to até então impul­si­o­nan­do mudan­ças sig­ni­fi­ca­ti­vas na cadeia de valor tra­di­ci­o­nal. “Daqui a dez anos, o car­ro novo vai vir com tan­tos aces­só­ri­os e sen­so­res que será pos­sí­vel detec­tar onde você este­ve. O veí­cu­lo vai, inclu­si­ve, dire­ci­o­nar os cli­en­tes a con­su­mir em deter­mi­na­dos luga­res”, expli­ca Car­los Mat­ta, da PwC Bra­sil.

   Nes­te cená­rio, as insur­te­chs devem per­ma­ne­cer no hori­zon­te com­pe­ti­ti­vo do seg­men­to de segu­ros, de manei­ra que a con­cor­rên­cia ain­da mais ampla com star­tups pode redu­zir con­si­de­ra­vel­men­te o cus­to dos pro­du­tos ao cli­en­te final. Na visão de Oli­ver Cun­ningham, sócio da KPMG, o setor pas­sa por pro­fun­da refle­xão em seus mode­los de negó­cio.

   Para ele, a gran­de mudan­ça de cha­ve vai pas­sar dire­ta­men­te pela afir­ma­ção das tec­no­lo­gi­as. “O mode­lo de negó­ci­os de qual­quer orga­ni­za­ção (de segu­ros) futu­ra vai pre­ci­sar se conec­tar com os outros para aumen­tar sua com­po­si­ção de valor. Isso abre uma por­ta, o fenô­me­no da trans­for­ma­ção digi­tal. Quan­do fala­mos des­sas macro­ten­dên­ci­as, esque­ce­mos des­sa con­tra­par­ti­da que pre­ci­sa acon­te­cer na mes­ma medi­da”, diz Cun­ningham.

   Tam­bém sócia da KPMG, Luci­e­ne Maga­lhães com­ple­men­ta que o cli­en­te digi­tal faz par­te de uma nova vira­da com­por­ta­men­tal, com­ple­ta­men­te imer­si­va. “O mun­do vive uma quar­ta revo­lu­ção rela­ci­o­na­da à tec­no­lo­gia. As segu­ra­do­ras pas­sam mais cre­di­bi­li­da­de quan­do apre­sen­tam ino­va­ção e tra­zem uma ofer­ta dife­ren­ci­a­da, prin­ci­pal­men­te por­que esta­mos dian­te de um con­su­mi­dor mais empo­de­ra­do”, refle­te.

PRO­TE­ÇÃO DE DADOS

   O pre­si­den­te Michel Temer san­ci­o­nou o Pro­je­to de Lei 53/2018, que regu­la­men­ta a pro­te­ção de dados pes­so­ais aos usuá­ri­os de inter­net do País. Algu­mas empre­sas se ante­ci­pa­ram a essa dis­cus­são e pas­sa­ram a ofe­re­cer pro­te­ção de dados aos seus cli­en­tes nos paco­tes de segu­ro para celu­lar, solu­ção tam­bém ofe­re­ci­da por pla­ta­for­mas anti­ví­rus. Veja alguns exem­plos:

É IMPOR­TAN­TE
DEI­XAR DE FALAR SOBRE OS
PRO­DU­TOS DE PRA­TE­LEI­RA
E IDEN­TI­FI­CAR QUAIS SÃO AS
REAIS NECES­SI­DA­DES DO CLI­EN­TE
LUIZ FER­NAN­DO BUTO­RI,
DIRE­TOR DE SEGU­ROS
DO ITAÚ UNI­BAN­CO

MACRO­TEN­DÊN­CI­AS PARA A PRÓ­XI­MA DÉCA­DA

Um levan­ta­men­to da McKin­sey apon­ta as mudan­ças às quais as segu­ra­do­ras devem ficar aten­tas nos pró­xi­mos anos:

Fon­te: McKin­sey

   A Tokio Mari­ne usou a tec­no­lo­gia para empo­de­rar o cor­re­tor de segu­ros. Duran­te o even­to CQCS, a com­pa­nhia lan­çou o Bro­ker­te­ch, pla­ta­for­ma ela­bo­ra­da espe­ci­al­men­te para capa­ci­tar seus par­cei­ros de negó­ci­os. Wil­son Leal, dire­tor de tec­no­lo­gia da Tokio Mari­ne, refor­çou que o seg­men­to pas­sa por uma rein­ven­ção. “A trans­for­ma­ção já acon­te­ceu e isso se refle­te, no nos­so caso, em ações para o cli­en­te e foco no nos­so prin­ci­pal canal: o cor­re­tor”.

   Para Luiz Fer­nan­do Buto­ri, dire­tor de segu­ros do Itaú Uni­ban­co, será neces­sá­rio mudar a men­ta­li­da­de na comu­ni­ca­ção com cli­en­tes e, mais do que isso, mape­ar suas carên­ci­as. “É impor­tan­te dei­xar de falar sobre os pro­du­tos dis­po­ní­veis na pra­te­lei­ra e iden­ti­fi­car quais são as reais neces­si­da­des do cli­en­te, para gerar uma con­ver­sa de valor a par­tir dis­so. Ten­do isso em vis­ta, esta­mos tra­ba­lhan­do para garan­tir que a con­tra­ta­ção dos pro­du­tos seja fei­ta pelos cli­en­tes que são, de fato, poten­ci­ais. Para tan­to, esta­mos apoi­a­dos em nos­sa estru­tu­ra de dados e tra­ba­lhan­do em uma ofer­ta cada vez mais con­sul­ti­va para garan­tir asser­ti­vi­da­de”, garan­te.

   Nes­sa pro­je­ção de con­jun­tu­ras, é pos­sí­vel que a con­cen­tra­ção de con­cor­rên­cia se man­te­nha entre as com­pa­nhi­as de refe­rên­cia que se adap­ta­rem melhor às por­tas que se abri­ram com o gran­de boom tec­no­ló­gi­co. Nes­se bra­ço de fer­ro pela dis­pu­ta da pre­fe­rên­cia do con­su­mi­dor, quem sai­rá ganhan­do é o cli­en­te, que terá segu­ros mais adap­tá­veis às suas neces­si­da­des e a pre­ços que cabem nos seus bol­sos.

O FATOR PRE­ÇO AIN­DA PESA MUI­TO NO PAÍS, MAS, GRA­ÇAS À TEC­NO­LO­GIA, AS SEGU­RA­DO­RAS PODE­RÃO OFE­RE­CER PRO­CES­SOS MAIS BARA­TOS E PRO­DU­TOS MAIS CON­DI­ZEN­TES COM A REA­LI­DA­DE DOS SEGU­RA­DOS
ROBER­TO SAN­TOS, PRE­SI­DEN­TE
DA POR­TO SEGU­RO