CAIO BLIN­DER

Jor­na­lis­ta e um dos apre­sen­ta­do­res do pro­gra­ma Manhat­tan Con­nec­ti­on da Glo­bo­News

SOB

FIS­CA­LI­ZA­ÇÃO

SOB

FIS­CA­LI­ZA­ÇÃO

CAIO BLIN­DER
Jor­na­lis­ta e um dos
apre­sen­ta­do­res do pro­gra­ma
Manhat­tan Con­nec­ti­on
da Glo­bo­News

CAIO BLIN­DER
Jor­na­lis­ta e um dos
apre­sen­ta­do­res do pro­gra­ma
Manhat­tan Con­nec­ti­on
da Glo­bo­News

Eu peguei estra­da no Bra­sil em abril, pri­mei­ra vez em cin­co anos, e fiquei impres­si­o­na­do com um ser­vi­ço que fun­ci­o­na: a fis­ca­li­za­ção”

   Eu peguei estra­da no Bra­sil em abril, pri­mei­ra vez em cin­co anos, e fiquei impres­si­o­na­do com um ser­vi­ço que fun­ci­o­na: a fis­ca­li­za­ção. Paren­tes empres­ta­ram uma bela casa em Mare­si­as (no lito­ral pau­lis­ta) e com mada­me Blin­der e filha mais nova de féri­as resol­ve­mos pegar caro­na na mor­do­mia. Pega­mos o car­ro da irmã, assim que che­ga­mos em São Pau­lo, e lá fomos rumo ao lito­ral em meio aos aler­tas: hoje em dia o Big Brother real­men­te con­tro­la ruas e estra­das; nada de exces­so de velo­ci­da­de, siga à ris­ca as regras de trân­si­to, não cola­bo­re com a indús­tria de mul­tas.

   Cla­ro que o ter­ri­tó­rio era fami­li­ar: Imi­gran­tes e depois a Rio-San­tos. Já meio grin­go (são 30 anos de estra­da nor­te-ame­ri­ca­na), final­men­te enten­di melhor a pia­da que o minis­tro Pau­lo Gue­des é um pos­to Ipi­ran­ga, tan­to pela pro­fu­são dele como pelas suas ofer­tas. Bas­tan­te abas­te­ci­do de álco­ol (com­bus­tí­vel) e pia­das, che­ga­mos a Mare­si­as, che­ga­mos ao paraí­so e lá reen­con­trei os velhos peca­dos.

   Sim, esta­va em praia de rico, mas o Bra­sil está na pin­daí­ba e eu ain­da fico cho­ca­do com os pre­ços de Pri­mei­ro Mun­do (e olha que fazia as con­tas com o dólar a qua­tro reais), enquan­to os ser­vi­ços con­ti­nu­a­vam na mes­ma. Sem fazer aren­ga sobre a eli­te bra­si­lei­ra, sem­pre fico estar­re­ci­do com sua dis­po­ni­bi­li­da­de aqui­si­ti­va e um bla­sé para acei­tar a vida como ela é (pagan­do o que paga em meio a mais uma déca­da per­di­da que se avi­zi­nha).

   Mas não estou aqui para refle­tir sobre o eter­no gigan­te bra­si­lei­ro que não des­per­ta para o seu poten­ci­al e sim para ficar na minha praia (Mare­si­as e assun­tos rela­ci­o­na­dos a aten­di­men­to ao con­su­mi­dor). Esti­ve­mos em dois res­tau­ran­tes caros (comi­da decen­te e vis­ta mara­vi­lho­sa das prai­as de Mare­si­as e Juquehy). O rit­mo de aten­di­men­to era na base de o bar­qui­nho vai, o bar­qui­nho vem. Em um dos res­tau­ran­tes, vimos nos­sos pra­tos no bal­cão boi­an­do por um bom tem­po, até o gar­çom se com­por­tar como sal­va-vidas e ir res­ga­tá-los.

   Mas toda len­ti­dão no ser­vi­ço sem­pre acom­pa­nha­da daque­la solí­ci­ta edu­ca­ção bra­si­lei­ra. A con­tra­par­ti­da era a gros­se­ria das “zeli­tes” bra­si­lei­ras com os ser­vi­çais. É o que é: exis­te o peca­do abai­xo do Equa­dor. De velhas via­gens, eu me lem­bra­va dos qui­tu­tes do lito­ral pau­lis­ta (doces e sal­ga­dos). Parei numa loji­nha, seco por um sal­ga­di­nho, e a moça res­pon­deu: “Moço, o senhor me des­cul­pe, mas, como hoje cho­veu, não hou­ve entre­ga”.

   Aí des­co­bri algo mais moder­no, uma fan­tás­ti­ca gela­te­ria com direi­to a café expres­so. Fui infor­ma­do de que ela fun­ci­o­na­va das 14 às 22. O aten­di­men­to até que era decen­te, mas o horá­rio nun­ca pon­tu­al. Teve um dia em que dei as caras por vol­ta das 14 e uma moça que var­ria o alpen­dre infor­mou que abri­ria por vol­ta das 15.

   No entan­to, por que recla­mar da vida no paraí­so? Quan­to mais len­ta, melhor. E nada se com­pa­ra à feli­ci­da­de que é ser cha­ma­do de “moço”. No mer­ca­di­nho, a moça demo­rou um tem­pão para acer­tar as con­tas da minha com­pra, mas na saí­da, com sor­ri­so enca­bu­la­do, aler­tou o moço que sua cami­se­ta esta­va ao aves­so.

   E dizem que não exis­te fis­ca­li­za­ção no Bra­sil.

Eu peguei estra­da no Bra­sil em abril, pri­mei­ra vez em cin­co anos, e fiquei impres­si­o­na­do com um ser­vi­ço que fun­ci­o­na: a fis­ca­li­za­ção”