O JOGO DOS

CON­TRAS­TES

SXSW 2019 TRA­DU­ZIU TODA A INQUI­E­TA­ÇÃO DOS NOS­SOS TEM­POS: O BALAN­ÇO ENTRE INO­VA­ÇÃO E RES­GA­TE DA TRA­DI­ÇÃO, DA TEC­NO­LO­GIA E DO ARTE­SA­NA­TO, DA EUFO­RIA E DA SOLI­DÃO. DES­SE CON­TRAS­TE, QUE FUTU­RO ESTA­MOS CONS­TRUIN­DO?

POR JAC­QUES MEIR E ROBER­TO MEIR
FOTOS: GETTY IMA­GES

ormal­men­te andar pelas ruas de Aus­tin duran­te o SXSW traz uma vibra­ção par­ti­cu­lar. Este ano, além de cami­nhar­mos seguin­do as ondas de milha­res de par­ti­ci­pan­tes indo de um lado para outro, espa­lhan­do-se para bus­car aten­der a con­teú­dos esco­lhi­dos, divi­di­mos o espa­ço com mui­tas outras pes­so­as zunin­do nas pati­ne­tes (“sco­o­ters”, como falam aqui) pelas ruas da céle­bre down­town Aus­tin. O con­tras­te da velo­ci­da­de das pati­ne­tes e do andar apres­sa­do ou tran­qui­lo dos visi­tan­tes des­ta edi­ção 2019 do SXSW foi ape­nas mais um den­tre tan­tos que des­co­bri­mos. Como nenhum outro even­to de alcan­ce glo­bal, o SXSW ilus­tra qua­se à per­fei­ção o “zeit­geist”, o espí­ri­to do nos­so tem­po. E esse espí­ri­to refle­te dúvi­das, inqui­e­ta­ções, eufo­ria e soli­dão. Mui­ta ino­va­ção que foi anun­ci­a­da em edi­ções ante­ri­o­res sur­giu este ano mais refi­na­da, mais tes­ta­da, mais pron­ta para uso. Ao mes­mo tem­po, toda ino­va­ção foi dis­cu­ti­da minu­ci­o­sa­men­te em suas mui­tas impli­ca­ções morais, éti­cas, legais e indi­vi­du­ais.

   Tra­zer con­tra­di­ções sem­pre foi um ele­men­to da cul­tu­ra do SXSW; faz par­te de sua natu­re­za apoi­ar e pra­ti­car a diver­si­da­de. É um fes­ti­val que se dá o direi­to de ser con­tra­di­tó­rio, plu­ral, difí­cil de clas­si­fi­car. Não se aco­mo­da em rótu­los nem se con­ten­ta com expli­ca­ções fáceis ou figu­ri­nhas de car­tei­ri­nha que nor­mal­men­te ganham holo­fo­tes em outros even­tos glo­bais.

   Mas, por isso mes­mo, é pos­sí­vel dizer que “toda gran­de mudan­ça sur­ge pri­mei­ro em Aus­tin, duran­te o SXSW”. Por isso, ele fun­ci­o­na como um radar de ten­dên­ci­as e de ten­ta­ti­vas, tes­tes e expe­ri­ên­ci­as. Em comum, ape­nas duas gran­des von­ta­des: se expres­sar – por meio de lin­gua­gens musi­cal, visu­al, tec­no­ló­gi­ca e com­por­ta­men­tal – e mudar o mun­do para melhor. Nem sem­pre as von­ta­des coin­ci­dem, mas tra­zem jun­tas uma ten­são cri­a­ti­va ine­xis­ten­te em outro lugar.Mas fala­mos de con­tras­tes e des­sa impo­si­ção de for­ças que se con­tra­di­zem, se com­ple­tam e se modi­fi­cam e pude­mos per­ce­ber, no oce­a­no infi­ni­to de infor­ma­ções gera­das por deze­nas e deze­nas de con­teú­dos que se acu­mu­lam e se expõem meto­di­ca­men­te em seis horá­ri­os dis­tin­tos, as ten­dên­ci­as que evo­cam esse zeit­geist. Aliás, até na ofer­ta de con­teú­do vemos o para­do­xo de ter de esco­lher qual con­teú­do ver, entre deze­nas de alter­na­ti­vas e locais, sen­do a ofer­ta sem­pre dis­tri­buí­da nos mes­mos horá­ri­os. A cada hora e meia, 10 ou 20, 30 ou mais opções à dis­po­si­ção (e à inde­ci­são) do par­ti­ci­pan­te.

   Nor­mal­men­te andar pelas ruas de Aus­tin duran­te o SXSW traz uma vibra­ção par­ti­cu­lar. Este ano, além de cami­nhar­mos seguin­do as ondas de milha­res de par­ti­ci­pan­tes indo de um lado para outro, espa­lhan­do-se para bus­car aten­der a con­teú­dos esco­lhi­dos, divi­di­mos o espa­ço com mui­tas outras pes­so­as zunin­do nas pati­ne­tes (“sco­o­ters”, como falam aqui) pelas ruas da céle­bre down­town Aus­tin. O con­tras­te da velo­ci­da­de das pati­ne­tes e do andar apres­sa­do ou tran­qui­lo dos visi­tan­tes des­ta edi­ção 2019 do SXSW foi ape­nas mais um den­tre tan­tos que des­co­bri­mos. Como nenhum outro even­to de alcan­ce glo­bal, o SXSW ilus­tra qua­se à per­fei­ção o “zeit­geist”, o espí­ri­to do nos­so tem­po. E esse espí­ri­to refle­te dúvi­das, inqui­e­ta­ções, eufo­ria e soli­dão. Mui­ta ino­va­ção que foi anun­ci­a­da em edi­ções ante­ri­o­res sur­giu este ano mais refi­na­da, mais tes­ta­da, mais pron­ta para uso. Ao mes­mo tem­po, toda ino­va­ção foi dis­cu­ti­da minu­ci­o­sa­men­te em suas mui­tas impli­ca­ções morais, éti­cas, legais e indi­vi­du­ais.

   Tra­zer con­tra­di­ções sem­pre foi um ele­men­to da cul­tu­ra do SXSW; faz par­te de sua natu­re­za apoi­ar e pra­ti­car a diver­si­da­de. É um fes­ti­val que se dá o direi­to de ser con­tra­di­tó­rio, plu­ral, difí­cil de clas­si­fi­car. Não se aco­mo­da em rótu­los nem se con­ten­ta com expli­ca­ções fáceis ou figu­ri­nhas de car­tei­ri­nha que nor­mal­men­te ganham holo­fo­tes em outros even­tos glo­bais.

   Mas, por isso mes­mo, é pos­sí­vel dizer que “toda gran­de mudan­ça sur­ge pri­mei­ro em Aus­tin, duran­te o SXSW”. Por isso, ele fun­ci­o­na como um radar de ten­dên­ci­as e de ten­ta­ti­vas, tes­tes e expe­ri­ên­ci­as. Em comum, ape­nas duas gran­des von­ta­des: se expres­sar – por meio de lin­gua­gens musi­cal, visu­al, tec­no­ló­gi­ca e com­por­ta­men­tal – e mudar o mun­do para melhor. Nem sem­pre as von­ta­des coin­ci­dem, mas tra­zem jun­tas uma ten­são cri­a­ti­va ine­xis­ten­te em outro lugar.Mas fala­mos de con­tras­tes e des­sa impo­si­ção de for­ças que se con­tra­di­zem, se com­ple­tam e se modi­fi­cam e pude­mos per­ce­ber, no oce­a­no infi­ni­to de infor­ma­ções gera­das por deze­nas e deze­nas de con­teú­dos que se acu­mu­lam e se expõem meto­di­ca­men­te em seis horá­ri­os dis­tin­tos, as ten­dên­ci­as que evo­cam esse zeit­geist. Aliás, até na ofer­ta de con­teú­do vemos o para­do­xo de ter de esco­lher qual con­teú­do ver, entre deze­nas de alter­na­ti­vas e locais, sen­do a ofer­ta sem­pre dis­tri­buí­da nos mes­mos horá­ri­os. A cada hora e meia, 10 ou 20, 30 ou mais opções à dis­po­si­ção (e à inde­ci­são) do par­ti­ci­pan­te.

LG: Robôs para con­tro­lar ele­tro­do­més­ti­cos de casa

EQUI­LÍ­BRIO EM FUGA: TEN­DÊN­CI­AS EXTRE­MAS

   Defi­nir uma ten­dên­cia nun­ca é sim­ples. Gos­ta­mos mui­to, no entan­to, do con­cei­to pro­pos­to por Rohit Bhar­ga­va, fun­da­dor da The Non-Obvi­ous Com­pany: ten­dên­cia é tudo aqui­lo que tem o poder de ace­le­rar a rea­li­da­de. Sim­ples e fun­ci­o­nal. No enten­der des­te pro­fis­si­o­nal obce­ca­do por clas­si­fi­car infor­ma­ções, movi­men­tos e fenô­me­nos, ten­dên­cia é uma for­ça que pode ser men­su­ra­da na for­ma pela qual ela atua sobre a rea­li­da­de exis­ten­te.

   No SXSW des­te ano, vimos esses movi­men­tos ali­nhan­do-se em tor­no de extre­mos nem sem­pre lógi­cos ou apa­ren­te­men­te plau­sí­veis. Mas esse é o jogo atu­al: con­tras­tes que se acu­mu­lam e tra­zem des­con­for­to e inqui­e­ta­ção. Veja, a seguir, quais são as ten­dên­ci­as que pude­mos estru­tu­rar após horas e horas de con­teú­do e con­ver­sas com futu­ris­tas duran­te o even­to.

INO­VA­ÇÃO LEN­TA

   A impres­são geral é que tudo avan­ça mui­to rápi­do. Quem não sen­te que novi­da­des e tec­no­lo­gi­as avan­çam mais rápi­do do que pode­mos acom­pa­nhar? Pois bem, che­gou a hora de tirar o pé do ace­le­ra­dor. A ino­va­ção é neces­sá­ria, entu­si­as­ma, mas nes­se rit­mo está fazen­do mui­ta gen­te per­der a cone­xão com a rea­li­da­de, com a famí­lia, os ami­gos e a pró­pria car­rei­ra. Logo, há um mal-estar, uma rea­ção não exa­ta­men­te explí­ci­ta, mas que se mani­fes­ta quan­do vemos gen­te como o pró­prio Bhar­ga­va usar post-its e mais post-its para clas­si­fi­car a infor­ma­ção.

   A ino­va­ção len­ta cha­ma aten­ção tam­bém no fato de que as ven­das de smartpho­nes come­ça­ram a decli­nar. O fato é que as tec­no­lo­gi­as pos­sí­veis que uni­fi­cam a mobi­li­da­de e o digi­tal estão sen­do apri­mo­ra­das, mas já dão sinais de evo­luí­rem em uma cadên­cia mais sua­ve. Todos já sabe­mos que Inte­li­gên­cia Arti­fi­ci­al pode afe­tar empre­gos, que o machi­ne lear­ning está em cur­so, que as pos­si­bi­li­da­des das Rea­li­da­des Vir­tu­al e Aumen­ta­da podem melho­rar a expe­ri­ên­cia do cli­en­te, os limi­tes do Big Data, a che­ga­da do car­ro autô­no­mo e assim por dian­te. Mas o momen­to ago­ra não é de pro­por algu­ma pla­ta­for­ma nova, mas de com­bi­nar as exis­ten­tes e refi­nar as solu­ções para que ganhem esca­la, via­bi­li­da­de e alcan­ce real. Uma espé­cie de pau­sa para res­pi­ra­ção depois de tan­ta expe­ri­men­ta­ção dos últi­mos anos.

Que­re­mos ven­der bons pro­du­tos que aju­dem mulhe­res, que mobi­li­zem peque­nas empre­en­de­do­ras”
Gwy­neth Pal­trow, atriz e fun­da­do­ra da Goop

O VALOR DA SIM­PLI­CI­DA­DE

   Ain­da que a ino­va­ção ace­le­ra­da em cima de pla­ta­for­mas digi­tais este­ja em outra cadên­cia, ela ain­da pro­vo­ca rea­ções pas­si­o­nais. Por isso, é pos­sí­vel ver o res­ga­te de tra­di­ções que remon­tam ao iní­cio da era moder­na ou mes­mo antes dis­so. A pro­du­ção agrí­co­la tor­na-se uma pre­o­cu­pa­ção não por con­ta da fal­ta de tec­no­lo­gia (ao con­trá­rio), mas por fal­ta de pro­pó­si­to. Ela sim­ples­men­te não enga­ja mais os jovens e não des­per­ta inte­res­se como ati­vi­da­de. Logo, movi­men­tos foram cri­a­dos para que esse entu­si­as­mo pos­sa ser revi­vi­do. O ape­lo da vida fru­gal tem mui­tos adep­tos – bas­ta ver a manei­ra com­ple­ta­men­te des­po­ja­da com que os mais jovens se ves­tem e enca­ram a vida. Se a vida com o celu­lar na mão repre­sen­ta uma saí­da para pro­ble­mas ordi­ná­ri­os, ten­do a tec­no­lo­gia como meio, todo o res­to pode ser mais sim­ples. Vinhos não pre­ci­sam de ritu­al, só pre­ci­sam ser bebi­dos; a comi­da pode ser natu­ral, orgâ­ni­ca e sem defen­si­vos; a mobi­li­da­de pode incluir car­ro, ôni­bus, bici­cle­ta ou pati­ne­te; e a casa pode ser um quar­to com banhei­ro, já que armá­ri­os são dis­pen­sá­veis para quem tem seis cami­se­tas e três pares de jeans mais dois pares de tênis, e toda a infor­ma­ção que se acu­mu­la­va em estan­tes hoje vai para a nuvem.

Sushi 3D: empre­sa japo­ne­sa cus­to­mi­za a comi­da con­for­me o DNA

AIN­DA QUE A INO­VA­ÇÃO ACE­LE­RA­DA EM CIMA DE PLA­TA­FOR­MAS DIGI­TAIS ESTE­JA EM OUTRA CADÊN­CIA, ELA AIN­DA PRO­VO­CA REA­ÇÕES PAS­SI­O­NAIS

AIN­DA QUE A INO­VA­ÇÃO ACE­LE­RA­DA EM CIMA DE PLA­TA­FOR­MAS DIGI­TAIS ESTE­JA EM OUTRA CADÊN­CIA, ELA AIN­DA PRO­VO­CA REA­ÇÕES PAS­SI­O­NAIS

Pen-dri­ves são colo­ca­dos na boca do líder nor­te-core­a­no Kim Jong-un

DADOS NOVA­MEN­TE PES­SO­AIS

   Depois de anos con­ce­den­do nos­sos dados ale­gre­men­te para ter­mos aces­so a toda sor­te de ser­vi­ços digi­tais, sem per­ce­ber que está­va­mos nos tor­nan­do a maté­ria-pri­ma que enri­que­cia os novos empre­en­de­do­res da inter­net, che­ga­mos a um pon­to de infle­xão. Mui­ta coi­sa feia, antié­ti­ca e escan­da­lo­sa foi fei­ta a par­tir do uso indis­cri­mi­na­do dos dados pes­so­ais. Mani­pu­la­ção de elei­ções, pro­li­fe­ra­ção de notí­ci­as fal­sas, gol­pes e ofer­tas, cam­pa­nhas de difa­ma­ção, um mun­do cão trans­bor­dou da peri­fe­ria da inter­net e ganhou os celu­la­res do mun­do todo. A far­ra pre­ci­sa­va de con­tro­le. A União Euro­peia saiu na fren­te e lan­çou sua Lei de Pro­te­ção de Dados no ano pas­sa­do, o Bra­sil tem agos­to de 2020 para iní­cio de vigên­cia da nos­sa Lei Geral de Pro­te­ção de Dados, a Cali­fór­nia nos EUA foi ain­da mais lon­ge e já decla­rou que nenhum robô pode ligar para nin­guém sem se iden­ti­fi­car como tal. Ou seja, nada de usar da boa-fé do con­su­mi­dor e emu­lar um agen­te huma­no quan­do na ver­da­de o que acon­te­ce é o diá­lo­go de uma pes­soa com uma máqui­na. O cer­ne da ques­tão é que os dados das pes­so­as pre­ci­sam ser mani­pu­la­dos com o máxi­mo cui­da­do, res­pei­to à pri­va­ci­da­de e a direi­tos bási­cos que inclu­em trans­pa­rên­cia sobre o uso, pos­si­bi­li­da­des de ano­ni­mi­za­ção e de esco­lha pelo cli­en­te de quais dados podem ser usa­dos. Na esfe­ra dos dados, nova­men­te pes­so­ais, empre­sas e ins­ti­tui­ções ago­ra empe­nham-se para cri­ar códi­gos de éti­ca e con­du­ta para sis­te­mas de Inte­li­gên­ci­as Arti­fi­ci­ais e BOTs.

Eli­za­beth War­ren, con­gres­sis­ta do Par­ti­do Demo­crá­ti­co:
ela suge­re divi­dir Apple, Ama­zon, Goo­gle e Face­bo­ok para redu­zir o seu pode­rio

AS BIG TECHS DEVEM FICAR MENO­RES

   O poder das pro­ta­go­nis­tas des­sa era digi­tal é des­me­su­ra­do. A quan­ti­da­de de dados que Apple, Goo­gle, Ama­zon, Face­bo­ok têm vai além do razoá­vel segun­do mui­tos espe­ci­a­lis­tas, juris­tas, polí­ti­cos e cida­dãos do mun­do. Nin­guém é mais com­ba­ti­do pelo poder acu­mu­la­do do que o Face­bo­ok e seus 2 bilhões de mem­bros, que for­mam a maté­ria-pri­ma mais abun­dan­te e fácil de mode­lar da his­tó­ria. No SXSW, Roger McNa­mee, men­tor do pró­prio Mark Zuc­ker­berg, expôs sua indig­na­ção com os rumos toma­dos pela rede soci­al. Um data­ba­se de gen­te, livre de audi­to­ri­as e que tem um líder que não pode ser depos­to. Eli­za­beth War­ren, con­gres­sis­ta do Par­ti­do Demo­crá­ti­co (outro­ra um ali­a­do dócil das empre­sas do Vale do Silí­cio) tocou a feri­da e já fala aber­ta­men­te em divi­dir essas com­pa­nhi­as para redu­zir seu pode­rio. O fato é que a digi­ta­li­za­ção se cons­truiu com base em com­pa­nhi­as de far­ta ten­dên­cia mono­po­lis­ta, que pre­ci­sam ago­ra de algum tipo de regu­la­ção para que pos­sam ope­rar de for­ma mais jus­ta, trans­pa­ren­te e éti­ca. Se não opta­rem por redu­zir seu alcan­ce espon­ta­ne­a­men­te, serão obri­ga­das a isso pelos pode­res regu­la­res, com con­sequên­ci­as impre­vi­sí­veis para o mer­ca­do, as empre­sas e os cida­dãos.

TRA­BA­LHO SOCI­AL

   Pre­vi­sões dão como cer­ta a subs­ti­tui­ção pro­gres­si­va de mão de obra, par­ti­cu­lar­men­te aque­la hoje empre­ga­da em tare­fas repe­ti­ti­vas, por robôs e outros sis­te­mas vir­tu­ais. As con­sequên­ci­as soci­ais seri­am tre­men­das, com um exér­ci­to de pes­so­as des­pre­pa­ra­das e não empre­gá­veis. Mas tal­vez isso não acon­te­ça como se ima­gi­na. Vimos no SXSW que a Gera­ção Z tem obje­ti­vos dis­tin­tos do que sim­ples­men­te ver seu talen­to empre­ga­do a ser­vi­ço de negó­ci­os. O foco se dire­ci­o­na ace­le­ra­da­men­te para o tra­ba­lho soci­al, vol­ta­do para resol­ver os pro­ble­mas do mun­do que, gera­ção após gera­ção, se per­pe­tu­am.

   Os jovens enca­ram que, se o mun­do hoje é veloz, por que não con­se­gue ace­le­rar a reso­lu­ção dos pro­ble­mas de fome e inse­gu­ran­ça ali­men­tar, polui­ção e aque­ci­men­to glo­bal? Por isso, mais do que bus­car ganhar dinhei­ro cri­an­do negó­ci­os com pro­pó­si­to, os jovens estão per­gun­tan­do se não vale mais a pena sim­ples­men­te tra­ba­lhar pelo pro­pó­si­to, sem mis­tu­rar as coi­sas. Ima­gi­nem então uma pos­sí­vel eva­são de novos talen­tos das cor­po­ra­ções e a per­da de ren­da decor­ren­te da fal­ta de ape­ti­te para cri­ar novos pro­du­tos.

Rohit Bhar­ga­va, fun­da­dor da The Non-Obvi­ous Com­pany

O que o SXSW 2019 nos mos­trou é que esta­mos em uma jor­na­da de apren­di­za­do, ten­tan­do apren­der as regras des­se jogo de con­tras­tes

SOLI­DÃO CONEC­TA­DA

   Essa tal­vez seja a ten­dên­cia mais pre­o­cu­pan­te. Ela deri­va jus­ta­men­te do fato de que a digi­ta­li­za­ção e as redes soci­ais tor­na­ram os acon­te­ci­men­tos vivi­dos pelos outros sem­pre mui­to pró­xi­mos, qua­se ins­tan­tâ­ne­os, enquan­to nos­sa vida pas­sa a ser fil­tra­da pela tela dos dis­po­si­ti­vos móveis. Vamos acei­tan­do segui­do­res, rece­be­mos um comen­tá­rio aqui, outro ali e na sex­ta-fei­ra à noi­te fica­mos em casa mon­tan­do Lego ou ven­do mara­to­nas de séri­es por não ter­mos nem dinhei­ro nem com­pa­nhia para sair. Os con­sul­tó­ri­os de psi­qui­a­tria e psi­co­lo­gia estão reple­tos de jovens depri­mi­dos que des­ti­lam gran­de vazio exis­ten­ci­al. A soli­dão conec­ta­da. A vida pas­sa pela tela do celu­lar com exci­ta­ção e fer­vor, mas vazia e sem sig­ni­fi­ca­do dian­te de nos­sos olhos.

   A par­tir des­sas ten­dên­ci­as fica a per­gun­ta: que futu­ro esta­mos cons­truin­do? Cabe à huma­ni­da­de, com sua notá­vel capa­ci­da­de de adap­ta­ção, res­pon­der a essa per­gun­ta. A era digi­tal abriu enor­mes pos­si­bi­li­da­des para resol­ver­mos os gran­des pro­ble­mas de nos­sa evo­lu­ção: fome, doen­ças, injus­ti­ças, soli­dão. Mas ain­da esta­mos expe­ri­men­tan­do novos padrões de con­du­ta, tra­ba­lho e rela­ci­o­na­men­to. O que o SXSW 2019 nos mos­trou é que esta­mos em uma jor­na­da de apren­di­za­do, ten­tan­do apren­der as regras des­se jogo de con­tras­tes. E que até a for­ma de ensi­nar e apren­der está mudan­do.