ESG
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Um agente verídico de transformação

Aos poucos, a agenda ESG é incorporada pelas empresas que transformam a concepção de produtos, geram engajamentos e criam padrões de comportamento com reflexos no consumidor e na sociedade

Por Luiza Vilela

UMA NOVA VISÃO DE MUNDO. Assim pode­mos defi­nir os bene­fí­ci­os tra­zi­dos pela agen­da ESG (Environment, Social and Governance, em por­tu­guês Meio Ambiente, Social e Governança), tan­to para as empre­sas como para a soci­e­da­de e, de for­ma mais ampla, ao pla­ne­ta.

As ações em prol des­sas três linhas são fun­da­men­tais para algo que as empre­sas hoje bus­cam a todo cus­to: ser um real agen­te de trans­for­ma­ção e, con­se­quen­te­men­te, cri­ar laços ain­da mais pro­fun­dos com o con­su­mi­dor.

O per­so­na­gem prin­ci­pal para essa mudan­ça é o con­su­mi­dor moder­no, que está cada vez mais cons­ci­en­te da impor­tân­cia de pre­ser­var o pla­ne­ta e pre­za por ações que mini­mi­zem os impac­tos noci­vos ao meio ambi­en­te. As empre­sas de diver­sos seg­men­tos ouvi­ram o cha­ma­do e têm dedi­ca­do esfor­ços para con­tri­buir com o bem-estar cole­ti­vo e a sus­ten­ta­bi­li­da­de.

O que era um desa­fio para as mar­cas foi trans­for­ma­do em opor­tu­ni­da­des de con­quis­tar con­su­mi­do­res influ­en­tes e tor­ná-los fiéis à mar­ca. “Nos últi­mos anos, hou­ve uma mudan­ça de men­ta­li­da­de no cor­po soci­al. As pes­so­as con­se­gui­ram pen­sar e refle­tir sobre qual é o papel das orga­ni­za­ções em um mun­do com mudan­ças acen­tu­a­das como as que esta­mos viven­do”, diz Jacques Meir, dire­tor-exe­cu­ti­vo de Conhecimento do Grupo Padrão, que lide­ra um tra­ba­lho rea­li­za­do em par­ce­ria com a con­sul­to­ria GfK que dará ori­gem a um ran­king de empre­sas ESG no Brasil.

Esse com­por­ta­men­to mais soli­dá­rio e res­pon­sá­vel tem sido mui­to esti­mu­la­do pela gera­ção deno­mi­na­da nati­va digi­tal e che­gou às mesas dos exe­cu­ti­vos e toma­do­res de deci­são, que dis­cu­tem a exe­cu­ção de ações para cum­prir com o seu papel. “Isso pas­sou a ser deter­mi­nan­te para a sobre­vi­vên­cia cor­po­ra­ti­va, tan­to como estra­té­gia de negó­ci­os quan­to como opor­tu­ni­da­de de ampli­ar valo­res pre­sen­tes no DNA das cor­po­ra­ções”, comen­ta Meir.

E, ain­da que a evo­lu­ção huma­na cla­me por tec­no­lo­gia, temos a urgen­te obri­ga­ção de focar for­ças para aten­der às neces­si­da­des do nos­so ecos­sis­te­ma. A polui­ção por car­bo­no, por exem­plo, alcan­çou níveis extre­mos e são neces­sá­ri­as ações ime­di­a­tas, rápi­das e de gran­de esca­la para redu­zir as emis­sões de efei­to estu­fa, apon­ta o rela­tó­rio do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divul­ga­do em agos­to de 2021.

Trabalhar em prol do pla­ne­ta e da soci­e­da­de é algo que hoje tem adqui­ri­do um valor ain­da mais espe­ci­al. Afinal, é uma ques­tão de sobre­vi­vên­cia no mer­ca­do: as empre­sas que inves­tem ati­va­men­te em prol da huma­ni­da­de e de solu­ções sus­ten­tá­veis ao pla­ne­ta não só são mais notá­veis como tam­bém con­tri­bu­em como um papel soci­al impor­tan­te e cobra­do pelo con­su­mi­dor nos últi­mos anos.

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O “E” no ESG
A impor­tân­cia hoje de encon­trar for­mas mais sus­ten­tá­veis é mais níti­da e cla­ra do que nun­ca: o pla­ne­ta tem dado sinais de que não terá con­di­ções de ofe­re­cer tudo aqui­lo que con­su­mi­mos. Embora cul­ti­vá-lo seja um dever de todos e todas, as empre­sas aca­bam ten­do um papel ain­da mais impor­tan­te, uma vez que con­so­mem mui­tos pro­du­tos limi­ta­dos do pla­ne­ta, da mes­ma for­ma como devol­vem agen­tes tóxi­cos (o CO2 é um exem­plo).

“Menos desi­gual­da­de soci­al, mais cui­da­do e menos impac­to nega­ti­vo ao meio ambi­en­te e, cla­ro, pro­ces­sos mais obje­ti­vos e trans­pa­ren­tes de ini­ci­a­ti­vas que incen­ti­vam boas prá­ti­cas cons­tro­em mar­cas mais for­tes, con­fiá­veis, com valor agre­ga­do per­ce­bi­do dire­ta­men­te por quem con­so­me seus ser­vi­ços ou pro­du­tos”, expli­ca José Félix, pre­si­den­te da Claro. 

É um cami­nho sem vol­ta. Ao cons­truí­rem ver­sões mais eco­ló­gi­cas, as empre­sas se tor­nam ver­da­dei­ras agen­tes de trans­for­ma­ção. “Mais que indi­ca­do­res que medem o com­pro­mis­so das empre­sas com o meio ambi­en­te, a gover­nan­ça e o soci­al, a neces­si­da­de de olhar­mos com afin­co para o ESG está dire­ta­men­te liga­da à sobre­vi­vên­cia das cor­po­ra­ções, que pas­sa­ram a ser vis­tas não mais como ape­nas um dos ‘players’ de mer­ca­do, mas, sim, como res­pon­sá­veis dire­tas pela cons­tru­ção de uma soci­e­da­de melhor”, com­ple­ta.

Hoje, na PepsiCo Brasil, são 19% de pessoas negras e 47% de mulheres em cargos de liderança. No comitê executivo, 60% são mulheres

Cientes do impac­to que cau­sam ao meio ambi­en­te, as mar­cas têm con­tri­buí­do de for­ma cres­cen­te e mais ati­va para a prá­ti­ca de ações sus­ten­tá­veis, cada uma à sua manei­ra. A Mondelēz, por exem­plo, tem inú­me­ras ini­ci­a­ti­vas de diver­si­da­de com a equi­pe inter­na, mas o que real­men­te se des­ta­ca na agen­da ESG da empre­sa é a pro­du­ção da maté­ria-pri­ma de todo o negó­cio: o cacau.

“Temos um pro­je­to cha­ma­do Cocoa Life, que tem como obje­ti­vo cri­ar comu­ni­da­des agrí­co­las de cacau empo­de­ra­das e prós­pe­ras, por meio da capa­ci­ta­ção dos agri­cul­to­res com foco na sus­ten­ta­bi­li­da­de, no reflo­res­ta­men­to e na ren­ta­bi­li­da­de do cul­ti­vo, garan­tin­do o futu­ro do cho­co­la­te. Atualmente, con­ta­mos com 800 pro­du­to­res regis­tra­dos, que, gra­ças aos incen­ti­vos do pro­gra­ma, tive­ram aces­so a cré­di­to finan­cei­ro por meio do PRONAF — Floresta para impul­si­o­nar os seus negó­ci­os”, expli­ca Maria Claudia, dire­to­ra de Assuntos Corporativos e Governamentais da Mondelēz. 

Segundo ela, de 2012 a 2022, a empre­sa fará um inves­ti­men­to total de R$10 milhões do Cocoa Life no Brasil, que aju­da­rá a trans­for­mar mil hec­ta­res de áre­as de pas­ta­gem em agro­flo­res­ta de cacau, rees­tru­tu­rar 750 hec­ta­res de fazen­das de cacau com novo mane­jo agro­e­co­ló­gi­co do solo, res­tau­rar 500 hec­ta­res de mata cili­ar e ampli­ar em 50% o núme­ro de pro­du­to­res, famí­li­as e tra­ba­lha­do­res indi­re­tos bene­fi­ci­a­dos pelo pro­gra­ma no País. “Estamos fazen­do isso por­que é o cer­to, pen­san­do no futu­ro e na pre­ser­va­ção do nos­so pla­ne­ta, enquan­to garan­ti­mos a melhor expe­ri­ên­cia para os nos­sos con­su­mi­do­res, com pro­du­tos de qua­li­da­de e fei­tos da manei­ra cer­ta em todos os sen­ti­dos”, com­ple­ta. 

No setor de higi­e­ne e cos­mé­ti­cos, a Unilever tam­bém inves­tiu em for­mas cada vez mais sus­ten­tá­veis de con­tri­buir com o pla­ne­ta – tan­to em sua pró­pria cadeia de pro­du­ção quan­to em prol da comu­ni­da­de. “Em 2020, anun­ci­a­mos os com­pro­mis­sos do pro­je­to ‘Futuro Limpo’, que teve inves­ti­men­to glo­bal de € 1 bilhão para pro­mo­ver o fim do uso de subs­tân­ci­as quí­mi­cas deri­va­das de com­bus­tí­veis fós­seis até 2030. Estamos revi­si­tan­do todo o nos­so port­fó­lio para ofe­re­cer ao con­su­mi­dor pro­du­tos de lim­pe­za e lavan­de­ria sus­ten­tá­veis e ao mes­mo tem­po mais aces­sí­veis. O ‘Futuro Limpo’ ado­ta como estra­té­gia os prin­cí­pi­os da eco­no­mia cir­cu­lar nas fór­mu­las e emba­la­gens dos pro­du­tos para redu­zir a pega­da de car­bo­no”, expli­ca Juliana Marra, geren­te sêni­or de Assuntos Externos da Unilever. 

José Félix

JOSÉ FÉLIX,
presidente da Claro

Luciana Nicola

LUCIANA NICOLA,
superintendente de Relações Institucionais, Sustentabilidade e Negócios Inclusivos do Itaú Unibanco

LUCIO VICENTE,
diretor de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade do Grupo Carrefour Brasil

Ainda que mui­ta gen­te sem­pre des­ta­que o uso de pro­du­tos quí­mi­cos, o uso da água e a emis­são de gases noci­vos à atmos­fe­ra, a ener­gia lim­pa tam­bém tem sido uma pau­ta de aten­ção. A Claro é uma das empre­sas que repro­gra­ma­ram suas ati­vi­da­des em prol de uma ener­gia mais sus­ten­tá­vel: “A Claro é a líder no setor de Telecom na pro­du­ção de ener­gia lim­pa no País. O ‘A Energia da Claro’ é con­si­de­ra­do, segun­do dados da ANEEL, o mai­or pro­gra­ma de gera­ção de ener­gia dis­tri­buí­da no Brasil. Atualmente, pos­sui 53 usi­nas em ope­ra­ção, dis­tri­buí­das por pra­ti­ca­men­te todos os Estados e gran­de pre­sen­ça em Minas Gerais e na região Nordeste. Além dis­so, as usi­nas abas­te­cem 20 mil uni­da­des con­su­mi­do­ras da Claro e já geram ener­gia lim­pa equi­va­len­te ao con­su­mo de 240 mil resi­dên­ci­as, o sufi­ci­en­te para aten­der a uma cida­de como Araras (SP) ou Valinhos (SP)”, comen­ta José Félix.

Para o ramo gas­tronô­mi­co de fast-food, uma das mai­o­res empre­sas do mun­do tam­bém repen­sou em como ado­tar ações mais sus­ten­tá­veis em sua cadeia de pro­du­ção, com­pra e ven­da. A Arcos Dorados, man­te­ne­do­ra do McDonald’s no Brasil, notou que era papel dela con­tri­buir com a quan­ti­da­de de plás­ti­co nos oce­a­nos e no meio ambi­en­te. “Desde 2018, a Arcos Dorados con­ta com um pro­gra­ma para redu­ção de plás­ti­cos de um úni­co uso, que já soma ações como a subs­ti­tui­ção das emba­la­gens de plás­ti­co de sala­das por outras fabri­ca­das com papel car­to­na­do cer­ti­fi­ca­do, redu­ção do uso de tam­pas de plás­ti­co para bebi­das e sobre­me­sas, fim da entre­ga pro­a­ti­va de canu­dos, entre outras”, expli­ca Mariana Scalzo, dire­to­ra de Comunicação Corporativa da Divisão Brasil da Arcos Dorados. No caso espe­cí­fi­co do McDonald’s, eles nota­ram que as ações da empre­sa pre­ci­sa­vam ir além de um inves­ti­men­to no meio ambi­en­te.

O “S” no ESG

Para além de inves­tir no ecos­sis­te­ma – o que de fato é impor­tan­te –, ser um agen­te trans­for­ma­dor envol­ve, por par­te das empre­sas, ter ações vol­ta­das para as pes­so­as: os prin­ci­pais res­pon­sá­veis pela mudan­ça ver­da­dei­ra. “Sabemos que o desem­pre­go juve­nil é um dos mai­o­res pro­ble­mas da América Latina e do Caribe. Decidimos agir pro­por­ci­o­nan­do opor­tu­ni­da­des e pro­pa­gan­do boas prá­ti­cas nas comu­ni­da­des onde atu­a­mos”, con­ti­nua Scalzo. “Assim, nos tor­na­mos o mai­or empre­ga­dor jovem da América Latina e do Caribe: 68% de nos­sos fun­ci­o­ná­ri­os são jovens de até 24 anos. No Brasil, 70% têm menos de 24 anos e estão em sua pri­mei­ra expe­ri­ên­cia pro­fis­si­o­nal”, com­ple­ta.

Ainda que tenha essa for­te ver­ten­te, o McDonald’s é ape­nas uma das gran­des cor­po­ra­ções que, com o pas­sar dos anos, leva­ram con­si­go uma lição impor­tan­te: o ESG verí­di­co, que tem como obje­ti­vo uma trans­for­ma­ção na manei­ra de enca­rar os negó­ci­os, só pode ser fei­to quan­do há uma mudan­ça de cul­tu­ra – que vem de den­tro para fora.

A captação líquida dos fundos ligados ao ESG foi de R$ 107 milhões no fim de 2019 para R$ 4,43 bilhões no fim de 2020, segundo levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima)

Alexandre Carreteiro, pre­si­den­te da PepsiCo Brasil Alimentos, enten­de que, além da con­tri­bui­ção ao pla­ne­ta por meio da redu­ção de plás­ti­co, foi neces­sá­rio ter uma mudan­ça inter­na para enten­der, de fato, quais são as neces­si­da­des soci­ais que podem ser aten­di­das pelas empre­sas. “Na PepsiCo, a bus­ca por equi­da­de e diver­si­da­de está no cen­tro de tudo o que faze­mos, tan­to den­tro como fora da com­pa­nhia. Gosto de dizer que o que leva à trans­for­ma­ção é a ação. Temos isso como pre­mis­sa. A equi­da­de nos guia em metas robus­tas como, por exem­plo, a de alcan­çar pelo menos 50% de mulhe­res e 30% de pes­so­as negras em car­gos de lide­ran­ça até 2025. Hoje, na PepsiCo Brasil, temos 19% de pes­so­as negras e 47% de mulhe­res em car­gos de lide­ran­ça. No nos­so comi­tê exe­cu­ti­vo já temos 60% de mulhe­res”, expli­ca. 

E foi essa a mudan­ça neces­sá­ria para que a trans­for­ma­ção fos­se de den­tro para fora. “Recentemente, divul­ga­mos o inves­ti­men­to de R$ 16,5 milhões nas comu­ni­da­des bra­si­lei­ras por meio de pro­je­tos de impac­to soci­al e ambi­en­tal pelos pró­xi­mos dois anos, bene­fi­ci­an­do mais de 2 milhões de pes­so­as.  A ação será divi­di­da em três pila­res: Prosperidade Econômica, Segurança Alimentar e Acesso à Água. Para isso, a com­pa­nhia fir­mou par­ce­ria com cer­ca de 20 orga­ni­za­ções não gover­na­men­tais com foco em fomen­tar o empre­en­de­do­ris­mo de pes­so­as negras e de mulhe­res; for­mar jovens pro­fis­si­o­nais das peri­fe­ri­as; ter ini­ci­a­ti­vas de pre­ser­va­ção de recur­sos hídri­cos e de aces­so à água em regiões de ris­co hídri­co no Nordeste e, tam­bém, com­ba­ter a fome e a des­nu­tri­ção infan­til”, argu­men­ta Carreteiro. 

Juliana Marra

JULIANA MARRA,
gerente sênior de Assuntos Externos da Unilever

Alexandre Carreteiro

ALEXANDRE CARRETEIRO,
presidente da PepsiCo Brasil Alimentos

Fabio Itano

FABIO ITANO,
diretor de Estratégia da Telhanorte Tumelero

Esse mes­mo pen­sa­men­to tam­bém é com­par­ti­lha­do pela empre­sa M. Dias Branco, man­te­ne­do­ra da Vitarella, Piraquê, Adria, Fortaleza e Isabela. Após pla­ne­ja­men­to inter­no, sur­giu a neces­si­da­de de con­tri­buir com a comu­ni­da­de. “Nós man­te­mos uma for­te rela­ção com as comu­ni­da­des do entor­no por meio da rea­li­za­ção de pro­je­tos soci­ais via leis de incen­ti­vo, doa­ção de ali­men­tos, bens e equi­pa­men­tos, além das ações de volun­ta­ri­a­do cor­po­ra­ti­vo. Realizamos ini­ci­a­ti­vas de enga­ja­men­to com comu­ni­da­des do entor­no em 100% de nos­sas uni­da­des indus­tri­ais, apoi­an­do cer­ca de 150 ins­ti­tui­ções em 17 Estados do Brasil, reco­nhe­ci­das pelo seu tra­ba­lho rele­van­te com popu­la­ções caren­tes”, expli­ca Andréa Nogueira, dire­to­ra de Gente, Gestão e Sustentabilidade da M. Dias Branco.

Mudar a cul­tu­ra é fun­da­men­tal, por­tan­to, para tor­nar as empre­sas não ape­nas trans­for­ma­do­ras da soci­e­da­de, mas tam­bém intrin­si­ca­men­te conec­ta­das com o con­su­mi­dor. 

“As pes­so­as estão cada vez mais cons­ci­en­tes sobre o impac­to das empre­sas no meio ambi­en­te, a con­tri­bui­ção na soci­e­da­de e o quan­to cada orga­ni­za­ção refle­te sobre diver­si­da­de em sua estru­tu­ra. Todavia, mais impor­tan­te do que divul­gar as ações, que ende­re­çam ESG aos cola­bo­ra­do­res e ao mer­ca­do, é garan­tir que haja resul­ta­dos con­sis­ten­tes, men­su­rá­veis e que gerem impac­to”, des­ta­ca Fabio Itano, dire­tor de Estratégia da Telhanorte Tumelero. 

O Carrefour tem oito compromissos que se ramificam em mais de 70 iniciativas de combate ao racismo

A Telhanorte tam­bém é uma das empre­sas que trans­for­ma­ram sua comu­ni­da­de a par­tir do reco­nhe­ci­men­to da neces­si­da­de de um qua­dro de cola­bo­ra­do­res mais diver­so.  “Para acom­pa­nhar as ações, temos uma gover­nan­ça inter­na, que con­ta com a par­ti­ci­pa­ção do CEO, de toda a Diretoria e dos res­pon­sá­veis por cada área. Este time se reú­ne men­sal­men­te para dis­cu­tir as evo­lu­ções das ini­ci­a­ti­vas. Em ter­mos de diver­si­da­de, temos cer­ca de 40% do qua­dro de fun­ci­o­ná­ri­os com­pos­to por mulhe­res, do qual 35% ocu­pam car­gos de lide­ran­ça, sen­do três dire­to­ras”, com­ple­ta. 

Afinal, inves­tir nos cola­bo­ra­do­res é o pri­mei­ro pas­so para uma mudan­ça exter­na sig­ni­fi­ca­ti­va, de acor­do com Quintin Testa, dire­tor-geral da Verallia na América do Sul. “Para pro­pi­ci­ar um local de tra­ba­lho inclu­si­vo, sele­ci­o­na­mos dois indi­ca­do­res prin­ci­pais ini­ci­ais. Em pri­mei­ro lugar, aumen­tar o índi­ce de igual­da­de de gêne­ro. Existem cin­co indi­ca­do­res para este índi­ce, não é só salá­rio. É tam­bém pro­mo­ção, aumen­to sala­ri­al após a licen­ça-mater­ni­da­de e é tam­bém as dez mai­o­res remu­ne­ra­ções den­tro de cada uma das empre­sas. É sufi­ci­en­te­men­te equi­li­bra­do entre dife­ren­tes indi­ca­do­res para ser con­sis­ten­te”, expli­ca. Quintin des­ta­ca, tam­bém, que a pau­ta ESG tem uma cone­xão impor­tan­te entre cada uma de suas fren­tes, ou seja, sem o E, o S não fun­ci­o­na e vice-ver­sa. “Nós acre­di­ta­mos que, para colo­car isso em prá­ti­ca, pre­ci­sa­mos come­çar de den­tro para fora. Os cola­bo­ra­do­res nada mais são do que um refle­xo da soci­e­da­de. Por isso, tra­ba­lha­mos inter­na­men­te a edu­ca­ção ambi­en­tal. Desde a entra­da dos cola­bo­ra­do­res na fábri­ca, são abor­da­dos a reci­cla­gem, todos os pro­pó­si­tos e as ações a res­pei­to do tema.”

Ações que compõem o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE)

Gráfico

Acidentes, cri­mes e situ­a­ções cons­tran­ge­do­ras podem ser pon­tos de par­ti­da para reco­nhe­cer a impor­tân­cia da mudan­ça. Foi exa­ta­men­te isso que o Carrefour sen­tiu após um epi­só­dio em uma de suas lojas em Porto Alegre (RS).

“Hoje, esta­mos tra­ba­lhan­do de for­ma expres­si­va com oito com­pro­mis­sos que se rami­fi­cam em mais de 70 ini­ci­a­ti­vas de com­ba­te ao racis­mo com nos­sos cola­bo­ra­do­res, cli­en­tes e for­ne­ce­do­res. Acreditamos que é pos­sí­vel impac­tar posi­ti­va­men­te a soci­e­da­de, enga­jan­do par­cei­ros nes­ses esfor­ços e esti­mu­lan­do mudan­ças em todas as eta­pas da cadeia de for­ne­ci­men­to”, expli­ca Lucio Vicente, dire­tor de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade do Grupo Carrefour Brasil. 

Situações como essa expan­dem a neces­si­da­de de ter um olhar huma­no mais que urgen­te e con­tri­bu­em para uma soci­e­da­de melhor. “Não é à toa que pos­suí­mos, além de uma estru­tu­ra fixa e robus­ta de Diversidade e Inclusão, gru­pos de afi­ni­da­des que dis­cu­tem e pro­põem prá­ti­cas e solu­ções para seguir avan­çan­do em temas como equi­da­de de gêne­ro e raci­al, com­ba­te ao racis­mo, pro­mo­ção e res­pei­to aos direi­tos das pes­so­as LGBTQIA+ e cri­a­ção de um ambi­en­te mais aces­sí­vel e res­pei­to­so para pes­so­as com defi­ci­ên­cia.”

O “G” no ESG

Menos nos holo­fo­tes, o G den­tro do ESG é um dos menos comen­ta­dos em toda a agen­da. No entan­to, tra­ta-se tam­bém da par­te mais impor­tan­te: a Governança é a prin­ci­pal for­ma de colo­car todos os obje­ti­vos em prá­ti­ca – finan­cei­ra­men­te falan­do. Afinal, para além de falar sobre as ações das empre­sas, é pre­ci­so men­su­rar o impac­to que as mudan­ças têm repre­sen­ta­do ao pla­ne­ta. E isso pode ser vis­to em núme­ros: a cap­ta­ção líqui­da dos fun­dos liga­dos ao ESG foi de R$ 107 milhões no fim de 2019 para R$ 4,43 bilhões no fim de 2020, segun­do levan­ta­men­to da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). 

É tam­bém a gover­nan­ça a res­pon­sá­vel pela manu­ten­ção das ações de for­ma inter­na e exter­na. Mais do que pro­mo­ver solu­ções a deter­mi­na­dos pro­ble­mas soci­o­am­bi­en­tais, por exem­plo, é pre­ci­so garan­tir que o valor mone­tá­rio inves­ti­do neles pos­sa ser rever­ti­do às áre­as com melhor desen­vol­vi­men­to.

“O cená­rio de pan­de­mia dei­xou ain­da mais evi­den­te a neces­si­da­de de uma agen­da posi­ti­va. Estamos em um momen­to-cha­ve de trans­for­ma­ção, que foi impul­si­o­na­da tam­bém pela Covid-19, pois a pan­de­mia aju­dou a mos­trar à soci­e­da­de – e aqui incluo as empre­sas –, de for­ma mais con­tun­den­te, seus impac­tos indi­vi­du­ais e suas res­pon­sa­bi­li­da­des na supe­ra­ção dos desa­fi­os econô­mi­cos. Aí é que está a impor­tân­cia do ESG; usar a exper­ti­se de negó­cio para con­tri­buir posi­ti­va­men­te com a soci­e­da­de”, expli­ca Luciana Nicola, supe­rin­ten­den­te de Relações Institucionais, Sustentabilidade e Negócios Inclusivos do Itaú Unibanco.

O montante ligado ao ESG deve atingir, em todo o mundo, US$ 53 trilhões em 2025. Somente em 2020, foram US$ 38 milhões, segundo dados da Bloomberg

Especificamente nes­sa par­te mais finan­cei­ra, os inves­ti­men­tos rela­ci­o­na­dos de algu­ma for­ma ao ESG são cada vez mais expres­si­vos. Há, inclu­si­ve, um Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), cri­a­do em 2005 pela Bolsa de Valores Brasileira. Ele é com­pos­to por 36 ações de 30 empre­sas sob a melhor per­for­man­ce de ESG. Em 2020, 37,62% de todo o valor aci­o­ná­rio do Brasil esta­va englo­ba­do no ISE, de acor­do com dados da B3. Dentro do ISE, as empre­sas que con­tri­bu­em com ações são: Banco do Brasil, Bradesco, BR Distribuidora, BRF, Braskem, B2W, CCR, Cielo, Cemig, Copel, Duratex, EcoRodovias, Eletrobras, Engie, Itaúsa, Itaú Unibanco, Klabin, Lojas Americanas, Movida, MRV, Natura, Santander, AES Tietê, Tim, Telefônica Brasil e WEG. 

Em um pen­sa­men­to mais vol­ta­do a nível mun­di­al, os núme­ros sur­pre­en­dem. Dados da Bloomberg mos­tram que, hoje, o mer­ca­do de ESG está esti­ma­do em mais de US$ 30 tri­lhões, sen­do 2020 um dos anos com mai­or cres­ci­men­to, devi­do às ações e con­sequên­ci­as da pan­de­mia. Mas ain­da que toda a popu­la­ção do pla­ne­ta seja vaci­na­da e que pos­sa­mos, com espe­ran­ça, ven­cer o vírus, os inves­ti­men­tos no ESG não serão redu­zi­dos. A per­cep­ção de que a gover­nan­ça den­tro das empre­sas pre­ci­sa ser tra­ba­lha­da para uma con­tri­bui­ção em prol do todo des­per­tou e não irá redu­zir nos pró­xi­mos anos. Não à toa, a Bloomberg esti­ma, para 2025, que o setor movi­men­te US$ 53 tri­lhões.

E jus­ta­men­te essa per­cep­ção evi­den­ci­a­da pela pan­de­mia trou­xe uma série de ações con­jun­tas entre as empre­sas – até mes­mo quan­do são con­cor­ren­tes. É unâ­ni­me: ain­da que haja inte­res­se finan­cei­ro ou cor­po­ra­ti­vo, tra­ba­lhar em prol da soci­e­da­de e do meio ambi­en­te é uma pau­ta em comum pela qual vale a pena lutar.

“No Itaú, dize­mos que já pas­sou a fase de ‘com­pen­sar os débi­tos’ e ago­ra vive­mos a de ‘gerar cré­di­tos’, ou seja, usa­mos o core busi­ness para pro­mo­ver impac­to posi­ti­vo na soci­e­da­de”, expli­ca Nicola. O Itaú inclu­si­ve se jun­tou a seus con­cor­ren­tes para rea­li­zar uma ação ambi­en­tal. “O Plano Amazônia, ini­ci­a­ti­va em que nós e dois con­cor­ren­tes, o Bradesco e o Santander, fize­mos, é uma pro­va de que nos uni­mos em prol do desen­vol­vi­men­to sus­ten­tá­vel da região”, com­ple­men­ta.

No fim, nota-se que a gover­nan­ça é o elo impul­si­o­na­dor para que o “E” e o “S” pos­sam fun­ci­o­nar e, além das trans­for­ma­ções bené­fi­cas em prol do pla­ne­ta e das pes­so­as, tam­bém tra­zer essa cone­xão tão for­te com o con­su­mi­dor. 

“Estamos viven­ci­an­do uma mudan­ça sig­ni­fi­ca­ti­va na per­cep­ção sobre o papel das empre­sas na soci­e­da­de, que se inten­si­fi­cou com o con­tex­to de pan­de­mia. Hoje, todos os sta­kehol­ders espe­ram e cobram uma pos­tu­ra posi­ti­va, seja em ações soci­ais, seja em linhas de negó­cio. Vivemos uma épo­ca de gran­des trans­for­ma­ções, e é natu­ral que haja expec­ta­ti­va de que as empre­sas se trans­for­mem rapi­da­men­te”, con­clui Nicola.