VOCÊ ESTÁ PRE­PA­RA­DO PARA 2019?

CON­SUL­TO­RI­AS DIVUL­GAM O QUE FARÁ PAR­TE DA ROTI­NA DOS CON­SU­MI­DO­RES E DAS EMPRE­SAS PARA O PRÓ­XI­MO ANO. AS APOS­TAS SÃO NO USO CADA VEZ MAI­OR DE DADOS, NO ENGA­JA­MEN­TO EM CAU­SAS E, ATÉ MES­MO, EM UM NOVO PER­FIL DE MAS­CU­LI­NI­DA­DE

POR IVAN VEN­TU­RA

saac Asi­mov já era um reno­ma­do escri­tor de fic­ção cien­tí­fi­ca quan­do rece­beu um inu­si­ta­do con­vi­te do jor­nal The New York Times. Em agos­to de 1964, o autor de livros como “Eu, Robô” foi desa­fi­a­do a escre­ver um arti­go sobre o futu­ro da huma­ni­da­de em 50 anos. Em 2014, o jor­nal lem­brou as pre­vi­sões dele e elas foram real­men­te assom­bro­sas.
A bola de cris­tal de Asi­mov mos­trou que tería­mos comu­ni­ca­ções audi­o­vi­su­ais (um Sky­pe, por exem­plo) e que fala­ría­mos uns com os outros de qual­quer lugar do mun­do. O mes­mo oti­mis­mo não foi demons­tra­do com os robôs, uma de suas pai­xões. Segun­do o escri­tor, huma­noi­des de lata não seri­am comuns e eles seri­am bem defi­ci­tá­ri­os – o que tam­bém se con­fir­mou. Mas uma das pre­vi­sões mais impres­si­o­nan­tes foi o que ele defi­niu como “mini­com­pu­ta­dor por­tá­til que seria usa­do como cére­bro”. Algu­ma seme­lhan­ça com os atu­ais smartpho­nes?
Hoje, rara­men­te alguém se atre­ve­ria a pre­ver o futu­ro em um mun­do que se trans­for­ma cada vez mais rápi­do. Mas há quem se arris­que. Afi­nal, como ocor­re his­to­ri­ca­men­te em todo encer­ra­men­to de ano, está aber­ta a tem­po­ra­da de estu­dos sobre as ten­dên­ci­as de negó­ci­os e tec­no­lo­gi­as para o pró­xi­mo ano.

A TEC­NO­LO­GIA CON­TI­NU­A­RÁ AVAN­ÇAN­DO

   A Con­su­mi­dor Moder­no reu­niu estu­dos e entre­vis­tas sobre ten­dên­ci­as para os negó­ci­os no pró­xi­mo ano. De uma manei­ra geral, elas refor­çam o avan­ço do uso de big data e até das rea­li­da­des vir­tu­al e aumen­ta­da den­tro do ambi­en­te cor­po­ra­ti­vo. Isso deve resul­tar em novas apli­ca­ções para o uso des­sas infor­ma­ções, que tam­bém devem impor alguns dile­mas impor­tan­tes: até que pon­to deve­mos usar as infor­ma­ções que per­ten­cem a outra pes­soa?
Mas não será ape­nas as tec­no­lo­gi­as e as roti­nas das empre­sas que vão mudar em 2019. O con­su­mi­dor tam­bém vai exi­bir alguns novos com­por­ta­men­tos que vão impac­tar as rela­ções de con­su­mo. Uma delas é que há um deba­te sobre o papel do homem den­tro de uma soci­e­da­de igua­li­tá­ria e que cada vez menos tole­ra o machis­mo. Isso tam­bém tem refle­xos na manei­ra de as empre­sas ofe­re­ce­rem pro­du­tos e ser­vi­ços. “O mun­do está pas­san­do por trans­for­ma­ção, mas somos os mes­mos seres huma­nos com as mes­mas neces­si­da­des. As novas ten­dên­ci­as sur­gem quan­do as mudan­ças libe­ram uma nova manei­ra de ser­vir a essas neces­si­da­des”, resu­miu David Mat­tin, Glo­bal Head of Trends e Insights da TrendWat­ching.

   As apos­tas da TrendWat­ching para os pró­xi­mos anos estão em cin­co gran­des temas: mar­cas legis­la­ti­vas, ratos de labo­ra­tó­ri­os, solu­ções open sour­ce, recur­sos super-huma­nos e a cha­ma­da Fic­ti­on IRL (In Real Life).

MAR­CAS LEGIS­LA­TI­VAS

   Mat­tin afir­ma que essa é uma con­ti­nui­da­de dos recen­tes movi­men­tos cor­po­ra­ti­vos em defe­sa de cau­sas e ban­dei­ras, tais como a diver­si­da­de sexu­al ou de gêne­ro. Em 2019, os con­su­mi­do­res devem exi­gir mais das com­pa­nhi­as. As pes­so­as que­rem que as empre­sas uti­li­zem a sua influên­cia e pode­rio econô­mi­co para pro­por mudan­ças na soci­e­da­de ou até pres­si­o­nar os gover­nos que mudem ou apro­vem deter­mi­na­das leis. “Os movi­men­tos dos con­su­mi­do­res tem leva­do as mar­cas a darem o pró­xi­mo pas­so em suas cau­sas”, dis­se Mat­tin.

   Um exem­plo é a mar­ca de rou­pas de aven­tu­ra Pata­go­nia. Em dezem­bro do ano pas­sa­do, a com­pa­nhia cri­ti­cou o pre­si­den­te Donald Trump pela deci­são de redu­zir uma área de pro­te­ção indí­ge­na ao lado do monu­men­to conhe­ci­do como Ore­lhas de Urso (Bears Ears), em Utah (EUA). A mar­ca, aliás, não ficou ape­nas no dis­cur­so. Foi além, se lan­çou nos mei­os de comu­ni­ca­ção e pas­sou a pedir a revo­ga­ção da medi­da por meio do patro­cí­nio de um abai­xo-assi­na­do que tinha o duro slo­gan: “O pre­si­den­te rou­bou o monu­men­to naci­o­nal Ore­lhas de Urso”.

Isa­ac Asi­mov: 50 anos depois, algu­mas das pre­vi­sões do escri­tor de fic­ção cien­tí­fi­ca se con­fir­ma­ram

O mun­do está pas­san­do por trans­for­ma­ção, mas somos os mes­mos seres huma­nos com as mes­mas neces­si­da­des. As novas ten­dên­ci­as sur­gem quan­do as mudan­ças libe­ram uma nova manei­ra de ser­vir a essas neces­si­da­des”
David Mat­tin, Glo­bal Head of Trends e Insights da TrendWat­ching

   A Micro­soft é outra com­pa­nhia que saiu do dis­cur­so e foi para a prá­ti­ca. Em agos­to des­te ano, a empre­sa refor­çou a defe­sa da mai­or pre­sen­ça dos pais nos cui­da­dos com seus filhos e pas­sa­rá a exi­gir, a par­tir de 2020, que as suas pres­ta­do­ras de ser­vi­ços con­ce­dam, assim como ela, licen­ça-pater­ni­da­de remu­ne­ra­da den­tro dos seguin­tes cri­té­ri­os míni­mos: 12 sema­nas de ausên­cia remu­ne­ra­da, rece­ben­do 66% do salá­rio ou US$ 1.000 por sema­na para casos de nas­ci­men­to e ado­ção.

   No entan­to, essas e outras empre­sas têm outro desa­fio pela fren­te: as ban­dei­ras e cau­sas. Um estu­do cha­ma­do 100Future, pro­du­zi­do pela reno­ma­da agên­cia de publi­ci­da­de J.Walter Thomp­son, faz men­ção a um levan­ta­men­to da con­sul­to­ria Brain­Re­ser­ve que apon­ta para a exis­tên­cia de uma nova mas­cu­li­ni­da­de. O homem com aspec­to de “machão” per­de espa­ço para uma pes­soa mul­ti­fa­ce­ta­da e dis­pos­to a novas expe­ri­ên­ci­as. Esse avan­ço, inclu­si­ve, já foi nota­do por algu­mas mar­cas como Harry’s, Hims, Bono­bos e Axe, cujas cam­pa­nhas já mos­tram um homem “mais fle­xí­vel, com mais nuan­ces e com­pai­xão”, des­ta­ca o estu­do.

   O levan­ta­men­to des­ta­ca ain­da a evo­lu­ção da devo­ção huma­na com os ani­mais de esti­ma­ção. O exem­plo esdrú­xu­lo cita­do no levan­ta­men­to é o caso da empre­sá­ria e soci­a­li­te Kylie Jen­ner (famo­sa pelas apa­ri­ções na série Kee­ping Up with the Kar­dashi­ans). Ela exi­biu a peque­na man­são mon­ta­da para os seus cães (e onde cabem pes­so­as), que inclui até mes­mo um sis­te­ma de ar-con­di­ci­o­na­do. “Jen­ner não será a úni­ca a estra­gar seus ami­gos pelu­dos: de acor­do com o Euro­mo­ni­tor, o mer­ca­do de pro­du­tos para ani­mais de esti­ma­ção deve movi­men­tar US$ 125 bilhões e terá como des­ta­que paí­ses como a Chi­na, o Bra­sil e o Méxi­co”.

RATOS DE LABO­RA­TÓ­RIO

   Outra ten­dên­cia apon­ta­da pelas con­sul­to­ri­as será o avan­ço da cus­to­mi­za­ção de pro­du­tos e ser­vi­ços sobre as rela­ções de con­su­mo, espe­ci­al­men­te pro­por­ci­o­na­do pela indús­tria. A TrendWat­ching, por exem­plo, iden­ti­fi­cou um tipo de cus­to­mi­za­ção que ela cha­mou de “Rato de Labo­ra­tó­rio” (em outras pala­vras, são con­su­mi­do­res que se sub­me­tem a pro­gra­mas que pro­mo­vem cons­tan­tes tes­tes e aná­li­ses medi­an­te a pro­mes­sa de uma nova for­ma de con­su­mo com foco neles e em seu bem-estar). No Japão, a Nes­tlé lan­çou um pro­gra­ma espe­ci­al de acon­se­lha­men­to nutri­ci­o­nal com base no exa­me de DNA, no com­por­ta­men­to ali­men­tar e nas infor­ma­ções envi­a­das pelo pró­prio con­su­mi­dor. A empre­sa ana­li­sa os dados pas­sa­dos e devol­ve com infor­ma­ções cus­to­mi­za­das sobre ali­men­ta­ção e com as cáp­su­las com os suple­men­tos ou com­ple­men­tos ali­men­ta­res para o cli­en­te.

   Outro exem­plo quan­do se fala em ino­va­ção em cus­to­mi­za­ção é o da Koli­bri, fabri­can­te de bebi­das não alcoó­li­cas do Rei­no Uni­do. A empre­sa lan­çou no mer­ca­do um pro­du­to que ofe­re­ce ao con­su­mi­dor a pos­si­bi­li­da­de de dosar a quan­ti­da­de de uma espé­cie de ado­çan­te cha­ma­do aga­ve. O segre­do está na emba­la­gem, que pos­sui dois com­par­ti­men­tos: o pri­mei­ro con­tém a bebi­da e no outro, menor, fica o xaro­pe de aga­ve.

IDEIA OPEN SOUR­CE

   A mes­ma TrendWat­ching apon­ta para o desen­vol­vi­men­to de outra tec­no­lo­gia para o ano que vem: é a cha­ma­da solu­ção open sour­ce, ou seja, pla­ta­for­ma aber­ta para uso com­par­ti­lha­do de solu­ções. Em linhas gerais, tra­ta-se do desen­vol­vi­men­to de idei­as com foco na solu­ção de um pro­ble­ma do con­su­mi­dor ou decor­ren­te das rela­ções de con­su­mo, caso da polui­ção do pla­ne­ta.

   Essa ten­dên­cia, res­sal­ta a con­sul­to­ria, não neces­sa­ri­a­men­te é nova na his­tó­ria das rela­ções de con­su­mo. Um exem­plo foi o cin­to de segu­ran­ça desen­vol­vi­do pela mon­ta­do­ra sue­ca Vol­vo, uma ideia que rapi­da­men­te foi com­par­ti­lha­da pela com­pa­nhia com outras fabri­can­tes de veí­cu­los. Ago­ra, sur­gem novos exem­plos, como a par­ce­ria entre a IKEA e a HP, que fun­da­ram a coa­li­za­ção cha­ma­da NextWa­ve Plas­tics – uma ini­ci­a­ti­va glo­bal pela redu­ção de plás­ti­cos espa­lha­dos nos oce­a­nos.

   Uma das ações prá­ti­cas foi o apoio ao desen­vol­vi­men­to de uma emba­la­gem fei­ta a par­tir de cogu­me­los e res­tos de ali­men­tos e total­men­te bio­de­gra­dá­vel. Mas onde entra a ideia de com­par­ti­lha­men­to? “Ao ingres­sar na NextWa­ve, as mar­cas se com­pro­me­tem a com­par­ti­lhar os seus conhe­ci­men­tos tec­no­ló­gi­cos de manei­ra cola­bo­ra­ti­va para cri­ar a pri­mei­ra rede glo­bal pela dimi­nui­ção do uso de plás­ti­co. O mes­mo gru­po inclui ain­da a Gene­ral Motors”, afir­ma Mat­tin.

   Outra ini­ci­a­ti­va simi­lar foi ofe­re­ci­da pela Star­bucks. Em maio des­te ano, todas as 8 mil lojas nos EUA foram fecha­das para que os fun­ci­o­ná­ri­os fos­sem sub­me­ti­dos a um trei­na­men­to con­tra prá­ti­cas racis­tas. A ini­ci­a­ti­va ocor­reu após um tris­te epi­só­dio em um café da rede onde um fun­ci­o­ná­rio cha­mou a polí­cia após sus­pei­tar de dois rapa­zes negros que esta­vam em uma loja da empre­sa – e que eram ape­nas con­su­mi­do­res. A car­ti­lha usa­da no trei­na­men­to foi dis­po­ni­bi­li­za­da gra­tui­ta­men­te pela com­pa­nhia para toda a soci­e­da­de.

 

AVA­TAR COR­PO­RA­TI­VO

   O avan­ço do tra­ta­men­to de dados den­tro do ambi­en­te cor­po­ra­ti­vo cer­ta­men­te é outra for­te ten­dên­cia. No iní­cio de novem­bro, o Gart­ner apon­tou as dez prin­ci­pais ten­dên­ci­as tec­no­ló­gi­cas estra­té­gi­cas para o pró­xi­mo ano, e a mai­o­ria delas rela­ci­o­na big data à inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al, ao apren­di­za­do de máqui­nas e ao modo como essas tec­no­lo­gi­as se infil­tram cada vez mais na soci­e­da­de.

   Uma das ten­dên­ci­as apon­ta­das pela con­sul­to­ria é o cha­ma­do digi­tal twins ou gêmeo digi­tal de uma com­pa­nhia. Em linhas gerais, a ideia é que uma deter­mi­na­da com­pa­nhia seja recri­a­da den­tro do mun­do digi­tal para, entre outras coi­sas, rea­li­zar simu­la­ções a par­tir de uma nova estra­té­gia ou mes­mo novos pro­du­tos e ser­vi­ços. “Um aspec­to impor­tan­te é que empre­sas irão repro­du­zir o seu gêmeo digi­tal de manei­ra mui­to seme­lhan­te à empre­sa do mun­do real. Seria o trans­por­te da com­pa­nhia para o mun­do vir­tu­al. Isso aju­da empre­sas a simu­la­rem even­tu­ais mudan­ças que podem ocor­rer no mun­do real, mas sem as intem­pé­ri­es da rea­li­da­de. Isso faz a empre­sa se tor­nar mais asser­ti­va no pro­du­to ou ser­vi­ço para o con­su­mi­dor”, expli­ca David Cear­ley, vice-pre­si­den­te, ana­lis­ta e par­cei­ro do Gart­ner.

   Isso, segun­do o Gart­ner, vai resul­tar em um cená­rio com um expo­nen­ci­al cres­ci­men­to de dados digi­tais den­tro de uma com­pa­nhia, o que aumen­ta­ria a deman­da por cien­tis­tas de dados na soci­e­da­de – ou pes­so­as que ana­li­sam de manei­ra mais pro­fun­da e estra­té­gi­ca as infor­ma­ções colhi­das por máqui­nas. A ati­vi­da­de des­se pro­fis­si­o­nal tem impac­to em outra ten­dên­cia: o dado deve ser usa­do de manei­ra éti­ca e den­tro da lei – uma ideia que se inten­si­fi­ca com o avan­ço da apro­va­ção da mas­si­fi­ca­ção de leis de pro­te­ções de dados ao redor do mun­do, inclu­si­ve no Bra­sil.

   A TrendWat­ching enten­de que os con­su­mi­do­res pas­sa­rão a dis­cu­tir e até a ques­ti­o­nar as empre­sas sobre o uso éti­co des­sas infor­ma­ções. A con­sul­to­ria uti­li­za como exem­plo o recen­te e raro fra­cas­so digi­tal da Ama­zon em sua emprei­ta­da pela cons­tru­ção de um RH digi­tal. Em 2014, a empre­sa uti­li­zou fer­ra­men­tas digi­tais com inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al no recru­ta­men­to de novos fun­ci­o­ná­ri­os para a com­pa­nhia. No entan­to, um ano depois, a empre­sa des­co­briu que a fer­ra­men­ta dava pre­fe­rên­ci­as por cur­rí­cu­los mas­cu­li­nos para o pre­en­chi­men­to de vagas de TI – jus­ta­men­te o fun­ci­o­ná­rio no epi­cen­tro do seu negó­cio. Hoje, segun­do a TrendWat­ching, a imen­sa mai­o­ria des­ses pro­fis­si­o­nais é for­ma­da por homens e isso foi deter­mi­nan­te para a IA cons­truir o seu mode­lo de fun­ci­o­ná­rio-padrão com base nas carac­te­rís­ti­cas mas­cu­li­nas. Ou seja, mulhe­res eram des­car­ta­das a par­tir do mode­lo desen­vol­vi­do pela tec­no­lo­gia. A com­pa­nhia ten­tou ajus­tar a fer­ra­men­ta, mas sem suces­so. No fim, ela aban­do­nou a ideia e reto­mou o recru­ta­men­to fei­to por huma­nos.

FAN­TA­SIA NA VIDA REAL

   As rea­li­da­des vir­tu­al e aumen­ta­da tam­bém apa­re­cem com for­ça nas ten­dên­ci­as para o pró­xi­mo ano e devem ganhar cada vez mais espa­ço na roti­na do con­su­mi­dor. E o moti­vo é que o ser huma­no tem o con­ti­do dese­jo de fugir da rea­li­da­de.

   De acor­do com um estu­do da Niel­sen divul­ga­do no iní­cio de novem­bro des­te ano, os ame­ri­ca­nos gas­tam mais de 11 horas por dia inte­ra­gin­do com todo tipo de mídia, seja ela tele­vi­são, seja inter­net, rádio, entre outras. O con­ta­to com notí­ci­as e as redes soci­ais for­ne­cem uma fuga da roti­na de pes­so­as que vivem em cida­des e são sub­me­ti­das a situ­a­ções estres­san­tes, como é o caso do con­ges­ti­o­na­men­to.

   A TrendWat­ching enten­de que a bus­ca por mídia, ali­a­da às tec­no­lo­gi­as de imer­são nas rea­li­da­des aumen­ta­da ou vir­tu­al, deve gerar a cri­a­ção de novas e pro­fun­das for­mas de imer­são em con­teú­do ou até mes­mo em uma nova rea­li­da­de. “A diver­são sem­pre foi uma manei­ra de rea­li­zar­mos uma fuga da rea­li­da­de. Con­for­me dis­se ante­ri­or­men­te, as neces­si­da­des são as mes­mas do pas­sa­do, mas a ino­va­ção intro­duz uma nova for­ma de lidar com esse pro­ble­ma. As rea­li­da­des vir­tu­al e aumen­ta­da for­ne­cem uma imer­são nas mídi­as, o que repre­sen­ta uma fuga da rea­li­da­de. Em 2019, novas idei­as den­tro des­sas tec­no­lo­gi­as devem sur­gir e resul­tar em uma mai­or imer­são das pes­so­as em mídi­as”, afir­ma Mat­tin.

   A Nike, por exem­plo, lan­çou uma cam­pa­nha no Japão cha­ma­da Reac­tland, um mix de vide­o­ga­me com espor­te. A ideia era a seguin­te: a empre­sa mon­tou are­nas em cida­des movi­men­ta­das do Japão em que as pes­so­as eram con­vi­da­das a cor­rer em uma estei­ra com um tênis da mar­ca. Antes, no entan­to, elas foram foto­gra­fa­das e a sua ima­gem se trans­for­ma­va em um ava­tar de um game desen­vol­vi­do pela empre­sa. Para avan­çar no jogo, a pes­soa pre­ci­sa­ria cor­rer na estei­ra e pular obs­tá­cu­los por meio de um con­tro­le que ele rece­bia da orga­ni­za­ção do even­to. A ideia, segun­do a empre­sa, era esti­mu­lar a cor­ri­da por meio do lúdi­co uni­ver­so do vide­o­ga­me.

   Quan­to às apli­ca­ções das rea­li­da­des vir­tu­al e aumen­ta­da em outras áre­as, o Gart­ner enten­de que elas serão usa­das nos depar­ta­men­tos de recur­sos huma­nos, finan­ças, ven­das, mar­ke­ting, aten­di­men­to a con­su­mi­do­res, área de com­pras e depar­ta­men­tos de geren­ci­a­men­to de ati­vos. “Elas serão usa­das para oti­mi­zar as deci­sões e ações de todos os cola­bo­ra­do­res den­tro de seus con­tex­tos, não ape­nas Analy­tics e Data Sci­en­ce. A rea­li­da­de aumen­ta­da auto­ma­ti­za pro­ces­sos de pre­pa­ra­ção de dados, de gera­ção e visu­a­li­za­ção de insights, eli­mi­nan­do a neces­si­da­de de cien­tis­tas de dados em mui­tas situ­a­ções”, afir­ma Cear­ley.

   A jul­gar pelas pre­vi­sões das con­sul­to­ri­as, 2019 será um ano bem inte­res­san­te para o con­su­mi­dor. Mas será que essas pre­vi­sões vão se sus­ten­tar até dezem­bro do ano que vem? Façam suas apos­tas.

AS TEN­DÊN­CI­AS PARA O VARE­JO

   O vare­jo cer­ta­men­te é um seg­men­to que vive­rá sig­ni­fi­ca­ti­vas mudan­ças no pró­xi­mo ano. Algu­mas des­sas ten­dên­ci­as foram apon­ta­das por John G.Maxwell, líder glo­bal do mer­ca­do de con­su­mo da con­sul­to­ria PwC. Segun­do ele, o vare­jo físi­co terá novos e gigan­tes­cos desa­fi­os como con­sequên­cia do avan­ço da trans­for­ma­ção digi­tal em cur­so. Nes­se sen­ti­do, o comér­cio não terá como com­pe­ti­dor empre­sas digi­tais como a Ama­zon. A indús­tria tam­bém terá o seu papel no rela­ci­o­na­men­to dire­to com o con­su­mi­dor, cri­an­do, assim, um cená­rio no qual todos os “players” podem ser indús­tria e vare­jo ao mes­mo tem­po.

A COM­PE­TI­ÇÃO COM A INDÚS­TRIA

   No pró­xi­mo ano, as indús­tri­as con­ti­nu­a­rão o seu pro­ces­so de apro­xi­ma­ção com o con­su­mi­dor de dife­ren­tes manei­ras. Algu­mas desen­vol­ve­rão pla­ta­for­mas digi­tais e ven­de­rão não ape­nas os seus tra­di­ci­o­nais pro­du­tos, mas itens cole­ci­o­ná­veis e de vín­cu­lo com as mar­cas, como cami­se­tas e cane­cas. A Coca-Cola é um exem­plo.

   Esse movi­men­to, segun­do Maxwell, ocor­re pelo aumen­to da con­fi­an­ça do con­su­mi­dor em rea­li­zar negó­ci­os pelos canais digi­tais, den­tre eles o e-com­mer­ce e até mes­mo as redes soci­ais. De acor­do com um levan­ta­men­to da con­sul­to­ria Euro­mo­ni­tor, o e-com­mer­ce glo­bal deve movi­men­tar mais de US$ 3 tri­lhões em 2021 – hoje, esse mon­tan­te seria de apro­xi­ma­da­men­te US$ 1 tri­lhão.

OS NOVOS PAS­SOS DAS EMPRE­SAS TECHS

   Outra ten­dên­cia des­ta­ca­da por Maxwell para o pró­xi­mo ano é o que ele defi­ne como Cyber Capi­tal. E-com­mer­ces e empre­sas de tec­no­lo­gia repou­sam um per­cen­tu­al gene­ro­so de seus orça­men­tos em solu­ções digi­tais, o que não acon­te­ce com o vare­jo. É pre­ci­so avan­çar na dire­ção do comér­cio fei­to na inter­net. “Negó­ci­os tra­di­ci­o­nais tem um orça­men­to base­a­do em um mode­lo anti­go: eles têm áre­as de recur­sos huma­nos, pes­so­as exer­cen­do a fun­ção admi­nis­tra­ti­va e uma peque­na por­ção para uma trans­for­ma­ção digi­tal. Empre­sas digi­tais pos­su­em essa estru­tu­ra dife­ren­te, mas o mais impor­tan­te é que elas têm um valor mai­or de cyber capi­tal”, afir­ma.

LOGÍS­TI­CA URBA­NA

   Este ano, o IBGE atu­a­li­zou o per­cen­tu­al de bra­si­lei­ros que moram nas capi­tais bra­si­lei­ras e cida­des das gran­des regiões metro­po­li­ta­nas do País. Ao todo, 57% da popu­la­ção bra­si­lei­ra de 209 milhões de habi­tan­tes vivem em pou­co mais de 300 cida­des do País e isso tem gran­des con­sequên­ci­as para o mer­ca­do de con­su­mo – espe­ci­al­men­te o vare­jo.

   Uma delas é que a entre­ga de mer­ca­do­ri­as, mui­tas delas com­pra­das no vare­jo ele­trô­ni­co, per­cor­re meno­res dis­tân­ci­as prin­ci­pal­men­te por­que as pes­so­as vivem em um mes­mo espa­ço ou cida­de. “As dis­tân­ci­as para as entre­gas serão cada vez meno­res. Isso tem um impac­to na roti­na das gran­des cida­des, pois pode­re­mos ver um aumen­to de entre­ga por bici­cle­tas e motos”.

VEN­DA ON-LINE DE ALI­MEN­TOS

   A ven­da de ali­men­tos é um dos pou­cos seg­men­tos que ain­da não empla­ca­ram no comér­cio ele­trô­ni­co – a pró­pria Ama­zon admi­te que menos de 2% do seu fatu­ra­men­to está rela­ci­o­na­do à ven­da de comi­da. Mas isso deve come­çar a mudar no pró­xi­mo ano. Empre­sas de tec­no­lo­gia, vare­jis­tas e até mes­mo a indús­tria devem exi­bir ini­ci­a­ti­vas des­se comér­cio em 2019.

   Um exem­plo é a par­ce­ria assi­na­da no iní­cio de novem­bro entre o Ali­ba­ba, a P&G, a Nes­tlé e a bra­si­lei­ra JBS. A ideia da empre­sa chi­ne­sa é expan­dir o comér­cio de ali­men­tos fres­cos pelo mun­do. No caso da JBS, uma das mai­o­res expor­ta­do­ras glo­bais de pro­teí­na ani­mal, o obje­ti­vo é ven­der car­nes bovi­na, de fran­go ou suí­na pela inter­net. O negó­cio, inclu­si­ve, já é apon­ta­do como o mai­or con­tra­to de pro­teí­na ani­mal da his­tó­ria das rela­ções comer­ci­ais entre o Bra­sil e a Chi­na, com poten­ci­al para movi­men­tar cer­ca de US$ 1,5 bilhão em três anos. “A assi­na­tu­ra do acor­do expan­di­rá sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te os nos­sos negó­ci­os de car­ne bovi­na e irá gerar ain­da mais valor à mar­ca Fri­boi, que lan­ça­mos na Chi­na faz pou­co tem­po” afir­ma Rena­to Cos­ta, pre­si­den­te da JBS Car­nes Bra­sil.

PAGA­MEN­TO POR BIO­ME­TRIA

   Foi no fim de 2017 que o KFC ins­ta­lou totens em algu­mas lojas na Chi­na des­ti­na­dos ao paga­men­to dos seus pro­du­tos. Em vez de car­tões ou digi­tais, o paga­men­to seria fei­to com um… sor­ri­so. =)

   É cla­ro que o belo sor­ri­so de um con­su­mi­dor não iria con­fir­mar a com­pra do famo­so bal­de de fran­go da empre­sa. Na ver­da­de, o paga­men­to é fei­to por meio do reco­nhe­ci­men­to faci­al e con­fir­ma­do com um sor­ri­so. Essa moda­li­da­de de meio de paga­men­to pode pare­cer coi­sa de fic­ção cien­tí­fi­ca, mas exis­te a pro­mes­sa que isso pode ser tes­ta­do, até mes­mo no Bra­sil, entre o fim des­te ano e o iní­cio de 2019. É o caso da Ria­chu­e­lo. A com­pa­nhia já usa essa tec­no­lo­gia para regis­trar cli­en­tes quan­do libe­ra o car­tão Ria­chu­e­lo.